Mon Petit Prince

19 Parte 19 - Final


Notas iniciais

Final.

Eu amei escrever essa fic, e eu espero que tenham gostado de ler. =)

Muito, muito obrigada a todos que a acompanharam até agora.

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O seu reflexo na vitrine indicava a sua falta de coragem para o que estava prestes a fazer. Não havia como fazer o que era preciso sem acabar magoando alguém, e por mais que isso fosse doer nele, e que conviver com aquela mentira estivesse o matando aos poucos, ele não poderia suportar muito mais. Apesar de tudo, ele ainda tinha aquele pequeno fio de esperança de que talvez ela fosse compreender, e aceitar tudo da melhor maneira possível, mas havia a possibilidade de que tudo se acabasse naquele instante, e se dali, ela saísse correndo para contar a todo mundo o crápola que ele sabia que ele era, então de certa forma ele ficaria agradecido por não ter precisado contar ele mesmo.

Do outro lado do vidro grosso da vitrine, caixas de chocolate estavam dispostas sobre os balcões, as pessoas servindo-se de trufas e bom bom, e bolos, e tortas. Sempre se encontravam ali na porta, e sempre acabavam lá dentro se entupindo de doces, mas ele tinha a impressão de que hoje precisaria de mais do que doces para se sentir bem. Olhou o celular por impulso, vendo que ainda estava cedo para que ela chegasse, e se perguntou se deveria se levantar daquele banco na vitrine da doceria e sair comprar um presente de despedida.

Em seguida achou isso um tanto patético de sua parte, e desistiu.

Ele a havia metido nisso, e estava na hora de consertar, e receber as conseqüências de seus atos de braços abertos, afinal, ele deveria ter pensado em tudo que poderia acontecer antes, e não agora que havia essa bomba prestes a explodir. Já tinha tudo planejadinho em mente, havia preparado discursos, e pensado sobre quais argumentos poderia falhar, e criou argumentos sobre argumentos, e já sabia que acabaria com a razão.

Mas agora, que estava ali, já não tinha certeza se conseguiria dizer tudo que precisava. Ou se conseguiria se desculpar o bastante para ser de fato perdoado.

Seres humanos eram complexos demais.

Gostava de seus coputadores e códigos.

-Demorei? – a garota ruiva de olhos azuis perguntou, se sentando ao lado dele no banco, os fios vermelhos descendo pelas costas, por cima da camiseta justa do Radiohead. Vestia um jeans surrado e tênis. Um contraste com John e sua roupa social.

-Não, não demorou. – disse abrindo e fechando o slide do celular, sorrindo fraco ao receber um beijo no rosto magro.

Não conseguia a olhar.

-Aconteceu alguma coisa, não foi? – perguntou Stacy, se inclinando para o olhar. John sacudiu negativamente a cabeça, entreabrindo os lábios para começar a falar, inspirando tudo que podia, reunindo a coragem que havia conseguido na noite anterior.

-Vem acontecendo, na verdade. – suspirou – Eu te adoro, Stacy. Nós estamos noivos, e saber que você gosta de mim é maravilhoso, eu me sinto o cara mais sortudo do mundo...

-...mas? – perguntou ela. Estava calma. Bem diferente de Laura, que quando foram terminar teve um ataque hostérico e quebros quase todos os pratos de casa tentando o atingir.

-Mas eu não te amo. Eu sou... – respirou fundo. –Eu...

-Eu sei o que você é. – disse ela sem o olhar, fitando o chão. –Droga, John. Eu te amo. Tanto que chega a doer. Mas eu acho que eu entendo.

Ele queria a abraçar, mas ele sabia que se o fizesse, seria pior. Se a olhasse já não teria coragem de terminar tudo como estava fazendo naquele momento.

Gostava dela, gostou desde o primeiro momento, mas sabia que a diferença de idade era grande, e que os pais da garota ficariam um tanto hesitantes em permitir que eles ficassem juntos, mas acabou acontecendo, e no começo achava que estava de fato perdidamente apaixonado pela DuPree caçula.

Mas estava errado.

