– Foi uma longa espera para vocês? – uma voz vinda da janela quebrada perguntou. Era bastante grave e se espalhou pelo lugar muito rapidamente, o que dava a impressão de que o som, na verdade, vinha de todos os lugares. O epicentro da voz continuou — Não posso ter certeza daqui...

– Quem está aí? – perguntou Alistair, recuando um passo. Não dava para ver ninguém de onde estavam. O corredor continuava vazio, embora alguma luz chegasse do lado de fora pela abertura no vidro.

– Vocês me chamam de De Winter – a voz ecoou novamente – Há quanto tempo estão presos?

Estavam todos muito confusos para responder. Hector foi o primeiro a reagir:

– Em torno de meia hora, pelo que me parece. O que quer, De Winter? – perguntou ele, olhando para alguns pontos do corredor a procura de seu interlocutor. Era certo que De Winter não se achava realmente ali.

– Ah, Astaroth, não imaginei que estivesse aqui... – a voz espalhou-se mais uma vez, parecendo um pouco surpresa, mas fez-se silêncio depois, com exceção da melodia do relógio, que continuava a tocar incessantemente.

Alistair não gostava nem um pouco daquilo. Rhea, os corredores infinitos, a música que ele reconhecia muito bem — tudo indicava que De Winter estava disposto a colocar-se no caminho para impedir qualquer tentativa de manter o Duque dentro do relógio. O que ele não sabia dizer, era o motivo:

– Por que está nos atrapalhando? – questionou, direcionando-se à janela no fim do corredor. Perguntava-se o que poderia ver pelos vidros quebrados se se aproximasse, mas sua tentativa de chegar até onde ele julgava estar o ponto central da voz foi barrada por um súbito alongamento do corredor, o que colocou a janela em questão há uma boa distância do Lorde. Alistair se sentiu enjoado – Mas o que é isso?!

Os comentários dos outros foram interrompidos por De Winter, que finalmente prosseguiu a falar, e pela forma como continuou, era possível imaginar que ele não tinha visto nem ouvido o que havia acontecido segundos atrás:

– Não posso fazer mais do que isso, não estou perto o suficiente – ele disse – Imagino que tenham tido algumas complicações, mas não posso controlar tudo daqui... — Sua voz era bastante lenta, embora ressoasse por todos os cantos. Houve outra pausa antes que recomeçasse:

– Ouçam com atenção, porque não vou repetir. Chamberlain está prestes a viver outra vez. O que vocês estão ouvindo agora, esse som, é a melodia que o mantinha preso ao relógio. Tenho tentado atrasá-la, mas como podem perceber, é impossível impedi-la de avançar. Enquanto estiverem aqui, entretanto, ela continuará a tocar muito lentamente.

– Quer dizer que o tempo está correndo devagar fora desse lugar? — perguntou Crawford.

– Sim. Mas não tenho certeza se consegui abarcar todo o castelo... — foi a resposta que ouviram. Entretanto, isso significava que, mesmo que estivessem adiando o retorno do Duque do lado de fora, não poderiam fazer muita coisa de onde estavam, principalmente se os corredores continuassem a se distorcer daquela maneira.

– O que espera que façamos aqui? – disse então Alistair, dando voz aos pensamentos do grupo.

De Winter prosseguiu:

– A magia que prende Chamberlain ao relógio está intimamente conectada à essa melodia. Alguém que conhecesse muito bem todos os sons teria poder sobre ela ainda agora. Seria possível fazer com que a música se acelerasse, libertando o Duque mais rapidamente, ou diminuir seu ritmo, atrasando seu final. Alguém, entretanto, com maior capacidade, como Lenore, também seria capaz de revertê-la, tocando-a ao contrário. Não sei dizer se prenderia o Duque novamente no relógio, mas seria o suficiente para enfraquecê-lo, uma vez que tem ligação com a própria alma de Chamberlain. Podem me entender? – a voz silenciou-se por alguns instantes, e depois concluiu — Mas Lenore não está em condições de fazê-lo...

