Monarquia Indesejada
6 Trabalho
Notas iniciais
Nunca tive muita experiência com mulheres, em todos esses meus 17 anos. Minha mãe mal ficava no palácio e meus primos moravam do outro lado do país. Quer dizer, do outro lado do país onde eu vivia, pois as pessoas que encontrei nessa manhã não falavam o meu idioma.
Era como se sentir um estranho no ninho, embora estivesse vestindo as mesmas roupas que eles; rasgadas, puídas e que não cobriam muita coisa. A não ser a bermuda, que parecia ter sido uma calça há muito tempo. Até agora não entendia como elas foram trocadas sem eu perceber. Provavelmente, fizerem enquanto estava desacordado.
Após tentar conversar com a adolescente na manhã passada, voltei à cabana de onde havia saído atordoado. A cabeça ainda latejava de dor, e à medida que retornava à cama – se é que poderia chama-la assim – tudo ao redor foi escurecendo aos poucos.
Apoiei-me na parede de taipa e sentei no pano sujo e fedido, enrugando o nariz quando o cheiro subiu até minhas narinas.
Queria comer algo, mas como pediria a alguém que, aparentemente, nem falava o mesmo idioma que eu? Afinal de contas, onde eu estava?
Um murmurinho de conversas indistintas foi se aproximando, e até pensei em levantar para me aproximar da abertura da cabana, e ver se captava alguma palavra que pudesse reconhecer, porém a adolescente da manhã anterior apareceu equilibrando uma bandeja de tronco de árvore. E então, o maravilhoso cheiro de comida encontrou meu nariz, fazendo meu estômago roncar ainda mais alto do que da outra vez.
— Eu posso comer? – perguntei pausadamente, para ver se ela entendia o que eu estava querendo dizer, enquanto ela largava a bandeja em cima do tronco de uma árvore cortada ao meio.
Ela me encarou por alguns segundos, depois saiu em disparada pelo mesmo lugar por onde entrara.
Olhei desconfiado para aquela direção e, como ninguém mais apareceu, não resisti à fome e avancei rudemente contra a bandeja. Nesse momento, até esqueci as regras de etiqueta enraizadas ao longo de toda a minha vida. Se meu pai, ou até mesmo minha mãe me visse agora, torceriam o nariz para a falta de modos com que eu comia.
Logo eu que desejei fugir do palácio, acabei sendo tendo meu desejo realizado à força, simplesmente porque odiava a forma como cuidavam da minha vida e das minhas obrigações como um futuro monarca. Quando voltar – se é que voltarei algum dia – tratarei de valorizar mais o que perdi.
Minha realidade agora era completamente diferente do que estava habituado.
Não havia talheres, então comia com as mãos os pedaços do que parecia ser cordeiro e frango, que sempre rejeitei à mesa do Palácio. O melhor tempero era a fome, e rejeitar a comida que me era servida seria tolice.
Após comer tudo o que havia na bandeja, e beber o que parecia ser suco de uva, deitei no pano fino, apoiando a cabeça debaixo do braço para observar o teto mal trançado.
— Ei, você – uma voz firme e infantil chamou, com sotaque indistinto.
Desviei os olhos rapidamente e encontrei a mesma adolescente, em pé ao lado de uma coluna de sustentação, localizada bem no centro da cabana.
Maravilhado por saber que ela me entendia e que não ficaria só, respondi de imediato.
— Então você fala a mesma língua que eu.
Ignorando a minha reação, ela caminhou pisando duro e eu me encolhi.
— Você tem trabalho a fazer – informou, puxando a gola da minha camiseta sem mangas.
Com o puxão que ela deu, quase rasgou o que ainda restara de pano. Até senti que o tecido se desmancharia sob seus dedos sujos, revelando assim minhas costas. Portanto, instintivamente, puxei-o de volta.
Ela me olhou com certa altivez, rosnou algo que não entendi e esperou.
— Não tenho todo o tempo do mundo. Ou levanta agora ou farei com que levante de outra forma – ameaçou, fechando as mãos em punhos ao lado do corpo franzino.
— Calma, calma – pedi, levantando. Algo em sua voz mostrava que ela cumpriria, sem pensar duas vezes, a ameaça velada acompanhada do olhar firme.
Em todo o momento, ela me seguia com o olhar. Havia algo de fúria, misturado com curiosidade ao mesmo tempo em que eu me deslocava pela cabana quente. Talvez o sol estivesse a pino, e se logo se tornaria insuportável permanecer aqui dentro.
Encontrava-me desnorteado na hora e no local onde haviam me jogado. A única certeza era que as pessoas não me recebiam com muita felicidade, por onde passava enquanto seguia a adolescente pela estreita viela entre as cabanas. Na metade dele, ela apanhou um graveto longo e grosso, que havia numa das últimas.
— Posso saber seu nome? – perguntei, no caminho que ela guiava e apontava, com o graveto, um poço. Ele era até parecido com o do meu sonho, a diferença era que não havia plantações de trigo ao redor.
— Isso não lhe interessa – rosnou, batendo com o graveto na minha cabeça e reagi gemendo, por ter doído. – Não tem que saber meu nome.
