Sr. Laynon estava trancafiado em um escritório cheio de objetos estranhos, que iam de garrafas com líquidos coloridos a livros encadernados com inscrições inteligíveis. Depois de interroga-lo sobre vários assuntos, mandaram que ficasse ali até segunda ordem. O pobre relojoeiro sabia que não estava mais em Clarence, mas não tinha como imaginar que lugar era aquele. Haviam tirado até seu relógio de bolso, que sempre estivera com ele nas situações mais complicadas.

O homem de bigodes e mais outras quatro pessoas queriam saber sobre o fornecedor do relógio, e acima de tudo, o comprador. Sr. Laynon disse tudo que sabia, sobre Alistair e as pessoas que saíram da cidade com ele, mas visto que não parecia ser o bastante para seus interrogadores, descreveu também o terceiro visitante que há alguns dias viera procurar por Alistair. Era um homem de estatura média, um pouco maior que o relojoeiro, de cabelos claros, e o que era mais marcante: usava um tapa-olho. Não fazia ideia de quem fosse, mas deu-lhe o nome de Howell, porque não paravam de perguntar-lhe, e isso pareceu silenciar Victor, que saiu às pressas mandando-o esperar.

Tinha ouvido esse nome algumas vezes em histórias sobre mágicos e relógios antigos, e acabou escolhendo-o sem pensar. Não tinha falado dele para Alistair aquele dia porque o próprio visitante fizera o relojeiro jurar segredo, e Sr. Laynon poderia ser tudo no mundo, mas não era pessoa de quebrar suas promessas.

Felizmente, ele só tinha prometido não contar para Alistair, de forma que não estava quebrando nenhum juramento falando sobre o visitante para seus interrogadores. Sr Laynon, depois de concluir isso, cansado, jogou-se em uma das cadeiras, e visto que ninguém o vigiava de dentro da sala, pôs-se a mexer em alguns papéis que estavam largados na escrivaninha. Entretanto, não foi capaz de entender nenhum deles, pois pareciam ser parte de alguma partitura de um instrumento que ele desconhecia.

...

Os prédios vizinhos estremeceram quando a oficina de Crawford começou a desgrudar-se das demais construções. O grupo de Victor recuou espantado, e dessa distância puderam ver que de dentro das paredes, dos dois lados da construção, começavam a surgir quatro rodas enormes. Os vizinhos colocavam a cabeça para fora das janelas para observar o prédio terminar de descolar-se dos muros e tomar parte na larga rua de pedra, tal qual uma carruagem gigante.

Todo esse movimento parecia ser um grande esforço para os mecanismos da oficina do inventor, já que as suas chaminés cuspiam fumaça pelo céu feito dragões furiosos. Felizmente, essa grande quantidade de fumaça também estava servindo para deixar a Guarda do Duque cega por alguns instantes — era evidente que a construção não era muito veloz, mas visto que a rua era uma das últimas da cidade, Crawford e os demais conseguiram chegar à saída do descampado antes que o grupo de Rhea pudesse intercepta-los.

Apesar disso, a Guarda não levou muito tempo para recompor-se e logo correu em direção ao Caminho de Prata. Entretanto, ao tentar se aproximar, o grupo foi detido pelo próprio solo, que parecendo líquido, ora os fazia afundar e ora os jogava de volta para a entrada da cidade. Ficaram nisso até perderem a construção sobre rodas de vista.

...

– Bravo, Hector! Controlando a terra, assim de longe! – riu Crawford que estava visivelmente muito feliz, pois, se não estivesse, certamente não dirigiria a palavra ao mágico – Agora que saímos do campo de visão deles não conseguirão nos encontrar. Está escuro e toda essa neblina veio bem a calhar!

Ninguém respondeu, já que Lorde Crawford era visivelmente a única pessoa animada naquela sala. Hector mal conseguia se mover depois de usar tanto poder, Alistair estava enjoado por causa do movimento e Lilet ainda olhava pelas janelas, procurando descobrir para onde os homens de Rhea haviam ido.

– Entretanto – continuou Crawford, sem se importar em receber resposta — Não vamos poder voltar para a Central tão cedo. Esperava encontrar Garrett lá. – disse enquanto mexia em alguns instrumentos no estranho mecanismo que controlava a construção.

Lilet teve a atenção roubada pelo barulho das alavancas:

– Afinal, quem é Garrett exatamente? – indagou.

