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Os passos soavam apressados pela calçada, os instrumentos pesados seguros sob os bracinhos finos, ouvidos sempre atentos a qualquer som, tanto das pedrinhas sendo chutadas, quanto dos carros passando.

Hoje não podiam dar bobeira, a gangue que os perseguiu na semana anterior poderia estar os esperando, provavelmente sabiam de onde vinham, para onde iam, e o que estavam levando. Não que se importassem com o teclado e o violão, mas a vida deles era uma coisa que realmente presavam, e não estavam dispostos a se entregar, ou apanhar.

-O beco... –murmurou John. Jesse engoliu em seco, os olhinhos azuis traçando o caminho escuro à frente deles, os dedos se firmando em volta da alça da capa do violão de John, os pulmões se enchendo de ar.

-Vamos passar correndo! – disse, vendo John assentir.

-No três. Um, dois, três! –exclamou John e os dois se puseram a correr. Passaram o primeiro beco, mas não pararam, as perninhas tomando o ritmo certo, e os pulmões conformados com o esforço que seria necessário: ainda havia dois becos, e eles não tinham a menor intenção de parar antes de chegarem na porta de casa.

Continuaram correndo, passos acelerando cada vez mais, pegando impulso na pequena descida que havia entre o primeiro e o segundo beco, passando por este em alta velocidade, rindo por não ouvirem ninguém atrás deles. Dobraram a esquina, prontos para enfrentar o terceiro e último pesadelo. Estavam bem assustados.

Algumas escolas de Levittown — as públicas, na verdade – andavam tendo as aulas canceladas porque os professores recebiam ameaças dos alunos que estavam nas gangues. Há uma semana um professor havia sido esfaqueado perto de Montauk, e um aluno da McArthur foi baleado na porta da escola. E não era como se as autoridades pudessem de fato fazer alguma coisa a respeito, ninguém sabiam quem eram os líderes das gangues, nem de onde vinham, ou o que queriam. Mesmo os suspeitos que haviam sido presos não falavam os nomes de quem estava por trás de tudo.

Long Island estava ficando cada dia pior.

Todos estavam com medo.

Os noticiários só falavam disso, o tempo todo. Mas Nas redondezas de onde moravam, tudo parecia sossegado.

As crianças não contavam aos pais que haviam sofrido abuso dos mais velhos no parque, ou que a gangue da McArthur High havia tomado a pista de skate e que por isso não iam mais lá. Era mais fácil continuar sendo usados, ou pagando o dinheiro do lanche da semana e continuar livres, porque se contassem a seus pais, era pouco provável que voltassem a ver a luz do dia, pai e mãe nenhuma deixariam suas crianças sair com esse tipo de gente os perseguindo.

Saltaram um buraco na calçada ao mesmo tempo, passando pelo beco escuro em segurança. Estavam rindo alto quando os passos começaram a soar em algum lugar que não era atrás deles. Os dois pararam de correr, ofegantes, curiosos, confuso. Se viraram para trás, vendo tudo vazio, só então percebendo que haviam sido pegos de frente, vendo o grupo fazer um meio círculo em volta deles, os deixando entre a gangue e a parede.

-Wow! Como vocês correm! – John e Jesse se encostaram na parede, as mãos dadas, firmes, dedos entrelaçados, um tentando afirmar silenciosamente para o outro que estava tudo bem.

-Podem levar tudo, só não encostem nele. –disse Jesse. Sabia como funcionavam espancamentos, era obrigado a assistir um pelo menos duas vezes por semana. John apertou sua mão, o olhando incrédulo: não ia deixar Jesse apanhar em seu lugar. Abriu a boca, mas foi interrompido pelo mais baixo da gangue, que parecia ser o líder.

-Meu Deus! Três anos e você continua gostando de apanhar, Lacey! – o garoto puxou o capuz para baixo, revelando os olhos azuis e uma massa de cabelos desarrumados.

Não era possível que...

-Rubano? –foi John quem falou, vendo Mark, Ed e Fred também tirarem os capuz, todos rindo.

-Podem parar a viadagem e soltar as mãozinhas. Não vamos fazer nada com vocês. – riu Reyes. Ed Reyes.

Os dedos de Jesse seguraram mais forte ainda a mão de John.

-Por que estão nos perseguindo, e o que estão fazendo aqui? – perguntou John, esfregando o polegar devagar na mão do amigo, o assegurando que tudo ficaria bem.

