Money.
2 Capítulo 2 - BHP Billiton
A fumaça passeava entre os cabelos de Cássio e iam em direção ao céu. A temperatura havia caído alguns graus, a neve se acumulava nos sapatos, encharcando-os. Olhou para o enorme prédio a sua frente.
Erguia-se vigoroso. Como um trapézio, sua parte superior era quadrada coberta de espelhos. Em sua maioria, era de forma plana até chegar ao arco de entrada, onde se tornava circular. O edifício era robusto, intimidador. Acima do arco lia-se “BHP Billiton – Minerações” em letras vermelhas e imponentes.
Jogou o cigarro longe, respirou fundo com seu pulmão falhado e adentrou ao ninho de cobras.
– Cássio Wentworth! Não imaginei que viria com tanta antecedência – Oliver abrira os braços para abraça-lo. Oliver Ethan era o secretário da direção, trabalhava para Danilo, o falecido pai de Kylie. Cássio nunca simpatizara com o homem. Seus olhos castanhos exalavam ambição e mentiras. Não passava dos quarenta anos, mas era forte como se tivesse vinte e cinco. Seus cabelos estavam penteados para trás, pingando gel – Mas fico feliz que tenha vindo cedo. Como foi o enterro?
– Não fiquei até o enterro, fui embora depois do velório – Oliver gargalhou.
– Você gostava do velho? – Cássio o fuzilou com o olhar – Vamos entrar, já estão todos aí.
Oliver colocou as mãos nas costas de Cássio e o conduziu para uma porta imensa de madeira, abrindo-a. Lá dentro encontrava-se todo o corpo da gerência empresarial, sentados ao redor de uma mesa redonda. Todos num terno risca cinza, o que mudava era a cor da gravata. A sala cheirava a gel, perfumes importados, café e tabaco. O cheiro característico de uma sala de reunião.
Cássio não os conhecia, apenas seu pai sentado a esquerda da mesa. Ele lhe deu um aceno mínimo de cabeça. Oliver indicou o lugar onde Cássio deveria sentar e ficou a frente dos gerentes. Sentia a tensão no ar:
– Infelizmente, nosso diretor geral faleceu ontem, como sabem – um sorriso discretíssimo dançou nos lábios de Oliver – Mas a empresa não deve parar. Temos que decidir quem o substituirá.
– Não há o que decidir – interviu Cássio – Kylie Wentworth é filha de Danilo, e já é maior de idade.
A sala, por um momento, pareceu estar submersa. Os gerentes olhavam de um lado para o outro, como se escolhessem alguém para ir à superfície. O pai de Cássio o encarava com desaprovação:
– Nós não achamos que a garota Wentworth tem condições de controlar essa empresa – disse Oliver.
– Perdão?!
– Entenda, ela está fragilizada com a morte, não tem nenhuma faculdade nem experiências, a única coisa que sabe é matemática de ensino médio.
– Deixem a mãe, então – Oliver juntou as mãos e examinou Cássio.
– Você não acha que a primeira geração dos Wentworth já mandou demais? Nós temos uma geração que precisa ser investida.
– Essa geração seria você, Cássio – o pai de Cássio, Hans, levantara – Nós precisamos de você.
– Não seria o certo. Eu sou primo distante, não tenho direitos.
– A questão aqui não é direitos, é levar a empresa a diante – Oliver olhava para os gerentes – Essa não é a primeira reunião que fazemos desde a morte do nosso diretor. Refletimos, discutimos e chegamos a conclusão de que você seria a opção mais viável – Cássio hesitou.
– Pense filho, isso é o que você sempre quis. Diretor geral de uma empresa de minerações, pense em tudo que conquistará – Hans andava de uma lado para o outro na sala, acompanhado dos olhares dos gerentes.
Cássio levou as mãos a boca. Tinha que escolher.
– Nós temos a sua palavra, Cássio? – perguntou Oliver. Cássio levantou os olhos e desejou ter um cigarro. Havia algo de errado naquela reunião.
