Monarc

27 Melissa Calle


Melissa correu para atender assim que Lindsay foi anunciada, estava cansada de passar a tarde ao lado de Margaret, a governanta soberba, era sábado e ela precisava espairecer, se preocupou em andar mais devagar quando teve que passar pelo rei Lúcio nos corredores, que a olhou de cima a baixo em reprovação, Melissa conteve o revirar de olhos até virar o corredor, então quando chegou ao saguão observou uma cena que havia se tornado rara, Felipe e Lindsay conversando, ambos sorriam e o clima tenso que estava habituada não pairava sobre eles, se aproximou devagar com medo de estragar tudo.

— Lindsay, que bom que conseguiu vir.

— Não te deixaria sozinha numa tarde tão linda! E por que não trouxe sua bolsa? Não vamos ficar aqui!

— Mas eu te chamei para um café.

— Mel, eu não aguento mais tomar café, eu preciso de gente, emoção, vamos, pegue sua bolsa e vamos!

Felipe riu observando Lindsay estalar os dedos e Mel arquear a sobrancelha, mas a namorada de seu tio estava tão enjoada do castelo que sequer discutiu, apenas foi atrás de sua bolsa:

— Ela realmente deve estar afim de sair!

— Querido, é uma necessidade fisiológica. Só mesmo vocês para viverem enclausurados aqui.

— Não é como se tivesse escolha.

— Espero que seu reinado mude as coisas por aqui, seria bom umas mudanças.

— Quando eu achar a noiva, quem sabe?

— Você e Helena não estão juntos?

Felipe não teve chance de responder, quando Melissa retornou agora com um batom vermelho e sua bolsa:

— Pronto Lindsay, vamos!

— Vamos Mel, até depois, querido!

Lindsay se despediu com um beijo no rosto de Felipe que o deixou mais abalado do que gostaria de admitir, Mel enganchou no braço de Lindsay e seguiram para o carro da amiga:

— Onde vamos?

— Estava pensando em darmos um pulo na praia, ficar de bobeira a beira mar.

— Eu não trouxe biquíni.

— Eu comprei no caminho para nós duas, não se preocupe, sua obrigação hoje é apenas relaxar.

— Eu acho que não irei discutir com você.

— Sério? A vida no castelo está mesmo te sugando então.

— Tanto quanto a vida de dona de casa para você.

— As coisas melhoraram depois que começamos a dormir separados mais vezes, mas ainda assim… Queria que ele fizesse mais das coisas que eu gosto. Mas eu tive uma vitória essa semana, iremos acampar!

— Sério? Brandon vai acampar? Você realmente é uma vitoriosa!

— Obrigada! Mas me conte, quais as novidades? Não quero saber só das coisas chatas do castelo.

— Mas minha vida tem sido somente as coisas chatas do castelo, Lindsay.

— Sério? Nossa, preciso de novas amigas.

Melissa riu e revirou os olhos, quando chegaram na praia se trocaram no carro antes de descer, Lindsay teve bom gosto ao escolher os biquínis e saídas de praia, Mel estava esperando algo menos…coberto? Ficou aliviada que tinham um tamanho adequado.

As amigas compraram águas de coco e caminharam pela praia, Lindsay contou da sua formatura da faculdade que estava chegando, finalmente poderia lecionar, sobre as aventuras com Henry e Caio que Brandon não quis os acompanhar, tanto nas trilhas quanto nos saltos de asa delta, tanto na tirolesa, tanto na canoagem e diversas outras atividades que Melissa se sentia cansada somente de ouvir.

Melissa se sentia cada vez mais sem graça enquanto ouvia a amiga, ela apesar de estar num relacionamento tão monótono quanto o seu, fizera coisas sozinha que a animava, se distraia, não se sentia presa, e enquanto isso Melissa só tinha a notícia que achara um anel de noivado nas coisas de Gabriel.

— Uau! Ele vai te pedir em casamento? Está empolgada?

— Posso ser sincera?

— Sempre, não precisa nem perguntar.

— Eu acho que fui precipitada em começar esse relacionamento, eu não sinto as coisas tão intensamente quanto ele.

— Você não gosta dele?

— Não, Lindsay, não é isso, eu adoro Gabriel, ele é atencioso, carinhoso, faz eu me sentir segura e amada.

— Ou seja, você não gosta dele, mas gosta de como ele gosta de você.

— Você não vai me achar uma vaca egoísta se eu falar que é isso?