-Não estamos perseguindo ninguém, você cruzaram nosso caminho semana passada, fomo tentar conversar mas vocês fugiram, então hoje bolamos uma estratégia diferente. – riu Rubano, tirando um chiclete do bolso, o jogando para dentro da boca. –Vocês estão com medo das gangues, não é?

-E quem não está? –retrucou Mark.

-Estamos. –assentiu John. –Achamos que vocês fossem uma...

-Nós somos. –Fred o cortou. –Mas só para nos defender dos outros.

-Se defender? –perguntou Jesse. Não estava vendo nenhuma atitude defensiva da parte deles, pareciam bem agressivos, isso sim. Além de tudo, aquela não era a área deles, eles ficavam do outro lado de Levittown, quase em Hempstead, perto das escolas públicas.

-Claro! –exclamou Rubano. –Olha o meu tamanho, Lacey, você acha que já não me pegaram?

-Mas você sabe bater super bem! –exclamou.

-Contra cinco com o dobro de mim eu não tenho muitas chances, mas com eles junto comigo... –sorriu apontando os amigos. –Nós estamos tentando colocar ordem nisso aqui, certo? Se parecermos uma das gangues, agirmos como uma, ninguém virá nos perturbar. E podemos proteger as pessoas que estão sofrendo bullying, e digo uma coisa: vocês são perfeitos para ser pegos.

John e Jesse trocaram um olhar longo, até soltaram as mãos, se sentindo mais seguros, começando a entender o que estava acontecendo.

-Quanto vocês querem pra nos escoltar até em casa toda segunda-feira? –perguntou Jesse.

-Nós não queremos dinheiro de ninguém, Lacey. –revidou Ed. –Nós fazemos isso porque não queremos mais ninguém machucado, e queremos poder ter um lugar pra curtir em paz, já que perto de casa está tudo tomado.

-Eu acho que vocês serão muito bem-vindos por aqui. – John sorriu, deixando que Mark pegasse o teclado para ele, começando a caminhar quando Ed tomou dos ombros de Jesse o violão.

-Estão vindo do ensaio do Coral? –perguntou Rubano, caminhando com eles. –Não sabia que gostavam de música...

-Você canta bem, Jesse! Vai lá! –forçou Brian, dando um soquinho no ombro do amigo, que recebia olhares encorajadores dos outros. Estar em um karaokê com os outros estava sendo divertido, era só o começo da noite de despedida de solteiro, ele sabia que dali seria arrastado para mais mil lugares, e acabaria bêbado com uma garota estranha em seu colo.

-Não, Brian! –tentou. Mas Vinnie riu, erguendo o braço, vendo a animadora do bar se aproximar com a pasta e o microfone, era inútil argumentar com eles.

-Relaxa, Jesse, você canta bem. –riu John, sentado no seu lado oposto da mesa, o encarando com as sobrancelhas arqueadas, o sorriso divertido traçando os lábios, deixando covinhas se formar em suas bochechas.

-Eu tenho vergonha! –admitiu Jesse olhando a pasta em sua frente, enquanto o palhaço anterior terminava a música.

-Canta uma pra mim, Jesse. –John girou os olhos, impaciente com o desespero do melhor amigo. E não ajudou ouvir Vinnie mencionar à animadora do bar que era uma despedida de solteiro.

-Tá, ta. –riu. –Eu quero a 62442! –pediu à garota que digitou o número da canção no controle.

-Esse é o Jesse, cantando “When You Say Nothing At All”! Não se animem, garotas, já fui informada que dentro de vinte e quatro horas ele será um homem casado! –disse a animadora passando o microfone para Jesse, que se levantou sob protestos de descontentamento por ele não ser solteiro.

-Só porque o John pediu uma música pra ele... –disse piscando para seu melhor amigo que permanecia sentado, uma expressão de surpresa no rosto, os outros rindo alto, obviamente levando tudo na maior das brincadeiras.

Não podia ser a música que John estava achando que ia...

-It's amazing how you can speak right to my heart… -a voz perfeita de Jesse soou pelos alto-falantes do karaokê, seus olhos fixos em John.

Era a música que ele achou que fosse.

Não sabia por que estava com as bochechas tão quentes, e por que de repente estava se sentindo tão exposto, tão envergonhado, mas feliz, quase lisonjeado que aquelas palavras estivessem sendo direcionadas a ele. Sabia que era só uma brincadeira de Jesse, mas o fato era que estava gostando daquilo, e sabia o motivo.

