– Eles fugiram – foi a resposta direta de Rhea quando interrogada por Victor.

– Fugiram? – repetiu o homem visivelmente afetado – Fugiram de quatro de nossos homens mais rápidos e da implacável Rhea no meio de uma cidade como a Central? Só pode estar brincando comigo!

– Saíram pela área que dá para o descampado – foi a resposta crua de Rhea.

– E teria a bondade de me explicar como conseguiram essa proeza? – indagou Victor de Constance, em seu melhor tom de sarcasmo.

– A oficina do inventor tinha rodas – respondeu a mulher com naturalidade – Ademais, estavam com Hector Astaroth.

O rosto de Victor se metamorfoseou em uma expressão de choque, que só durou alguns segundos antes de rapidamente voltar ao normal, embora o homem ainda estivesse perdido em suas reflexões. Seria uma história difícil de acreditar se o nome de Hector não estivesse incluído.

– Sabe de uma coisa? – disse finalmente – No interrogatório do relojoeiro descobrimos que Howell está agindo contra nós. Não é incrível? Agora, quer que eu acredite que juntamente com isso, esse maldito mágico, que não deu as caras por anos, resolveu aparecer para atrapalhar nossos planos?

– Precisamente – foi a resposta no tom inalterável de Rhea.

Victor estava furioso. Andou de um lado para o outro enquanto pensava, e depois de terminar os cálculos, disse:

– Ainda estamos sem o relógio do Duque, contra o próprio Hector Astaroth e sem o mandato de busca no castelo. Também temos um grupo inconveniente andando pelo descampado em uma casa com rodas, é isso? – concluiu ele.

– Sim – respondeu Rhea.

– E sabe para onde estão indo?

– Pelo que me parece, para Hivert. Mandei nossos homens para lá.

– Ora, Hivert! Porque não disse antes? — disse Victor, um tanto aliviado — Isso facilita muito as coisas! Metade de nossos subordinados já está lá! – e acrescentou depois – Procure por Garrett, o mecânico, e leve-o para Hivert também. Eu irei tentar apressar as coisas no Palácio Real.

Rhea concordou e saiu.

...

– Você realmente não está nem um pouco parecido com o que era antes... – disse Crawford, que agora que reconhecia o antigo colega, procurava de alguma forma se justificar. Entretanto, seu ego também estava ferido – Mas não acredito que você não me reconheceu!

– Não quer que eu me lembre de todas as pessoas que conheci nas feiras mecânicas que fui – riu o homem de nome Garrett. De alguma forma aquilo parecia um de já vú. Mas Lorde Crawford ficou boquiaberto com a resposta por outro motivo: os dois já tinham conversado várias vezes em outros lugares, como Garrett poderia se esquecer dele?

O resto do grupo aproveitava o tempo para olhar melhor o novo passageiro. Aparentava ser bem mais velho que todos eles e seu rosto exibia algumas cicatrizes. A pele estrava bronzeada por causa de alguma longa caminhada no sol e o cabelo visivelmente embaraçado, usava costeletas e uma roupa amarrotada e suja. Também carregava consigo um chapéu e uma mochila tão velhos quanto o resto da indumentária. Crawford, que se lembrava dele arrumado e mais jovem, não poderia imaginar o que o homem pudesse ter feito naqueles anos para mudar tanto.

Alistair decidiu tentar a estratégia de Hector para descobrir a idade do mecânico hiperativo:

– Você deve ter ido a muitas feiras... – começou, mas nem teve tempo de terminar, visto que Garret adorava falar.

– Certamente que sim! – respondeu ele, animado – Principalmente nesses últimos cinquenta anos, já que as tecnologias melhoraram consideravelmente, e agora temos uma infinidade de campos para estudar! Até conheci uma jovem que gerava energia para suas invenções através dos pequenos movimentos da terra, era bem interessante... — e continuava a jogar informações umas por cima das outras — Ultimamente resolvi me focar nas funcionalidades do vapor, mas nunca tinha visto nada assim. Essa oficina é o ápice dos mecanismos a vapor, veja só, é incrível Sr. Crawford! – disse maravilhado, desviando do assunto sem perceber.

– Na verdade é só um protótipo... – disse Crawford tentando parecer modesto. “Cinquenta anos é bastante tempo” pensou ele desconfiado. Entretanto, não ficou preso nesse tipo de reflexão: “Como pode ele se lembrar de coisas de cinquenta anos atrás e se esquecer das pessoas que conheceu recentemente?”, ainda estava indignado.

– Um protótipo? – perguntou Alistair fazendo uma careta. Não era a primeira vez que ouvia uma história desse tipo.

– Esqueça isso... – disse Lilet tentando interromper o rumo que a conversa tomava. Talvez o novo colega Garrett não fosse confiável o suficiente para saber de tudo que estava acontecendo. Para mudar de assunto comentou:

– A propósito, Hector está bem calado ultimamente. Não costumava ser o mais barulhento de todos? – era um pensamento que na verdade já tinha formulado antes, mas que não tinha se dado ao trabalho de confirmar.

Todos pareceram concordar com a afirmação e procuraram com os olhos pela sala onde estavam. Nem sinal de Hector.

– Fugiu?! — exclamou Crawford enquanto corria para olhar pela janela dos fundos, a procura de alguma coisa que pudesse indicar a direção que Hector tomara, mas era uma tarefa impossível, mesmo com os raios de sol que começavam a surgir – Diabos! Devíamos tê-lo interrogado antes!

