Moon Society: The lighthouse.

3 Capítulo um: Onde Vivem os Corações partidos.


Notas iniciais
A história trata de transtornos mentais, exposição a grandes traumas, situações de crise, abuso de substâncias e álcool, não recomendado para o público mais sensível ou para pessoas com histórico de transtornos PODE APRESENTAR GATILHOS.

Capítulo um: Onde Vivem os Corações partidos.

Eu me sinto melhor agora, não que tudo esteja exatamente onde deveria estar, porque um turbilhão de coisas aconteceram e me forçaram a me tornar o que eu sou hoje, é engraçado como eventos traumáticos podem mudar a essência das pessoas para melhor, ou muito, muito pior.

Na verdade a minha vida era bem normal, até entediante sob alguns aspectos... Até que ela começou a mudar e tudo foi indo por água abaixo sem nenhum motivo aparente, até eu ter a pior experiência que se pode ter em toda a sua vida, não sei quantas pessoas mortas, ou a quantidade de enterros que você já foi... Mas eu tenho sérios problemas em lidar com esse tipo de coisa, mas irei começar devagar.

Nunca é fácil perder alguém que amamos, quando você se da conta, é como se fosse uma ilusão ou algum tipo de piada de péssimo gosto, seu coração fica tão partido e machucado, você sente tanta dor e é pior do que qualquer dor física a que você já possa ter sido submetido, porque você não pode fazê-la passar, é como se você não conseguisse respirar e uma placa de concreto de uma tonelada estivesse em cima do seu peito e ninguém pode aparecer e sacudir você para acordar daquele terrível pesadelo, nunca vai acabar, ela se foi de verdade, você até tem uma imensa dificuldade de assimilar como ela deve ser tratada depois, ela foi, ela fazia, eu a amava.

Eu a amava.

Você demora um pouco para perceber de verdade que nunca mais irá ouvir a voz daquela pessoa, tocá-la, abraçá-la, sentir o cheiro ou ouvir a risada dela, Melinda tinha onze anos, ela era a minha melhor amiga desde que eu nasci, porque nossos pais eram os melhores amigos desde que meus pais se mudaram de Dublin para Wexford pouco depois que minha irmã Malloney nasceu, nossas famílias estavam de férias na casa dos meus pais no lago em Kilkenny, eu reprimi a maioria das memórias daquele verão, são lembranças dolorosas demais, ela se foi tão prematuramente, acho que parte de nós se foi com ela.

Joseph, Paul e Kyle estavam nadando... Distraímo-nos por apenas alguns minutos... Lembro-me de mergulhar diversas vezes procurando por ela... A exaustão, o peso do meu corpo, a água fazendo meus olhos arderem, eu vi minha melhor amiga morrer afogada quando eu deveria estar cuidando dela, essa é a lembrança mais forte, junto com outros flashes de lembranças que não podem ser reais... Não tenho certeza do que houve naquele dia, tão pouco meus amigos.

Passamos os últimos quatro anos em terapias e remédios extremamente fortes na esperança de que isso resolvesse nossa síndrome de stress pós-traumático, a ansiedade e a depressão... Não foi o que aconteceu... Eu cedi sob toda a pressão, eu não queria mais viver com a culpa, mesmo que todos dissessem que foi uma fatalidade, que não era culpa de ninguém, que Deus sabe o que faz...

Deus... Gostaria de uma conversa franca com o todo poderoso criador do universo... Se é que existe alguém acima de nós... Porque as pessoas boas sofrem tanto? O que eu fiz de errado para essas coisas acontecerem comigo? O que Melinda pode ter feito para ter um fim daqueles? Ela será recompensada? Existe alguma coisa depois disso, não é? Se não houver... Qual a razão disso tudo?

Depois da segunda vez que tentei suicídio fiquei cerca de um ano e seis meses em um Centro de Valorização da Vida, que é o nome chique que dão às clínicas psiquiátricas para jovens ricos, Joe e os garotos estavam melhores, eles são muito mais fortes do que eu, então seis meses para eles foi o suficiente, eu não gosto de me lembrar daquele lugar, os jovens eram igualmente ou mais perturbados do que eu, os segundos se transformam em minutos, os minutos pareciam horas, as horas pareciam anos e um ano e seis meses pareceram uma eternidade.

Lembro-me do meu bolo, no meu aniversário de treze anos, era pequeno e comemos no meu quarto, eu, Joseph, meus pais e minha irmã, meus pais e os garotos iam me visitar uma vez por semana, eu só queria sair daquele lugar horrível, ainda me lembro de como eu chorava todas as noites, como alguns lá tinham pesadelos tão perturbadores e os gritos à noite, a quantidade de remédios tão fortes que eu mal conseguia levar uma colher até a boca e me alimentar sozinha.

Até que eu finalmente estava pronta para voltar, não foi difícil voltar para Wexford, não foi difícil voltar para a minha casa, foi difícil ver meus pais me olhando como se eu fosse desaparecer, ver minha irmã cheia de medo de falar algo errado, minha mãe se sentindo culpada porque achava que não tinha feito o suficiente para me ajudar e eu preferia morrer do que falar com ela.

Foi difícil pisar na casa dos Crowley, ver aquela porta lacrada porque ninguém teve coragem de mover nada naquele quarto, foi difícil andar pela cidade e saber que ela não estava mais respirando, que eu não iria vê-la na escola, não a veria no clube, não a veria em festas de família ou em finais de semana, nem dormiríamos na casa uma da outra ou nos formaríamos juntas, ela não teria um namorado, não se apaixonaria, não se formaria, nem tiraria habilitação e de repente essas coisas pareciam não ter mais sentido para mim porque minha melhor amiga, alguém por quem eu daria a minha vida não estará lá quando eu realizar essas coisas.

Meus antigos amigos não me perguntavam como as coisas aconteceram naquele dia, ninguém me perguntou o que houve comigo enquanto eu estava na clínica, nem como era lá... Ninguém perguntou nada, imagino que antes de me trazer de volta meus pais se reuniram com os pais deles para ressaltar os assuntos proibidos de se falar comigo, eu não esperava que as pessoas perguntassem, no mínimo não seria de bom tom.

Mas assim que coloquei meus pés em Wexford as coisas mais esquisitas começaram a acontecer comigo... Não obstante eu estava motivada a seguir em frente, eu precisava fazê-lo, meus pais não mereciam sofrer mais por minha causa, minha irmã não merecia ser a irmã da garota suicida e nem Joseph, Paul e Ky o irmão e os amigos da garota que morreu afogada, precisávamos seguir em frente... Mas nem sempre a vida é como nós queremos.

Tudo estava absolutamente normal e ordinário como sempre, os caras do Hurling continuavam sendo os caras do Hurling, os caras do xadrez continuavam sendo os caras do xadrez, o pessoal do Gorey continuava fazendo festas na clareira, segundo eu soube, porque nunca havia sido convidada para nenhuma delas apesar de a Lun ser bem pequena e todos conhecerem todos, e nós voltamos para o curso de férias na Lun Evanic, para colocar em dia o que perdemos já que estávamos atrasados graças a nossa ausência por motivos de saúde, engraçado chamar de motivos de saúde... Se existia algo do qual eu tinha certeza naquela situação, é que não estávamos saudáveis.

