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-Meus pais gostam de Long Island, mas eu prefiro o Texas. –admitiu a garota que estava tendo sérios problemas com a caixinha de leite. –Só que eles acharam que pra Stacy seria melhor, e a Chauntelle gosta mais daqui também...

John assentiu, cutucando a comida no prato em sua bandeja, cada dia que passava a South Shore piorava a qualidade do lanche.

-Aqui é legal, foi muita sorte você ter vindo parar na mesma escola que nós! –exclamou Jesse observando os dedos finos da garota tentando abrir a caixinha de leite. Puxava uma das pontas, segurando o resto do quadradinho, mas a cola parecia decidida a não se soltar.

-Foi! Foi mesmo! Vocês não mudaram nada em três anos. –riu, sentindo a caixinha ser tomada de suas mãos por Jesse, que abriu o outro lado sem a menor dificuldade.

-Não sei no Texas, mas aqui o leite tem o lado certo pra se abrir. –sorriu ele, desdenhoso. Sherri bufou, mas aceitou o leite de volta.

-Obrigada. –agradeceu sem realmente ter vontade de fazer aquilo, vendo John claramente segurar a risada.

-E a Chauntelle? –perguntou. Sherri apontou para a porta, enquanto mastigava seu lanche.

-Provavelmente com as crianças. Hey, querem ir lá em casa hoje? –perguntou animando-se de repente. –Meus pais trabalham o dia todo, ficaremos sozinhos e podemos levar um monte de gente. Meus pais querem que tenhamos uma vida social saudável, e eu não vejo outro modo de fazer isso senão levar meus amigos lá. E o Weston estará junto, então vocês não serão os únicos meninos.

John e Jesse se entreolharam, animados por um segundo. Seria divertido sair com mais pessoas que não fossem eles mesmos, ou Shaun, Will, Vinnie, Brian e os Tierney. Por um momento a idéia lhes pareceu realmente boa, realmente divertida, mas foi Jesse quem fechou os olhos, fazendo uma careta.

-Coral! Hoje eu tenho ensaio do Coral! –disse bufando, enquanto John assentia.

-Eu tenho aula de violão e depois aula de piano. –resmungou. Se entreolharam, e depois para Sherri, que os fitava confusa.

-E amanhã...? –começou Jesse.

-...amanhã estaremos livres. –completou John. Sherri abriu um largo sorriso e assentiu.

-Amanhã! Perfeito! Podemos brincar de Verdade Ou Desafio! – riu, se levantando com a bandeja. –Vejo vocês na sala!

John e Jesse mantiveram o sorriso nos lábios algum tempo, até que se entreolharam, ambos pensando exatamente a mesma coisa. Fizeram um giro de noventa graus no banco, fitando as costas de Shaun Cooper e seus amigos. John esticou a mão, a pousando no ombro do mais velho, que se virou imediatamente para eles, mastigando alguma coisa.

-Shaun, o que é ‘Verdade Ou Desafio’? –perguntou confuso.

Shaun cuspiu praticamente todos os M&M’s que estava mastigando segundos antes da pergunta.

John se jogou no sofá, já vendo tudo um tanto torto, um tanto fora da realidade, como se fosse um sonho estranho que ele pudesse controlar, um pouco. A fumaça dos cigarros acesos – inclusive do seu – tornavam o ambiente um misto de meia luz, sombras e névoa, tudo um tanto sujo. O som alto dava o toque final àquela festa, Nirvana tocando no último volume, destruindo alto-falantes, agredindo os tímpanos, e ele ali, jogado naquele sofá com um copo de cerveja na mão, observando pessoas indo e vindo enquanto alguém se agarrava com outro alguém ao seu lado.

Definitivamente, invadir um prédio para fazer festa foi uma idéia genial.

Terminou o conteúdo gelado do seu copo e o jogou li no chão mesmo, não era como se precisasse zelar pela casa de alguém, ninguém morava ali.

Estava pensando em se levantar e procurar alguém, Jesse por exemplo, quando justamente ele surgiu na sua frente, a jaqueta Jean com as mangas cobrindo parte das mãos, um sorriso bêbado no rosto, e os olhos ainda extremamente azuis mesmo na meia luz.

-”Hello, hello, hello, how low...” -cantou ele, apoiando as duas mãos no encosto do sofá, aproximando o rosto do rosto de John, que ria, enquanto Jesse tentava acompanhar Kurt Cobain em toda sua monotonia na música.

-Você está muito bêbado! –riu.

-Nós temos quinze anos, é nosso direito ficar bêbados. Pegou alguém? –perguntou, John sacudiu negativamente a cabeça. –Aw!