Então De Winter queria que alguém tocasse a música ao contrário para impedir a libertação do Duque. Se aquilo realmente funcionasse, não seria mesmo uma má ideia, pensou Alistair, embora ainda não tivesse certeza de que tipo de pessoa era De Winter, e se ele realmente estava interessado em ajuda-los. Estava pensando sobre o assunto quando percebeu que, mesmo se aquilo tudo fosse verdade, ainda teriam uma porção de problemas para executar o plano. Para começar, quem poderia tocar uma melodia daquelas?

– Acho que Catherine seria capaz de fazer algo desse tipo... – comentou Lilet, quando Alistair expôs sua pergunta – Mas ela, sem dúvida, usaria a música para acelerar o processo.

– Bem, mas se ela é capaz de acelerá-lo porque ainda não o fez? – questionou Crawford em seguida.

– Não acho que essa melodia possa ser tocada por qualquer instrumento... – sugeriu Alistair. A música não se parecia mesmo com nada que ele tivesse ouvido antes.

– Sei qual é o instrumento certo, eu mesmo o dei para Chamberlain quando completei o feitiço – falou Hector pensativo, mas não se aprofundou nesse ponto – Só que ainda precisaríamos dele e de uma pessoa capaz de tocá-lo.

– E de uma partitura, não dá para tocar aleatoriamente... – completou Lilet, e então todos se lembraram de algo que estavam deixando passar. Havia uma partitura desde o começo.

– Catherine está com ela! – Lilet deduziu — É a carta que enviou para Alistair! Ela mesma me disse que esperava que eu decifrasse o significado do papel. Deve ter achado que quando Alistair concordasse em reviver o Duque, eu pudesse ajudá-lo a libertá-lo...

– Isso quer dizer, que essa carta está agora com Garrett – concluiu Crawford, lembrando-se de como o mecânico havia dito ter encontrado “a solução de seus problemas” enquanto segurava uma folha de papel com inscrições estranhas – Parece que Howell o mandou pegá-la...

– Também significa que Catherine acreditava que Lilet podia tocar a partitura, o que nos dá o músico de que precisávamos! – riu Hector.

– Só temos que encontrar o instrumento – concluiu Alistair.

De Winter, que tinha estado em silêncio, disse então:

– O instrumento está neste castelo. Os seguidores de Chamberlain o estiveram guardando, mas alguém o trouxe para cá.

– Então, tudo que temos que fazer é reunir o instrumento, a partitura e o músico, antes que o Duque se liberte? – perguntou Lilet

– Exato – respondeu a voz.

Já que todos haviam entrado em acordo com isso, seria melhor que De Winter desfizesse a ilusão e permitisse que iniciassem a busca o quanto antes. Sabiam que a maior parte dos membros da Rosa estava agora na sacada, e não conseguiriam chegar lá se continuassem presos onde estavam. Antes que a ilusão fosse desfeita, entretanto, Hector perguntou:

– Onde você está de verdade, De Winter?

Todos se calaram outra vez e puderam perceber que a música havia mudado de compasso.

– O que viram em Saint-Claude foi uma tentativa de me comunicar com vocês da mesma maneira como estou fazendo agora — respondeu a voz — Não funcionou bem, como perceberam, já que eu estava a uma distância consideravelmente grande de meus alvos.

– O que quer dizer com isso?

– Que se não conseguirem parar o Duque com a música, estarei aí para vê-lo cair de outra maneira.

...

Victor de Constance apareceu de trás dos muros frontais do castelo. Estava com uma arma de cano médio na mão e com um objeto que Garrett não pôde definir o que era na outra. Já havia se recuperado de qualquer choque que tivesse levado ao ficar preso no portal ou ver o relógio despedaçado, por isso agia com sua costumeira atitude de superioridade outra vez. Repuxou os bigodes em um quase sorriso quando distinguiu o mecânico:

– Parece que seus amigos estão um pouco desesperados – zombou – Falta muito pouco para que Chamberlain volte à vida, você sabe.

