Mon Petit Prince
18 Parte 18
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Era tudo muito simples: precisavam fazer a droga do carro pegar, para saírem sem destino – longe de Laura – e beber até cansar.
Era só isso, certo?
Beber, dirigir, aquela coisa toda de sempre... precisavam acabar com aquele motor ruim para que Jesse pudesse exigir que o Tio Bill liberasse o dinheiro para comprar outro.
O problema era que não queria fazer isso sozinho, então também precisava de John para dirigir o carro ruim e acabar com o motor, o que se provou algo muito simples, resolvido com um telefonema rápido do celular de Sherri, ao lado de Laura, a deixando maluca.
Ela e John não se falavam desde o término do namoro há mais ou menos um ano e meio, mas a garota continuava perdidamente apaixonada por ele, o que tornava os telefonemas para marcar passeios de melhores amigos pra sempre a coisa mais engraçada das quintas e sextas-feiras de Jesse, porque claro, como o bom garoto católico que era, ele fazia isso bem ao lado dela, de preferência com o viva-voz do celular ligado.
-Não... funciona! – John exclamou, desistindo da tentativa de dar partida no carro, enquanto Jesse abastecia o banco de trás com uma caixa de isopor, gelo e garrafas de vinho.
-Funciona! Tenta mais um pouco que ele funciona. – riu, se jogando no banco do passageiro de couro branco, fechando a porta do cadillac velho do seu tio. Seria uma experiência e tanto.
Gostava dessas idéias malucas que ele e John tinham nas sextas-feiras ao telefone, quando estavam tentando decidir o que fazer porque bem, morar em cidades separadas não os deixava totalmente separados, só por cinco dias da semana, às vezes só quatro. E não ter John em Levittown era um inferno, porque não era como se Jesse pudesse ser engraçado com os outros, ou como se conseguisse se abrir e ser ele mesmo quando os outros estavam por perto, era estranho, parecia que só com John ele poderia relaxar e dar risada, e fazer piadinhas sem sentido para os outros, mas que eram as piadas internas que mais os fazia rir.
Tudo bem, tudo bem, havia Vinnie, a criança que virou mascote do time de futebol da McArthur de tanto que insistiu para ficar perto dos amigos. Era bem mais novo que os outros, mas era um dos únicos que conseguia fazer Jesse se sentir em casa.
Tentou levar ele e John para saírem juntos, mas os dois não se deram exatamente bem, não brigaram, mas o clima foi estranho o tempo todo, e de alguma forma, Vinnie estava sempre o abraçando, o agarrando, se sentando em seu colo, e John parecia altamente irritado com essas demonstrações de afeto do mais novo.
Preferia não pensar nisso.
-Merda de carro! – John deu um soco no painel. Girou a chave na ignição mais uma vez, e o motor soltou um ronco fraco, arrancando uma expressão de nojo de John. –Que lixo, cara.
-Eu disse que era um carro ruim. – Jesse avisou, esticando o braço para uma garrafa de vinho, a abrindo. –Agora dirija, John! Dirija! – exclamou empolgado. –Hoje nós somos reis, e livres!
John riu, saindo com o carro, começando a acelerar hesitante, quem saberia se o carro não ia se desfazer na metade do caminho?
-Você sabe, né? Que você não está fazendo o menor sentido... – disse, tomando a garrafa das mãos de Jesse, virando um gole.
-E quem precisa fazer sentido? Huh? – perguntou, olhando a garrafa de vinho –Você está aqui, e logo vamos pra faculdade, cada um pra uma cidade bem distante...
John trocou a marcha, seguindo com o carro. Se tinha algo sobre o qual não queria falar, era a ida para a faculdade. Tudo bem, tinham o verão inteiro para falar sobre o assunto, se despedir. Poderiam fazer em um mês tudo o que não fizeram a vida inteira, porque depois disso, nada mais importava.
Seriam adultos.
As noites em claro em pontes e rodovias, fugas em estações de trem depois da aula para se ver, tardes se enroscando em cordas no parquinho, joelhos ralados dos tombos de skate, brigas com os meninos, expulsões de bares por serem menores de idade, festas infindáveis na casa de pessoas que nunca viram, shows em garagens, telefonemas de madrugada para comentar sobre aquela banda que é boa e acabaram de descobrir... as discussões sobre The Smiths e Modest Mouse, tudo isso ficaria para trás. Tudo isso seria um monte de lembranças escritas em diários, cadernos de escola, bilhetes passados em aulas que agora se encontravam amarelecidos dentro de livros que John nem lembrava mais onde estavam.
