Já haviam tentado algumas portas, inclusive a que Crawford entrara, mas elas não davam para lugar nenhum: tudo que encontravam quando abriam uma delas era uma parede escura, como o que se podia ver pelas janelas. Pareciam estar fechados em uma infinita caixa negra.

– Não parece ser uma ilusão muito complexa – disse Hector para si mesmo – O que será que De Winter espera que façamos aqui?

– Talvez esteja querendo nos atrasar. Não foi esse o motivo da chuva em Saint Claude? – sugeriu Alistair. Estava olhando para os móveis, que assim como as portas, eram todos iguais e repetiam-se infinitamente.

– E porque ele faria isso? – foi a vez de Lilet perguntar – Achei que De Winter não se envolvesse em assuntos da Ordem...

Se Hector ia responder, acabou por ser interrompido por um comentário não muito coerente de Alistair:

– Por um momento aquela coisa me pareceu Rhea, a subordinada de Victor... – evidentemente ele havia levado seus pensamentos para outros caminhos, mudando completamente o rumo da conversa. Como nenhum dos dois colegas parecesse ter compreendido o comentário, o Lorde tentou explicar-se:

– Falo da pessoa metálica que estava nos seguindo. Parecia-se com Rhea, se me lembro bem.

– Rhea você disse? – Hector perguntou, mas ainda parecia estar mais falando com si próprio do que com outros. Depois mergulhou-se em seus próprios pensamentos e como não prosseguisse, Lilet foi obrigada a questionar:

– Alguma coisa de especial sobre ela?

– Não acho que Rhea possa estar aqui... – respondeu Hector, ainda pensativo, enquanto abria mais uma porta para finalmente encontrar algo diferente de uma parede negra: um corredor exatamente igual ao que estavam se estendia infinitamente dentro dela. O mágico interrompeu o que estava dizendo para exclamar:

– Ora, que surpresa! Acho que podemos tentar essa aqui.

Assim que os três passaram pela porta, ela despareceu atrás deles, deixando em seu lugar apenas uma parede vazia. Alistair começava a ficar mais incomodado com a música a cada momento:

– Sinto que estamos desperdiçando perigosamente nosso tempo aqui...

Lilet ia dizer alguma coisa, mas Hector pediu para que fizessem silêncio. Passos podiam ser ouvidos novamente. Colocaram-se atrás da peça de mobília que Lilet havia arrastado algum tempo atrás (e que se repetia interminavelmente como o resto das coisas por todo o corredor), e aguardaram. Rhea, ou o que parecia ser Rhea, vinha mancando de uma das pernas, com o já conhecido ruído metálico que costumava denunciar sua presença, embora estivesse pouco audível de onde estavam. O som de passos não era de total responsabilidade dela, e os três ficaram surpresos de não a terem visto chegando mais cedo. Hector sinalizou para que o grupo ficasse o mais silencioso quanto possível, mas quando ouviu alguém dizer alguma coisa, Alistair tentou erguer-se para ver de quem se tratava e acabou derrubando o acendedor de lareira, que estava em cima do móvel. O objeto rolou ruidosamente para o meio do corredor.

– Foi uma péssima ideia... – constatou Alistair o mais baixo que pôde, tentando se desculpar, mas o som do acendedor rolando pelo chão fora alto o suficiente até para encobrir voz de quem quer que estivesse falando com Rhea.

Todos congelaram, esperando que a mulher os descobrisse, mas curiosamente ela parecia não ser capaz de ouvi-los nem vê-los. Ao mesmo tempo, a pessoa que falara antes se mostrava ser ninguém menos que o próprio Lorde Crawford, que vinha pelo corredor com Amaranth apontada para onde Rhea e os outros estavam.

– Bom saber que você está bem! – disse Lilet, mas isso não surtiu efeito nenhum na expressão séria do colega.

– Não podem nos ver – disse Hector, levantando-se do esconderijo improvisado – Mas alguma coisa está errada, aquela não pode ser Rhea.

Olhando de perto podiam ver que a mulher era realmente feita de metal, e sua voz pareceu sair de algum tipo de rádio, quando disse:

– Eu o destruí.... com o Medalhão... que tirei do mágico – provavelmente estava respondendo alguma pergunta que Crawford fizera anteriormente, mas tinha certa dificuldade para falar — Não esperava que... houvesse mais nenhum feitiço de proteção – conseguiu completar.

– Por que quis destruir o relógio? – insistiu Crawford, seriamente.

– Porque... sigo ordens.

– Ordens de quem?

– De Hazel... Crawford.

No momento em que Lorde Crawford hesitou, Rhea, ou o que parecia ser Rhea, avançou o mais rápido que pôde em sua direção, o que aconteceu em frações de segundos. Com um chute, Amaranth foi derrubada e voou em direção aos três expectadores da cena. Alistair tentou pegá-la, mas sua mão atravessava a arma como se fosse feita de fumaça. Hector teve uma ideia, correu para uma das portas e pediu para que o seguissem. Ao mesmo tempo Crawford acertara uma cotovelada na mulher metálica, fazendo Rhea recuar alguns passos.

– Minhas ordens, certo? – perguntou ele, tentando ganhar tempo para alcançar Amaranth – Então por que está me atacando?

– Victor queria que você e seus colegas... fossem impedidos, não posso ser desativada... antes de cumprir meus propósitos.