Não adiantava estar com ela, olhar em seus olhos e comparar a diferença do azul dos dela para os de Jesse, e nem pensar que preferia quando ela estava com o cabelo castanho claro. E não adiantava tentar evitar de pensar em Jesse quando estivesse com ela, porque era inútil.

-Desculpa. –murmurou.

-Você não tem que se desculpar. Eu sempre imaginei se você me contaria algum dia que...

-Que eu amo o Jesse? – completou, sentindo no silêncio dela que provavelmente não era o que ela iria dizer. –Stacy? – perguntou, se virando para encontrar a garota o fitando com uma expressão pensativa, quieta.

-É, também. – assentiu. –Não, na verdade, não. –estava de fato, confusa. –Eu imaginava se algum dia você iria me contar que é gay. Mas, agora que você mencionou que está terminando comigo por causa do Jesse, eu fiquei preocupada.

E então finalmente Stacy estava começando a entender a magnitude de sua confissão. E isso poderia gerar muito mais problemas do que era necessário.

-Eu não vou tentar separar os dois, Stacy! – sentiu a necessidade de avisar. – O Jesse continua sendo meu melhor amigo, e eu continuarei sendo o padrinho de casamento dele e da Sherri. Eu não pretendo fazer nada a respeito.

Stacy o olhou indignada, estreitando os olhos.

-Como assim, John? Você está apaixonado pelo seu melhor amigo, que – oi! – nós dois sabemos que é louco por você, que quase enlouqueceu a Laura só pra ver vocês separados e que só não me afogou na piscina de casa ainda porque sabe que minha irmã o mataria, e você vem me dizer que não pretende fazer nada a respeito? Não vai nem parar o casamento e dizer: “Jesse, eu te amo!”?

John riu, precisou rir.

Não conseguia acreditar que estava recebendo esse tipo de conselho da sua mais recente ex-namorada. E não conseguia levar a sério que ela estivesse tramando contra o casamento da própria irmã. Além de tudo...

-Ele já sabe, Stacy. Ele sempre soube. E eu sei o que ele sente por mim, também. – disse, sorrindo. –Mas nunca vai acontecer, sabe? Nunca.

John se sentou na beirada da cama, vestindo a calça da noite anterior mesmo, observando o corpo jogado do outro lado, o cabelo bagunçado, dormindo. Uma fina linha de luz vinha das cortinas entreabertas, cortando a cama pela metade, fazendo brilhar no chão o pequeno objeto da noite anterior que acabou esquecido no tapete. Caminhou com dificuldade até a máquina, se abaixou a pegando e se dirigindo para a sala. Estava difícil caminhar com a dor que sentia, mas esperava que aquilo fosse passar logo, em algumas horas teria que estar impecavelmente de pé no altar de uma igreja, vendo Jesse ser tomado dele para sempre.

Não pensaria nisso agora.

Encontrou na mesa de centro da sala a capa vermelha da máquina, a levando consigo para dentro do pequeno escritório do apartamento bagunçado, pegando as baterias extra e o cabo USB.

Terminou de passar as fotos – sentado sobre duas almofadas na poltrona – e clicou o play, começando a ver o vídeo. Não deveria estar com tanta vontade de pedir para que Jesse não se casasse, não deveria estar pensando que talvez aquele vídeo o convencesse de que os dois deveriam ficar juntos.

Não queria que Sherri sofresse, não queria estragar o casamento todo, não queria que Jesse fosse embora... tinha tanta coisa que não queria.

Desligou o computador, sentindo o estômago girar com o começo do desespero que se aflorava a cada segundo, porque pensar que não teria mais Jesse, que em um ano seu melhor amigo poderia ser pai, que tudo estava errado, era desesperador. Se fosse pensar em lutar por Jesse, tinha apenas algumas horas para bolar uma estratégia, e essa estratégia teria que ser perfeita, porque se falhasse, as conseqüências seriam eternas. Um conhecido nó na garganta começou a se formar, e ele não queria, não podia, não iria chorar agora.

Precisava se recompor, e reunir coragem para pedir para Jesse ficar.