Então estávamos no último dia do curso e era a minha última aula de reforço do período matutino, quando encontrei aquele maldito envelope, no meu maldito armário, é como se todas as coisas que eu empurrei para o fundo da minha consciência, o canto escuro da minha alma, todas as lembranças e temores, os fleches das coisas e acontecimentos que eu não tinha certeza se realmente haviam ocorrido ou se eram fruto de todo stress e o trauma de ver alguém tão especial e amado morrendo... E eles voltaram com força total.

Eu voltei a ter insônia, era como se aquelas palavras estranhas naquele bilhete tivessem ativado algo que estava adormecido em mim, algo que gritava para sair... Incontrolável, era imutável e simplesmente aterrorizante.

Nas poucas noites em que eu conseguia dormir eu tinha pesadelos e gritava tão alto que as paredes do meu quarto estremeciam, eu geralmente sonhava com algo, ou alguém me perseguindo, se você não teve esses sonhos, eles são simplesmente os piores e os meus são realmente vívidos, no mais recorrente eu estou correndo pelo bosque, algum lugar entre Johnstown, é tão real que consigo sentir o vento gelado e úmido de janeiro no meu rosto, os dois primeiros meses do ano são os mais frios em Wexford, Agosto em diante é quando realmente fica quente e em dezembro temos a neve novamente.

Eu estou correndo muito rápido e não consigo respirar direito, de repente estou na beira de um penhasco e uma lua cheia está sobre a minha cabeça... Não tenho ideia de onde estou a essa altura porque meus pais não me deixam andar por aí, nem fazer trilhas pela floresta, isso não quer dizer eu obedeça tais ordens por que... A floresta é o único lugar onde eu consigo ficar completamente sozinha comigo mesma e relaxar.

Ainda na beira do penhasco tomo a decisão de saltar, que é realmente algo que eu faria se estivesse acordada, sempre me pareceu certo saltar no desconhecido, mergulhar na inconsciência, eu não sei por que sou diferente, apenas sou eu sei disso, meus pais sabem... Até a minha tia Em, ela diz que ser diferente em um mundo onde todos fazem tudo exatamente igual é uma dádiva... Mas sei que existe algo errado comigo.

Eu salto do penhasco e meu corpo começa a descer tão lentamente como se meu peso fosse de apenas algumas gramas ao invés de meus cinquenta e quatro quilos, então toca algo frio, que invade os meus pulmões e os faz arder como eu inalasse o fogo do sétimo círculo do inferno.

Acordo em meu quarto cambaleando para fora da minha cama com meus cobertores enrolados nos meus tornozelos, ainda eram cinco horas da manhã e estava escuro lá fora, eu fui até o chuveiro e deixei que a água fria terminasse de me acordar, nunca gostei muito de ficar presa em casa, mas também nunca achei que sentiria falta da escola, Lun Evanic, a única escola laica da cidade, sinto falta da Senhorita Rose Marie a enfermeira, nós nos víamos bastante, sentia falta dos meus professores, até dos conselheiros que tentaram sem sucesso ou experiência alguma me dar algum tipo de suporte depois que Melinda...

Chacoalhei a cabeça desviando meus pensamentos dessa linha de raciocínio logo pela manhã.

Enquanto me vestia fiquei observando meu reflexo no espelho, o cabelo castanho caindo por meus ombros, já estava comprido de mais, meus olhos verdes, meu rosto muito mais fino do que deveria e minhas olheiras fundas e roxas, de repente o corpo na imagem do espelho não condiz mais com a pessoa que vive dentro deste corpo, é como se eu estivesse sendo uma intérprete bizarra de mim mesma, eu já fui alguém melhor, eu fui mais feliz um dia? Eu sempre fora a garota pálida do reflexo?

Eu venho tendo esse mesmo pesadelo há semanas, se não fosse por meus três melhores amigos eu nem mesmo teria saído do quarto desde que o curso de férias acabou de repente, o último dia de aula veio como um clarão, trazendo todas as lembranças que eu queria esquecer.

Eu havia tido todas as minhas aulas daquela manhã, estava ansiosa porque Joseph iria me levar para o Gorey Park e passaríamos toda a tarde andando de bicicleta e praticando corrida porque eu queria ter meu lugar na equipe novamente, fui terminar de pegar as coisas que precisava para esvaziar o armário e o monte de livros que eu deixava amontoados caíram aos meus pés, junto a eles... Aquilo me atormentou, eu não podia falar sobre aquilo com ninguém, eu não queria voltar a aquele lugar... Mas independente das minhas decisões tudo começou a girar em um tornado de acontecimentos e situações que eram complexas demais para eu conseguir digerir em tão pouco tempo, tudo piorou e eu me sentia sufocada e cada vez mais doente como se cada pequena coisa fosse me derrubar e uma nova situação ocorria e eu nem mesmo tinha tempo de respirar entre uma queda e outra.

Exatamente quando você acha que tudo vai ficar bem a realidade o atinge como um trovão em meio a uma tormenta.

Levantei-me do chão do banheiro onde havia me sentado e respirei fundo por várias vezes antes de descer as escadas.

Algo que você precisa saber sobre as casas irlandesas é que foram feitas para durar, minha casa deve ter pelo menos 40 anos, ela é absolutamente maravilhosa, embora eu pense que é grande demais para apenas quatro pessoas morarem, nós realmente precisamos de tantos quartos e banheiros? Quanto mais eu penso, mais percebo que sou diferente dos meus pais, da minha irmã, eles precisam dessas coisas para viver, embora eu nunca tenha sofrido privação de absolutamente nada em toda a minha vida, acho que não seria um problema viver sem a maioria dessas coisas desnecessárias que temos e usamos geralmente.

Minha mãe trouxe isso para minha irmã e para mim porque ela aprendeu com os pais dela, meus avós Wendy e Liam, desnecessariamente esbanjadores, meu pai nunca conheceu os pais dele, ele cresceu em um orfanato em Mullingar, mas tudo o que eu sei foi o que Malloney conseguiu pesquisando, com o nome Brown, não foi difícil encontrar algo sobre eles, Jackeline Rutherford Brown e Eleazar Richard Brown II que curiosamente registraram meu pai e enviavam dinheiro para que meu pai não fosse adotado, meu pai nunca teve vontade de conhecê-los e eles tão pouco nos procuraram, mesmo quando meu pai começou a crescer e expandir os negócios, sim, essa é a parte mais difícil, meus pais são donos do Brown’s Golf Hotel, do Brown’s Beach Resort e todos os outros Hotéis e Pousadas de uma rede que eu prefiro não saber o quão grande está atualmente.

Meu pai tem uma foto deles guardada em algum lugar, eu a vi apenas uma vez e muito rápido, mas me lembro de perceber que Jackeline Rutherford e eu somos muito parecidas, nem mesmo sei como me sentir sobre isso, minha irmã se parece muito mais com meus avós maternos e minha mãe.

