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”Se você não me contar A-GO-RA o que aconteceu eu juro que eu paro de falar com você, Jesse!”

Estudou cuidadosamente o papel, bufando alto o bastante para que John percebesse que ele não estava realmente a fim de contar o que havia atrás das bandagens enroladas com descaso em seu pulso esquerdo.

Nem a que se referia o olho arroxeado.

Já era a segunda semana consecutiva que ele e Rory brigavam. Na primeira foi porque Rory presenciou sua autopunição por ter chegado tarde, e dessa vez foi porque ele achava que Jesse tinha que pelo menos cuidar dos ferimentos que infringia em si mesmo, antes que infeccionasse e aquilo se tornasse mais um problema para sua mãe. E já tinham que lidar com tanta coisa, tantas coisas ruins que aconteciam, que lidar com um pré-adolescente com problemas psicológicos era algo que nenhum Lacey queria no momento.

Mas pelo jeito havia um Nolan bem interessado no assunto...

John se preocupava.

Parecia que sim, mas ele não estava alheio a tudo, conhecia Jesse desde os nove anos e sabia apontar exatamente quando foi que aquela aflição, aquele medo, aquela barreira contra as emoções começaram a surgir no olhar outrora inocente e despreocupado.

Jesse envelheceu anos em meses.

E agora os machucados... estava com aquelas bandagens nos pulsos há mais tempo do que ficaria por uma “leve torção jogando baseball”, e John desconfiava que debaixo daquilo havia uma série de cortes. Só não conseguia identificar o motivo.

Era algo em casa, mas os Lacey sempre pareciam tão bem, tão felizes...

Se bem que fazia bastante tempo que não entrava nem na sala de estar dos Lacey, e fazia mais tempo do que ele podia se lembrar que Jesse não dormia em sua casa, sempre inventando uma desculpa, sempre assustado quando John se oferecia para ligar para seus pais.

Algo estava definitivamente fora do lugar, mas John não queria o forçar a falar, esperava que Jesse confiasse nele e acabasse o contando cedo ou tarde.

Acontece que o cedo já havia passado há muito e o tarde estava ficando desesperador, e ele realmente não conseguia ver outra maneira de descobrir o que estava errado sem ser jogando Jesse contra a parede e o obrigando a falar. Agora estavam há dez minutos trocando bilhetes na aula de matemática.

Álgebra poderia esperar, ele realmente precisava ajudar seu melhor amigo.

Uma bolinha de papel tomou seu campo de visão naquele momento.

Pousou a mão em cima do mesmo, o puxando para baixo da mesa, olhando ao redor para encontrar os olhos azuis de Jesse fixos em seu livro de matemática, vidrados. Abriu a bolinha de papel, se sentindo um tanto aflito em ler o que estava escrito.

”Meu pai é alcoolatra. Meu pulso está cortado.

Conversamos melhor no intervalo. Prometo que conto, mas não me deixe, John.

Eu preciso de você.”

Era mais ou menos o que já esperava.

Surpresa nenhuma, mas estava aliviado porque poderiam conversar. Poderia tentar ajudar Jesse, se bem que imaginava que não havia muito que pudesse ser feito naquele momento.

Procurou os olhos de Jesse novamente, agora fixos nele.

Havia medo naquele olhar e John definitivamente não gostava daquilo. Queria poder tirar Jesse dali, o abraçar e ouvir tudo que ele tinha para contar, dizer que tudo ficaria bem, porque ele o ajudaria, que precisavam fazer alguma coisa.

Deu um meio sorriso reconfortante.

Jesse sorriu de volta.

Não sabia o que seria dele sem John.

E John não gostava nem de pensar na possibilidade de um dia ficar sem Jesse.

-Vocês dois, o que é essa troca de sorrisinhos e esse bilhete? – a professora exclamou indo na direção de John, a mão já estendida para o papel.

Jesse pensou em saltar da carteira, tomar o bihete das mãos de John e sair corredo para o banheiro, mas antes que fizesse qualquer movimento, John enfiou o pedacinho de papel dentro da boca, vestindo sua melhor expressão facial de quem não está entendendo nada.