Era o dia da aula mais chata de todos os tempos, e Jesse estava inclinado a simplesmente se levantar e mandar a droga da faculdade à merda. Não estava interessado em músculos e partes do corpo, não hoje. Não às oito da manhã quando ele havia dormido menos de três horas naquela noite. Não quando seu colega do lado estava desenhando na carteira porque simplesmente não conseguia se manter atento a nada do que o professor dizia e explicava. Não quando ele estava pensando que talvez nesse momento John estivesse entrando em desespero porque seria pai.

Não quando a imagem de uma Laura sorridente com um pequeno John no colo e o John-Pai ao lado o perturbavam mais do que Kevin e suas bolas de chiclete.

Queria gritar.

Ou pedir para o mundo parar e ele descer.

Isso não estava sendo legal, as pessoas não estavam colaborando com a sua sanidade mental, nem com seu humor.

Precisava sair da sala, era isso que precisava.

Encarou a porta, contando mentalmente quantos segundos levaria para saltar dali e sumir pelo gramado verde e bonito do campus. Não deveria ser uma tarefa que lhe tomasse mais doque trinta segundos, estava no fundo mesmo...

Fechou o caderno e começou a erguer o corpo pequeno, quando uma mão firme empurrou seu ombro de volta para baixo, o rosto redondo de Andy – seu colega de classe – surgiu em seu ombro.

-Jessie, essa aula é importante. Vai cair na prova.

Grunhiu.

Respirou fundo para não dar um tabefe forte na cabeça de Kevin estourando mais uma bolhinha de chiclete com aquele sorriso sacana nos lábios, e pegou o celular. Adorava ser inteligente o bastante para deixar tudo do celular no silencioso antes de entrar na aula.

Era um gênio.

Começou a escrever uma mensagem de texto para John, perguntando se estava tudo bem. Se o outro o respondesse um “não” ele saberia que a monstra da Laura havia definitivamente conversado com ele, e ele já sabia que dentro dela havia um pequeno John.

Sorriu.

Adoraria ser pai de um pequeno John.

Ele e John poderiam casar e cuidar do pequeno John que estava se formando dentro de Laura, e seriam um casal lindo com uma criança linda, e felizes para...

-Jesse, larga esse celular! – Andy resmungou de modo paternal atrás dele.

Enfiou o celular debaixo da blusa.

-Que celular? – fez sua melhor cara de desentendido, ouvindo Andy soltar um resmungo parecido com: “você parece que tem cinco anos”, e quase se virou para falar que estava ofendido quando o celular vibrou em sua mão.

Era uma chamada de Laura.

Puxou o capuz sobre a cabeça, deitando o rosto para perto do livro, apertou o botão verde.

-Fala, Laura! – murmurou. –E seja breve, eu tô na aula.

-Você não vai acreditar! – ela exclamou, rindo e chorando, ou chorando e rindo, Jesse não saberia definir, mas se aquilo fosse alegria porque John declarou seu eterno amor a ela, ele se veria na obrigação de dizer que era mentira porque era a ele que John amava.

-Então fala... – disse entredentes, sentindo Andy o chutar atrás.

-Eu menstruei! – ela gritou feliz.

-Ew! Que nojo, Laura! Liga pra suas amigas pra contar isso, eu não quero saber se você está usando um absorvente no momento, só... ew! – fez fazendo uma careta.

-Jesse, isso quer dizer que foi um engano! Eu não estou grávida! – disse feliz, soltando algo parecido com um “yahoo!” no final, que foi justamente o som que Jesse contemplou fazer quando a voz rouca do professor o chamou:

-Lacey! Desligue esse celular! – gritou lá da frente, a sala inteira se virando para o olhar. Jogou o celular mesmo ligado para dentro da blusa, repetindo a expressão desentendida.

-Que celular?

-John, cadê a torradeira? – a voz chamando da cozinha o fez sair de seus pensamentos, se esquecendo completamente que estava dolorido, se levantando em um impulso e começando a resmungar de dor enquanto avançava para a porta.