– Um amigo meio desregulado que tive a honra de conhecer em uma feira em Hivert. – respondeu o inventor – Vivia falando sobre pessoas que não envelhecem e objetos que não se quebram, mas nunca dei muito crédito a ele. E depois que comecei a pesquisar sobre relógio do Duque, não voltei mais para a Cidade Central. Isso deve fazer uns dois anos, então espero que Garrett ainda more por lá...

Alistair, que começava a se habituar às novas condições daquele inusitado meio de transporte, lançou um olhar pela sala onde estavam: tinha o teto de madeira, duas largas janelas de cada lado e uma na frente, para que o piloto pudesse enxergar a sua volta — embora isso não estivesse funcionando muito bem, já que as laterais estavam sujas por causa do contato com os tijolos das casas vizinhas. Ademais, o lugar era bem bagunçado: cheio de objetos mecânicos, cortinas e papéis — mas não o surpreendia constatar que Crawford não se importava muito com organização.

Alistair também não era um exemplo de arrumação, e de certa forma não poderia criticar muito Lorde Crawford a respeito disso, mas ser distraído não significa ser descuidado, o que evidentemente era o caso de seu colega. A comparação era ainda mais fácil de ser feita ao se tratar das aparências: Hazel Crawford, que era mesmo um Lorde oficial, sempre andava com os cabelos despenteados e as roupas velhas. Já Alistair, que não era parte da aristocracia de verdade, estava sempre evitando ao máximo estragar sua indumentária. O que chegava a ser ligeiramente irônico.

Ao achar que andaram o suficiente, Lorde Crawford abandonou os controles e foi acender um cigarro enquanto a casa se direcionava sozinha.

– Para onde estamos indo agora? – perguntou Alistair, enfim.

– Para Hivert – respondeu ele – É a cidade mais próxima depois desses campos, e mesmo que a guarda do Duque avançasse para lá contornando a neblina, ainda levariam três vezes o tempo que levamos indo direto. Poderemos pensar em outro plano mais tarde – concluiu, mas depois acrescentou – Seria bom aproveitarmos a ocasião para reunir as informações que temos. Aliás, poderia transformar o relógio de volta para que eu pudesse dar uma olhada nele? – estava falando com o mágico, mas Hector agora dormia onde caíra depois de se livrar do grupo de Rhea.

– Parece que ele já fez isso, veja – disse Lilet, enquanto se apoiava em uma das paredes para não cair por causa do movimento da casa: a oficina do inventor chacoalhava tudo que estava no seu interior quando passava por alguma deformação no relevo. Um enorme relógio de pêndulo estava apoiado em uma das paredes, fazendo um pouco de barulho.

– Embora eu não entenda como alguém consiga dormir tanto, acho que devemos uma ele – Crawford deu de ombros. O rapaz, contra todas as probabilidades, tinha sido de grande ajuda. Ao lembrar-se do mágico também se recordou de sua arma quebrada, e foi então procurar pela engrenagem que havia sido retirada. Vendo o que o homem fazia Alistair também se lembrou de uma pergunta que tinha guardada:

– A propósito, lembro-me de ouvir você dizer que essa sua arma só tinha um tiro, e, minutos depois, o ver explodir a porta da oficina com uma segunda bala. Como explica isso? – perguntou.

– Ah, isso? Haha – disse Crawford achando graça na dúvida do companheiro de viagem – Eu a chamo de Amaranth. É uma arma que atira vários tipos de projéteis diferentes, cada qual com sua propriedade – explicou, enquanto colocava de volta uma das engrenagens – Quando disse só ter um tiro, estava me referindo aquele tipo específico que deixa as pessoas inconscientes, as outras balas que eu tinha os matariam...

– Interessante! – disse Lilet que tinha se aproximado para observar o trabalho – Que outros tipos de bala você tem? – era a mesma pergunta que Alistair iria fazer.

– Bem, a Amaranth é um protótipo, então não tem muitas funções... – Crawford começou, mas foi interrompido por Alistair

– Um protótipo? – reclamou ele, franzindo as sobrancelhas – Atirou com isso sem saber se ia funcionar? E se tivesse acertado um de nós?

Crawford não pareceu se importar:

– Era um momento crítico – disse ele, continuando o trabalho de encaixar as engrenagens – e uma boa oportunidade para testá-la. De qualquer forma, era só um tiro tranquilizante...