Chegando a cozinha senti o cheiro maravilhoso do meu chá favorito, vi meu pai me saudando.

― O chá da Rainha para a Princesa Brown.

Sorri tanto que minhas bochechas doerem.

― Hey, velhinho! Bom dia, mamãe te condenou a fazer o café da manhã? ― Pedi divertida.

― Bom dia, não é nenhum sacrifício, apenas queimei quase tudo que tentei fazer ― Ele brincou ― Seu chá foi o sucesso da experiência ― Ele disse.

― Cheguei, Já podem parar de falar mal de mim ― mamãe falou alto chegando com uma porção de pastas marrons.

― Que é isso, só coisas boas.

Ele disse passando o braço pelos meus ombros e beijando meu cabelo.

― Dormiram bem? Vamos ter um dia animado hoje? Quais os planos?

Fiz um monte de perguntas para desviar a atenção de mim, tenho certeza que gritei em plenos pulmões esta manhã.

― Uh! Alguém acordou animada hoje ― Minha mãe disse sorrindo.

― Não, não acordou bem, ela está desviando a atenção dela, muito habilidosamente, devo admitir, mas ainda assim a ouvi essa manhã ― Meu pai disse totalmente direto.

― Eu? Não, deve estar ouvindo coisas, é isso ― Falei enchendo a boca com chá e desviando os olhos.

Eu sou a pior mentirosa da história da humanidade, de fato.

― Quem mais seria? Teve outro pesadelo e é o terceiro essa semana, tudo bem? Quer conversar sobre eles? ― Pediu acariciando minha bochecha.

― Pai, eu estou bem, eu juro, foi só um pesadelo bobo.

― Você sabe ― Meus pais disseram ao mesmo tempo.

― Que posso falar tudo para vocês, obrigada, mas estou bem, juro, se eu tiver algo a dizer serão os primeiros a saber, então... Fui ― Falei tentando sair da mesa.

― Quero que coma seu café da manhã ou não te deixo sair ― Minha mãe disse me segurando pelo jeans.

― Poxa vida, isso é tão injusto, onde eu estou? No jardim de infância?

― Isso é bem justo para mim, e quando você age como um bebezinho, sim ― Minha mãe disse rindo e eu fiz uma careta de desgosto.

― Brieanna, pare ― Minha mãe falou séria e eu suspirei.

Minha irmã entrou na cozinha saltitando com aqueles saltos cujo barulho inferniza e ecoa em meu cérebro todas as vezes que ela usa.

― Uh! Ela está levando bronca? Já a essa hora da manhã?

― Não, para sua infelicidade, ela não está levando bronca ― Meu pai disse rindo.

― Ouvi você gritando de novo essa manhã, foi assustador ― Ela sussurrou quando se sentou ao meu lado ― Está tudo bem? Não está? Digo... Se você quiser falar, você sabe...

Ela não parecia ter nenhuma ideia do que dizer.

― Foi só outro pesadelo, vou ficar legal, desculpa por ter acordado você, é bom saber que posso falar com você se precisar ― Falei aquela frase ensaiada e sem graça apertei a mão dela por baixo da mesa.

― Vocês vão sair? E para onde vão? ― Mamãe perguntou

― Hnmmm...

― Vou com April a aquela loja vintage que está em liquidação, eu quero pegar algo para fazer umas fotos e tudo o mais.

― Ah, eu iria com você, mas hoje temos inspeção no Hotel ― Mamãe disse desanimada.

― E você? ― Meu pai perguntou me olhando com as sobrancelhas arqueadas.

― Só... Umas coisas por aí ― Fale distraída.

― Que coisas Brieanna? ― Minha mãe quis saber ― Sabe que preciso saber aonde você vai.

― Vou ver Joe ― Falei sem graça.

Minha irmã deu uma risada e começou a murmurar uma marcha nupcial.

― E Paul e Kyle ― Deixei claro ― Nós combinamos de jogar online ir ao shopping e... Quero ir levar umas flores para ela antes de as aulas começarem... Pode me dar dinheiro?

― Sabe que ela não está mais ali não é? ― Minha mãe perguntou.

― Então? Onde ela está mãe?

― Não saberei te dizer ― Admitiu

― Então aquele é o lugar mais próximo dela ― Falei sem olhar para eles.

― Hey, sem stress, são apenas flores ― Malloney disse.

Com ela é tudo sempre tão prático e eu gostaria, honestamente de ser do mesmo jeito, mas de verdade? Eu sou o extremo oposto, nada comigo é suave ou prático, é absolutamente doloroso ver alguém que você ama morrer, só sobra um vazio imenso no lugar onde aquela pessoa deveria estar, mas eu ainda tenho Paul, Ky e Joe.

Somos a verdadeira definição de opostos que se atraem claro que nossos pais se conhecerem antes mesmo de nascermos ajudou, mas ninguém poderia nos obrigar a sermos amigos, partiu de algo natural, Paul, Ky e Joseph são os garotos mais legais do mundo inteiro, ainda assim garotos, com todas aquelas manias irritantemente bizarras e piadas sujas.

Joseph é um loiro alto e magricelo e usa toda a hiperatividade para praticar esportes radicais, o que deixa tia Ayden morrendo de preocupação, Paul Lucas é o clássico ruivo sardento, com enormes bochechas vermelhas o tempo todo e que ficam ainda maiores quando ele dá aqueles sorrisos sarcásticos e debochados o que acontece... O tempo inteiro.

Ky tem aquele cabelo preto, olhos escuros, pele bronzeada e um sotaque engraçado que veio da Califórnia, os pais dele vieram para Wexford quando ele tinha um ano e meio, Melinda era o que nos unia e a todas as nossas diferenças em algo maior, éramos muito parecidas, até fisicamente ela era a minha melhor amiga em todo o mundo, ela sempre será, não sei dizer do que sinto mais falta, se sua risada, sua inteligência, imaginação, de seu coração bondoso ou de abraçá-la.

― Levem seus casacos, hoje choverá o dia todo ― Papai falou me segurando carinhosamente pelos ombros já perto da porta.

― E quando é que não chove nessa merda de cidade ― Minha irmã reclamou.

― Cala essa boca, Malloney.

― Cale a boca você ― Retrucou.

― Maléfica ― Cantei irônica.

― Boo baby do papai ― Me provocou de volta.

― Sua...

― Já chega vocês duas ― Minha mãe disse.

― Mas eu nem...

― Você nunca faz nada ― Meu pai cortou-a divertido.

Minha irmã me deu uma carona até a casa dos Crowley Wenders, porque ela sempre se gabava de já poder dirigir, então papa disse que ela precisaria me levar onde quer que eu peça ou ela não ganharia um carro.

― Tchau Boo baby do papai ― Gritou alto

― Cresça Malloney ― Falei batendo a porta do Jaguar azul.

