Mon Petit Prince
10 Parte 10
-------------------------10------------------------------Uma das mãos segurava firme o livro grosso de Estudos Sociais, enquanto a outra selecionava o de matemática dentro do armário bagunçado da South Shore. O braço magro estava começando a doer com o peso da mochila jogada em um ombro, o mesmo ombro do braço que agüentava agora dois livros, fora os cadernos. Com os olhos azuis percorreu o horário de aulas colado na porta do armário descascado e sorriu, vendo que tudo que precisava estava com ele. Fechou a portinha, pegando a mochila e jogando tudo lá dentro, recebendo os olhares tortos dos outros alunos que passavam por ali: ele era o único que não decorava o armário.
Ele e John, na verdade.A diferença é que ninguém olhava John torto, porque John era... porque John tinha sorte.-Você viu? Vamos aprender de 1977 até os dias atuais em Estudos Sociais. Seremos obrigados a decorar os presidentes dos Estados Unidos. –resmungou John, o alcançando no corredor, folheando o livro com os dedinhos ágeis, ajeitando o recém adquirido par de óculos sobre o nariz.Jesse nunca se acostumaria a ver o amigo de óculos.-Nós só temos doze anos e eles querem que sejamos experts em presidentes. Eu odeio essa escola. Aliás, eu odeio essa cidade. Nós deveríamos nos tornar jovens rebeldes, fumar, roubar o carro do seu pai e fugir pra Los Angeles. –exclamou o loirinho apertando o passo, o corpinho curvado para frente por causa do peso dos livros n mochila.-Por que o carro do meu pai? –perguntou John fechando o livro, entrando na sala com o amigo.-O do seu pai vai fazer menos falta, menos crianças para transportar. Lá em casa já são cinco, e minha mãe está grávida. –e olhou John para um efeito dramático – De novo.-Sua mãe está sempre grávida, Lacey. –ecoou uma voz do fundo da sala, que foi solenemente ignorada pelos dois alunos que se sentaram quietos. Jesse não precisava daquilo, ah, não mesmo! Já bastavam os vizinhos olhando torto cada vez que nascia um Lacey, ele não precisava das pessoas da escola o atormentando também.O engraçado era que só pegavam no seu pé. Quando falavam algo para Rory ele só precisava os olhar torto e todos ficavam quietos.Era mesmo aquele fator que ele não tinha: sorte.Ou tamanho.John sempre ficava irritado, soltava um palavrão ou dois e acabava assustando os idiotas para Jesse. Era ruim ouvir aquelas coisas sobre seu melhor amigo, afinal, se ele tinha uma família numerosa, o problema era dos pais dele, o coitado não tinha nada a ver com a quantidade de irmãos que resolviam lhe dar.Se bem que ele achava exagerado a quantidade de filhos que os Lacey tinham, e entendia completamente quando Jesse dizia que dormir em sua casa era maravilhoso, porque era silencioso.-Droga. –resmungou passando para a carteira vaga na frente de Jesse. Havia começado a usar óculos fazia alguns meses, e era extremamente incômodo quando mesmo com os óculos não conseguia ver direito o que estava na lousa. No começo Jesse meio que evitava o olhar, porque começava a rir. Depois quis experimentar os óculos, e ficou horrorizado quando percebeu que enxergava melhor com os óculos de John. Desde então o loiro evita o assunto “oftalmologista” toda vez que sua mãe toca no assunto, ou pergunta a John se ele está vendo tudo direitinho.-Ainda não está enxergando? Eu posso te emprestar minhas anotações. –murmurou Jesse apoiando o queixo em seu ombro. Era uma mania que tinha. No começo, quando Jesse fazia isso, John tinha vontade de jogar o corpo para frente só para ver o amigo tombar a cabeça na carteira, mas com o tempo o gesto se tornou algo normal, e John raramente percebia o peso do queixo do outro sobre seu ombro direito.-Agora melhorou. –disse. –Acho que minha miopia aumentou.-Que bosta. –resmungou Jesse, sem tirar a cabeça dali. –Que engraçado. –ele ria baixinho.-O que foi, Jess? –perguntou. Jesse era tão esquisito...-Eu consigo ver parte da lousa pela lente dos seus óculos. Fica mais forte a cor do giz. –e esticou o bracinho apontando a lousa. John riu.-Lacey e Nolan, o que é isso? –perguntou a mulher de cabelos castanhos parada na frente da sala com um livro. A sala toda os olhava.-Só estava perguntando para o John se ele queria minhas anotações. –respondeu Jesse tirando a cabeça do ombro de John, se sentando direito na carteira. A mulher os olhava, os lábios, cobertos por uma grossa camada de batom vermelho, juntos, as sobrancelhas formando uma diagonal para o centro da testa.-Sempre vocês dois. –suspirou ela. –Eu não quero mais contato físico entre vocês na minha aula, e não quero conversa.Os dois se entreolharam, sem entender os risinhos abafados dos meninos, e os olhinhos brilhando das meninas.Certo: estavam em uma sala de gente muito estranha.- Tá frio, Jess. –resmungou Vinnie se encolhendo no escuro, erguendo as mãos para o rosto na forma de uma concha, as assoprando como que para se aquecer. Só queria sair daquele escuro, fumar um cigarro e se enfiar em casa.