Alistair não estava convencido e ia dizer mais alguma coisa, mas Crawford aproveitou a deixa para explicar sobre os projéteis:

– Bem, as balas disponíveis que tenho são essas – e pegou uma caixa de madeira que estava próxima de seu braço direito, despejando seu conteúdo no chão, que, com o movimento da oficina, acabou sendo espalhado por vários cantos da sala. Ele escolheu uma bala vermelha que caíra perto de seu pé – Essa é a que usei para explodir as portas – explicou e depois fez um gesto para Alistair pegasse uma bala azul que caíra próxima de uma mesa:

– Essa – disse ele – foi a que usei para deixar os soldados inconscientes. Mas veja o que acontece quando uma engrenagem está faltando – e virou Amaranth de modo que todos pudessem enxergar o que ele estava fazendo. Crawford colocou uma bala em uma abertura da arma destinada aos projéteis, mas o objeto ficou travado no compartimento.

– Sem a engrenagem só posso atirar as balas que já estão dentro da arma, não conseguiria recarregar nem se tivesse tempo – disse – Mas, felizmente, isso é bem fácil de ser arrumado...

Não foi possível que ninguém fizesse algum comentário sobre isso, entretanto, já que naquele momento a construção freou bruscamente, jogando todos e tudo para a parte da frente da oficina. Hector acordou debaixo de uma pilha de livros que voaram com ele para perto de uma das estantes.

...

– Imaginei que estivesse aqui – disse a mulher de olhos azul-marinho ao homem que se encontrava sentado em uma das mesas do lado de fora da cafeteria. O céu estava carregado e gotas de chuva já começavam a cair.

– Parei para observar a paisagem – respondeu ele, tomando o último gole de café que ainda estava na xícara. Não havia ninguém nas ruas e tampouco no estabelecimento. O lugar estava completamente vazio.

Não foi preciso perguntar se ele sabia sobre tudo que estava acontecendo, era evidente que sim. Isso deixou Lenore consideravelmente mais calma. Sua figura branca contra o negro do céu que subitamente desabava em chuva estava sorrindo, o que pegou o homem de surpresa:

– Pelo visto está confiante. É o clima? – riu ele.

– Não vai levar muito tempo até essa longa história finalmente acabar. É um alívio – disse ela, parecendo contente – Mas sugiro que arranje um guarda-chuva...

– É sempre bom ver você – disse o rapaz de tapa-olho, levantando-se da mesa e saindo para a rua escura. Lenore esperou que ele se perdesse no horizonte para dar meia volta e seguir na direção oposta. Já suspeitava que sua visita fosse inútil, mas não podia suportar a ideia de estar em dívida com alguém, e sentiu-se muito melhor depois de ter constatado isso.

– Ora, Catherine – disse para si mesma em voz baixa – você não é mais tão esperta quanto era antigamente...

...

Crawford tinha descido para ver o que causara o problema quando encontrara aquele homem. Era um viajante que dizia estar indo para Hívert e pedia carona, parecendo não perceber que o meio de transporte que teoricamente o salvaria estava em condições piores que as dele.

– A modernidade é mesmo uma coisa incrível! – dizia o homem animado, sem ouvir os protestos dos demais, que tentavam explicar que precisavam consertar a oficina antes que ela pudesse andar novamente – Não sabia que existiam coisas desse tipo! – exclamava enquanto caminhava em volta da construção para observar os detalhes.

– Meu senhor – tentou dizer Crawford – não vejo problema em leva-lo para Hívert, porque é para lá que estamos indo, mas primeiro preciso arrumar o motor, entende?

O homem com certeza não entendia, pois não tinha ouvido nem metade da frase.

–Vejam só isso! – disse ele se precipitando para a porta da oficina que fora esquecida aberta por Alistair, como de costume. Os demais o seguiram para evitar que causasse estragos:

– Quanta coisa tem aqui... Mas, ei, olhem! – disse o viajante ao ver os controles do prédio sobre rodas – Alguma coisa caiu aqui e emperrou essa alavanca... – mal terminara de falar e já estava retirando o que quer que fosse do meio do painel. Crawford se desesperou achando que teria sua invenção destruída, mas não conseguiu alcançar o homem a tempo, já que fora jogado para trás com o solavanco da casa que recomeçava a andar.

Como a porta continuasse aberta, alguns livros e peças caíram para fora. Lilet correu para fechá-la, mas alguns objetos foram perdidos.

– Poderia fazer a gentileza... de nos dizer seu nome... er... Senhor? – disse Crawford ainda respirando com dificuldade por causa do susto.

– Sou Garrett, o inventor – respondeu o viajante, mas obviamente não ficaria só nisso – Tenho alguns assuntos para resolver em Hívert, mas acho que nada superará a vista de um trabalho como esse! – ainda estava maravilhado com a oficina, mesmo no estado caótico em que a encontrara. Entretanto, ninguém deu atenção ao comentário todo, já que todos pareceram congelar ao ouvir a parte sobre o seu nome.