Paul e Ky já deveriam estar grudados no Joseph a essa hora da manhã, bati à porta e estranhei tia Ayden atender e não Sylvia a governanta, aparentemente ela viajou para Londres na mesma época em que Lucyla nosso anjo da guarda foi para o México ver sua família, ela sorriu assim que me viu, ela tinha exatamente o mesmo sorriso de Melinda, não fisicamente, mas o jeito como sorria, meio de lado, seu cabelo estava preso em um coque dando a visão de todo seu rosto que nunca acusaria sua idade.

― Oi, Brie filha como você está? Está tão linda ― Falou me abraçando ― Você não aparece há semanas.

― Hey tia Ayden, eu estou bem, Joel est...

― Ele está com Paul e Ky lá em cima... Você já tomou café da manhã? Quer um chá?

― Não, eu... Minha mãe não iria me deixar sair se eu não comesse, estou bem, obrigada, mesmo assim senhora ― Falei dando- lhe meu melhor sorriso.

― É o jeito de Olivia fazê-lo ― Tia Ayden gargalhou ― Como estão? Elea e Oli?

― Estão ótimos, só trabalhando muito.

― Pois diga para aparecerem para o jantar um dia dessa semana, okay?

― Eu mando lembranças... Eu posso...

― Sim, vá subindo, você sabe o caminho, não é? ― Falou divertida.

Eu sorri e subi os primeiros degraus.

― Ele esperou a manhã toda, Brie.

Eu corei violentamente e subi as escadas que já conhecia de olhos fechados, nó costumávamos sujar tudo com os sapatos enlameados e sapatos sujos de neve, corríamos e batíamos nas paredes e gritávamos o tempo todo, Melinda foi feliz, extremamente feliz até o último dia de sua prematura jornada.

― Olha só você ― Paul disse me abraçando e levantando do chão.

― Aí, que horror, está me sufocando com todos esses músculos ― brinquei.

― Eu senti sua falta ― Joseph disse.

― Sempre de frescura, a vimos ontem, pelo amor de Deus, deixem a garota respirar ― Ky disse.

― Eu também estava com saudade de você ― Falei a o Kyle.

― Alguém está com ciúminho, está? Kayii? ― Joel disse apertando a bochecha dele.

― Cale a boca ― Ky falou rindo.

― Sem desespero, já cheguei, sei que morreriam sem mim ― Falei rindo

― Ah tá ― Paul disse sarcástico

― Tenho que te lembrar da verdade? ― Ky pediu

― Nós quem te livramos de encrenca, que piada, Brown, nem um obrigado nós ouvimos ― Joe disse.

Eles começaram a contar as novidades e as piadas nojentas e idiotas de garotos que me fizeram rir até sentir dor na barriga.

Somos assim, amigos inseparáveis, a diferença de idade entre mim, Joe e Paul Lucas é de apenas um ano, Kyle é um ano mais novo, eu acho que o que aconteceu serviu só para nos unir ainda mais, Paul e Joe tinham doze, eu e Melinda tínhamos onze e Ky dez anos.

Eu e os meninos vivemos por anos a base de antidepressivos e terapia, até fomos internados por meses depois do incidente, mas meu pai viu que nada daquilo fazia efeito e que o único jeito de nos curarmos era seguir em frente, mas não foi o que aconteceu, tentei suicídio pela primeira vez aos doze anos, de certa forma funcionou, parte de mim se foi nunca mais será igual, Paul Lucas, Kyle e Joseph seguiram, eles começaram diversas atividades como Karatê, Hurling, Bike e muitos outros esportes.

Mas eu... Não conseguia me desligar dela, era minha responsabilidade, ela estava comigo e era minha responsabilidade cuidar dela, minha responsabilidade.

― Hey Brie está nessa galáxia? ― Joe disse me beliscando disfarçadamente na coxa Eu o olhei irritada e dei uma tapa na mão dele.

― Desculpa, me distraí ― falei.

― O que faremos hoje? ― Ky pediu.

― Eu quero ir ao shopping ― Paul Lucas disse.

― Ah, shopping não, só tem os babacas do Hurling e os nerds do xadrez ― Falei fazendo careta.

― Nós somos do Hurling ― falaram indignados.

― Ah, não vocês, os outros idiotas do Hurling, os da Saint Patrick ― deixei claro.

― Só que você escolheu ontem e hoje é nossa vez ― Ky disse

― Não sei por que discutir se a gente sempre acaba dando o que ela quer ― Paul murmurou.

― Isso não é verdade ― protestei.

Eu me levantei e saí do quarto, garotos são tão idiotas às vezes.

― Brie, eu não quis dizer isso ― Paul Lucas disse se levantando ― Desculpa ― Gritou.

― Deixe que eu vá lidar com ela ― Joseph falou.

― Deve ser TPM, elas ficam assustadoras nessa época ― Ouvi Ky murmurar divertido.

Eu desci as escadas e fui até a biblioteca, me distraí olhando o piano, abrindo a tampa das teclas, quando Joe se sentou no sofá e me chamou.

― O que quer? ― Falei irritada.

― Calminha, sabe que Lucas não quis te ofender, vocês sempre ficaram de briguinha, está tão sensível hoje ― Ele disse rindo e me puxando para o colo dele.

― Eu sonhei com ela, de novo ― Admiti.

― Tem que deixá-la ir, assim ela nunca descansará, eu amava Melinda também, mas temos que seguir em frente ― Falou olhando nos meus olhos.

― Isso é o que eles te dizem na igreja? Por que você ainda vai lá?

― Eu só acho... Deus não teve culpa do que aconteceu, Brie.

― Tem razão, eu tive ― Falei sentindo meu estômago revirando.

― Eu também me sinto culpado, mas não podemos parar de viver e nem deixar com que isso controle nossas vidas... Sabe o que aconteceu quando cedemos o controle das nossas vidas ― Ele disse segurando meu rosto ― Já faz quatro anos, passamos os seis últimos meses naquele lugar horrível, você ficou lá por um ano e meio... Não vamos voltar para aquilo ― Ele fechou os olhos e respirou fundo ― Você está tão linda e saudável, precisamos de você aqui.

― Joseph, eu não...

Joe começou a me beijar, no rosto delicadamente, então meus lábios, sua língua pediu passagem e eu só deixei acontecer, porque fazíamos isso às vezes, mas era antes e parecia certo, mas agora... Eu não estava pensando direito... As mãos dele estavam no meu rosto, meus ombros, meus quadris e desceram...

― Joseph você...

Nós nos afastamos rapidamente

Tia Ayden ficou nos olhando esquisito por alguns minutos.

― O que exatamente vocês...

― Mãe, não é o que você...

― Não insulte minha inteligência me dizendo que não é o que estou pensando ― ela disse e ele se calou.

― Tia Ayden nós...

― Brie, filha pode me dar um minuto com Joseph?

Eu o olhei em pânico e ele só sorriu.

Eu saí de lá com a cabeça totalmente transtornada e meu coração estava batendo tão rápido que minha garganta estava fechando e latejando e meus olhos começaram a lacrimejar, errado, errado.

Isso foi tão errado.