-No armário! – disse, chegando à cozinha, vendo Jesse com sua camisa e uma de suas bermudas, procurando no armário errado. – O outro armário. – riu. Jesse parou o que estava fazendo, notando a voz do outro na cozinha. Se levantou devagar e antes que John protestasse, já estava sendo abraçado pelo mais baixo. Deixou seus próprios braços magros desajeitadamente abraçarem a cintura de Jesse, sabendo exatamente o que o outro estava sentindo.

Não estavam confortáveis com aquilo, não por ter acontecido, mas porque sabiam que nunca mais aconteceria, e que sentiriam falta um do outro.

Ser só amigos não bastava.

-Jesse... – John começou, sem soltar o amigo. -...a gente pode conversar? – perguntou incerto, quando os olhos azuis encontraram os seus.

-Eu acho que precisamos. – entrelaçou os dedos nos de John, o puxando para a sala, o sentando no sofá, se sentando na mesa de centro, na frente dele. –Eu te amo. Eu quero que você nunca duvide disso, porque é uma das maiores certezas que eu tenho, John. Mas eu quero também que você entenda que eu não posso simplesmente largar a Sherri no altar e correr pros seus braços pra viver um romance gay. Não é certo com ela.

John assentiu, o nó da garganta começando a fazer seus olhos terem aquele conhecido aradido das lágrimas quentes chegando. Não queria desabar na frente de Jesse.

-E é certo comigo? – perguntou, olhar fixo do de Jesse, que também não parecia mais tão seguro de tudo que disse, que parecia tão próximo de um ataque de choro quanto ele próprio.

Jesse tomou suas mãos nas dele.

-Não. Nem comigo. Não é certo com ninguém, John. Mas eu preciso fazer isso, eu preciso me casar, constituir família, ver meus filhos crescendo e ser pra eles o pai que eu não tive. Meu pai destruiu minha família, e a culpa foi minha, porque se eu não tivesse a idéia estúpida de fugir, minha mãe ainda estaria viva!

John não conseguia acreditar que Jesse ainda se culpasse por tudo que aconteceu. Ele fez o que ele achava que seria melhor para todos, e sua mãe morreu como conseqüência, não foi culpa dele. De jeito nenhum. Teriam morrido ele, os irmãos e sua mãe se ele não fugisse, seu pai estava fora de controle, nada do que ele fizesse teria evitado a tragédia.

-Jesse, as pessoas andam usando muito uma coisa chamada “superar”. Chega! Você não pode viver o resto da sua vida em função do que aconteceu, porque foi uma fatalidade, acabou! – apertou as mãos de Jesse na sua, sentindo as lágrimas quentes embaçando sua visão, descendo por seu rosto quando fechou os olhos, tentando respirar fundo para evitar a enxurrada que prometia vir a qualquer instante.

-Mas a culpa foi minha! – e foi a vez das lágrimas de Jesse escorrerem por seu rosto.

-Você tem mais seis irmãos para formarem uma família decente, por que tem que ser você? Justo você? Só porque é de você que eu gosto? – não podia estar acontecendo. John sabia que esse dia iria chegar, o dia em que teria que se levantar do seu confortável lugar e erguer a voz para lutar por algo que queria muito, no caso, a pessoa que queria muito. Estava cansado de assistir tudo acontecendo diante dos seus olhos, cansado das declarações tão óbvias que ele próprio chegava a se enojar. Estava cansado das longas trocas de significativos olhares cheios de carinho sem poder de fato expressar o que estava sentindo, porque, droga!, ele estava apaixonado! Pela primeira vez na vida ele estaria apto a enfrentar qualquer coisa, qualquer pessoa porque ele realmente queria dizer que amava Jesse sem condição alguma.

E justo Jesse, justo essa pessoa que tinha esse poder de fazer ele se sentir assim, ele iria perder por uma promessa banal que ele fez aos pais mortos? A promessa de ter uma família decente?

-Você sabe há meses desse casamento, John! Por que agora?

-Porque eu não sabia que eu te queria tanto! – e as lágrimas começaram a cair sobre seu rosto, e não, nem que ele quisesse conseguiria as segurar. –Eu não imaginava que eu precisasse tanto de você.

Jesse estava em um choro tão compulsivo quanto o dele.