-Que bilhete? – perguntou assim que engoliu o papel todo, a sala toda soltando gargalhadas realmente altas. A professora – uma senhora baixinha de cabelos vermelhos e olhos azuis – pareceu estufar de ódio.

-Nolan! Você e o Lacey, diretoria! – gritou apontando a porta, muito, muito irritada.

De novo.

A diretoria era um dos lugares mais frequentados pelos dois. Havia a sala de espera que os dois conheciam tão bem – desde o primeiro dia que se viram! – e a sala da Diretora em si, que tinha quadros, e globos, e coisas interessantes que sempre impediam Jesse de prestar atenção de fato no que a mulher estava falando.

Se sentaram nas cadeiras gastas da pequena saleta que precedia a diretoria, em silêncio, um ao lado do outro. Jesse batia os pés no chão em movimentos ritmados, ainda não haviam combinado o que inventariam para a diretora dessa vez, mas ele estava deveras preocupado com outras coisas para tomar conhecimento do momento que precedia uma advertência, a terceira do ano.

-Me deixe ver seu pulso. – ordenou John, mais do que pediu. Os olhinhos azuis o encararam brevemente, até que Jesse ergueu a mão esquerda, a pousando no colo magro do garoto ao seu lado.

John tinha até medo de abrir as bandagens e com o que iria se deparar. Sabia que entraria em desespero ao ver a pele aberta por sabe-se lá o que era que Jesse estava usando para fazer aquilo. Afastou a manga do agasalho, tirou um dos esparadrapos, o outro e começou a desenrolar as bandagens devagar, sentindo os olhos de Jesse nele.

Estava horrível.

Eram cortes profundos, em todas as direções, alguns que possivelmente precisavam de pontos para fecharem, outros feitos de forma grosseira, descendo por seu braço.

-Jesse... –murmurou, voltando os olhos para ele.

-Você não tem idéia do que minha mãe e o Rory passam. Isso é só o meu castigo, e não chega nem perto da dor deles. –murmurou. –Eu estou tão cansado.

-Ele te obriga a fazer isso? –perguntou. Jesse sacudiu negativamente a cabeça.

-Eu faço isso porque eu quero. É uma longa história, John. –disse vendo o outro enfaixar seu pulso novamente, com cuidado.

-Eu não gostei. Não gostei de saber disso, não gostei de ver você machucado. – disse terminando de recolar os esparadapos, puxando a manga do agasalho de Jesse até o pulso, entrelaçando os dedos de sua mão com os dedos de Jesse.

-Desculpa. –pediu. –Eu não consigo evitar! Quando eu vejo, já fiz.

John ergueu as mãos unidas até seu rosto, os olhos ainda fixos em Jesse.

O amava tanto... chegava a soar da maneira errada o quanto amava seu melhor amigo.

-Eu não vou mais deixar isso acontecer. –disse baixinho. Jesse sorriu, os olhos azuis se iluminando de algo que John não conseguia identificar o que era, se aproximou, depositando um beijo no rosto do melhor amigo – que corou.

-Ew! Que nojo! –exclamou o garoto que saía da diretoria, deixando os dois um tanto constrangidos.

Ninguém os entendia.

O quarto vazio o dava uma sensação estranha, como se ele próprio estivesse se deixando ali, e quem observava tudo aquilo fosse apenas um fantasma. Não queria ir embora, não queria sair da South Shore para estudar na Baldwin, não queria nem se mudar para Baldwin. Levittown era sua casa, sempre foi, e ele não conseguia se ver em outro lugar que não fosse lá, com Jesse.

-Eu consigo ver sua cama, seu armário... –comentou o outro, que caminhava sobre os tacos soltos do chão do quarto em que dormiram juntos tantas vezes antes.

-Eu também. –comentou, perdido em pensamentos. Era engraçado, porque ele estava indo embora, e Jesse ficaria, Jesse que ele conheceu quando o garotinho se mudou para Levittown aos nove anos.

Não era justo.

-Não queria que você fosse, você sabe. –disse Jesse parando no meio do quarto. –Mas eu entendo que você tenha que ir, só não gosto da idéia.

