O silêncio na casa de Coate era interrompido apenas pelos gemidos baixos de Anrão enquanto seu pai o ajudava a se deitar.


— Obrigado, Num, por me ajudar com ele. Anrão está pesado como uma rocha — disse Coate, limpando o suor da testa.


— Não foi nada, senhor Coate. É um prazer ajudar um irmão — respondeu Num, guardando as ervas. — Agora preciso voltar à obra, ou os feitores me darão o mesmo destino. Fique bem, meu amigo.


Assim que Num saiu, o clima dentro da casa ficou pesado.


Hebrom observava o irmão com uma mistura de pena e irritação.


— Por que tratou o Num daquele jeito? Ele só queria ajudar!


— Não se meta, Hebrom! — rugiu Anrão, tentando se sentar apesar da dor. — A conversa é entre mim e meu pai.


— Esqueceu que ele também é meu pai? Eu me meto quando quiser!


Coate rapidamente se colocou entre os dois.


— Chega! Hebrom, volte para o trabalho. Agora!


Hebrom saiu batendo a porta, revoltado.


Anrão bufou.


— Engraçado... eu sou o chicoteado, mas é ele quem sai revoltado.


— Você vai pedir desculpas ao seu irmão mais tarde — ordenou Coate. — Hoje mesmo.


— Não, pai! Eu sou adulto. O senhor não pode me obrigar a pedir perdão por algo que não fiz!


Coate permaneceu em silêncio por alguns segundos. Então olhou para o filho com tristeza.


— O que aconteceu com você? Eu mal te reconheço.


Anrão desviou o olhar.


— O problema é que, ao contrário do senhor, eu não me conformo com essas correntes. E nunca vou me conformar!


Coate suspirou.


— Filho... eu achei que você tivesse superado o que aconteceu com sua mãe.


Ao ouvir aquelas palavras, os olhos de Anrão se encheram de lágrimas.


A lembrança de Livana voltou como um golpe.


Anos atrás...


Livana estava deitada, pálida e debilitada. A tosse constante roubava suas forças. Anrão, ainda jovem, segurava sua mão com desespero.


— Cuide do seu pai e dos seus irmãos, Anrão — sussurrou ela, com dificuldade. — Prometa que vai se casar, ter filhos e nunca se afastar dos caminhos de Deus.


— Não morra, mãe! — gritou o rapaz. — Quem vai cuidar de mim?


Livana tentou sorrir, mas seus olhos se fecharam lentamente.


A vida deixou seu corpo naquele instante.


O grito de Anrão ecoou pela vila e permaneceu na memória de todos que o ouviram.


Dias atuais...


— Ela morreu porque os egípcios não permitiram que parasse de trabalhar, mesmo estando doente! — gritou Anrão para o pai. — Eles a mataram! E o senhor quer que eu me conforme? Nunca!


Coate segurou o braço do filho.


— Eu também sofri com a morte dela. Mas não quero que seu ódio o afaste de Deus. O ódio não constrói nada, Anrão. Você precisa aprender a seguir em frente.


— Seguir em frente? — Anrão respondeu, com lágrimas nos olhos. — Como se nada tivesse acontecido?


Coate não respondeu.


Anrão virou o rosto, consumido pela lembrança da mãe.


As Sombras da Vingança


Enquanto isso, no esconderijo subterrâneo, o som do metal contra a pedra ecoava pelos corredores.


Renan afiava sua faca com movimentos lentos e precisos.


— Amolando armas de novo, Renan? — perguntou Gael, preocupado.


— Sim. Para o nosso próximo ataque.


Gael respirou fundo.


— Eu não quero mais fazer isso. Nós matamos pais de família, maridos... Eles só estavam cumprindo ordens.


Renan levantou os olhos.


— Cumprindo ordens?


Em um movimento súbito, empurrou Gael contra a parede e pressionou a lâmina contra seu pescoço. Um pequeno fio de sangue apareceu na pele.


— Quando você entrou aqui, eu disse que não havia volta — sibilou Renan. — Eu não aceito covardes.


— Renan...


— Eles mataram minha família! — gritou ele. — Aqueles homens representam o mesmo povo que destruiu minha vida. Ninguém vai me impedir!


Gael permaneceu imóvel.


Renan finalmente afastou a faca.


— Limpe o sangue.


Gael passou a mão pelo pescoço, assustado.


— Você está deixando sua vingança consumir tudo o que somos.


Renan não respondeu.


Poucos minutos depois, passos ecoaram pelas escadas.


Renan imediatamente puxou a faca novamente.


— Quem está aí?


Uma figura surgiu na entrada.


— Calma, Renan. Sou eu.


Renan abaixou a arma ao reconhecer Anrão.