Ajoelhou à sua frente, o rosto apoiado em seus joelhos, os ombros sacudindo ao que John sentia as lágrimas dele molhando sua calça. Abaixou a cabeça na de Jesse, se deixando chorar tudo que precisava.

-Nós poderíamos ser uma família, Jess. – murmurou, a voz cortada. –Eu seria um ótimo pai, nós podemos adotar uma criança, duas... quantas você quiser.

-Não! – Jesse exclamou erguendo as mãos para o rosto dele. –Eu te amo, mas eu não posso fazer isso com a Sherri! Pensa na Sherri!

Certo.

Jesse estava certo.

Ele não poderia deixar a garota no altar e simplesmente sumir com John. Ela era amiga dos dois tanto quanto eles eram um do outro, ela os havia ajudado muito. John tinha por ela tanto carinho quanto por sua irmã.

-Eu queria ser uma garota, pra poder ter lutado por você antes. – murmurou. Jesse deu um meio sorriso, entre as lágrimas.

-Se você fosse uma garota, eu provavelmente não teria me apaixonado por você, idiota. – selou os lábios de John.

-Eu... – tentou falar, mas ambos recomeçaram a chorar.

-Você entende, não entende, John? – perguntou soluçando.

-Sim. – respondeu. Não. Não entendia! Poderiam dar um jeito naquilo. Sherri entenderia, Stacy entendu, não entendeu? Se ele gostava tanto assim de John então...

-Eu não posso decepcionar o pouco que me restou de família. – disse. -A gente não vai mais se ver, John. Eu vou me mudar com a Sherri antes mesmo de voltar da lua-de-mel, eu já pretendia fazer isso. Quando eu voltar, -e respirou fundo – você não pode ir me ver, ta? Vai ser pior se isso acontecer...

John já não emitia som algum, somente assentia a tudo que ele pedia.

Entendia que não poderiam mais se ver, não até Jesse estar bem, não até ele se conformar.

Não até John conseguir esquecer, o que ele achava que talvez fosse demorar muito. Ou talvez nunca acontecesse.

-Mas eu te amo... – murmurou antes dos lábios de Jesse sobrirem os seus, pela última vez.

Antes da mão de Jesse pousar em sua nuca, antes que ele corresse os dedos pelos cachos claros, pela última vez.

-Eu também te amo. Nunca se esqueça disso, está bem? – disse, mas John apenas assentiu. Preferia que Jesse o odiasse, doeria bem menos saber que não estava sendo correspondido, do que saber que era correspondido, mas que Jesse se casaria em menos de duas horas.

E que ele seria testemunha.

A correria na igreja o impedia de pensar em tudo que estava acontecendo e o que estava prestes a fazer. A limousine que traria Sherri já estava parada na porta da igreja, e todo mundo já estava posicionado quando Stacy entrou lhe pedindo a máquina, que ele entregou sem se lembrar do que havia lá dentro, se recordando do que havia gravado apenas quando Stacy se dirigiu para a limousine e entregou a máquina para Sherri pela janela.

E foi nessa hora que sacou seu celular, torcendo para que Sherri estivesse com o dela.

Teriam muito o que conversar.

-Jesse, nós vamos nos ver em alguns minutos, para de andar de um lado pro outro na porta da igreja, ta me deixando nervosa. – disse assim que atendeu o celular.

-Você consegue me ver? – perguntou olhando a janela preta da limousine. –Ah, esquece! Seguinte, a máquina... tem uma coisa na máquina, que eu preciso contar e explicar e... – sorriu para suas irmãs entrando na igreja.

-Acho que eu acabei de ver. – Sherri disse. Olhou pelas escadas, para o tapete vermelho, esperando a reação dela. Era sua noiva, não deveria estar tão tranqüila ao ver o noivo se declarar para o melhor amigo em um vídeo na noite anterior ao casamento.

-Eu não sei o que dizer.

-Eu não sei como reagir. – disse baixo. –Eu sempre achei que acabaria te perdendo para ele. Sempre imaginei que talvez, só talvez, a sua raiva da Laura fosse um começo de sentimentos pelo John, mas você me pediu em casamento... – disse baixo.