Mas havia aquele exemplar de O Pequeno Príncipe na cabeceira, aquele que ele sabia que não deveria, mas que estava relendo. Aquele no qual encontrou rabiscos desconexos de mensagens que tentava passar para Jesse durante a aula.
Aquele que ele não emprestou para sua irmã pelo simples fato da declaração escrita na última página, por duas crianças de nove anos que não tinham a menor noção do quanto aquilo poderia acabar com suas vidas. E John poderia recitar cada palavra escrita ali, mas não o faria, nunca em voz alta, porque sabia que qualquer coisa que fosse dita, poderia estragar tudo que foi construído até então. Diziam que segredos não fazem amigos, mas aquilo não era considerado segredo, certo?
Era uma proteção.
Era seguro manter aquelas palavras subentendidas, omitir declarações e confissões que nunca poderiam fazer um ao outro.
Era injusto, ele sabia, mas quem disse que a vida era justa?
Havia a curva na rodovia, John a pegou, e depois a segunda, e parou o carro, recebendo o olhar questionador de Jesse.
-Nós não vamos beber? – perguntou. A noite começava a cair, e se queria ficar bêbados, melhor que fosse agora do que em algum lugar do qual não saberiam sair...
...não que a bebedeira fosse os tornar mais sábios.
Mas pelo menos John sabia voltar para casa da Bellport Avenue.
Abriu uma garrafa de vinho, vendo os olhos de Jesse correr pelo vidro da frente do carro, olhando muito além do capô alaranjado, para o mar embaixo deles.
-Eu vou ficar anos na faculdade, John. – reclamou, fazendo uma expressão facial que demonstrava toda a sua falta de amor aos estudos. Ele apenas riu.
-Medicina é uma área admirável, e você conseguiu bolsa! – deu um soquinho no ombro do mais novo, vendo o bico nos lábios dele se formando. –Jesse, você vai pra Pittsburg, vai se divertir horrores abrindo cadáveres...
Jesse riu.
-Eu serei um simples enfermeiro, não um médico especialista e...
-Vai abrir cadáveres do mesmo jeito. – John arqueou as sobrancelhas para o amigo, que torceu o nariz, se voltando para a frente, provavelmente procurando algum jeito de provocar John.
-Pelo menos não vou passar o resto dos meus dias montando sites. – sorriu, vendo John tomar sossegadamente um gole de vinho. –Vai acabar com a sua vista ficar tanto tempo na frente do computador.
John riu.
-Eu terei um enfermeiro pra cuidar de mim. – piscou, vendo Jesse corar, mas corresponder ao sorriso.
-Espero que seja legal lá em Ohio... – comentou Jesse. -...mas vamos beber por enquanto.
John tinha a leve impressão que a tendência alcoólatra do amigo era herança de seu pai, mas por mais que isso o preocupasse, no momento ele sabia que não conseguiria levar o assunto a sério.
Jesse se jogou na cama de casal do apartamento pequeno em Baldwin, arrancando a camisa social preta pra fora da calça de mesma cor, abrindo os braços, o celular em mãos.
-John! – chamou, vendo o mais velho surgir na porta, a samisa branca já metade aberta, o olhar embriagado e cansado e o sorriso de lábios indicando que Jesse provavelmente estava um tanto engraçado. Ergueu a máquina, tirou uma foto.
-Você sabe que isso provavelmente vai parar no seu álbum de casamento, não é? – riu, vendo o resultado da foto no visor, se sentando – um tanto desengonçado pela quantidade de álcool em seu sangue – na beirada livre da cama.
-Sei, sei. – Jesse respondeu impaciente, gesticulando para ele. –Onde será que a Sherri está? – perguntou.
-Comemorando, ué!? Amanhã vocês se casam, adeus liberdade. – respondeu, se deitando na cama, passando foto a foto da noite no visor da máquina, vendo os vídeos curtos que Brian fez no karaokê, as fotos com o resto da turma, a foto de Vinnie no colo de Jesse – e quase apagou essa “sem querer” – a foto dos dois saindo do bar, tão bêbados que John não sabia nem para que lado deveria chamar um táxi.
Aliás, iria passar aquelas fotos para seu computador pela manhã.
Seria nostálgico olhar aquilo em alguns anos, quando Jesse e Sherri tivessem seu primeiro filho, quando ele estivesse vivendo longe de qualquer lugar que o lembrasse ‘casa’, quando conseguisse assumir o que era.
John sabia que, diferente de Jesse, nunca se casaria, nem com Laura, nem com Stacy.
Nem com ninguém.
Escutou os sons do teclado do celular de Jesse, que provavelmente estava ligando para Sherri. Acabariam dormindo ali mesmo – não que tivessem muitas horas para dormir – já que John levaria Jesse e as alianças para a igreja na noite seguinte. Era o padrinho.