Jesse olhou para o casal se agarrando ao lado de John, sacudiu a cabeça e os empurrou levemente.

Tão bêbados que nem perceberam que foram ao chão.

Jesse se sentou, passando um braço por cima dos ombros do mais velho, sorrindo:

-Sabe, eu beijei a Sherri. –disse e o olhou, incrédulo. Desde que tinham doze anos Jesse evitava chegar perto da garota depois do dia que ela os ensinou a brincar de Verdade Ou Desafio em sua casa e Jesse viu Weston beijar uma outra garota da escola, e viu Sherri beijar Shaun, e quase foi obrigado a sar seu primeiro beijo em Chautelle (mas saiu correndo). Para ele aquilo foi demais, e ele jurou que nunca, jamais, encostaria em Sherri, apesar de ser visível que os dois se gostavam.

Muito.

-Como? –John perguntou, agora realmente interessado no que estava acontecendo.

-Estávamos na cozinha, eu estava fumando, ela disse que ficaria comigo, eu perguntei se ela ficaria comigo hoje, ela disse que sim, eu a beijei. Ficamos um pouco e ela precisou ir embora. –disse simplesmente.

-Que simples... –comentou John. Achou um tanto sem graça. Imaginou que os dois tivessem brigado antes, e Jesse tivesse declarado todo seu amor por ela, e ela por ele, e enfim ele a Chauntelle poderia viver em paz sem os dois tentando se matar a cada vinte minutos.

-Muito, muito simples. Você sabe, a bebida torna tudo simples. –disse gesticulando a mão livre no ar. –O Vinnie está drogadíssimo.

-O Vinnie? –perguntou John. Era engraçado como Vinnie sempre parecia muito mais avançado que todos eles juntos, mesmo sendo o mais novo da turma. Sempre o primeiro a ter uma “PT”, sempre o primeiro a começar a fumar – John começou ainda depois de Adam –, sempre o primeiro a se drogar.

-Ele trouxe maconha. Eu ia tentar, mas vim te procurar antes, pra ver se você consegue me persuadir a não fumar. –disse assentindo enquanto falava. Era como se John fosse o anjinho do ombro direito de Jesse.

-Eu não vou te persuadir a nada, Lacey, eu também quero! –exclamou se levantando e puxando o amigo junto. –Onde ele está?

-Do lado de fora! –Jesse ria alto, enquanto o som com os gritos de Kurt Cobain tremiam o chão fraco de madeira velha. –John! Você devia me obrigar a não fazer isso!

-Eu to bêbado demais pra pensar nas conseqüências! –riu John.

-Hey, vocês dois! –exclamou alguém vindo na direção deles, estatura baixa, cabelo no rosto. –O Vinnie disse que fez mais um, e que está esperando vocês. –avisou Matt, já um tanto desnorteado.

Eram adolescentes, tinham que experimentar as coisas, não é?

Jesse não conseguia parar de rir.

Não sabia nem exatamente do que é que estava rindo, mas estava achando tudo deveras divertido, os sons, as pessoas, não estava enxergando muito bem, mas estava tudo ótimo. E John... John estava deitado em seu colo, falando nada com nada e rindo muito também. Estava falando sobre existencialismo, e em como usar drogas não era o que sua mãe achava que ele deveria fazer, mas que era só um teste, certo? Ninguém ali era viciado.

-Não são drogas, John, é maconha. – corrigiu Vinnie. –É só maconha.

Vinnie estava realmente alterado.

-Maconha não é cigarro de menta. – avisou Jesse. –Eu gosto dos meus neurônios. –Como Jesse ainda conseguia pensar depois de fumar com eles era um mistério para John.

-Cigarro de menta é pra idiotas. –exclamou Matt se jogando ao lado de Vinnie no chão da varanda velha do prédio invadido. –Apesar do gosto ser bom, eu gosto de beijar o Adam quando ele fuma.

O silêncio se fez.

Matt viu os olhares confusos o fitando, e riu.

-Gente, amigos! Nós não somos gays. É só beijo, e não é como se acontecesse, sei lá, uma vez por semana. Uma vez a cada dois meses, talvez. –explicou.

A atmosfera pareceu melhorar, quando os outros riram.

-O John é meu melhor amigo, e eu não beijo ele. –disse Jesse. Vinnie riu alto.

-Não seja por isso! –disse apontando John. –Ele está deitado no seu colo, olha que romântico.

Jesse e John trocaram um olhar longo o bastante para decidirem que é, até se beijariam se quisessem.

-O colo dele é confortável, Vinnie. –revidou John, quebrando o contato visual com Jesse para responder ao moreno. Sua frase arrancou uma exclamação de fofura de Matt, e risos de Jesse e Vinnie.