Garrett ia dizer para que Victor arranjasse o que fazer, já que parecia estar tão certo sobre o assunto, e o deixasse em paz. Também ia contar sobre o que havia acontecido com algumas pessoas que ele conheceu, que cantaram vitória antes da hora, e usar alguns xingamentos que tinha guardado para indivíduos inoportunos como Victor de Constance. Ia dizer tudo isso e sair dali para a sacada, pois já havia notado que o tempo não estava congelado como imaginara a princípio, mas sim correndo muito lentamente. E embora não soubesse por que ele (ou Victor) não tivessem sido pegos por qualquer feitiço que fosse aquele, pensou que pudesse usar o momento para chegar ao alpendre e empurrar o relógio de lá. Como o encanto de indestrutibilidade já havia se desfeito, era possível que, despedaçando o objeto mais uma vez, a libertação do Duque fosse interrompida. Também não considerava a tarefa muito difícil, mas ele precisava ser rápido, e Victor parecia ter surgido simplesmente para atrasar o serviço.

Estava abrindo a boca para começar a enxotá-lo, quando percebeu o que o homem tinha nas mãos – um item que ficara guardado muito tempo na Fábrica de Chamberlain. Não tinha certeza para que servia, mas ouvira muitas histórias sobre o objeto enquanto trabalhara na Fábrica. Alguns diziam que era um instrumento mágico, que o Duque guardava como recordação daquilo que o mantinha vivo. Parou de deixar o objeto exposto quando começou a perseguir diretamente os membros da Ordem. Garrett achou que aquilo devesse ter alguma utilidade, e talvez Hector pudesse explicar. Infelizmente não tinha tempo para tentar pegá-lo de Victor, e já havia tido uma ideia diferente sobre como derrubaria o relógio lá de cima, embora ela começasse mais ou menos da mesma maneira que o plano anterior:

– Vá arranjar o eu fazer, Constance! Se está tão certo que o Duque vai voltar, para que se dar ao trabalho de vir provocar um velho mecânico? – praguejou.

– Acho que posso passar o tempo me livrando de um traidor – disse ele. Fez menção para ajeitar a cartola que costumava usar, mas como não estivesse com ela no momento, seu movimento foi falho e um pouco cômico. Garrett arrumou o próprio chapéu só pelo prazer de provoca-lo. Victor fez uma careta de desprezo e apontou a arma em direção ao mecânico. Os jornalistas continuavam quase imóveis entre um e outro:

– O quão longe acha que estamos da sacada? – perguntou Garrett, fingindo calcular alguma coisa, enquanto dava alguns passos para o lado, para que a linha de tiro não passasse pelo meio dos cidadãos desavisados de Clarence.

Victor olhou para a sacada instintivamente, e esboçou outro sorriso.

– Ah, Garrett, você é um gênio – disse, e então desviou a arma em direção a Lenore, que estava visível no alto do castelo.

Era o que o mecânico precisava saber. Se Victor achava que o tiro chegaria até alguém na sacada, significava que Garrett só precisava se apossar da arma e esperar que tivesse mira boa o suficiente para conseguir acertar o relógio de onde estava. Em primeiro lugar, então, precisava tirá-la das mãos de Constance.

Logo depois de chegar à essa conclusão, o mecânico subitamente pôde perceber que o tempo estava voltando ao normal. Foi mais rápido nesse reflexo do que Victor, que estava concentrado em mirar no inimigo no castelo. Os jornalistas começaram a se mover e a música a se acelerar, e Victor foi pego de surpresa tanto pela volta do movimento quando por Garrett, que chegou nele a tempo de desviar o tiro para alto e torcer seu pulso, fazendo com que o chefe da guarda derrubasse a arma no chão. Evidentemente que Victor de Constance era apenas autoridade administrativa da Rosa Escarlate, pois parecia não ser muito bom em qualquer tipo de combate.