Mas não, não podia e não iria deixar que sua mente constatasse o fato.

-Eu acho que ele gosta de você. – brincou Adam o acotovelando na costela, falando baixinho e rindo. John riu junto, nervosismo expresso em seu rosto, e conforme o sorriso foi sumindo de seus lábios, seus olhos foram encontrando os de Jesse, que não estava esperando a letra na tela, cantava tudo de cor.

E John por um momento se pegou perguntando quando Jesse tirou tempo pra dceorar uma música tão brega...

-The smile on your face lets me know that you need me

There's a truth in your eyes saying you'll never leave me

The touch of your hand says you'll catch me wherever I fall

You say it best when you say nothing at all…

Jesse estava sério, seus olhos presos aos de John, e era como se ninguém mais existisse, nem as garotas tentando chamar sua atenção, nem seus amigos à mesa, rindo e conversando, nem as telas com imagens mostrando a letra da música. Não existia mais nada, e ele não conseguia se concentrar no que provavelmente seria a data mais importante de sua vida.

Não conseguia cantar aquilo pensando em Sherri, afinal...

-Try as they may they could never define, what's been said between your heart and mine… — porque ninguém nunca entenderia o que ele e John tinham nas entrelinhas. Era um relacionamento.

Eram mais do que amigos.

Nunca fizeram nada que consumasse o fato, nunca colocaram a relação em palavras, mas ele via que John estava amedrontado com o casamento de Jesse, e que estava se segurando em Laura porque tinha medo de como seria daqui pra frente. E ele sabia, sabia perfeitamente que estava não pensando no assunto porque se pensasse, faria com seu casamento o que fez com tudo em sua vida: acabaria fugindo.

Tinha que ser um homem, como seu pai sempre disse que ele era, tinha que honrar sua esposa como seu pai nunca fez com sua mãe.

Tinha a obrigação de construir uma família, zelar por ela, a manter estruturada, ter filhos e dar a eles a vida decente que não teve.

Seria o pai perfeito.

E seus filhos seriam amigos dos filhos de John e Laura, e nem seus filhos nem os de John deveriam nada a ninguém, e poderiam – ah, eles sim poderiam! – fazer o que quisessem de suas vidas.

-You say it best... when you say nothing at all. -terminou, entregando o microfone nas mãos da animadora, recebendo palmas. Se sentou logo depois, sem prestar atenção no que estava tocando agora, sem prestar atenção na porção de batatas fritas que chegou. Esticou a mão, pegando o copo de refrigerante, seus olhos deixando os de John somente quando sua garganta exigiu um gole do líquido doce.

Estava quase sem ar quando entrou em casa, o coração praticamente saltando do peito. Não sabia que horas eram, mas sabia que estava atrasado, muito mais atrasado do que poderia estar para sua própria segurança. Acabou se distraindo com os meninos, com as histórias de como fugiram das outras gangues, de como Adam passava as férias na casa de Matt e que como ele e John pareciam patéticos de mãozinhas dadas, e quando se deu conta, estava longe de casa, e atrasado.

Deu alguns passos para a sala, percebendo que algo estava errado, tudo estava em silêncio, nem pratos e talheres, nem seu pai gritando, nem Rory vendo televisão, nada.

Absolutamente nada.

Não queria saber o que poderia ter acontecido.

Deu alguns passos cautelosos para a cozinha, encontrando a mesa do jantar posta, as panelas no fogão, sua mãe encostada no batente da porta dos fundos, fumando.

-Mãe? –chamou baixinho, a voz engasgada na garganta, se dando conta que algo estava realmente fora do lugar, sua mãe nunca fumava. Ela soltou um suspiro pesado, se virando para ele, e apesar do sorriso meigo no rosto, a boca tinha um corte profundo, alguns arranhões no rosto, e o olho começando a criar um círculo roxo.

-Onde você estava, querido? –perguntou ela, jogando o cigarro de qualquer jeito no cinzeiro, se abaixando para acariciar os cachinhos loiros em sua cabeça.

-Tive que ficar até mais tarde. – Mentiu. –O que aconteceu? Cadê todo mundo? Foi ele quem te fez isso?

-Calma, Jesse. –pediu ela. –Seus irmãos estão no quarto, até segunda ordem. Seu pai está com eles lá em cima vendo televisão. Avise que você chegou, e veja se ele decidiu que vamos comer.

