Notas iniciais
Desculpem a demora.

O que podia ser mais relaxante do que um banho logo ao amanhecer?

A água transparente do riacho contornava silenciosamente os rochedos pontiagudos cobertos por musgo e resquícios de folhas, que caíam das copas das árvores ao redor. O frescor do líquido gelado, em contato com a pele ardida, aliviava temporariamente o incômodo dos braços avermelhados e por isso os esticava completamente, a fim de alcançar algumas das folhas que a água varria das rochas.

Nesta manhã, meu corpo todo ardia devido a exposição excessiva ao sol da tarde anterior e, embora tenha tentado argumentar com a mandona, não consegui fazê-la mudar de ideia. Na realidade, não foi nem um diálogo.

— Estou ardido – expliquei, mostrando meus braços, rosto e o que a bermuda não cobriu, avermelhados. Dormir também não foi fácil.

— Aqui todos trabalham – rosnou, dando fim a conversa.

Antes de vir até o riacho, tentei outra abordagem. Pedi a ela que me guiasse até aqui, onde banhava-me com cuidado, evitando os tons mais avermelhados da pele extremamente sensível.

E lá estava ela, sentada sobre a pedra arredonda, a mais afastada do curso das águas. O famigerado graveto passava de uma mão a outra, enquanto seus olhos sondavam atentamente à frente, como se esperasse que um monstro saltasse a qualquer instante e a surpreendesse. Da forma que se portava, não haveria como.

Parei de jogar água no rosto para observar melhor a postura em que se mantinha. Os olhos concentrados viajavam entre mim e o curso das águas, o graveto protetoramente escondendo os órgãos vitais e os pés prontos para saltar a qualquer momento, como um animal selvagem.

Esbocei um sorriso quando me aproximei e, mesmo assim, ela ainda me encarava com cautela, através do cenho franzido. Instantes depois de permanecer parado à beira do riacho, ela abandonou a postura defensiva e alerta, pondo de lado o ramo e resmungou algo que não foi possível entender.

Em todo o tempo em que ficávamos muito perto, ela reclamava algo que eu não entendia. Julgava que era uma reclamação pelo tom de voz usava, a forma com que seus lábios se mexiam, seguido de um estalar de língua.

Quem me dera se o idioma fosse o mesmo que o meu, no entanto, ela agia como se fosse.

Prendi a respiração e me ajoelhei, mergulhando a outra metade do corpo na água transparente, demorando mais tempo do que o necessário no fundo do córrego. Quando voltei à superfície, os cachos compridos que caíam gotas grossas sobre os ombros, esconderam meus olhos. Por trás deles, percebi um sorriso diminuto manifestar-se no rosto da autoritária vigia, que o fez desaparecer na mesma velocidade com que o fez surgir, escondendo-o em uma tosse forçada.

Joguei a cabeça para trás, afastando-o.

— Já terminou o seu banho de princesa? – ela perguntou, fincando o graveto no chão molhado, que fez salpicar lama em meus olhos.

Não fui rápido o suficiente para evitar isso e o que me restava era apenas limpá-los. Remoí internamente diversas palavras ofensivas ao mesmo tempo em que fitava seu sorriso orgulhoso. Pela primeira vez a vi sorrir realmente, sem esconder a satisfação de se divertir com isso.

Se não fosse bonito de se ver, certamente faria algo para que ele sumisse. No entanto, não consegui disfarçar o esboço do meu. Foi automático, mesmo que o motivo da piada fosse eu.

Percebendo que também me divertia, ela logo voltou à carranca dura e fria. O graveto no qual se apoiava prontamente veio parar em meu peito nu, cutucando a mancha mais avermelhada em todo o restante do corpo.

— Levarei você para cuidar disso aí – ela cutucou a mancha brevemente. – Vamos – ordenou, puxando para perto do seu corpo o apoio inseparável.

— Claro, você quem manda – obedeci, saindo do riacho para apanhar a camiseta que lavei e deixei secando, pendurada na árvore.

Caminhamos sem pressa até a aldeia e dessa vez, sentindo o vento quente bater em minhas costas, relaxei os ombros ardidos, soltando um suspiro longo e gemidos de dor enquanto afastava os mosquitos que picavam meus braços. Até sorri quando ela parou de nos liderar no amplo caminho entre as plantações de café, para se pôr ao meu lado, agarrando firmemente seu instrumento de repreensão aos meus atos falhos.

O sol começava a surgir bem acima de nós, atrapalhando minha visão.

— Não seja durona – pedi, protegendo os olhos com a mão.

— Cala a boca – exigiu, sem humor e sem uma troca de olhar. – Meu nome é Moa – declarou, instantes depois após observar o caminho tortuoso à frente.

Resisti aos meus bons modos que me foram ensinados e apenas assenti, deixando escapar as mãos para trás. Foi bom finalmente saber o nome da prepotente garota, que se mantinha firme até mesmo em uma apresentação informal. A segurança na voz dela seria apreciada pelo meu pai.

— E o meu é Elliot – informei, interrompendo o silêncio da curta caminhada.

Fui recompensado com um aceno de cabeça durante o nosso passeio de volta à aldeia, onde ela instruiu que não demorasse já que haveria trabalho a ser realizado no restante da manhã.