Não podemos mais fazer isso, será que ela irá brigar com ele? Brigar comigo? E se ela não quiser que sejamos amigos? E se ela achar que eu sou uma vadia? Eu subi e fui até o banheiro no fundo do corredor chorando muito e lavei meu rosto, pescoço, meus braços e bebi um pouco de água.

Quando eu saí, olhei para a porta rosa no fim do corredor ao lado direito e ela não se abria há quatro anos... Mas estava escancarada e a luz lá dentro acessa, eu caminhei com passos incertos até lá... E entrei devagar, faz quatro anos que ninguém entra aqui e por que tudo tinha o cheiro dela? Rosas e jasmim, um violão roxo e um pequeno piano, eu fechei os olhos e os abri novamente e apenas vi de relance um espectro branco se mover e um calafrio subiu minha espinha, então uma mão segurar meu pulso.

Eu comecei a gritar e gritar até Joseph me puxar contra o corpo dele.

― Eii, como entrou aqui?

― Est... Aberta... Aberta ― Falei chorando.

― Do que está falando? Vamos sair daqui, vem cá ― Falou me puxando, eu não conseguia me mover então ele me pegou no colo sem o menor esforço.

Eu fechei os olhos e as lembranças vieram como um clarão e eu senti Joseph me colocar na cama dele.

― O que tem de errado com ela? ― Pediu Ky

― Eu não sei, ela entrou no quarto da Mel, não sei como, eu... Vou chamar minha mãe.

― Ela está em choque ― Lucas disse.

― Talvez a gente devesse dar uma tapa nela ― Ky sugeriu.

― O que? Que tipo de ideia é essa? ― Joe falou irritado.

― Vou dar um tapa em você ― Paul disse ao Ky.

― Vou chamar minha mãe ― Falou Joe ― Não a deixem se levantar ― Pediu beijando minha testa.

Senti-me um iceberg quando os lábios quentes dele tocaram minha pele.

Eu fechei meus olhos, meus olhos estavam tão pesados... Fechei meus olhos e todas as lembranças daquele dia, absolutamente todas elas voltaram força total. Ouvi um som algo como... Alguém sufocando.

Quando tentei ajudá-la senti meus membros pesados, como se tivessem uma tonelada.

Não conseguia ver através das lágrimas, nem respirar... O ar preso na minha garganta, o ar que chegava a meus pulmões... Sentia o gosto da água... O peso me esmagando.

Eu desmaiei... Logo nossos pais chegaram e os garotos não se lembravam de nada.

E eu não falei por meses, aquelas imagens não vão sair da minha memória enquanto eu viver.

― Olha mãe, ela está aqui ― Falou Joel.

A senhora Crowley entrou e se sentou na cama.

― Ei, boo, vai ficar tudo bem, respire fundo ― Falou segurando meu rosto ― Meninos me dê licença um momento ― Pediu.

― Mas eu quero...

― Joseph Alexander Crowley Wenders, você não quer nada, ainda vamos conversar sobre a sua situação e é culpa sua ela estar assim... Vá.

― Sim senhora ― Falou e saiu batendo os pés, seguido por Lucas e Ky que bateram a porta com violência, tia Ayden deu uma risada e suspirou.

― Evelin, como abriu a porta? Como entrou naquele quarto? Vamos, abra seus olhos agora, vamos, respire fundo... Vai ficar tudo bem ― prometeu ― O que houve?

― Eu fiz algo horrível, eu deveria ter cuidado dela... É minha culpa ― Falei sentindo as lágrimas escorrendo descontroladas ― Ela deveria estar no quarto dela, deveria estar entrando no ensino médio, ela... Ela deveria estar aqui.

― Não foi culpa de ninguém, amor, ela nadava bem, muito bem, aconteceu porque era para acontecer, não foi culpa de ninguém ― Falou ― Agora precisa se acalmar, respire, você está no controle, respire.

Eu fiz o que ela mandou como sempre faço tudo o que me mandam fazer.

Estava me sentindo bem melhor, mas ainda assim ela ligou para os meus pais para uma reunião de família, que eu sabia que só serviria para me deixar mais assustada, deixar meus pais e tia Ayden e tio Ben mais paranoicos e Joe, Lucas e Ky ainda mais super protetores e sufocantes. Eu mal me lembro de entrar no carro, mas acordei quando chegamos a casa.

― Quero caminhar papai ― Falei quando meu pai fez menção de e pegar no colo.

― Tem certeza de que não quer conversar com alguém? Ir a um médico? ― Pediu minha mãe.

― Não mãe! ― Gritei ― Nada de médico ― Falei me desculpando enquanto subia as escadas.

Eu só queria esquecer a dor da perda, o vazio que ela deixa no lugar onde a pessoa que você ama deveria estar, só queria ser uma pessoa normal, com estudos, família, amigos e um futuro pela frente.

Eu não quero ser da forma que eu sou, mas a verdade é que não são suas qualidades que fazem ser quem é, são seus defeitos e a forma como você lida com isso que fazem você ser quem é, e eu sou desse jeito frágil, deslocado e psicologicamente perturbado, fui direto para o meu quarto, me esconder do mundo inteiro... Ser parte da escuridão, eu estava apertando os gatilhos que me levaram a ruína anos antes, não quero seguir esse caminho.

Sonhei com tudo o que houve, durante a noite por várias vezes, como um filme de terror, se repetindo quadro após quadro e ficando cada vez pior e quando acordei na manhã seguinte passei um bom tempo chorando copiosamente, fazendo um esforço além das minhas forças para não deixar a dor tomar conta de tudo o que eu tenho e do que eu sou.

Uma pessoa normal levanta contra a vontade numa manhã fria... Mas uma pessoa com depressão... A sensação é que um elefante de três toneladas está sobre você e ele continua lá durante o dia e será longo e doloroso... Mas meus pais já passaram por tanta coisa, preciso estar bem, quando cheguei à cozinha me demorei um segundo olhando a família perfeita... Eu quero desesperadamente fazer parte dela, mas como farei isso se não consigo me sentir parte de nada?

― Hey, bom dia amor ― Papai falou e mamãe me beijou e me serviu Porridge, chá e torradas com geleia de uva, minha favorita.

Ficaram em silêncio quando eu me sentei à mesa.

― Esse silêncio está me matando, que surto punk foi aquele? ― Malloney disse

― O que aconteceu ontem minha filha? ― Minha mãe me perguntou segurando minha mão.

― Nada... Eu só... Não podemos apenas esquecer isso? ― Pedi derrotada.

― Você gritando, chorando e desmaiando? Não dá para esquecer ― Meu pai falou amargurado.

― Eu não desmaiei... Desmaiei? ― Murmurei a mim mesma.

― Sim desmaiou, enquanto tentávamos conversar com você e não se lembrar disso só me deixa mais preocupado.

― Não quero ver você daquele jeito de novo ― Mamãe falou ― Talvez precisasse de mais tempo...

― Não vai mais acontecer, prometo, não quero voltar para aquele lugar ― Eu disse com a voz embargada ― Me desculpa por isso...