— Claro que não, Mel! É normal, você emendou um relacionamento atrás do outro, nem cuidou dos traumas do último.

— Ótimo, você não me acha egoísta, me acha perturbada.

— Não estou querendo te ofender Mel, só estou dizendo que se você não falar para o Gabriel ir devagar e cuidar dessa cabecinha, daqui a pouco vocês estão completando bodas de ouro e você ainda vai se sentir incomodada com algo.

— Eu odeio quando você tem razão.

— Eu não entendo como você não se acostuma.

Lindsay piscou para ela e sorriu enquanto continuavam caminhando, conversaram sobre o trabalho, sobre os eventos, sobre a formatura de alguns alunos chegando, inclusive a irmã mais nova de Lindsay, conversaram sobre a ONG e Melissa se ofereceu para ir mais vezes, precisava de uma ocupação além do trabalho, quando Lindsay contou que Daniel às vezes ia lá, queria retribuir a “sorte” que teve com a oficina, e ele e Lindsay estavam virando amigos.

— Você não se incomoda, não é? Porque eu não quero dormir com ele nem nada disso.

— Mesmo se quisesse Lindsay, nós não temos nada. Acho que quem escolhe as amizades dele é ele mesmo.

— É que eu fiquei preocupada por causa daquele caso de vocês, vai que você achasse estranho.

— Não acho, pode ficar tranquila.

— Que bom! Me sinto mais aliviada, porque eu ia ficar triste de não sermos mais amigos, ele é muito legal.

— Você acha isso de todo mundo.

— Eu gosto de pessoas, o que posso fazer?

Melissa riu e balançou a cabeça, não era capaz de compreender a amiga nesse quesito.

Após passar o dia com Lindsay, a mesma a deixou no castelo, onde Gabriel a aguardava lendo um livro no jardim, Melissa adorava sua expressão séria enquanto lia, era muito sexy, quando se aproximou o mesmo ergueu a cabeça para olhá-la e abriu o familiar sorriso:

— Boa noite, srita. Calle, se divertiu hoje?

— O dia foi deveras agradável Sr. Bressiane.

— Me deleito com essa notícia minha dama.

Melissa revirou os olhos enquanto ria e tomava um lugar ao lado dele no banco olhando para as flores a frente:

— Muitos compromissos hoje?

— Muitas reuniões com diversos reis que querem juntar suas filhas ao príncipe, mas o mesmo não demonstrou interesse em nenhuma das alianças.

— Não seria melhor ele se casar por amor?

— Seria, mas sabemos que a pessoa que ele ama está indisponível e jamais seguiria as regras de uma rainha.

— São muitas?

— Sim, é uma vida inteira dedicada à monarquia, um dos motivos que Lúcio não se casou novamente.

— Que tenso! Deve ser muita pressão.

— Sim, infelizmente. Mas é assim que as coisas funcionam.

— E por que vocês não mudam se é vocês que estão no comando?

— Porque são tradições, é dessa forma a séculos, seria desonrar a memória de diversos que vieram antes de nós.

— Tá bom, desculpe. Não está mais aqui quem falou.

— Não se preocupe, entendo que de fora deve ser estranho nossos costumes.

— Sim, tudo parece muito fechado, meio retrógrado.

— Eu sou um homem meio retrógrado, eu gosto dessas tradições.

— Eu sei, e também queria falar com você sobre isso. Gabriel… Não me peça em casamento ainda.

Gabriel arregalou os olhos antes de voltar para sua expressão neutra, pigarreando ao buscar as palavras certas, porém Melissa continuou:

— Olha, tudo está acontecendo muito rápido, e eu gosto de como estamos agora e não quero estragar, eu achei o anel nas suas coisas e agora não é o momento, talvez mais para frente, podemos continuar como estamos?

Gabriel não demonstrou estar desapontado, porém ele sempre foi muito bom em disfarçar o que sentia:

— Claro Mel, desculpe se a fiz sentir pressionada. Iremos mais devagar.

— Obrigada.

Melissa sorriu se sentindo verdadeiramente grata pela compreensão, e Gabriel não demonstrava, porém estava aliviado, já que aquele anel que a mesma havia encontrado não era para ela, era uma lembrança de um coração quebrado anos atrás, mas não era o momento para falar sobre isso. Ambos apenas se aninharam para conversar, variando os assuntos sobre o livro de Gabriel e o dia de Melissa, enquanto observavam as flores e as estrelas ao seu redor.