Garrett derrubou o homem grandalhão com facilidade, e estava mirando na sacada, quando a velocidade dos arredores terminou de voltar à normalidade. Os jornalistas finalmente correram para dentro do bosque, e um deles esbarrou no mecânico no momento em que ele ia atirar, fazendo a bala passar zunindo pelo lado do relógio. Victor ainda se levantava, e não pôde impedir o segundo disparo de Garrett, que finalmente acertou o objeto em cheio, fazendo-o soltar várias lascas de madeira quando foi atingido. Catherine ainda falou alguma coisa, mas Lenore lançou uma rajada de vento em direção ao relógio, que chacoalhou de um lado para o outro. Oliver estava levando mais tempo para voltar a velocidade comum, por isso não podia fazer muita coisa para atrapalhar as investidas. “Ótimo”, pensou Garrett e seu terceiro e último tiro serviu para desequilibrar totalmente o objeto, que caiu da beirada da sacada, se espatifando no jardim. O grito histérico de Catherine se misturou a voz de Victor:

– Achei! – gargalhou ele, segurando um pedaço de papel nas mãos. Garrett ainda demorou alguns segundos para entender o que era aquilo: a carta, o homem havia pego a estranha carta de Catherine sem que ele visse. “Bem, não deve ser de tanta utilidade agora”, pensou Garrett nos poucos momentos de alívio que sentiu antes de perceber que o relógio caído no jardim estava rapidamente reconstruindo-se sozinho. Victor, com a partitura, já corria em direção a ele. Aquilo tudo havia sido inútil.

...

Alistair, Crawford, Lilet e Hector chegaram à sala de estar a tempo de ver o relógio cair e se despedaçar pela segunda vez nos limites do castelo. Uma vez que o medalhão havia sido usado para danificá-lo, o objeto havia perdido sua invulnerabilidade, e os amigos não deixaram de sorrir quando viram aquela inesperada cena no jardim. Infelizmente, não havia se passado um minuto antes que o relógio de pêndulo começasse a se refazer outra vez, aparentemente sem a ajuda de ninguém. A segunda coisa que desceu da sacada foi Lady Catherine, ainda com a chave de corda nas mãos. Não despencou como o relógio, mas aterrissou quase que suavemente no jardim, já que por ser um Século, tinha uma resistência fora do comum. Victor foi em direção a ela, e Garrett gritou:

– Precisamos impedi-los! – mas ele não precisava ter dito aquilo, todos já haviam percebido o que estava acontecendo. Victor estava com uma folha de papel e um objeto estranho nas mãos, que poderiam muito bem ser a partitura e o instrumento que estavam procurando. Ia entregá-los para Catherine, que assim que os tivesse em seu poder, seria capaz de acelerar a libertação do Duque (que também já parecia estar muito próxima do final).

Hector não hesitou e imediatamente abriu um portal atrás de Victor. Lançou-se sobre ele, empurrando-o para dentro do disco e gritando alguma coisa sobre recuperar a partitura. Ambos foram engolidos pelo portal e desapareceram.

Garrett passou correndo pelo restante do grupo, e entrou no castelo dizendo que tinha uma ideia e indicando alguma coisa para Lilet. Alistair e os outros correram em direção a Catherine – o Lorde havia trazido seu florete e Crawford já estava com Amaranth. Lilet também havia recuperado seu guarda-chuva e uma pistola antiga no castelo. Estavam todos prontos para enfrentar o que fosse necessário, mas não tiveram tempo fazer para muita coisa.

Crawford tentara acertar Catherine com um tiro tranquilizante, mas a bala simplesmente ricocheteara em uma parede invisível e explodira em uma das árvores do jardim. Só puderam ver em seguida um raio estourar na sacada onde Lenore e os irmãos Blackwood estavam e uma luz muito forte começar transbordar do relógio. A melodia ficou ensurdecedora, e no momento seguinte uma explosão luminosa jogava tudo e todos que estavam perto do objeto para longe.

No lugar onde o relógio estivera não restava mais nada.