- Eu sei, Vinnie. – resmungou Jesse, se esticando pela parede, estreitando os olhos azuis, fitando a porta da casa. A casa que provavelmente estava aquecida por dentro, a casa onde eles poderiam estar se Jesse simplesmente deixasse de paranóia quanto a John.- Jesse, por que não batemos na porta? –perguntou enfiando o nariz no pescoço do amigo, o fazendo estremecer.-Tira esse nariz de cima de mim! Está gelado! – Jesse grunhiu, puxando a gola do casaco para cima e a touca para baixo. –Se batermos na porta, ele vai fingir que não está. Vinnie passou os braços em volta da cintura de Jesse, enfiando o rosto gelado no pescoço do mais baixo, que resmungou, mas não o repeliu. Estavam ali há mais de vinte minutos, e nada. Nem um movimento na porta, silêncio vindo da casa, e floquinhos de neve começando a vir do alto direto para eles. -Por que estamos aqui? –perguntou Vinnie sem tirar o rosto do pescoço de Jesse, que tentava proteger as mãos do mais novo com as suas.-Porque o John está com uma garota lá dentro, e ele não quer me contar quem é. Já faz semanas que ele está estranho, que ele está saindo com essa garota e não me conta. Eu já perguntei, já forcei situações, e ele simplesmente não me conta. –suspirou – Estou ficando preocupado que seja a minha garota.Ficaram em silêncio algum tempo.-Ele não faria isso. –constatou Vinnie.-Então por que ele não me conta? –indagou Jesse. Vinnie ia responder qualquer bobagem só para acalmar o amigo, mas desistiu quando a porta da casa se abriu, e duas pessoas saíram.John, e uma garota de cabelos longos e avermelhados. Usava um sobretudo, uma touca de lã, luvas e botas.-Tem certeza que não quer que eu vá junto? –perguntou John segurando suas mãos, e ela sacudiu negativamente a cabeça.-Melhor não, se meus pais verem... Bem, de qualquer forma, é perto. –ela se esticou na ponta dos pés, o beijou e saiu em passos rápidos.Jesse e Vinnie estavam estáticos.Vinnie se sentiu ser empurrado quando Jesse avançou por cima dos arbustos na direção de John.-John! –exclamou, fazendo o outro parar, o olhando assustado. Estava pálido, olhando de Jesse para Vinnie, de Vinnie para Jesse.-Hey... –disse sem graça.-Foi por isso que não me contou! –berrou Jesse o segurando pelos ombros. –Seu pedófilo!John girou os olhos.-Vinnie, vai atrás dela, a acompanhe até em casa, por favor. –pediu John, e o mais novo se retirou, feliz por não precisar presenciar aquilo. Olhou para Jesse e riu.-John, não é engraçado. –disse o loiro, sério. –Ela tem a idade...-...certa pra decidir o que ela quer. –disse John. –Eu sabia que você ia surtar.Jesse o soltou, tirando a touca da cabeça, andando de um lado para o outro, como se pensasse no que fazer.-A Sherri sabe disso? –perguntou o olhando de repente.-A Sherri e a Chauntelle sabem. E o Weston, e o Garron. E eles também sabiam que você ia agir assim. –John coçou a própria nuca.Sabia que Jesse agiria como o irmão mais velho da cunhadinha, mas Stacy não era mais uma criança, por Deus!-Por que ninguém me contou? –perguntou Jesse fazendo um bico.John teve vontade de gritar.Será que ele não entendia que era tão previsível?A segunda aula, de inglês, não era exatamente o que eles chamavam de agradável, mas pelo menos a professora não agia como se eles fossem um bando de idiotas, os xingando o tempo inteiro. Mas também não era agradável ficar sentado ali aprendendo literatura.A vida escolar estava começando a ficar difícil.John deitou a cabeça na carteira, fitando longe dali o prédio do jardim de infância.Da janela podia ver o seu balanço, o que um dia foi sua sala de aula, onde conheceu Jesse, onde aprontaram tanto... tinha saudades da época em que prestar atenção na aula não era tão necessário, e ele podia ler, impedindo que as pilhas de livros ficassem acumuladas no seu quarto.Suspirou sentindo um cutucão em seu ombro, virou o rosto, vendo Jesse fazer um gesto de que precisava de um lápis. Pegou o que tinha em cima da mesa e esticou o braço.No exato momento em que Jesse segurou o lápis entre os dedos, a porta da sala se abriu, e uma garotinha de cabelos loiros, ofegante, adentrou a sala de aula, entregando um papel para a professora.John franziu a testa, em uma expressão facial muito parecida com a de seu amigo, ambos segurando o mesmo lápis.A professora pegou o papel, enquanto a garotinha retirava o cabelo de cima do rosto, revelando as bochechas vermelhas, os olhos azuis.Não azuis como os azuis de Jesse, John reparou, mas ainda assim, azuis.-Senhorita, está bem atrasada. –disse a professora. –Mas é seu primeiro dia. –voltou o rosto para o resto da sala, que até então estava em silêncio, parecendo segurar a respiração. –Crianças, essa é sua nova colega de sala. Digam olá para Sherri DuPree.O lápis caiu no chão.
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