-Estudar em uma escola nova, sem você, vai ser bem estranho. –John fez uma careta. –Mas logo eu faço dezesseis, ganho um carro e venho pra cá todo fim de semana. –constatou rindo.

Não eram cidades distantes, era só seguir pela Sunrise Highway por uma hora mais ou menos e pronto, estavam juntos.

-Eu posso pegar um ônibus para Baldwin. –disse Jesse. Demoraria um pouco para ter dezesseis anos e um carro.

-Podemos gastar o telefone dos nossos pais... –sugeriu John, agora rindo com Jesse. –Relaxa, no fundo vai ser divertido. Não troque de melhor amigo, Lacey! –fez sua mehor cara de bravo, apontando o dedo para o rosto do mais novo.

Jesse gargalhou, vendo John se aproximar dele no centro do quarto vazio. Deixou que John o abraçasse, as mãos quentes envolvendo o corpo frio.

-Isso nunca vai acontecer, você é insubstituível. –disse passando os próprios braços em volta de John. –Eu amo você.

-Eu também amo você, Jess. –John disse baixo, se afastando um pouco para dar uma última olhada no garoto. Tinha olhos encantadores, que John não cansava de fitar. Nem Jesse cansava de fitar os seus, e John não entendia isso: tinha olhos castanhos, tão normais, tão sem graça, e Jesse ainda assim...

A buzina do carro soou do lado de fora, fazendo ambos se lembrar que John precisava ir, seus pais o estavam esperando no carro com sua irmã.

-Até mais, Jess. – John disse sem se mexer.

-Até mais, John. –Jesse aproximou o rosto colando seus lábios aos dele brevemente, deixando cada ponto perceber a sensação dos seus lábios nos dele, se deixando notar que era aquilo que queria, mas se afastando – canisbaixo – antes que pudesse aprofundar o beijo, pronto para ser repreendido.

Mas não foi.

John pousou a mão debaixo de seu queixo, o olhando, um misto de confusão e surpresa em seus olhos quando ergueu o rosto de Jesse.

-Eu tento vir no fim de semana. – disse pegando a mão do loiro, o puxando para as escadas.

-Pode ficar lá em casa, tem seis, um a mais não vai fazer a menor diferença, Johnny. Você sabe, eles te adoram.

-Eu gosto dos seus irmãos, mas eu realmente prefiro você. –sorriu, seguindo de mãos dadas com seu melhor amigo até a porta da casa vazia.

Jesse e John andavam em silêncio.

John devidamente irritado com Jesse com o que ficou sabendo: não bastou ele ter tentado se cortar com uma lâmina velha, o infeliz comprou uma nova e fez aqueles cortes horrendos sobre o pulso frágil. Era tudo que John queri mesmo ouvir, claro.

Haviam conversado muito sobre o assunto, e Jesse havia prometido parar, e levaria para casa os folhetos sobre os encontros do A.A. que John daria para ele no dia seguinte. Não comentaria nada com seus pais sobre o assunto, não achava que fosse necessário, e esperava sinceramente que o Sr.Lacey aceitasse ajuda, aquilo estava passando dos limites.

-Advinha quem é? –John escutou ao seu lado, vendo pequenas mãos cobrir os olhos de Jesse, e a dona das ditas mãos rir quando ele começou a chutar vários nomes errados. John sabia que ele estava errando de propósito.

-Oi, John. –disse Sherri sorrindo ao seu lado, enquanto Chauntelle e Jesse estavam agora em uma disputa de “eu sabia!” “não sabia, não!”.

-Oi, Sherri. –riu ele, percebendo uma garota de cabelos castanhos e lisos na altura do ombro ao lado da loira, os olhos verdes fixos em seus tênis gastos, os braços magros agarrando com força o monte de livros e cadernos da escola, as bochechas vermelhas.

-Essa é a Laura. –apresentou Sherri. –Minha melhor amiga.

A garota ergueu os olhos finalmente, encontrando os seus, sorrindo.

-Oi. –disse estendendo a mão pequena, corando ainda mais. John sorriu, deixando se formar na bochecha as covinhas que se formavam normalmente. Ele pegou a mão da garota na sua, sorrindo de volta.

