Moisés O Profeta Da Liberdade
4 Cicatrizes do Passado
O silêncio na casa de Coate era interrompido apenas pelos gemidos baixos de Anrão enquanto seu pai o ajudava a se deitar.
— Obrigado, Num, por me ajudar com ele. Anrão está pesado como uma rocha — disse Coate, limpando o suor da testa.
— Não foi nada, senhor Coate. É um prazer ajudar um irmão — respondeu Num, guardando as ervas. — Agora preciso voltar à obra, ou os feitores me darão o mesmo destino. Fique bem, meu amigo.
Assim que Num saiu, o clima dentro da casa ficou pesado.
Hebrom observava o irmão com uma mistura de pena e irritação.
— Por que tratou o Num daquele jeito? Ele só queria ajudar!
— Não se meta, Hebrom! — rugiu Anrão, tentando se sentar apesar da dor. — A conversa é entre mim e meu pai.
— Esqueceu que ele também é meu pai? Eu me meto quando quiser!
Coate rapidamente se colocou entre os dois.
— Chega! Hebrom, volte para o trabalho. Agora!
Hebrom saiu batendo a porta, revoltado.
Anrão bufou.
— Engraçado... eu sou o chicoteado, mas é ele quem sai revoltado.
— Você vai pedir desculpas ao seu irmão mais tarde — ordenou Coate. — Hoje mesmo.
— Não, pai! Eu sou adulto. O senhor não pode me obrigar a pedir perdão por algo que não fiz!
Coate permaneceu em silêncio por alguns segundos. Então olhou para o filho com tristeza.
— O que aconteceu com você? Eu mal te reconheço.
Anrão desviou o olhar.
— O problema é que, ao contrário do senhor, eu não me conformo com essas correntes. E nunca vou me conformar!
Coate suspirou.
— Filho... eu achei que você tivesse superado o que aconteceu com sua mãe.
Ao ouvir aquelas palavras, os olhos de Anrão se encheram de lágrimas.
A lembrança de Livana voltou como um golpe.
Anos atrás...
Livana estava deitada, pálida e debilitada. A tosse constante roubava suas forças. Anrão, ainda jovem, segurava sua mão com desespero.
— Cuide do seu pai e dos seus irmãos, Anrão — sussurrou ela, com dificuldade. — Prometa que vai se casar, ter filhos e nunca se afastar dos caminhos de Deus.
— Não morra, mãe! — gritou o rapaz. — Quem vai cuidar de mim?
Livana tentou sorrir, mas seus olhos se fecharam lentamente.
A vida deixou seu corpo naquele instante.
O grito de Anrão ecoou pela vila e permaneceu na memória de todos que o ouviram.
Dias atuais...
— Ela morreu porque os egípcios não permitiram que parasse de trabalhar, mesmo estando doente! — gritou Anrão para o pai. — Eles a mataram! E o senhor quer que eu me conforme? Nunca!
Coate segurou o braço do filho.
— Eu também sofri com a morte dela. Mas não quero que seu ódio o afaste de Deus. O ódio não constrói nada, Anrão. Você precisa aprender a seguir em frente.
— Seguir em frente? — Anrão respondeu, com lágrimas nos olhos. — Como se nada tivesse acontecido?
Coate não respondeu.
Anrão virou o rosto, consumido pela lembrança da mãe.
As Sombras da Vingança
Enquanto isso, no esconderijo subterrâneo, o som do metal contra a pedra ecoava pelos corredores.
Renan afiava sua faca com movimentos lentos e precisos.
— Amolando armas de novo, Renan? — perguntou Gael, preocupado.
— Sim. Para o nosso próximo ataque.
Gael respirou fundo.
— Eu não quero mais fazer isso. Nós matamos pais de família, maridos... Eles só estavam cumprindo ordens.
Renan levantou os olhos.
— Cumprindo ordens?
Em um movimento súbito, empurrou Gael contra a parede e pressionou a lâmina contra seu pescoço. Um pequeno fio de sangue apareceu na pele.
— Quando você entrou aqui, eu disse que não havia volta — sibilou Renan. — Eu não aceito covardes.
— Renan...
— Eles mataram minha família! — gritou ele. — Aqueles homens representam o mesmo povo que destruiu minha vida. Ninguém vai me impedir!
Gael permaneceu imóvel.
Renan finalmente afastou a faca.
— Limpe o sangue.
Gael passou a mão pelo pescoço, assustado.
— Você está deixando sua vingança consumir tudo o que somos.
Renan não respondeu.
Poucos minutos depois, passos ecoaram pelas escadas.
Renan imediatamente puxou a faca novamente.
— Quem está aí?
Uma figura surgiu na entrada.
— Calma, Renan. Sou eu.
Renan abaixou a arma ao reconhecer Anrão.