Eu saí da mesa e fui para a biblioteca... Comecei a pensar demais... Minha garganta começou a se fechar... Eu estava tentando não me lembrar do momento, ontem no quarto dela... Eu senti o perfume dela... Vi alguém entorno de mim, alguém que Joseph não viu... Não seria a primeira vez que eu via coisas que os outros não veem, esse é só mais um dos problemas que enfrento... Não sei dizer precisamente quando foi a primeira vez que vi... Só lembro-me que isso sempre aconteceu comigo e Melinda... Era mais um dos segredos que compartilhamos.

Às vezes era horrível, gritávamos a noite toda e só piorava quando estávamos juntas, mas era o nosso segredo, não podíamos falar disso com ninguém.

― Filha, não pode fugir de conversas ― Meu pai disse.

― Parte de ser adulto é enfrentar os obstáculos e superá-los ― Minha mãe acrescentou.

Eu suspirei.

― Só que eu não sou adulta, tenho 14 anos, então vou me reservar no direito de sair batendo os pés e as portas por mais um tempo.

Meu pai gargalhou por um tempo.

― Elea ― Minha mãe protestou.

― Desculpe-me, errado, Brieanna, muito errado ― Ele disse divertido.

Minha mãe suspirou.

― Não pode me apoiar? ― Pediu minha mãe.

― Acha que não estou apoiando você? ― Pediu incrédulo.

― Não é disso que estou falando ― Ela disse irritada ― Não acredito que estamos tendo essa conversa de novo, ela deveria estar lidando com isso, não ajuda você passando a mão na cabeça dela.

― Meu Deus Olívia! Eu não sei o que quer que eu faça, a mandamos para aquele lugar horrível, o que mais quer?

Eu estava perplexa, eles nunca brigavam, na nossa frente, eu tentei sair de fininho, mas minha mãe me parou.

― Brieanna Evelin Brown, fique exatamente onde está ― Ela disse alto.

Eu parei imediatamente e me virei.

― Eu vou sair assim podem terminar de brigar ― Falei irônica.

― Evelin Brown...

― Me desculpa, mas é que... As coisas são como são, eu não tenho conserto, não vale a pena e não quero que vocês briguem por minha causa ― Falei olhando para o chão.

― Hey, nunca mais diga isso, me ouviu? É claro que você vale a pena ― Meu pai disse segurando meu rosto.

― Deus você é tão absurda ― Minha mãe disse quando ela e meu pai abraçaram.

Eu subi, vesti a primeira roupa de frio que encontrei no meu guarda roupas e uma jaqueta porque chovia muito lá fora, enquanto eu descia vi a porta do escritório se fechar... Ótimo momento para conversar com ele, eu bati à porta e entrei.

― Hey pai, nós podemos conversar? Juro que será bem rápido e eu vou ser rápida e objetiva, eu não vou fazer você perder tempo.

― Eu sou o seu pai, você não precisa falar como se tivesse que marcar hora para falar comigo ― Ele disse rindo e batendo no braço da poltrona em que estava sentado ― Eu só quero dizer, não fique chateada com a sua mãe... Ela só quer o melhor para você.

― Eu sei pai.

― O que você quer minha boo?

― Pai, nós já falamos desse apelido ― Falei corando ― Eu só...

Eu não podia falar, parece loucura quando eu penso... E é impossível dizer em voz alta.

― Amor, você precisa me dizer o que há de errado... Não quero que você se machuque de novo ― Pediu.

― Eu não quero mais me machucar também, eu só... ― Eu o abracei forte e respirei fundo.

― Hey Parece-me que está se despedindo... Diga-me o que há de errado...

― Eu... Você sabe... Pai, só queria um abraço ― Falei sorrindo.

― Está tendo aqueles pensamentos de novo? Sobre se machucar.

― Às vezes, quando eu estou sozinha... Quando penso nela, me sinto tão culpada pai, nós deveríamos ter cuidado dela...

― Tem que deixá-la ir, sei que Joseph te fala isso, Lucas e Ky... Não é culpa sua, foi uma fatalidade, Joe, Lucas e Ky não se culpam, por que você o faz?

Eu suspirei... É minha culpa porque eu me lembro de tudo, mas eu apenas concordei.

― Vou ver o Joe hoje ― Falei sorrindo.

Meu pai curvou as sobrancelhas e riu.

― Você me liga se precisar de algo ― Concluiu ― Cuidado sim?

Assenti.

― O que farão hoje?

― Espero que o tempo melhor para andarmos de bicicleta, se não, vamos só assistir televisão.

― Não podem ir à floresta, está muito dispersa, por favor... Prometa nada de trilhas hoje.

― Prometo ― Falei mordendo o lábio.

― Está mentindo bem na minha cara ― Falou rindo.

― Ei ― Protestei.

― Vá logo ― Falou beijando meu cabelo.

Quando saí do escritório senti um frio na espinha, como se alguém estivesse me tocando e como sempre acontece, simplesmente congelei no lugar onde estava, conseguia ouvir os sussurros cada vez mais perto e andei antes que o frio mobilizasse e esbarrei na minha mãe que entrava no corredor.

― Hey, você está pálida, o que houve? Está passando mal?

Eu estava em transe.

― Acho que vi...

― Viu o que? Ei filha... Fale comigo ― Falou segurando meu rosto que fitava o corredor e virando para olha-la.

― Só umas coisas estranhas...

― Que coisas estranhas?

― É só uma sensação estranha ― Falei distante

― Brieanna ― Minha mãe chamou alto para me puxar para a realidade.

Eu a olhei.

― Isso é muito sério, esse comportamento, os pesadelos, gritos à noite... Hematomas, sabemos o que já aconteceu, quase perdi você duas vezes, não vou arriscar a terceira ― Falou séria.

― Não tem nada com o que se preocupar ― Falei desviando os olhos.

― Não desvie os seus olhos, por favor, não me afaste, tem que ser honesta comigo para eu poder ajudar, você é tudo para mim.

Eu fiquei em silêncio e ela suspirou e me puxou até a sala de televisão, nós sentamos no sofá, frente a frente, minha mãe segurou minhas mãos e passou seus dedos pelas marcas nos meus pulsos, suspirando várias vezes.

Essas marcas são uma vergonha, só significam que fui fraca demais, para cortar pela raiz a dor, o sofrimento... Não deu certo, por que eu sou a fonte dos problemas...

― Eu não quero perder você, nunca, mandar você para aquele lugar foi uma das decisões mais difíceis da minha vida, não quero nunca mais me sentir da mesma forma que me senti quando... Eu pensei que... Achei que nunca mais ouviria a sua voz, olharia nos seus olhos, abraçaria você... Por duas vezes tive uma ideia de como Ayden se sentiu quando... Não posso nem pensar em...

Eu não tinha ideia de como ela havia se sentido quando tudo aconteceu, por minha causa.

Eu a abracei com força.

― Mãe me desculpa por isso ― Falei.

― Eu amo você, prometa que vai pedir ajuda, sabe, quando as coisas ficarem ruins ― Pediu olhando nos meus olhos ― Que vai me contar se tiver aqueles pensamentos ruins sobre se machucar.