Era linda.

-Prazer. Eu sou o John. –disse, sentindo a presença de mais alguém ao seu lado.

-E eu sou o Jesse, e estamos atrasados. Tchau, Laura. Até um dia. –exclamou o loiro, puxando John pela manga do agasalho, deixando para trás três garotas atônitas.

John não estava entendendo nada.

Desde que o arrastou para longe da tal Laura, Jesse parecia irritado, estranho o bastante para deixar claro em sua expressão facial que John não devia perguntar nada.

Já havia feito pergutas demais por um dia.

Caminhavam em silêncio pela calçada, Jesse com as mãos enterradas nos bolsos, cara fechada, e John segurando as alças da mochila, dando olhadas de relance para o loiro. O som de música alta começou a se aproximar, a que um carro foi estacionando ao lado deles.

-J.La e J.No! –exclamou a voz do adolescente que dirigia, a voz realmente conhecida pelos dois. O rapaz de cabelos claros e olhos iguais aos de Jesse os fitava rindo. Uma garota sentada ao seu lado, e duas no banco de trás, todas vestindo o uniforme de líderes de torcida da McArthur High, Rory vestido devidamente com a jaqueta de capitão do time de futebol.

Os dois pararam de andar, se entreolharam e correram para o carro.

-Rory, o que é isso? –perguntou Jesse olhando o conversível. Não era possível que Rory tivesse um carro!

-Comprei hoje. –sorriu ele. –Aí resolvi trazer a Amber e as garotas para dar uma volta. –apontou Amber, a garota ruiva de cabelos cacheados ao seu lado, e depois as meninas do banco de trás: uma loira platinada e uma morena.

-A mamãe sabe disso? –perguntou devagar. Nem ele próprio sabia se estava se refereindo à adesão do carro ou às garotas.

-Mas é claro. –Rory fez uma pausa –Em partes. Mas relaxa, entra aí, a Cassie e a Tracy estão solteiras, e a Amber é sua cunhada. Elas estão loucas para conhecer vocês.

John encolheu os ombros ao receber o olhar de dúvida de Jesse, mas o acompanhou quando ele pulou para dentro do carro.

-Então, vocês são o Jesse e o John... –constatou Amber se virando para trás. Jesse assentiu um tanto tímido.

-Somos. O John é meu melhor amigo. –disse.

-Vocês tem quantos anos? –perguntou Tracy, jogando o cabelo para trás.

-Doze. –disse John, sorrindo meigo para as meninas. Não é porque eram mais velhas que não podiam ser tratadas como garotas.

-Aw! Que pena! –exclamou ela. –Vocês são lindinhos!

-Tracy! Isso é pedofilia! –riu Cassie, sendo acompanhada pelos outros no carro, inclusive Jesse e John. O clima era descontraído, Rory fazia piadinhas aqui e ali, e as garotas pareciam o adorar.

-O Jesse será a estrela do time da McArthur um dia. –disse quando pararam no semáforo. –Ele é ótimo no baseball, e no futebol é o melhor da família. Melhor que eu, até!

Jesse e John trocaram olhares furtivos: não tinham planos para serem estrelas do time, só queriam ser normais, talvez cuidar do livro do ano, da rádio da escola, cotinuar no Coral, mas... o time? Não eram tão bons assim.

-E o John? –perguntou Cassie sorrindo para ele. John abaixou a cabeça, não queria falar que abominava a popularidade trazida por estar no time, mas não queria mentir também.

-Não sei. Quando chegarmos no High School veremos. –disse simplesmente. A garota arqueou as sobrancelhas e riu.

-Eu espero que não se tornem os perdedores da escola. Seria um desperdício. –comentou.

-O John será bem popular, as garotas já começaram a surgir atrás dele. –respondeu Jesse sorrindo fraco.

Por alguns segundos John não entendeu o que ele estava dizendo, mas assim que se deu conta de que ele estava falando de Laura, percebeu que preferia não saber. Não trocaria Jesse por uma garota, muito menos por Laura, que parecia tão sem graça...