Todos previam que ele seria, até ele mesmo.
Mas não estava preparado para assistir àquele casamento, porque provavelmente acabaria tendo um breakdown muito feio quando visse o carro de Jesse e Sherri partindo rumo ao aeroporto. E não teria como explicar aquilo. Porque as pessoas correm o risco de chorar um pouco quando se deixam cativar...
Nunca.
-Sim, estou no apartamento do John. – riu. –Não, Sherri... o Chad? – riu mais.
Jesse havia se levantado, estava próximo à janela, apoiado à parede, o olhando enquanto falava com a noiva do outro lado. John esperava que Sherri não estivesse com outro, ou outros, e que estivesse somente comemorando com as amigas, como Jesse fez. Era engraçado como Jesse havia respeitado Sherri, não havia dado importância a nenhuma outra mulher que tentou algo com ele durante a noite, e não foram poucas.
Vinnie e Brian, inclusive, tentaram alugar uma garota de programa para um showzinho particular para Jesse, mas o rapaz se recusou a receber a moça.
Admirável.
Outro não teria negado.
Pousou a máquina digital de Jesse no criado-mudo, começando a tirar os sapatos com os próprios pés. Tudo girava e ele não estava em condições de se levantar e tomar banho e se trocar. Duvidava que Jesse se importasse em dormir na mesma cama que um bêbado quando ele próprio sequer conseguia completar uma frase.
A cama deu um solavanco, quando Jesse se jogou nela, ajoelhado ao lado de John, sorrindo com o celular em mãos.
-A Sherri quer falar com você. – colocou o celular sobre o peito de John, se deitando ao seu lado, o braço esquerdo esticado para a cabeceira da cama, a ponta dos dedos mexendo no cabelo de John enquanto este pegava o celular. Sherri provavelmente queria confirmar a fidelidade de Jesse.
-Alô? – disse devagar, ouvindo ao fundo a música alta, as garotas falando, copos se batendo e coisas do tipo. Sherri ria.
-John? É o John? – perguntou. Havia alguém com ela, e havia um rosto roçando seu pescoço enquanto tentava parecer sóbrio para Sherri ao telefone.
-Sim! Está tudo bem? – perguntou, sem se incomodar com os lábios dando beijinhos fracos na parte exposta de seu peito pela camisa semi-aberta.
Isso não estava certo, mas ele não estava muito inclinado a se importar.
-Tudo, tudo ótimo! Nunca bebi tanto na minha vida. Falei com o Jesse, contei que, olha só, o Chad que se formou comigo veio! – riu alto –Eu contei que eu estou com o Chad, e deixei ele ficar com você. Mas só hoje, John.
John sentiu vontade de agradecer, ou de gritar, não sabia qual era mais forte no momento. Estava um tanto confuso com a decisão de Sherri, e provavelmente bem feliz, ou triste...
...estava tudo tão complicado de se decidir.
-Por que? – foi a única coisa coerente que conseguiu perguntar quando percebeu Jesse sentado com uma perna de cada lado de seu corpo, os olhos fixos nos dele, uma mão espalmada em seu peito.
-Porque eu sei que vocês sempre quiseram. E porque ele prometeu que tira uma foto de um beijo pra mim. – riu. –Preciso ir! Divirtam-se!
John não conseguiu responder antes que ela desligasse, e nem teria conseguido, porque Jesse tirou o celular de sua mão, o fechou e jogou para algum lugar.
-Ela fala demais, né? – riu, saindo de cima dele. Caminhou até a porta, a fechou, tomou o tempo de acender o abajour antes de voltar a se acomodar na cama. John não havia se mexido muito, apenas havia apoiado a cabeça nos travesseiros, duvidando muito de que fariam de fato alguma coisa. Haviam sido dezenas – sim, dezenas! – de chances que preferiram disperdiçar, se declaravam um para o outro todos os dias, para apenas deixar pra lá logo em seguida. John sabia o que Jesse sentia, assim como ele sabia sobre John, porque bastavam olhares, e as palavras cortadas. Porque bastava o modo como se tocavam.
Ninguém precisava dizer nada, Sherri havia percebido também. Provavelmente todos já sabiam que eles estavam enganando a todo mundo, porque queriam estar juntos, mas não podiam.
Jesse se esticou por cima dele, pegou a máquina digital e sorriu, tirando uma foto surpresa de John.
-O que...? – perguntou, esfregando os olhos por trás das lentes dos óculos, ouvindo Jesse rir.
-Você fica bonitinho quando está pensando. – respondeu, se inclinando, puxando os óculos de John pela armação, os pousando no criado-mudo.