― Eu prometo mãe ― Falei Minha relação com a minha mãe nunca foi das melhores, sempre fui mais próxima do meu pai e tia Em, mas já fiz uma bagunça enorme tentando sozinha consertar o que estava quebrado em mim, fiz em pedaços o coração das pessoas que eu amo, achando que todo mundo ficaria mais feliz se eu não estivesse aqui.

Peguei uma carona com a minha irmã e fui ver Joe, eram 10h00am, eu já tinha estragado tudo com ele, duas vezes... Ele está sempre tentando me proteger, às vezes isso é sufocante... Ele já tinha sofrido tanto e ainda está aqui de pé ao meu lado, não posso mais estragar tudo... Joe me mandou um SMS na noite passada, me dizendo que tio Ben e tia Ayden iriam a Waterford a negócios durante toda a manhã, que ele provavelmente estaria dormindo e eu teria que usar a chave reserva, ela fica em cima do batente da porta nos fundos.

É extremamente esquisito andar por essa casa vazia, bati na porta do quarto umas trinta vezes, logo desisti e abri a porta torcendo para que ele estivesse vestido, as cortinas estavam fechadas então tudo exceto a cama estava mal iluminado, eu acabei tropeçando em alguns sapatos pelo chão cai batendo os joelhos e cotovelos, xinguei todos os nomes feios que sabia.

Joseph é extremamente cuidadoso com a aparência, uma pena não ter o mesmo zelo pelo quarto onde dorme.

― Ei, acorde ― Falei chacoalhando ele pelos ombros.

Joseph vestia uma calça de moletom cinza e estava sem camisa, deitado em um travesseiro que ele babava um nojo de se ver.

― Jooooe, acorda ― Pedi puxando o travesseiro e batendo nele.

― Mais cinco minutos, mãe ― Falou com a voz sonolenta e rouca.

― Que mãe? Joseph, acorde logo, você disse que iríamos sair cedo ― Falei batendo nele com o travesseiro ― Vou embora se não se levantar.

Ele se sentou e esfregou os olhos.

― Cristo! Já estou acordado, você não é fácil ― Falou dando aquele sorriso para mim.

Fiz língua e joguei o travesseiro nele.

― Quantos anos você tem? Cinco? ― Pediu divertido ― Como você está?

Eu senti meus olhos lacrimejarem.

― Tive outro pesadelo, acordei bem pior do que nas outras vezes... Parece que está se repetindo...

― Hey, não vai se repetir, não vamos deixar ― Falou decidido ― Não acontecerá de novo, você é muito mais forte do que pensa, quando tiver aqueles pensamentos ruins sobre se machucar vai me ligar e eu vou ficar do seu lado, prometo, agora... Eu morreria por aquele sorriso.

― Sabia que você baba e fala dormindo?

― Eu não babo não ― Ele falou sem graça escondendo o travesseiro embaixo da cama ― O que eu disse?

― Mamãe ― Falei rindo.

― Graças a Deus que não me ouviu tendo pesadelos, pode ser uma situação bem assustadora ― Falou sério.

― Você também... Por que nunca me disse?

Ele se levantou e me abraçou.

― Não queria preocupar você, parei com os remédios e de vez em quando isso acontece, Mason disse que é normal, é só a hiperatividade cerebral.

― Você ainda vê aquele chato do Mason? Hiperatividade Cerebral é uma boa desculpa, sério ― Falei azeda ― Eu deveria usar essa com meus pais.

― Tem sempre uma resposta engraçadinha?

Eu tentei respirar fundo e só conseguia sentir meu coração disparado.

― Banho ― Sussurrei apontando na direção do banheiro.

― Está bem, está bem ― Falou indo para o banheiro.

― Está tão bonzinho hoje, é muito estranho e arruma esse chiqueiro antes de descer porquinho.

― Eu sou bonzinho, pare de me agredir ― Falou do banheiro.

Eu ri enquanto saia do quarto e descia as escadas em direção à cozinha, preparei sanduíches, torradas, um chá para mim, um suco para Joseph, eu estava faminta apesar de ter tomado café da manhã.

― Você cozinhando para mim parece um relacionamento ― Disse divertido ― Você nem me esperou sair do banho ― Ele protestou.

― É só um maldito sanduíche, não um pedido de casamento e você estava tomando banho o que eu ficaria fazendo?

Ele gargalhou por alguns segundos.

― Nojento e impessoal ― Protestei.

― Eu já vi você pelada um monte de vezes... Não tem nada mais pessoal que isso.

Deixei minha torrada com geleia cair no prato.

― Como é?

― Éramos bem pequenos, você nem se lembraria ― Disse rindo ― E não era tão interessante quanto hoje em dia ― Falou girando a cabeça meio de lado como se me analisasse.

Eu joguei um guardanapo amassado nele.

― Cala a boca, isso vai me traumatizar pelo resto da vida.

Ele riu novamente.

― Certo o que quer fazer hoje?

― Trilha de Bike ― Falei.

― Boa tentativa, mas não, está muito distraída e vai se machucar.

― Por que todo mundo fica me dizendo isso? Meu pai e agora você, Porra ― Xinguei.

― Seu pai conhece você, eu também e sei que se eu te colocar em uma trilha de Bike hoje você vai quebrar o braço ou o pescoço ― Joseph disse sério.

― Tão injusto, que tal a gente juntar todo mundo e levar os violões? Sei que a maioria está de férias e viajando, mas temos Lucas e Junior.

― É, pode ser, vou ligar pra algumas pessoas, o que falamos sobre apelidos Boo? Não deixa Ky te ouvir o chamando pelo apelido de bebê dele ― Joe disse me olhando feio.

― Não me chama de Boo e eu não conto para ele se você não contar.

Ele gargalhou e me inclinei para beijar a bochecha dele.

― Você é inacreditável.

― Você é o egocêntrico ― Falei.

― Isso, eu e todo mundo já sabia ― Disse convencido Joseph passou um tempo no celular enquanto eu me esticava no sofá com pipoca e o controle da televisão.

― Por que não se cobre inteira? ― Pediu sentando e me encostando ao peito dele e puxando o manto de lã para cima até meu queixo.

― Porque meus pés estão com frio e o meu corpo não ― Eu falei óbvia, ele deu uma risada e passou os braços em torno de mim e ficou beijando minha bochecha.

― Brieanna...

― Humm?

― Você tem que melhorar logo...

― Eu estou tentando... As vezes é como se eu estivesse presa no lago... Com uma âncora me puxando para o fundo... ― Eu disse distraída me ajeitando no sofá e olhando fixamente para o filme.

― Não acha que deveria voltar a ver Mason?

― Não... Minha mãe também acha... Mas... Se eu aceitar isso novamente.... Eles vão acabar decidindo que eu não estava preparada para voltar... E eu não quero ir para aquele lugar novamente ― Falei soltando a pipoca e o olhando com meu coração apertado.