-Vocês podiam tentar qualquer dia, sabe, se beijar. – disse Vinnie. –Aposto que acabariam gostando.

-Vinnie, nós não somos gays! –exclamou Jesse rindo alto. –Eu acabei de pegar a Sherri, você viu!

-E eu estou muito bem com a Laura, obrigado. – disse John.

Shaun e Will colocaram as cabeças para fora da sala, observando os quatro na varanda. Will inspirou o cheiro, fazendo uma careta, enquanto Shaun revirava os olhos.

-Eu não acredito nisso! Além de bêbados, vocês estão drogados.

Os quatro riram, como se Shaun não estivesse falando nada com nada.

-Essas músicas tem umas notas altas, é impossível alcançar. –reclamou Jesse, carregando nas costas o violão de John, enquanto ele levava o teclado, ambos caminhando em passos lentos, cansados. Os ensaios do Coral da South Shore duravam o dia inteiro, só saíam da escola quando a noite já estava caindo. Seus pais nunca estavam em casa nas segundas, o que ocasionava em duas crianças voltando à pé para a casa. Não era exatamente perigoso andar à noite por ali, mas não era totalmente seguro, havia algumas gangues em Levittown, mas nenhuma que estivesse agindo próximo ao bloco deles.

-Pelo menos eu consegui tirar a música de Natal inteira. É complicado, porque acho que serei eu quem terá que tocar teclado, visto que os dedos dos outros é pequeno demais pra alcançar todas as notas. –reclamou. Jesse riu.

Tocava violão, mas não tinha a menor idéia do que fazer com um teclado, então achou melhor se dedicar à voz no Coral, e acabou que foi escolhido como uma das vozes principais, e agora estava encrencado com as notas altas.

-Será que as garotas gostam de garotos que participam do Coral? –perguntou chutando uma pedrinha que surgiu no caminho. John suspirou, pensativo.

-Sabe, eu não sei.

-Nós temos doze anos, meu irmão beijou aos doze anos, John! –exclamou, frustração em sua voz. –E hoje a Sherri chamou a gente pra jogar Verdade Ou Desafio!

-Sim, e daí? – John perguntou. Podia estar soando um tanto lento, mas realmente queria entender qual era o problema de Jesse. Se ele queria beijar alguém, na brincadeira ele provavelmente conseguiria, aliás, ele próprio talvez conseguisse algo.

-Daí, J.No, que se nós formos brincar disso, e por acaso precisarmos beijar alguém, nós não sabemos como o fazer, sacou? – respondeu, gesticulando com as mãos no ar.

-E vai ser o grande mico do ano! –John entendeu. É, seria ridículo chegarem em uma roda com garotas que sabem beijar todo mundo sem saberem o que fazer com a própria língua. –Eu acho que eu não quero brincar disso.

-Nem eu. – respondeu Jesse.

Caminharam em silêncio algum tempo, apenas deixando que o som dos carros passando esporadicamente ao lado deles ditasse o ritmo de seus passos. Seria bem complicado descobrir como beijar alguém até a tarde do dia seguinte, ou poderiam dar um jeito de evitar totalmente que começassem a brincadeira.

Poderiam insistir para andar de skate, ou jogar baseball! Jesse amava baseball, John amava baseball, eram grandes fãs dos Yankees, seria ótimo! Poderiam adiar essa coisa de beijar alguém por anos e anos...

Prenderam a respiração, se entreolhando assim que o primeiro beco escuro surgiu em seu campo de visão, aceleraram o passo, correndo para o outro lado da rua, voltando a respirar assim que se viram longe dali. Havia ainda mais dois desses becos no caminho até em casa, o que deixava tudo mais emocionante. Sabiam que nada sairia dali, mas era divertido se imaginar em um filme de ação em que de repente eles começavam a ouvir passos atrás deles, acompanhando os seus, como estava acontecendo no momento.

John olhou de soslaio para Jesse, que tinha a feição um tanto transtornada: ele também havia notado.

Poxa vida, eram só duas crianças, que tipo de pessoa perseguia crianças?

-Talvez não seja nada. –Jesse murmurou.

-Vamos olhar? –perguntou John no mesmo tom. Jesse assentiu.

-No três. Um, dois... três! –os dois viraram as cabeças para trás, vendo o que pareciam ser três garotos, de agasalho de moletom, com o capuz cobrindo parte dos rostos.

Eram uma das gangues que estavam falando nos jornais.