– Então está obedecendo duas pessoas ao mesmo tempo? – falou, mais como uma afirmação do que uma pergunta. Rhea tentou acertá-lo outra vez antes de responder, mas Crawford fora rápido o suficiente para desviar. Infelizmente, isso o colocou longe de Amaranth mais uma vez.

– Sigo ordens de Victor, da maneira que fui projetada... Mas, parece que sofri alguma... interferência. Foi o que ouvi.

– Completamente compreensível – respondeu Crawford, que parecia finalmente estar entendendo o que acontecia, o que melhorara seu humor consideravelmente. Havia acabado de desviar de mais um golpe, e com a cabeça mais clara, rapidamente tirou o canivete suíço de dentro do bolso. Não achara que tivesse sido uma boa escolha de Garrett trazê-lo, mas agora estava começando a mudar de ideia:

– Sinto muito, mas você vai parar aqui.

Defendeu um chute com uma das pernas, o que era mais fácil do que usar os punhos, uma vez que ainda estava calçando as botas de metal. De qualquer forma, em seguida, teve de impedir um soco com um dos braços, o que deixou sua guarda aberta por uma fração de tempo. Rhea o acertou e ele foi jogado para trás. Nesse momento alguém, saindo de uma das inúmeras portas, gritou:

– Ei, projeto de Rhea! – a mulher voltou-se para onde o som vinha.

– Ah – disse ela laconicamente, mas movendo muito depressa em direção a Hector, que a provocara. No instante em que ia alcança-lo, entretanto, o mago desapareceu, reaparecendo perto da mobília.

– Errou!

Crawford já estava de pé naquele momento, e correu em direção à Amaranth. Quando Rhea tentou uma segunda investida contra Hector, foi surpreendida por Alistair, que saíra de outra porta e a acertara imediatamente com uma cadeira que estava perto da janela.

– Sabia que isso ia servir para alguma coisa – disse.

Rhea cambaleou, e deu alguns passos para trás, mas Lilet já havia saído de uma terceira porta, e com um movimento rápido (e a ajuda de um acendedor de lareira) derrubara a mulher no chão. Uma rajada violeta veio do fundo da sala e acertou Rhea. O som metálico das engrenagens cessou e seus olhos apagaram.

– Belo trabalho em equipe – congratulou Crawford, que se aproximava. Amaranth ainda soltava fumaça.

– Está morta? – perguntou Lilet preocupada, olhando para a mulher no chão.

– Não, não – tranquilizou o inventor — Está desligada. Mas nunca iria imaginar que Ophelia estivesse aqui. Na verdade, nunca me passou pela cabeça que eu fosse vê-la de novo.

Todos pareciam muito confusos, então Crawford tentou explicar rapidamente:

– É uma história longa, e acho que não temos tempo para isso, mas talvez eu possa resumi-la... Acho que já disse a vocês porque consegui o título de Lorde de uma maneira incomum: construí um autômato para a Rainha. Alguns anos atrás um oficial havia batido à minha porta com esse pedido. Parece que a Rainha precisava de alguém para lhe fazer companhia depois que sua filha se mudara para fora de Verre. Trabalhei muito tempo para terminar o autômato, que foi batizado de Ophelia. De alguma forma parece que ela foi parar na Rosa Escarlate, e redesenhada para seguir as ordens de Victor. Não consigo imaginar quem poderia ter feito isso, mas parece que Rhea ainda tinha alguma conexão comigo, o que eu não podia prever, nem na época em que ela ficara com a Rainha. De qualquer forma, ela captou em algum momento, uma ordem para destruir o relógio. E foi o que fez. O que me deixa mais confuso é imaginar como ela entrou aqui, já que a havia visto desativada na frente do castelo pouco tempo atrás...

– Creio que essa não seja Rhea de verdade – respondeu Hector – Não há como ninguém além de nós estar nesse lugar, a não ser que tenha vindo de um portal, o que eu duvido que seja o caso dela.

– O que isso significa? – perguntou Alistair.

– Que, provavelmente, isso faz parte da ilusão de De Winter...

Rhea estava imóvel onde caíra, mas a música que estivera tocando calmamente, subitamente começara a crescer. Lilet então percebeu uma coisa também.

– Acabo de entender o que há de tão errado com essa música! – fez uma pausa para por os pensamentos no lugar – Ela esteve se repetindo o tempo todo, em tons diferentes, mas de alguns minutos para cá...

Um som de vidros se quebrando veio da outra extremidade do corredor.

– ...ela mudou – concluiu Lilet.

...

Garrett se viu do lado de fora do castelo em meio aos quatro ou cinco jornalistas que ainda não haviam desistido de registrar os estranhos acontecimentos daquela tarde. A bem da verdade, nenhum deles deveria dispor de um meio de fotografar a cena, já que esse tipo de recurso tinha sido esgotado nos primeiros minutos da confusão. Os que continuavam na entrada não faziam muito além de observar e se proteger de eventuais rajadas de vento ou blocos que se desprendiam do castelo. E, na verdade, Garrett não se importava muito com o que faziam ou deixavam de fazer naquele momento, mas estava bastante indignado com o fato, de por algum motivo, ter ido parar entre eles.

Para piorar, ninguém parecia estar se mexendo.