― Para com isso, somos melhores amigos, não pode mentir pra mim, você dificulta as coisas, eu só queria... Não deveria ser tão difícil ― Falou segurando o meu rosto com as duas mãos e então os lábios dele estavam sobre os meus ansiosos para alcançar o que eu tivesse para oferecer. Seus lábios eram finos e quentes com aquele gosto de menta refrescante, eu tenho o péssimo costume de travar sobre pressão e apagar em momentos que eu não deveria como esse em que eu sei que não deveria estar fazendo isso, por que não gosto de Joseph dessa maneira, também me odiando por que há tempos atrás eu estava tão frágil e deixei isso acontecer por mais vezes, mas precisa acabar.

A mão direita dele acariciou minha bochecha e desceu por meu pescoço em direção ao meu ombro o acariciando lentamente, Joseph tocou minha cintura por de baixo da minha blusa e eu afastei Joseph com cuidado.

― Não, aí meu Deus, Joseph, não podemos mais fazer isso ― Falei me sentando longe dele.

Ele me olhou desolado e passou a mão pelo cabelo, eu estava me sentindo um pouco culpada por magoar os sentimentos dele, mas sabia que nunca poderia acontecer nada entre nós, não sinto nada por ele dessa forma.

Comecei a sentir meu estômago revirando e minhas lágrimas escorriam por minhas bochechas.

― Foi tão ruim assim? ― Joseph tentou fazer graça

― Não podemos ser assim ― Falei.

Ele ia falar algo, mas a campainha tocou e ele olhou em direção à porta, um pouco confuso.

― Quem será? É cedo demais ― Joseph divagou.

― Como vou saber Joel? É a sua casa, lembra? ― Falei secando minha bochecha.

Nem liguei, apenas fechei meus olhos e esperei Joseph despachar quem quer que fosse por que dentro de algumas horas sairíamos dali.

― Oh! ― Uma voz rouca que não era a do Joseph ecoou pela sala.

Eu abri os olhos e me sentei rápido demais e senti uma tontura momentânea.

Era uma garota ruiva, alta, muito alta, bem mais velha do que ele.

― Você deve ser Brie, Amiga de infância, Joey SEMPRE fala de você ― Ela disse me lançando um sorriso sem mostrar os dentes e me estendendo a mão.

Eu a olhei em dúvida por alguns segundos.

― Joseph sempre fala demais é um dos problemas dele... Sim, a única, Brieanna Evelin Brown ― Falei dando aquele sorriso ensaiado por mim e minha irmã para quando temos algum jantar extremamente chato com nossos pais.

Joseph apareceu na sala segurando uma caixa de violão com aquela expressão que as crianças pequenas fazem quando estão encrencadas.

― E eu sou Elizzy Hogan ― ela disse quando percebeu que eu não perguntei.

― E você veio aqui para...

― A festa, é claro ― Ela disse rindo ― Eu só... Não imaginei que fosse esse tipo de festa...

Eu olhei para ela e então para Joseph.

― Que tipo de festa? ― Perguntei sentindo minha pulsação subindo.

― Com... Gente.... Tão jovem...

― Eu achei que chamaríamos os nossos amigos ― Falei e Joseph corou.

― Elizzy é amiga.

― De quem?

― Minha.

― Por que nunca ouvi falar dela?

― É nova amiga e... E tenho... Certeza que... Vocês... É... Amigas também ― Ele disse vermelho.

― Ela é a sua namorada? ― A garota perguntou como se eu não estivesse ali.

― Isso não é da sua conta ― Falei

― Uh! A grosseria bateu e ficou.

― Não, ela é minha amiga ― Joseph disse a Elizzy.

― Não fale como se eu não estivesse aqui, não sou criança ― Disse áspera para Joseph.

Ele deu de ombros se desculpando.

― Liga para o Paul, estamos saindo ― Falei pegando minhas coisas e indo para a garagem.

Nem fiz questão de ir sentada no banco da frente, só queria chegar à casa do Paul logo, não queria estar presa em um carro enquanto tinha que assistir a interação romântica nojenta entre meu melhor amigo e aquela estranha.

Nós chegamos ao jardim que a mãe do Paul Lucas mantinha nos fundos da casa deles que ficava a três quadras da casa do Joseph, Carrie a namorada do Lucas estava lá, ela estuda na St. Lawrence O’Toole, uma escola secundária para meninas, nosso amigo e meu vizinho da frente Oddimund, que estuda na Lun, o Gregory cujos pais são da polícia da cidade e o arrastaram para estudar na Bornel Academia militar para garotos e Sarah, que frequenta a St. Lawrence com Carrie, eles moram perto do Ky, Amanda e Khayla que moram no fim da Rua de Joseph estudam na St. Patrick, nós nos sentamos todos em torno de uma fogueira com as duas guitarras acústicas do Paul Lucas .

― Então, vamos por pedido, alguém tem algum especial?

― Justin, não ― Ky disse a Carrie antes de ela abrir a boca.

― Eu não...

― Não pegue no pé dela ― Paul cutucou Ky com o braço do violão ― Eu escolho então, Vamos de Beatles ― Paul Lucas falou e começou a dedilhar uma canção Joseph o seguiu.

― Ridículos ― Xinguei baixo quando eles começaram a tocar Something.

Eles apenas riram e tocaram Yesterday e Help, que tenho que admitir foi divertido e cantei um pouquinho na sequência.

― Certo, chega de Beatles ― Ky disse pegando o violão do Joseph.

― Ah! Ele vai tocar ― Joel zombou.

― Cala a boca ― Falou Paul Lucas rindo.

Ky começou a dedilhar Pressure e eu me inclinei para frente sem conter a risada, mais alta do que gostaria, os três pararam pra me olhar.

― Que? ― Falei confusa.

― Você não ri assim faz tempo, não para não ― Ky falou sorrindo e voltando a tocar ― Melhor, canta com a Carrie.

― Não hoje ― Falei tocando o ombro dele

Ele fez careta e eles começaram a cantar, eu só fiquei lá de olhos fechados me concentrando nas vozes dos meus amigos, algumas mais tímidas que outras e Paul... Ele é demais.

Depois de outras canções cansei daquela merda e peguei o violão.

― Uuuh! Agora sim ― Paul Lucas disse

Eu só sorri e fiz língua para ele.

― Sou uma pianista não se esqueçam de não me julgar se eu errar.

Comecei a dedilhar baixo afinando o violão para começar a tocar Linger.

― Você é má ― Carrie disse rindo ― Gosto disso.

Nós duas dividimos a música e cantamos juntas.

― Canta Everything agora ― Paul Lucas pediu

― Não Uninvited da Alanis ― Lucas e Oddimund pediram

― Eu canto as duas se pararem de me olhar assim ― Falei rindo

― Olhem para a fogueira ― Carrie disse rindo

Cantei Everything e Uninvited da Alanis.

Nossa “festa” durou mais algumas horas, eu e os garotos nos revezamos nos violões e cantando, Joel e eu nos ignoramos pelas horas que se seguiram, no fim apenas queria caminhar até em casa, sozinha, Paul Lucas e Carrie me chatearam oferecendo carona, mas eu decidi que queria ir embora e os deixei falando sozinhos.