-Eu te amo, Jess. – disse fraquinho, quando Jesse colocou a máquina no modo de filmagem, focando os dois, sorrindo.
-Eu também te amo, Johnny. – trilhou o contorno do rosto do rapaz com a mão livre, se inclinou, pousando os lábios brevemente sobre os dele. –E se não for hoje, não será nunca mais. – disse, virando o próprio rosto para a câmera. –Sherri, eu sei que você pediu foto, mas eu vou tremer, então eu vou filmar pra compensar o...
Jesse nunca chegou a terminar a frase.
John o havia puxado pela nuca, fazendo seus lábios se chocarem violentamente, suas línguas se tocando em movimentos similares, os dentes de Jesse se fechando ocasionalmente sobre o lábio inferior de John...
O loiro até tentou pousar a máquina no criado mudo, mas não conseguiu, deixou que ela caísse para o tapete fofo do quarto, ainda ligada. A lente estava focada no pé da cama, depois na camisa preta, seguida de uma branca que foram jogadas ao chão, e se a bateria durasse um pouco mais, a câmera teria capturado, além das calças, o som das respirações pesadas, e gemidinhos fracos que ambos emitiam...
John não sabia se conseguiria se conter por muito tempo com Jesse em cima dele, roupas e consciência totalmente descartadas, porque no momento eram só os dois. Somente eles e mais nada, mais ninguém.
Ele gritou quando Jesse o invadiu, o rosto pousado na curva do pescoço do mais novo e as unhas se cravando com a dor que sentiu nos ombros do menor, que havia parado de se mexer e o acariciava.
-Shh... vai passar. Relaxa. – disse baixinho, depositando um beijo na testa do moreno, acariciando seu rosto. John poderia ter dito alguma coisa, mas não o fez. Contemplar o olhar apaixonado de Jesse bastava para que ele se esquecesse da dor em algumas áreas do seu corpo e relaxasse o bastante para que Jesse começasse a se movimentar. Não demorou para que os corpos suados e cansados caíssem um sobre o outro, deixando que o sono os levasse.
Haviam sido quatro longos anos de faculdade, e Jesse sabia que voltar a Levittown não o faria muito bem. Sabia que a primeira coisa que faria de verdade quando chegasse na cidade, seria visitar o túmulo de seus pais. Apesar de tudo, ele havia aprendido que deveria perdoar, e não conseguia realmente odiar seu pai.
Sim, ele era um assassino, sim, ele mereceu a morte na prisão, e sim, ele traumatizou seus filhos, estragou a vida de sua família, mas ele não era uma má pessoa quando não bebia.
Geralmente, era um ótimo pai.
E Jesse o amava.
Então, toda vez que ia visitar sua mãe, passava na floricultura, e comprava flores para seu pai também. E depois que o visitava, ia à igreja, rezava por ambos, porque sabia que sua mãe também o perdoaria, mesmo que seus irmãos nunca o fizessem.
Sabia que era difícil.
E agora, estava no pequeno playground da South Shore Christian School, esperando que quem havia marcado com ele, finalmente aparecesse. Já estava com quase meia hora de atraso, e ele realmente não queria se manter esperando.
Aquela escola trazia lembranças demais, coisas demais, que ele não sabia se queria reviver em sua mente. Seus olhos se fixaram – quase sem querer – sobre o banco de um dos balanços com a pintura descascada. Ele sabia o que encontraria se descascasse a pintura mais um pouco, porque ele nunca seria capaz de esquecer onde foi que escreveu. Se abaixou na frente do balanço, raspou um pouco com a unha, deixando camada de tinta pularem, as puxando com os dedos, vendo a tinta gasta do canetão ficar aparente, primeiro seu nome, um coração feito muito torto, e o nome de John.
Não conteve o riso alto, se repreendendo mentalmente logo em seguida: alguém poderia aparecer e não o reconhecer como ex-aluno, e achar que era um pervertido, destruidor de parquinhos.
Assoprou o resto da tinta, ouvindo as correntes do balanço gemerem com o peso de alguém se apoiando nelas, os joelhos cutucando suas costas, e se ele não estivesse com tanta saudade, ele sequer se viraria para olhar. Mas o fez, se jogando sobre o corpo magro de John, sorrindo.
-Quanto tempo... – disse quando se afastaram.
-Tempo demais. – John disse, fitando o balanço, o bravo envolvendo a cintura do mais baixo. –E isso foi...
-...há treze anos. – completou Jesse. Nos conhecemos há treze anos, John. E nenhuma pessoa grande jamais compreenderá que isso tenha tanta importância. –disse simplesmente, puxando John para longe dali.
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