— As pessoas se comunicam – testei, espiando seu rosto sujo. – Eu, por exemplo, me chamo Oliver – me apresentei, esticando minha mão.
Ela encarou minha mão com estranheza, franziu o cenho pelo que pareceram longos minutos, e continuou a caminhar até o poço.
Sem graça por ter sido ignorado, recolhi minha mão esticada e a segui, arrastando meus pés pela terra árida.
— Sua função será irrigar toda a plantação de café – ela instruiu, apontando para o norte com o graveto – depois o milharal – apontou para o sul – e em seguida, colherá as frutas do pomar.
Ri, mas assim que percebi seu olhar severo, parei e fingi que o sol incomodava meus olhos.
— Eu não sei fazer nada disso – confessei, olhando ao redor. – Nunca colhi uma fruta, nem irriguei uma planta sequer.
Ela se aproximou devagar, e conforme chegava, amedrontado com seu olhar eu me afastava. Chegou o ponto em que meus pés descalços encostaram no poço de pedras, não restando nenhuma rota de fuga.
— Vai aprender – afirmou, sem espaço para questionamentos. Até tentei argumentar, mas ela ameaçou levantar o graveto para bater em minhas pernas.
— Não posso garantir isso – falei, sem pensar.
— Acho bom que faça sua parte, senão ficará sem comer.
Como ficarei sem comer, se tenho toda uma plantação de frutas ao redor?
— E nem pense em comer algo – avisou, lendo meus pensamentos. – Você não ficará um minuto sozinho, porque estarei por perto.
Olhei à volta, buscando alguma forma de fugir. Se ao menos tomasse o graveto e o usasse como espada, poderia facilmente me defender de qualquer ataque. Tive aulas de como usá-las e faria o que fosse preciso para me defender.
Porém, observando bem o terreno de terra plana e com plantações que balançavam contra o vento, percebi uma cerca, onde homens descansavam e faziam a ronda de tempos em tempos, sustentando armas de fogo nas mãos e nos ombros.
— Acho que você está sem saída, não é? – perguntou, pela primeira vez com ar de ironia e sentou-se no rochedo ao lado do poço. – Está esperando o que para começar a regar? As plantas não vão fazer isso por você!
Me arrastei sem vontade até o poço e olhei para o balde de ferro ali pendurado. Havia uma manivela corroída pelo tempo e eu pensei em como aquilo machucaria minhas mãos. Além de enferrujada, logo percebi que estava quente, quando tentei girá-la.
— Ai – gritei, retirando-a rapidamente enquanto balançava a mão.
— Não seja maricas! – ralhou, espetando minha mão com o graveto.
— Fácil falar quando se está sentada – resmunguei.
— Se eu ouvir mais uma reclamação, vou jogar você dentro desse poço – ameaçou.
Olhei novamente para os lados, para o poço e para a mandona adolescente, que lembrava meu pai. No entanto, ele era menos autoritário.
Testei novamente a manivela e girei-a, e com isso o balde desceu lentamente até atingir o fundo do poço. Em seguida, peguei a corda com força e balancei até conseguir pegar água. Quando percebi o peso do balde, puxei-o pra cima e sorri, embora estivesse pesado e escorresse suor na testa devido ao esforço.
Assim que ele chegou à superfície, ela se pôs ao meu lado e entregou um recipiente vazio.
— Use isso – instruiu, chutando o regador de plástico amarelado.
— Obrigado – falei, derramando água nele.
Ela assentiu, apoiou as mãos na cintura, e voltou a sentar-se.
Com as mãos tremendo e jorrando água conforme carregava o regador até a plantação, e sendo repreendido durante todo o caminho, refleti sobre minha vida no Palácio. Nunca precisei carregar nada pesado lá, já que sempre havia alguém para essa tarefa. Ao meu redor haviam guardas, criadas e qualquer outro serviçal, como meu pai costumava chamar, para fazê-lo por mim. Eu mal sabia esquentar água, que dirá regar plantas.
— Não seja molenga – reclamou ela, assim que repousei o regador no chão para secar a testa com a barra da camiseta.
— Espere um pouco – pedi, apoiando as mãos nos joelhos.
Respirei fundo, molhei uma delas e joguei no rosto, para me refrescar. E logo depois, comecei a regar as mudas de plantas sem saber se estava fazendo o certo ou não, pois não fazia ideia da quantidade adequada. Porém, ela fez questão de me lembrar, usando o graveto para me repreender.
E assim foi a minha primeira tarde, sem luxo e com trabalho até quase o anoitecer, quando não se podia mais enxergar, devido à falta de luz elétrica no lugar onde vim parar.
Cansado e com as mãos doloridas, tive que retornar à minha cabana sem a opção de tomar um banho para aliviar o calor, pois disse que era algo para quem acordava cedo e trabalhava. Até então, eu só havia trabalhado.
Amanhã levantarei o mais cedo possível para garantir o que é meu por direito, e buscarei alguma forma de tomar aquele graveto de suas mãos. Eu era um príncipe, embora odiasse admitir, não um maricas como ela me chamou durante toda a tarde.
Precisava pensar em formas de vencer o que parecia ser meu inimigo.
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