— Por pouco você não virou estatística, rapaz.


Anrão entrou no esconderijo e olhou para Gael.


— O que aconteceu?


Gael permaneceu em silêncio.


Renan cruzou os braços.


— Agora diga você. O que faz aqui?


Anrão olhou para as próprias mãos, ainda marcadas pelo trabalho escravo.


A dor nas costas continuava presente.


— Eu pensei no que você me disse.


Renan esperou.


— Quero ajudar.


O líder abriu um sorriso.


— Ajudar como?


Anrão levantou os olhos.


— Quero lutar. Quero ajudar a derrotar os egípcios.


Renan colocou a mão sobre o ombro dele.


— Então você veio ao lugar certo.


Gael observou os dois em silêncio, claramente preocupado com o caminho que Anrão estava escolhendo.


O Jogo de Poder


Enquanto isso, no palácio, o Faraó Seti I estava furioso.


— Cinco oficiais mortos em uma única noite, Denays. Isso não é apenas um crime. É um insulto ao meu poder!


Denays manteve a cabeça baixa.


— Eu ainda não descobri quem está por trás dos ataques, soberano. Nossas patrulhas são treinadas para enfrentar ameaças, mas os assassinos foram rápidos e desapareceram antes da chegada dos reforços.


Seti estreitou os olhos.


— Há mãos hebreias nisso?


— Não acredito que escravos tenham organização ou recursos suficientes para realizar algo assim.


— Não subestime o número deles! — respondeu Seti. — Se os hebreus se unirem, poderão se tornar uma ameaça.


Denays permaneceu em silêncio.


— Descubra quem fez isso — ordenou Seti. — Não quero desculpas. Quero respostas.


— Sim, soberano.


Denays deixou a sala.


Enquanto isso, o exército egípcio se preparava para a guerra contra os hititas.


Seti chamou Khnum.


— E nossos soldados?


— Estão sendo preparados, soberano. Selecionei homens determinados e experientes.


— Quero o melhor que o Egito puder oferecer.


— Terá.


Longe dali, em Hatuxa, o general Menkaure apertava entre os dedos o cordão que pertencera à sua mãe.


Seus olhos estavam cheios de ódio.


— Eu prometi, mãe. O que fizeram com a senhora não ficará impune.


Menkaure fechou a mão sobre o cordão.


— O Egito vai pagar.


Confissões na Casa de Senet


Na Casa de Senet, Yunet terminava seu ensaio enquanto Benu observava em silêncio.


Quando a jovem começou a se trocar, ele percebeu as marcas deixadas pela noite anterior.


— Você é linda, Yunet. Às vezes me sinto culpado por ter colocado você nessa vida.


Yunet continuou arrumando suas roupas.


— Não foi você que escolheu por mim, Benu. Depois que minha mãe morreu, ninguém me acolheu. Eu precisava sobreviver.


— Mas você ainda pode ter outra vida.


Yunet olhou para ele.


— Que vida?


Benu hesitou.


— Akhmim gosta de você. Agora ele é um soldado. Talvez pudesse se casar com você e tirá-la daqui.


Yunet soltou uma risada amarga.


— Prostituta não tem marido, Benu. Tem amante. O mundo não perdoa mulheres como eu.


— Talvez você esteja sendo injusta com ele.


— Não estou interessada em Akhmim.


Benu percebeu o brilho diferente nos olhos dela.


— Então existe outra pessoa?


Yunet sorriu discretamente.


— Existe.


— Quem?


— Um dia eu conto.


Ela voltou a se vestir, enquanto sua mente retornava ao encontro com Disebek.


Era diferente.


Ele havia olhado para ela como uma mulher, não como uma mercadoria.


O que Yunet ainda não sabia era que aquele sentimento poderia colocá-la no centro de uma perigosa rivalidade.


O Juramento de Anrão


No esconderijo subterrâneo, Renan caminhou até uma mesa onde algumas armas improvisadas estavam espalhadas.


Anrão observava tudo em silêncio.


— Se quer lutar conosco, precisará entender uma coisa — disse Renan. — Depois que começarmos, não haverá caminho de volta.


Anrão pensou nas palavras de sua mãe.


Depois pensou no chicote de Panarazy.


Pensou na morte de Livana.


Finalmente fechou os punhos.


— Eu já não tenho mais volta.


Renan sorriu.


Gael, porém, continuou preocupado.


Acima deles, Pi-Ramessés permanecia silenciosa.


Mas, naquela noite, o Egito começava a procurar seus inimigos.


E, sem saber, o Faraó estava cada vez mais perto de descobrir que a ameaça não vinha apenas de fora de suas fronteiras.


Ela já estava crescendo dentro delas.


CONTINUA NO PRÓXIMO EPISÓDIO