Não precisaram fazer contagem alguma para começarem a correr, com um pouco de dificuldade por estarem carregando instrumentos, mas ainda assim, correram. O máximo que suas pernas e seus pulmões podiam agüentar, ouvindo os gritos de protestos e passos dos outros atrás deles, gritando, ordenando que parassem, os chamando de maricas, medrosos, tentativas de que se irritassem e voltassem para os enfrentar. E no momento, bem, no momento poderiam chamar os dois de qualquer coisa, nem o Espírito Santo descendo à Terra os faria parar de correr – e gritar.

Pararam, ofegantes, praticamente sem pulmões, assim que chegaram na esquina da rua da casa de John, se jogando no jardim da primeira casa que surgiu em vista, Jesse esparramado de um lado, John esparramado do outro, olhos arregalados, amedrontados.

-Eu... juro... –começou John -... que eu nunca... em toda minha vida... senti tanto... medo.

Jesse virou o rosto, o olhando.

-E... eu juro... que eu nunca... em toda minha... vida... corri... tanto.

Fecharam os olhos, deixando que o ar e a calma voltasse a seus corpos, desacelerando os batimentos cardíacos de ambos, os fazendo voltar à realidade, perceber o ambiente à sua volta.

Jesse achou que iam pegar no sono quando uma voz forte masculina os fez saltar do jardim, se colocando de pé no mesmo instante:

-Meninos! – O Sr.Nolan chamou. –Estão bem?

John e Jesse trocaram olhares rápidos, e assentiram.

-Estamos ótimos, só cansados. –disse Jesse, vendo o Sr. Nolan pegar o violão de John do chão, e o teclado. –Eu já vou.

-Não quer ficar para o jantar, Jesse? –ofereceu o pai do melhor amigo. Jesse sacudiu negativamente a cabeça, não queria nem ver quais seriam as conseqüências se não chegasse logo em casa.

-Não, muito obrigado! –sorriu, recebendo um sorriso amigável do Sr.Nolan de volta. Ele se virou, seguindo pela rua. John tocou de leve sua mão com a ponta dos dedos, murmurando um “cuidado” baixo o bastante para que somente ele ouvisse. Jesse assentiu, cruzando a rua e correndo para casa.

Chegou na rua de casa pouco depois, parou na frente, observando o jardim iluminado, e a porta convidativa. Subiu as escadinhas de leve, abrindo a porta e entrando rápido, fechando a porta atrás de si sem hesitar, sabendo que não adiantaria muito, não conseguiria abafar os gritos que ouviu já na calçada. Respirou fundo, engolindo em seco, correndo para a cozinha.

-Onde esse moleque se meteu? –gritou mais alto seu pai, enquanto sua mãe somente se encolhia com seus irmãos, próxima à pia. Seu pai estava de costas para a porta, dando socos na mesa pronta para o jantar enquanto falava. -Onde o Jesse se enfiou a essa hora?

-Boa noite. –disse baixinho, vendo o olhar aliviado de sua mãe, enquanto seu pai se virava para ele devagar.

-Onde você estava? –perguntou, o cheiro da bebida em seu hálito embrulhando o estômago vazio da criança.

-Já disse, pai, ele estava no Coral da escola, ensaiando. –respondeu Rory com calma.

Jesse assentiu, forçando um sorriso nos lábios.

-Sim, eu estava no Coral, pai. Perdão pelo atraso pro jantar, mas me seguraram lá porque eu não conseg...

-Vai sentar! –seu pai berrou antes que ele terminasse a frase. –Eu estou com fome e sem tempo para suas baboseiras.

Todos se sentaram rápido à mesa, sua mãe servindo seu pai primeiro. Todos comeram em silêncio, sabiam que não era bom falar quando seu pai estava bêbado. Sabiam que só falariam quando ele perguntasse algo, e sabiam que todos iriam para a cama sem pestanejar assim que ele ordenasse. Caso Rory se negasse, por ter dever de casa ou algo do tipo, todos teriam que assistir o mais velho ser espancado. Ou se, por caso, sua mãe intervisse, ela também. Jesse sempre era quem mantinha todos os outros calados, mesmo que estivessem chorando ao assistir a cena, ele era quem nunca chorava.

E quando acabasse, Jesse e Rory colocariam os mais novos na cama, depois iriam para o quarto que dividiam, e então murmurariam sobre como foi o dia de cada um, ririam com os rostos enfiados nos travesseiros para que seu pai nunca acordasse com o barulho, e achasse que estavam dormindo. Depois pegariam no sono, e no outro dia não comentariam nada. Jesse levaria a culpa pelos machucados de Rory quando perguntassem na escola, ou a escada, ou o skate, nunca seu pai.

Ninguém saberia, porque nunca nada seria dito.

Nem entre eles, nem com as outras pessoas.

John, por exemplo, não sabia. Não fazia a menor idéia...