Sem reclamar, contornei todas as cabanas em direção a minha, para beber o restante da água que me trouxeram antes de deixarmos a vila. Acordei com muita sede e, pensando em racionalizar, economizei alguns goles para quando retornasse sedento por um pouco mais.

No momento em que atravessei meu dormitório, encontrei uma refeição que aguardava-me em uma bandeja de madeira seca que nada mais era do que pedaços de pão duro ao lado de uma nova moringa com água fresca. Imediatamente, levei-a à boca dando longos, porém prudentes goles.

Se não fosse pela nova moringa que trouxeram, teria sido difícil engolir meu café da manhã, que antes mesmo de dar a última tragada foi interrompido por Moa. Em pé ao lado da porta, ela aguardava de braços cruzados, porém um sorriso escapulia nos lábios rosados, iluminando seu rosto mal limpo. Quando me aproximei, deixando para trás as migalhas da refeição terminada, percebi algumas sardas na ponta do seu nariz que nunca reparara.

Para não perder o pouco do que ela demonstrou nessa manhã, desviei a atenção do seu rosto para a profunda cicatriz rosada em seu braço, na forma de “v” mal feito.

— Cicatriz de batalha – ela respondeu à minha pergunta silenciosa, escondendo a marca com a mão. – Já está pronto?

Pigarreei, limpando a garganta.

— Claro.

Com o graveto sob o braço, que ela apanhou ao lado da porta do meu quarto, caminhamos em silêncio ao local das plantações.

Hoje o trabalho foi diferente. Ao invés de molhar a terra, cultivei o terreno amplo com sementes de girassol, tomate, alface e morango, empurrando com a pá os montes de terra que aguardavam ao lado do buraco de um palmo de profundidade. Em todo o tempo, fui supervisionado pelo olhar curioso de Moa, que não falou mais durante toda a manhã.

À tarde, crianças que não aparentavam ter mais do que dez anos, trouxeram um punhado de comida e água, enrolados em panos coloridos que foram usados como uma imitação de piquenique debaixo da grande macieira. Em cima da toalha improvisada, acomodaram os alimentos das travessas e panelas de barro que espalhavam vapor quando destampadas.

Um menino mais novo, que ficou para trás por ser o menor deles, equilibrava com dificuldade uma comprida moringa nas mãozinhas, derramando líquido viscoso pelo gramado amarelado. O mais velho deles, que acompanhava atentamente o trabalho do pequeno, o repreendia a todo momento, embora ele parecesse dar o seu melhor.

Logo que eles se organizaram, uma campainha soou e os homens que trabalhavam comigo se amontoaram ruidosamente debaixo da árvore. À essa distância, pude perceber que eles escolhiam os melhores pedaços de frango, carne vermelha e peixe, quase não restando nada para que eu comesse, pois Moa foi uma das primeiras a correr em direção à refeição. Ela parecia, sem sombra de dúvidas, ter um cargo de hierarquia muito importante. Do outro lado, bem afastada de onde todos devoravam o conteúdo dos pratos, ela comia o seu em silêncio e sozinha.

— Isso parece bem gostoso – murmurei, observando como cada um devorava o conteúdo dos pratos de barro, sem talheres.

— E se você ficar só olhando, não vai provar – rosnou um deles, abocanhando um pedaço da coxa que segurava na mão oleosa.

Analisei ao redor, tentando encontrar algum pedaço ali, pois só restaram ossos e fragmentos de carne rejeitada.

Franzindo o nariz de nojo, escolhi o que havia sido esquecido e coloquei dentro do prato de barro. Uma árvore, não mais do que cem metros daqui, balançava suas folhas contra o vento agradável da tarde, e para lá me encaminhei.

Sentei, encostando-me no tronco da árvore.

Com resquícios de terra sob as unhas, comi lentamente para durar mais e satisfazer meu estômago faminto a pequena peça de frango, que mal cabia na palma da mão. Da forma com que me alimentava, em pouco tempo ficaria magro e a barriga que cultivei ao longo de uma vida sedentária, desapareceria em instantes.

— Isso basta? – Moa, que até então não falara mais comigo, perguntou.

— Basta – respondi, após mastigar rapidamente e engolir. Comer com as mãos não era inevitável, falar de boa cheia sim.

— Entendo – falou, sentando-se. Com o canto do olho, notei que ela escolhera a raiz mais distante de mim. – Pensei que talvez quisesse um pouco.

— Um pouco de quê? – levantei a cabeça, encontrando um copo com água fresca depositado sobre a terra seca. – Obrigado – disse sorrindo, antes de beber em um só gole o conteúdo do recipiente feito de barro.

— Você precisa estar hidratado para continuar a trabalhar – confessou, levando embora meu sorriso junto com a água que tomava.

Assenti, carregando o copo e prato vazios para a pilha de louça suja, onde já não havia mais ninguém. Os camponeses descansavam na sombra da grande cerejeira, ao lado da macieira.

Durante o restante da tarde até o momento em que a lua deixou seu posto, me empenhei em continuar meu trabalho. Não olhei para os lados, nem para onde pressentia ser observado atentamente, durante toda a tarde por Moa. Afundei meus pensamentos e a saudade de casa junto com as sementes que arava a terra fértil.

Notas finais
Espero que gostem! ♥