Monarc
26 Helena Underwood
Helena estava acordada de madrugada esperando Nicholas que dissera que passaria vê-la depois do seu turno, a única maior que sua frustração no momento era sua preocupação, sabendo que realmente podia acontecer algo grave com ele neste trabalho, a porta do seu quarto abriu devagar e ela virou rápido deixando seu pincel cair no chão, os ombros caíram ao perceber que era seu pai:
— Helena, ainda está acordada? Está se sentindo bem?
— Insônia. Decidi pintar para relaxar.
Enquanto se abaixava para pegar o pincel, seu pai contemplava seu quadro, se aproximou com as mãos no bolso do roupão, ela havia pintado uma floresta escura, um caminho que parecia sem saída, seu pai suspirou e balançou a cabeça, apenas beijou sua cabeça antes de se afastar:
— Diga para Nicholas começar a vir de dia. Melhor do que você ficar acordada até tão tarde… Eu te dou uma folga do estúdio se precisarem.
Então ele se afastou, e Helena ficou olhando seu quadro, sentia falta dos quadros mais alegres, porém não conseguia pintar nada alegre com o aperto no coração que sentia no momento, se afastou do quadro e foi para o closet pegando os antigos, seus favoritos ainda eram do casal dançando na chuva que pintou no seu primeiro dia em Londres e o casal se beijando na pista de skate, olhar aquele quadro fez lágrimas inesperadas surgirem em seus olhos, quando a porta abriu de novo, era Nicholas, com o rosto machucado a lateral do corpo, não levou muito tempo até Helena perceber o sangue, correu para a porta e a trancou atrás dele então pegou o kit de primeiro socorros e deu o pano para ele não emitir sons e seu pai não visitá-los neste momento, ela já estava habituada a remendar o namorado quando precisava, porém não acostumava com o sentimento que isso lhe causava, parecia uma nova dor toda vez que ele surgia dessa forma em seu quarto.
— Qual foi o motivo agora?
Nicholas tirou o pano da boca agora que a ferida estava curada e Helena apenas passava remédio para não inflamar por cima:
— Dívida.
— De novo? O mesmo da última vez?
— Não, aquele…
Helena ergueu os olhos e Nicholas não conseguia encará-la enquanto respondia:
— Aquele meu pai mandou matar.
Helena engoliu seco e sentou na cama pegando outra gaze para cuidar do rosto de Noah agora, ele olhava para frente, na direção de seu closet aberto com seus quadros, apenas desviou o assunto:
— Eu adoro o quadro da chuva. O que te inspirou?
— Se eu te falar, você vai gostar menos dele.
Helena pressionou a gaze com remédio sobre a sobrancelha dele que agora era obrigado a olhar para ela:
— Foi na época que você gostava do cowboy?
— Mais ou menos, foi no primeiro dia aqui, depois que saímos pela cidade.
— Pelo quadro parece ter sido bem romântico.
— Quem sabe poderia ter sido, é uma lembrança meio embaçada agora.
— Helena…
— Sim, Nicholas?
— Não gosto dos quadros que está pintando agora, parece tão… infeliz.
— São apenas quadros, eles não querem dizer nada.
— Na nossa primeira conversa você disse que arte era uma forma de expressão mal compreendida.
— Talvez essa seja outra lembrança embaçada.
Nicholas tirou a mão dela de seu rosto se afastando para olhá-la nos olhos:
— Sou eu que estou causando essa infelicidade? Que… tirei o amarelo de seus quadros?
— Nicholas, você é o amarelo de meus quadros.
— Você não usa essa cor faz meses.
— Nós estamos numa fase ruim, mas vai passar, não é? Falta pouco para Ryan se formar agora.
Nicholas olhou para baixo, não falou nada, então o coração de Helena voltou a disparar.
— Você não vai parar quando ele se formar, não é?
— Eu não posso ainda, preciso pensar numa forma de ganhar dinheiro.
— Eu posso ajudar vocês a arrumarem empregos, meu pai tem contatos, Lindy também ajudaria, eles namoram.
— Eu não posso deixar Ryan saber no que estamos envolvidos, ele jamais me perdoaria.
— E eu preciso perdoar toda vez?
— Não foi o que eu quis dizer.
— Eu… — Helena colocou a gaze na palma da mão de Noah e virou encarando o seu closet e o quadro que estava pintando, era um contraste tão claro, tão gritante, as lágrimas encheram seus olhos antes de continuar: — Eu acho que é melhor pararmos com isso, Noah. Você não sabe quando vai chegar a hora certa e eu não aguento mais…
— Eu achei que você tinha dito que aguentava esperar.
— Eu não imaginei que magoaria tanto meu pai nesse processo, você sabia que nós mal conversamos agora? Só sobre trabalho. Porque fora isso, tudo que eu falo para ele são mentiras.
— Eu não queria causar isso entre vocês, Helena. Eu só estou tentando proteger meu irmão.
— Eu sei Noah, e eu nunca vou pedir para você me escolher no lugar do seu irmão, porque seria absurdo, mas eu sinto falta do meu pai, eu sinto falta dos meus amigos e da vida midiática idiota.
— Achei que o tempo que passa com Felipe estava ajudando nisso. Vocês saem em todos os sites e revistas.
— Eu não quero ser vista como a futura rainha, namorada secreta do príncipe, eu queria ser vista com você! Queria sair com você e meus amigos nessa cidade!