– Interrogar? – perguntou Garrett que juntamente com os outros, já tinha se aproximado da janela – Estão em algum tipo de investigação?

Os três se entreolharam sem saber exatamente qual seria a resposta mais apropriada para aquela pergunta, mas não precisaram se ocupar com isso por muito tempo, já que segundos depois, a casa passava por outro declive no relevo, fazendo a oficina quase tombar por completo. Lilet que estava sem apoio acabou batendo com as costas em uma estante, derrubando alguns frascos de vidro que estavam nela. Uma garrafa estourou no chão e os cacos voaram direto na perna do visitante.

– Oh, não! – disse Lilet, correndo para ver se o machucado fora sério. Garrett, que finalmente pareceu perceber o que tinha acontecido, fez um gesto para que ela se afastasse e rapidamente retirou o enorme pedaço de vidro que ficara fincado em sua panturrilha. Tinha feito um corte terrivelmente grande.

– Isso realmente está feio – disse Crawford, procurando algum tecido para estancar o sangue. Alistair, entretanto, ainda olhava o que o homem estava fazendo. Garrett colocou a mão sobre o machucado, uma luz verde fez acender seus dedos, e logo não se via mais nada no lugar onde antes estivera o pedaço de vidro, o ferimento desaparecera completamente.

– Não se preocupem – disse Garrett sorrindo – Isso acontece sempre...

– Como foi que fez isso? – indagou Alistair boquiaberto. Talvez ele pudesse ensinar o truque.

– Ah, quer mesmo saber? – Garrett respondeu animado. Estava prestes a começar a contar uma longa história, mas percebendo os olhares ansiosos que eram dirigidos a ele, achou melhor resumir:

– Bem, se são inventores, não precisam de muitos detalhes para entender, não é? Já ouviram falar de Chamberlain? – ele não esperou resposta – Bem é claro que sim, todos ouviram. Pois bem, quando conseguiu o feitiço para a imortalidade acabou criando, digamos, algumas pessoas com poderes especiais, sem querer, entendem? Alguns os chamam de Séculos. Eu sou o décimo segundo, represento a ‘prudência’, o que me deu alguns poderes de cura. Não é interessante? – disse ele visivelmente contente com a própria narrativa.

– Não parece muito prudente contando essa história desse jeito – disse Alistair quase que para si mesmo. Os outros também pareceram concordar, mas Crawford achou que talvez o homem pudesse ser de alguma ajuda afinal:

– Embora eu não duvide que seja um pouco maluco, acho que talvez você possa nos dar alguma informação sobre Astaroth, o décimo sétimo Século e o jovem que acabou de desaparecer...

– Estavam querendo interrogar Hector Astaroth? – disse Garrett surpreso – Acredito que fazer isso seja praticamente impossível! Aquele rapaz é o melhor no que faz: criar confusão e desaparecer – riu ele, e de alguma forma, tinha razão. Depois acrescentou – Bem, mas se houver outra coisa que possa fazer para ajudar...

Como estivessem procurando Garrett desde o começo por um único motivo, Alistair achou melhor aproveitar a oportunidade, antes que ela desaparecesse como o mágico fizera:

– Que tal destruir essa coisa? – sugeriu, indicando o relógio do Duque. O grupo ainda teve de explicar uma coisa ou outra sobre o que passaram para o mecânico concluir:

– Eu não acredito que isso seja possível sem a ajuda de um mago, e pelo que me parece, vocês acabaram de perder o seu... – respondeu, enquanto fitava o relógio no canto da sala — Se esse é mesmo o relógio de Chamberlain, acho que o melhor a fazer é mantê-lo longe da Guarda por enquanto. E honestamente, precisarão de um mago dos bons!

Os três suspiraram quase em uníssono — as coisas estavam ficando muito complicadas. Com Victor atrás deles, o mágico desaparecido e a Cidade Central protegida pela Guarda do Duque, era quase impossível que eles conseguissem algum avanço na tarefa de destruir o objeto. Teriam prolongado a conversa por mais tempo, se logo não tivessem avistado a cidade de Hívert, que se erguia esplendorosa contra o sol da manhã.

Hivert era como um oásis no meio de um deserto. Era uma cidade quase tão grande quanto a Central, e cheia de vida. E embora fosse de difícil acesso, Hivert reunia uma variedade tão grande de eventos que faziam valer, com certeza, o esforço para alcança-la. O rei que governara antes da atual rainha se encarregara de equilibrar o país economicamente, e para isso, tratou de incrementar a pequena cidade no meio dos campos de neblina a ponto de trazer uma infinidade de visitantes para sustenta-la. Foram instalados o Teatro Nacional e alguns bancos, e uma grande quantidade de feiras começou a acontecer.

A cidade-oásis também tinha sido ampliada em um local estratégico: ficava em uma parte relativamente mais alta que o resto dos campos, por isso tinha um clima mais quente e era livre de toda a visibilidade ruim do lugar. Infelizmente, naquele momento, os viajantes não puderam observar muito bem a paisagem, já que estavam preocupados com outra coisa.

Contornando a cidade, estavam espalhadas inúmeras pessoas com o conhecido uniforme preto e vermelho da guarda do Duque.