Com um estrondo a porta de madeira se abriu. Kylie adentrou o cômodo com os cabelos ruivos espetados e despenteados, abaixo da linha dos olhos haviam enormes olheiras. Ela vestia calças largas de moletom com um casaco de pele. Nada combinada, mas ainda sim, na visão de Cássio, ela estava linda:
– Estou atrasada? – perguntou.
– Atrasada e inadequada, senhorita – Oliver a observou – Dissemos a sua mãe que a dispensamos.
– Sim, sim, eu sei – ela disse, rápida – Mas eu quis vir, o império do meu pai deve ser zelado.
– Realmente – Oliver indicou a cadeira, mas ela simplesmente balançou a cabeça.
– Diga logo, por favor – ela respirou fundo – O que eu devo fazer?
– Kylie, você não é qualificada para diretora geral dessa empresa. Eu espero que entenda. A empresa pede um líder centrado, experiente e principalmente habituado. Acho que você não tem nenhuma dessas qualidades. Pelo menos não no momento.
– Eu entendo – ela baixou o olhar.
– Nós queremos colocar Cássio na presidência – Kylie abriu a boca.
– Por que?
– As qualidades batem.
– Eu não aceitei ainda, Kylie – disse Cássio.
– É – ela o olhou e Cássio sentiu o coração palpitar – Ainda.
– Podemos conversar lá fora? – Cássio perguntou. Kylie o fuzilou com o olhar – Saiam, por favor! – os gerentes, seu pai e Oliver se espantaram – Saiam!
A sala foi domada por um barulho de cadeira se arrastando. Todos saíram aos murmúrios.
Kylie levantou-se e foi até a janela, encostando a mão no vidro. Cássio a seguiu, pegando em seu ombro. A garota saiu de suas mãos:
– Você realmente quer isso tudo – ela fez um gesto giratório com a mão, indicando o edifício.
– Sim – ele respondeu. Sentiu a respiração falhar. Deus, o que ela fazia com ele?
– Não foi uma pergunta, estou afirmando.
– Eu só serei diretor se nem você e nem sua mãe assumirem, daí serei eu.
– Eles não vão deixar nenhuma de nós. Você vai ser diretor.
Kylie alisou os cabelos e fechou os olhos. Um pequeno diamante brotou dali. Ela estava chorando:
– Eu tenho que continuar! – ela disse, entre soluços.
– Você vai – Cássio a pegou pela mão, dando-lhe um abraço caloroso.
A menina praticamente desmontou em seus braços. Estava fria como a neve, parecia que não comia a dias. Era um passarinho com a asa quebrada, e só ele poderia consertá-la. Sentir Kylie tão perto fez seu coração parar na boca. Só Deus sabia o quanto ele a queria. Ela soluçava e tinha espasmos, mas ainda era a sua Kylie.
Ele tomou seu rosto com as mãos:
– Vai ficar tudo bem, eu juro – os olhos de Kylie estavam cansados e imploravam por uma cama.
– Não vai. Você sabe qual foi a causa da morte do meu pai?
– Diga.
– Veneno – o corpo de Kylie pesou nos braços de Cássio novamente, e ele sentia que ela ia desmaiar a qualquer momento – Eles mataram meu pai! – ela gritou.
Cássio abraçou-a novamente:
– Eles farão comigo! Eles querem me matar! – ela ainda gritava.
– Shhh – ele a abraçou mais forte, descendo as mãos para a cintura da garota – Olha aqui.
Os olhos chorosos de Kylie o invadiram:
– Não vou deixar ninguém te machucar!
Sentiu as forças deixarem seu corpo quando os lábios de Kylie tocaram os dele. Ela passou as mãos pelo cabelo do homem, acariciando-os. Ele apertou ainda mais a cintura de Kylie contra seu corpo.
Pegou-a no colo, entrelaçando as pernas da menina em seu tronco. Levou-a até a mesa, onde a colocou sentada, ainda beijando-a.
Sentiu-se aquecido pela primeira vez em dias quando as mãos da garota passearam dentro de sua calça.
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