— Helena, eu também quero, mas é…
— Perigoso, arriscado, eu sei. Estou cansada de saber. Nem meus seguranças entendem o tanto que eu dispenso eles. Meu pai já cansou de me perguntar a respeito.
— Helena, olha como eu cheguei aqui hoje, eu não me perdoaria se fosse você no meu lugar.
— E eu não me perdoaria se você estivesse no meu lugar, Nicholas, eu te amo, tanto que dói, mas não é nosso momento agora, se em algum momento… Se no futuro acontecer… Se você sair dessa vida, me procure, mas eu não consigo mais lidar com isso.
— Eu também amo você.
Helena sorriu tristemente e Nicholas sequer conseguiu devolver o sorriso, apenas respirou fundo, o que fez soltar um baixo gemido de dor e levantou, acariciou o rosto de Helena descendo para o ombro e acompanhou o colar que havia dado de presente e ela não tirava até o pingente de rosa com um rubi no meio:
— Deveria pintar o cabelo de vermelho de novo, sempre combinou com você, ruivinha.
Helena engoliu seco se segurando para não chorar, e o tempo pareceu passar em câmara lenta enquanto Nicholas se afastava até a porta do quarto, quando finalmente escutou a porta da sala fechando, deitou na sua cama e desabou, sentia que jamais iria conseguir parar de chorar, seu pai correu até seu quarto se assustando com o sangue pingado no chão, mas achou que não era o melhor momento para questionar, apenas ajeitou Helena e colocou sua cabeça deitada em seu colo enquanto cantava sua música favorita para ela dormir, a vigiando a noite toda.
Na manhã seguinte, Helena acordou com seu pai trazendo café na cama e o quarto estava limpo, não sabia como explicar toda aquela situação, estava realmente cansada de mentir, seu pai se sentou na sua frente sem falar uma palavra, apenas lhe entregou a comida.
— Pai, eu…
— Helena, eu só preciso que você coma. Não precisa me falar nada.
— Obrigada… Nós terminamos.
— Eu não consigo mentir que estou triste filha, não acho que aquele garoto te fazia bem.
Helena fez o que pode em uma tentativa de sorriso e começou a comer suas panquecas forçando a comida a descer, não tinha apetite, mas o olhar preocupado de seu pai foi suficiente para comer tudo.
— Eu vou sentir falta dele.
— Por que terminaram?
Sem mentir dessa vez, Helena falou:
— Não conseguiríamos equilibrar nossas vidas para ficar juntos, ritmos diferentes.
— Por causa do trabalho dele à noite? Ele aprontou alguma com você?
— Não pai, ele nunca me fez nada. Nicholas não é esse tipo. Só não conseguia ficar em paz com ele até tão tarde fora, é perigoso.
— Ele se machucou muito feio?
— Sim, briga no trabalho.
— E por que ele não busca outra coisa?
— Preocupado com o irmão, não quer que o pai o coloque para trabalhar na mesma coisa.
— E eles não podem falar não?
— Nem todos os pais são compreensivos como você.
— Sinto muito, mas quando é para ser, as pessoas se encontram na hora certa. Quem sabe?
— Não precisa fingir que iria gostar disso.
— Eu não preciso fingir para você, eu só quero minha garotinha feliz.
— Eu vou ficar. Eu vou ficar…
— Que tal um dia de folga com seu velho hoje? Podemos ir ao parque de diversões e comer algodão doce.
— Eu não tenho mais doze anos.
— Isso é um não?
— Isso é um eu quero sorvete e não algodão doce, saí daqui para eu me arrumar.
— Eu também vou, te espero na sala.
Jared beijou sua testa e levou a bandeja ao sair, Helena voltou a chorar, dessa vez de alívio, havia conseguido ser sincera durante toda uma conversa, era como se um peso saísse de seus ombros, quando entrou no banheiro pegou as coisas que usava para seu cabelo antes, e o descoloriu e pintou de vermelho novamente, quando se olhou no espelho ao terminar a escova, era como se ver pela primeira vez em tanto tempo, quase conseguiu sorrir então foi encontrar seu pai, que abriu um sorriso mostrando os dentes ao vê-la:
— Sempre gostei mais do seu cabelo assim.
— É, parece mais natural não?
Jared riu brevemente e abraçou seu ombro enquanto saíam, ao passarem pelo saguão Helena viu Nicholas saindo com sua moto antes de chegarem ao carro de seu pai, seus olhos se encontraram compartilhando a mesma dor, mas ambos ignoraram aquele breve momento, os seguranças estranharam quando Helena deixou eles acompanhando sem nenhuma orientação de manter tanto de distância, o que foi bom, pois ao descerem no parque havia diversos paparazzis questionando sobre o princípe, sobre o novo álbum de Jared, e outras perguntas que não entenderam, ambos ignoravam e seguiram em frente, seu pai havia fechado o parque para os dois, então tiveram um dia tranquilo, entre carrinho bate-bate, montanha russa e barco pirata pode esquecer tudo que a afligia, e quando encerraram o dia tomando sorvete na roda gigante, Helena se sentia um pouco melhor, recuperando seu melhor amigo, sentia que havia tomado a decisão certa, com a dor ela lidaria depois. Nesse momento tudo que importava era ela e seu pai observando as estrelas.
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