Money.

1 Capítulo 1 - Liturgia


– Pai, aproximamo-nos de Ti nesta nossa dor, confiando no teu amor por Danilo e por cada um de nós. Sabemos que nem a morte pode separar-nos do teu amor em Jesus Cristo, nosso Senhor – o padre não passava de quarenta e poucos anos, apesar de seus cabelos serem brancos como a neve que caía lá fora. A estola pendia em seu pescoço, colocada sobre os ombros, era de um azul forte. A alva acompanhada da casula eram brancas, com detalhes singelos de dourado – Esta é a nossa fé.

O frio não emanava mais das toneladas de neve que se acumulavam fora da igreja, mas sim do corpo do pai de Kylie, estirado sob um caixão feio de madeira escura. Kylie não conseguia olhar, baixou os olhos para os sapatos.

– Pai, teu Filho chorou sobre o túmulo de Lázaro. Cremos que partilhas da nossa dor, e nos darás forças para suportar a nossa perda.

Colado ao caixão, uma coroa de flores era destaque. Flores brancas amontoadas uma em cima d’outra. Mais a esquerda, uma foto de Danilo lembrava aos presentes a vitalidade de seu sorriso. Espalhadas pelo altar e pelos bancos, velas acesas de cheiro de canela tentavam aquecer o lugar. Impossível. A temperatura parecia cair mais a cada segundo.

Kylie segurou as mãos junto ao peito, trêmula. Os cabelos longos invadiam seu rosto, evitando contado visual com qualquer parente. Fechou os olhos e desejou que tudo acabasse o mais rápido possível. Queria apenas chorar.

Percebeu um movimento ao seu lado. Sua mãe, Jenner, se levantara. Os cabelos ruivos, característicos da família, estavam muito bem presos num coque, alguns fios se recusavam a ficar na presilha. Vestia um vestido preto, até os pés, cobria-lhe todo o peitoral e braços, por cima pendia um grosso casaco de pele, cinza. Nas mãos tinha um papel, amassado e molhado. Jenner andou lentamente até ao altar, como se pudesse desmaiar a qualquer momento. Foi de encontro ao padre, fez uma reverência e tomou-lhe o lugar:

– Danilo... – respirou fortemente – Danilo não era apenas um pai e marido, era um amigo. Nos momentos angustiantes que pairaram sobre nossa família, ele foi agente direto de paz diversas vezes. Sua risada era contagiante e suas palavras, sábias. Nunca viveu nessa Terra homem tão justo e bondoso quanto ele – Cassandra podia ver as lágrimas caindo no papel, sua mãe não iria conseguir – Agradeço a presença de todos.

Um silêncio penetrante caiu sobre a igreja. Por alguns minutos, era como se todos no altar tivessem segurado a respiração, apenas para tentar ouvir os flocos de neve caindo nas calçadas e derretendo instantaneamente.

A liturgia continuou por algumas horas, o que pareceu dias para Kylie. Não queria ouvir mais nenhuma palavra fúnebre, nem sua mãe soluçando, nem os parentes cochichando. Queria voltar para casa e encontrar seu pai na cadeira de balanço, pelo menos por uma última vez.

O corpo adormecido a sua frente queria dizer-lhe algo:

– Ky? – a voz rouca e fraca de sua mãe a acordou – Vamos? – os olhos estavam cansados e vermelhos, o batom roxo em seus lábios derretera pros lados e estavam borrados.

– Vamos pra casa? – perguntou.

– Não, não ainda. Vamos conversar com uns parentes primeiro, depois vamos ao enterro.

– Não! – Kylie falou, mais alto do que pretendia. A mãe a repreendeu com o olhar – Eu quero ir pra casa.

– Kylie, seu pai iria...

– Meu pai está morto! – Jenner estava atônita – Eu não quero ver o corpo dele sendo enterrado e coberto por quilos de terra, neve e larvas.

– A alma dele está com Deus.

– Faça-o devolver para mim, então.

Kylie levantou-se, fazendo um som estridente. Sentiu os olhares dos familiares em suas costas quando abriu os portões da igreja e foi em direção a neve pálida de Melbourne.

Sem poder se locomover, Ky decidiu esperar lá fora. Estava congelando. Apesar do pesadíssimo casaco de lã, o frio penetrava em seus ossos facilmente. Os lábios arroxeados e os braços trêmulos imploravam por fogo ou chocolate quente. Os sapatos estavam atolados na neve. Observou o céu. Cinza, quase preto, apesar de não passar do meio dia. Bolinhas de neve se aconchegavam em seu nariz, deixando-o vermelho. Sentiu um cheiro forte de tabaco.

Olhou para o lado. Cássio estava lá, com um cigarro na boca. Cássio era um primo distante, talvez de terceiro grau. Não tinha mais que vinte sete anos, mas Cass achava que um câncer já estava instalado com sucesso em seus pulmões:

– Uma droga, né? – ele a observou dos pés a cabeça com seus olhos azuis, como sempre fazia. O cigarro dançava da esquerda para direita em seus lábios – A liturgia, as pessoas, a morte. Difícil de lidar.

Kylie não tinha palavras, apenas assentiu. Cássio ainda a olhava. Os cabelos morenos estavam para trás, os músculos de seu braço quase saltavam do casaco apertado que usava. A constante observação estava irritando Kylie:

– Perdão, quer alguma coisa? – ela perguntou e ele apenas sorriu.

– Só vim ver como você estava mesmo.

– Ótimo! – Kylie fez um movimento com a cabeça, indicando o portão da igreja.

– Você quer mesmo ficar sozinha? – o homem deu uma tragada longa, a fumaça logo dissipou – Com quantos anos está, Kylie?

– 18 – ele suspirou – Por que?

– Já tem a maioridade, já pode herdar a empresa de seu pai – Kylie levantou os olhos para os olhos dele – Sua mãe ficaria na gerência, mas como você está crescida...

– Não me importo com isso.

– Os diretores virão atrás de você, sabe? Ainda hoje, se tiver muito azar. Seu pai deixou um império e muitas pessoas o querem.

– Que fiquem! – exclamou.

– De qualquer forma, é uma coisa a se pensar.

– Eu não quero pensar, não quero a empresa do meu pai e não quero o império dele, eu o quero de volta!

– Olhe, sinto muito pela sua perda, mas a única relíquia que restou de seu pai é aquela impresa bilionária e ele iria querer que você seguisse com ela – os olhos de Cássio estavam elétricos, radiavam impulsos e interferências.

Kylie o analisou por alguns instantes:

– Quem quer o império do meu pai? – Cássio se distanciou um pouco da porta quando os familiares começaram a sair. Ficou de frente a Kylie, como um prédio.

– Muita gente – ele deu uma última tragada e jogou um cigarro na neve, apagando-o – Inclusive eu.