Jesse suspirou.

-Sherri, eu não sei por onde começar a me explicar. Eu quero me casar com você. – disse.

-Eu sei porque. Eu sei todos os seus motivos, e acredite, eu entendo todos. Mas... eu achei que você gostasse de mim. – e Jesse jurou a ouvir fungar, segurando o choro talvez. Estava tão cansado de fazer os outros sofrerem. –Você ama o John. Por que não se dá uma chance? Nós podemos subir ali em cima e cancelar o casamento, não é tão complexo.

Jesse riu.

-Eu faço o que com a tia Harriet, o tio Bill e meus irmãos? Pode ser simples pra você, pra mim não. – disse se abaixando no chão, cutucando uma das flores brancas do canteiro.

-Você não precisa falar o que é. Podemos dizer que não estamos preparados, e...

-Fora de cogitação, Sherri. – a cortou, se levantando. –Está na hora.

-Vocês seriam um casal lindo. – murmurou, ouvindo Jesse desligar sem se despedir. Não precisavam de despedidas, de qualquer forma, em minutos estariam jurando passar o resto de suas vidas juntos.

Sherri estava linda.

Estaria ainda mais bonita se o sorriso em seu rosto fosse verdadeiro. O mesmo se aplicava a Jesse, que não estava prestando a menor atenção ao que o padre dizia, os olhos vagando para o lado do altar onde John, Vinnie e Kevin se encontravam como padrinhos do casamento. Do outro lado, Stacy, Laura, e uma garota que Jesse não conhecia – Marie – como madrinhas. John ficava bem de terno, mas estava claramente evitando olhar Jesse, se fixando no padre e no que ele dizia.

-Noivos caríssimos, viestes à casa da Igreja para que o vosso propósito de contrair Matrimónio seja firmado com o sagrado selo de Deus, perante o ministro da Igreja e na presença da comunidade cristã. – o sacerdote disse serenamente, sorrindo para os dois. — Cristo vai abençoar o vosso amor conjugal. Ele, que já vos consagrou pelo santo Batismo, vai agora dotar-vos e fortalecer-vos com a graça especial de um novo Sacramento para poderdes assumir o dever de mútua e perpétua fidelidade e as demais obrigações do Matrimónio. Diante da Igreja, vou, pois, interrogar-vos sobre as vossas disposições. – virou a página do livro que lia, se retirando de trás da mesa do sacrifício, indo para a frente dos dois, o livro em mãos.

John sentia raiva de como o padre parecia achar tudo muito divertido e lindo, inconsciente do que ele estava sentindo no momento, inconsciente de que Jesse e John estavam apaixonados, desde sempre.

Sherri estava com o olhar fixo no chão quando o sacerdote recomeçou a falar:

-Jesse Thomas Lacey e Sherri Kay DuPree, viestes aqui para celebrar o vosso Matrimónio. É de vossa livre vontade e de todo o coração que pretendeis fazê-lo? – E essa era a hora em que John perdia Jesse para sempre.

-É sim. – Jesse respondeu, baixo, sem ânimo algum. John suspirou, e era como se um filme se passasse em sua cabeça. Era óbvio que ele e Jesse não acabariam juntos no final, certo? Porque ele sabia, desde o começo que Jesse era o Pequeno Príncipe, certo? E se Jesse era o Pequeno Príncipe, restava a ele ser o aviador, que via o pequeno ir embora no fim do livro, que o deixava partir, porque sabia que partir era importante para ele, porque sabia que o prender ali não o faria feliz. Não queria que ele fosse, assim como o Aviador não queria que o Pequeno Príncipe voltasse para seu planetinha. Mas assim como o Aviador, John sabia que ele não poderia impedir, e que pela manhã Jesse seria somente uma boa lembrança. E que quando ele olhasse o mar, ou o céu, se lembraria dos olhos do amigo, e de como, pelo menos por algumas horas, foram felizes.