— Por pouco você não virou estatística, rapaz.
Anrão entrou no esconderijo e olhou para Gael.
— O que aconteceu?
Gael permaneceu em silêncio.
Renan cruzou os braços.
— Agora diga você. O que faz aqui?
Anrão olhou para as próprias mãos, ainda marcadas pelo trabalho escravo.
A dor nas costas continuava presente.
— Eu pensei no que você me disse.
Renan esperou.
— Quero ajudar.
O líder abriu um sorriso.
— Ajudar como?
Anrão levantou os olhos.
— Quero lutar. Quero ajudar a derrotar os egípcios.
Renan colocou a mão sobre o ombro dele.
— Então você veio ao lugar certo.
Gael observou os dois em silêncio, claramente preocupado com o caminho que Anrão estava escolhendo.
O Jogo de Poder
Enquanto isso, no palácio, o Faraó Seti I estava furioso.
— Cinco oficiais mortos em uma única noite, Denays. Isso não é apenas um crime. É um insulto ao meu poder!
Denays manteve a cabeça baixa.
— Eu ainda não descobri quem está por trás dos ataques, soberano. Nossas patrulhas são treinadas para enfrentar ameaças, mas os assassinos foram rápidos e desapareceram antes da chegada dos reforços.
Seti estreitou os olhos.
— Há mãos hebreias nisso?
— Não acredito que escravos tenham organização ou recursos suficientes para realizar algo assim.
— Não subestime o número deles! — respondeu Seti. — Se os hebreus se unirem, poderão se tornar uma ameaça.
Denays permaneceu em silêncio.
— Descubra quem fez isso — ordenou Seti. — Não quero desculpas. Quero respostas.
— Sim, soberano.
Denays deixou a sala.
Enquanto isso, o exército egípcio se preparava para a guerra contra os hititas.
Seti chamou Khnum.
— E nossos soldados?
— Estão sendo preparados, soberano. Selecionei homens determinados e experientes.
— Quero o melhor que o Egito puder oferecer.
— Terá.
Longe dali, em Hatuxa, o general Menkaure apertava entre os dedos o cordão que pertencera à sua mãe.
Seus olhos estavam cheios de ódio.
— Eu prometi, mãe. O que fizeram com a senhora não ficará impune.
Menkaure fechou a mão sobre o cordão.
— O Egito vai pagar.
Confissões na Casa de Senet
Na Casa de Senet, Yunet terminava seu ensaio enquanto Benu observava em silêncio.
Quando a jovem começou a se trocar, ele percebeu as marcas deixadas pela noite anterior.
— Você é linda, Yunet. Às vezes me sinto culpado por ter colocado você nessa vida.
Yunet continuou arrumando suas roupas.
— Não foi você que escolheu por mim, Benu. Depois que minha mãe morreu, ninguém me acolheu. Eu precisava sobreviver.
— Mas você ainda pode ter outra vida.
Yunet olhou para ele.
— Que vida?
Benu hesitou.
— Akhmim gosta de você. Agora ele é um soldado. Talvez pudesse se casar com você e tirá-la daqui.
Yunet soltou uma risada amarga.
— Prostituta não tem marido, Benu. Tem amante. O mundo não perdoa mulheres como eu.
— Talvez você esteja sendo injusta com ele.
— Não estou interessada em Akhmim.
Benu percebeu o brilho diferente nos olhos dela.
— Então existe outra pessoa?
Yunet sorriu discretamente.
— Existe.
— Quem?
— Um dia eu conto.
Ela voltou a se vestir, enquanto sua mente retornava ao encontro com Disebek.
Era diferente.
Ele havia olhado para ela como uma mulher, não como uma mercadoria.
O que Yunet ainda não sabia era que aquele sentimento poderia colocá-la no centro de uma perigosa rivalidade.
O Juramento de Anrão
No esconderijo subterrâneo, Renan caminhou até uma mesa onde algumas armas improvisadas estavam espalhadas.
Anrão observava tudo em silêncio.
— Se quer lutar conosco, precisará entender uma coisa — disse Renan. — Depois que começarmos, não haverá caminho de volta.
Anrão pensou nas palavras de sua mãe.
Depois pensou no chicote de Panarazy.
Pensou na morte de Livana.
Finalmente fechou os punhos.
— Eu já não tenho mais volta.
Renan sorriu.
Gael, porém, continuou preocupado.
Acima deles, Pi-Ramessés permanecia silenciosa.
Mas, naquela noite, o Egito começava a procurar seus inimigos.
E, sem saber, o Faraó estava cada vez mais perto de descobrir que a ameaça não vinha apenas de fora de suas fronteiras.
Ela já estava crescendo dentro delas.
CONTINUA NO PRÓXIMO EPISÓDIO
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