Jesse não se conformava com a calma de sua mãe.

-Ele bateu em você e nos outros? –perguntou.

-Só no Rory e em mim. Vai chamar o papai, ta? –pediu.

Aquilo não era justo.

Se afastou dela, subindo as escadas, dois degraus de cada vez.

O jantar aconteceu em silêncio, o rosto de Rory estava bem mais machucado que o de sua mãe, e seu pai agindo como se Jesse simplesmente não existisse. Os outros comeram em silêncio, foram para os quartos em seguida.

-Jesse, você e o Rory ficam. –bradou irritado. Era horrível como o cheiro da bebida parecia perdurar em suas roupas, seu hálito, seu suor. Os dois se sentaram à mesa novamente, vendo seu pai se levantar, puxar sua mãe pelo ante-braço até a frente de Jesse com violência. –Você está vendo a cara da sua mãe, Jesse? –perguntou.

Jesse assentiu, sem expressão, sem sentimentos. Não daria a ele o gostinho de parecer amedrontado, mas a verdade era que no momento tudo que queria era John ao seu lado, segurando sua mão, o assegurando de que tudo ficaria bem.

-E o Rory? –seu pai apontou seu irmão – Você está vendo o estado do seu irmão, Jesse Thomas?

Jesse assentiu novamente. Não precisava olhar de novo para perceber que Rory havia sido espancado até estar perto de perder a consciência.

-Sabe por que eles estão assim, Jesse? Porque você não os ama. Porque você é um irresponsável, um inútil que não consegue sequer chegar em casa no horário certo! –seu pai berrou, dando um soco na mesa, fazendo os pratos tremer, copos tombar. Jesse encolheu o corpo pequeno na cadeira, os olhos fixos na expressão facial de seu pai, o bafo de whisky o deixando enojado.

-Desculpe. –pediu.

-Toda vez que você se atrasar, serão eles quem irá pagar por isso! Você não os ama, Jesse, eu sei que não os ama, mas pelo menos tente os respeitar, ou qualquer dia você vai chegar e encontrar a cabeça da sua mãe enfeitando a escada da frente! – disse, o olhar penetrando o de Jesse, que continuou frio, superficialmente frio, mas sentindo o estômago revirar com a possibilidade. –Vá pro seu quarto, eu preciso conversar com esses dois ainda.

Jesse saltou da cadeira, correndo escada acima, tudo que seu pai disse parecendo tomar conta dele agora. Passou reto pela porta do quarto, se trancando no banheiro no fim do corredor. Se encostou na porta, deixando o corpo escorregar até o chão, sentindo as lágrimas silenciosamente correrem pelo deu rosto, caindo em sua camiseta. Amava sua mãe e Rory, e seus irmãos. Não queria que nada acontecessea eles, e sabia que o que aconteceu foi sua culpa. Sabia que tinha horário para estar em casa, mas simplesmente se deixou atrasar. Era tudo culpa sua, e se cometesse mais algum erro, era provável que perdesse sua mãe.

Ou até mesmo sua própria vida.

Não entendia qual era o problema de seu pai com ele, por que queria ele presente pro jantar? Logo ele, Thomas Lacey, seu pai, que foi tão ausente durante tantos anos...

Jesse se levantou, abriu o armário, pegando a escova, colocou a pasta, se recusando a olhar o próprio reflexo enquanto escovava os dentes. Terminou o bochecho, ainda sentindo os olhos úmidos, lágrimas ainda correndo pelo rosto. Guardou a escova, a pasta, vendo ali, dobrada e esquecida a navalha velha do seu pai.

Precisava se punir de alguma forma.

Era ele quem deveria ter apanhado, não Rory ou sua mãe. Era ele quem deveria estar com o rosto machucado, o corpo dolorido, não eles.

Eles não haviam feito nada de errado.

Antes que se desse conta do tamanho da insanidade que cometia, a navalha cruzou seu pulso, causando um arranhão que pouco sangrou.

-Eu tão idiota que nem me machucar consigo... –resmungou, só então se dando conta que a navalha havia sido abandonada justamente porque perdeu o corte, precisava de uma lâmina nova.

A enfiou no bolso da calça, fechando o armarinho do banheiro, saindo para o corredor em direção ao quarto.

Na volta da escola, no dia seguinte, daria um jeito naquilo.