-Não. – veio a voz feminina do lado de Jesse, e a igreja toda começou a murmurar baixinho enquanto Sherri se afastava do altar. –Desculpa. Eu não posso fazer isso, nós não seríamos felizes. Você entende. – e sem dizer mais nada, correu para fora da igreja. E John, sem querer, cruzou o olhar com Stacy, e duvidava que alguma vez já a tivesse visto sorrir tão abertamente.

Estava distraído, quando sentiu sua mão ser segurada com força, seu corpo sendo puxado para o meio do corredor.

-Jesse? – perguntou, confuso, vendo ele o olhar sorrindo quando chegaram do lado de fora.

-Me perdoa? – o resto dos convidados deveria estar saindo. Estavam parados em frente à limousine, e John simplesmente não sabia o que fazer. –Olha, a Sherri viu o vídeo, ela sabe, ela...

-...torce muito por vocês dois, mas se demorar pra entrar aqui, o resto da igreja vai surgir aí na porta querendo saber o que aconteceu. – disse Sherri com a cabeça para fora da janela da limousine, sorrindo. –Está doendo, mas vai passar.

Jesse olhou para John, quase implorando para que ele fosse.

Há alguns segundos, saberia exatamente o que fazer, entraria naquela limousine e iria para qualquer lugar que Jesse quisesse. Mas depois de tudo, depois do que aconteceu, era complicado pisar em seu orgulho. E tudo que Jesse disse há apenas algumas horas sobre constituir família?

Como se lesse a sua mente, Jesse sorriu.

-Rory vai casar, a noiva dele está grávida de três meses. – disse. –Eu vou ser tio. E eu estive pensando, eu acho que faríamos uma ação melhor dando uma família pra crianças órfãs do que colocando mais delas no mundo? – fez uma careta, como se estivesse tentando convencer John daquilo.

John suspirou.

Que se danasse o seu orgulho, que se danasse o que Jesse disse antes. Era isso que ele queria, não era? Era de Jesse que ele precisava, e agora...

-Ninguém precisa saber sobre vocês, bla bla bla, dá pra andar logo? – pediu Sherri, abrindo a porta da limousine.

-Por favor... eu te amo, John. — disse, segurando a porta aberta, as pessoas já paradas na escadaria da igreja, tentando digerir o que estavam vendo na frente delas, se era o que estavam pensando.

-Tem que ser escondido, né? – abaixou a cabeça. E ia adentrar a limousine quando duas mãos ergueram seu rosto, e Jesse o estava beijando.

Na frente de todo mundo.

E quando o soltou, não houve tempo para que tomasse ar, foram ambos puxados para dentro da limousine, que arrancou dali, deixando pessoas atônitas na porta da igreja.

Sherri riu, vendo os dois ao seu lado sorrindo felizes.

Estava chateada, mas sabia o que era certo, e partir o coração daqueles dois não era uma opção que estivesse disposta a levar em conta, certo?

-Para onde, Sherri? – perguntou o chofer com um largo sorriso no rosto quando abaixou o vidro que o separava dos passageiros.

-Las Vegas, Chad. Eu acho que merecemos um pouco de diversão.

Jesse estava com fome, muita fome. Detestava matemática na quinta série*, e a sua única diversão na aula era olhar John sentado ao seu lado, lendo “O Pequeno Príncipe” pela milésima vez. Gostava de olhar John.

Sempre gostou.

Era intrigante o observar.

John o olhou e sorriu, abrindo a última página do exemplar, rabiscando qualquer coisa, o entregando. Pegou o livro, virando para ver o que estava escrito e sorriu.
”Está me olhando por que?”

Jesse devolveu o livro.

Quando John abriu, sentiu as bochechas corando.

”Porque eu amo você.”

Devolveu o livro, sorrindo bobo, sabendo que respondeu direito, e verdadeiramente.

”Eu também te amo. Você me cativou.”

Jesse rabiscou mais alguma coisa, e entregou o livro de volta.

”Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.

Jesse ama John.

J² para sempre.”

John recolheu o livro, voltando os olhos para o garotinho sentado ao seu lado, que agora observava a lousa com um sorriso extenso, as bochechas vermelhas. Trocaram breves olhares significativos, antes de voltarem a fingir que a aula estava interessante.

*quinta série americana = 10 anos.

~FIM.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!