Moiras

12 O caminho de volta


—Kurt, você não precisa fazer isso. Eu estou bem. Posso ficar no hotel.

—Jane, por favor..._ele prometeu assim mesmo se esforçar ao máximo para lidar com toda delicadeza possível com aquela situação_ Vou ficar muito mais tranquilo se você estiver em casa.

Ela respirou fundo dando-se por vencida. Então assentiu com a cabeça. Tê-lo por perto era um presente que Jane não esperava poder contar durante sua recuperação. Claro que isso a deixava muito feliz. Tudo o que ela desejava era poder encontrar uma forma de se redimir com Kurt, nem que fosse para contar apenas com sua amizade de agora em diante.

Kurt parecia muito animado em tê-la no apartamento. Estava sorridente e solicito. Jane não tinha muito o que levar. Na verdade, o apartamento era o lugar do mundo mais cheio das coisas dela. As conversas brotavam espontaneamente e os dois estavam muito confortáveis na presença um do outro.

—Vem, eu vou ajeitar a cama pra você. Ou você prefere um banho primeiro?_ele foi caminhando pra dentro do quarto e só parou quando percebeu que Jane estava congelada na porta._ Jane, eu não vou te cobrar nada.

Jane procurou as palavras por algum tempo enquanto seus olhos corriam o quarto e seu coração corria as lembranças dos dois ali:

—Kurt, muito obrigada, eu..._ela suspirou_ isso significa muito pra mim.

Ele se aproximou, segurou sua mão.

—Significa muito pra mim também. Mas, por enquanto, a meta é a sua recuperação. Quando você estiver melhor, buscamos uma forma de nos entendermos, ok?

Jane sorriu de uma forma como não sorria há muito tempo.

—Eu preciso de um banho. Esse cheiro de hospital está me matando.

— Ok, eu preparo tudo pra você.

Jane insistiu que era capaz de tomar banho sozinha, então Kurt foi preparar o jantar, mas várias vezes foi até a porta do banheiro perguntar se estava tudo bem e dizer que ela podia chamá-lo se precisasse.

Após o jantar, Jane não conseguia esconder seu cansaço e se preparou para dormir. Quando se aproximou da cama, viu sua aliança na mesa de cabeceira de Kurt. Seu coração pulou uma batida e seus olhos se fixaram lá.

Kurt estava pegando seu pijama e travesseiro para dormir no quarto vizinho quando percebeu a angústia de Jane e veio até ela.

—Eu quis muito levá-la comigo, Kurt, mais que tudo... Mas era a única forma de me despedir...

Ele a abraçou e beijou sua testa:

— Você precisa descansar.

Exausta não apenas fisicamente, mas por tantas reviravoltas emocionais nos últimos dias, Jane simplesmente se permitiu dizer o que seu coração pedia:

— Eu durmo melhor quando você está comigo...

Kurt só foi capaz de sorrir. Tudo entre eles estava tão bagunçado, mas a sinceridade na voz dela era a única coisa necessária para fazê-lo derrubar novamente todas as barreiras protetoras atrás das quais eles se escondia e admitir:

—Eu também.

Os dois se deitaram e ele acariciou seus cabelos até ela adormecer. Nada estava resolvido, mas ela estava ali e o coração de Kurt estava inundado de uma paz que há muito ele não provava.

Allie e Bethany chegaram no dia seguinte. Kurt iria buscá-las no aeroporto e passaria algum tempo com a filha, por isso, pediu para Patterson fazer companhia a Jane. O motivo da vinda a Nova York era profissional e Allie ficaria na casa de sua tia. Eles decidiram isso após uma longa conversa na qual avaliaram o quanto era recente o retorno de Jane ao apartamento.

—Claro que não concordo com isso, Kurt. Eu não quero atrapalhar.

—Você não está atrapalhando._ Cuidado com as palavras. _Nós apenas achamos que seria melhor para a Bethany ficar hospedada na casa onde ela passará os dias enquanto a Allie resolve os assuntos dela.

— É por causa dos hematomas? Você acha que a Bethany pode se assustar?

—Não! Olha, se você quiser, tenho certeza que Allie vai gostar de vê-la e de trazer a Bethany até aqui. Nossa decisão foi optar por aquilo que era mais cômodo para todos nós no momento. Prometo que da próxima vez vou insistir para elas ficarem aqui em casa.

Jane não estava satisfeita, mas apesar de se sentir desconfortável com a decisão, sabia que cabia a Allie escolher o melhor lugar onde se hospedar.

No final da tarde, Jane teve vários episódios de tontura. O médico recomendou repouso até a manhã seguinte quando ela colheria novos exames. No meio da madrugada, Allie ligou. Bethany estava com febre. Kurt ficou completamente dividido, não havia tempo para chamar Patterson ou Tasha e não se sentia seguro em deixar Jane sozinha depois do mal estar da tarde.

—Por Deus, Kurt. Eu já estou melhor, sou adulta e nem vou sair dessa cama. Por favor, se você não quer me magoar, vai cuidar de sua filha.

—Temos um trato?

Jane sorriu: _ Cuide dela e você vai me encontrar exatamente aqui quando voltar.

Ele lhe deu um beijo rápido e saiu.

O pronto atendimento tinha apenas duas criança aguardando consulta médica. Na sala de espera, outra mãe, com bebê de poucos meses, se aproximou, ela parecia aflita:

—É tão difícil vê-los com febre, não?_ seu inglês era carregado de sotaque.

— Nem me fale. _ Allie respondeu gentilmente.

A mulher disparou a falar, sempre entremeando a conversa com sua insegurança diante da febre de seu bebê. Allie tentou acalmá-la buscando assuntos casuais:

—Faz tempo que você mora aqui?

—Apenas seis meses. Meu marido é brasileiro, eu sou angolana. Ficaremos aqui por só um ano. Como demora esse atendimento,né?

— Procure se acalmar, a medicação já baixou a febre de seu bebê. Vai ser algo simples, alguma virose infantil. Tudo passa em poucos dias.

— Sei que sou super insegura com ele, mas é que vivi uma situação que me marcou demais. Passei um tempo no Nepal há um ano atrás e acompanhei quando uma moça da aldeia perdeu seu bebê. Era prematuro, tão pequeno, mas parecia ser tudo que ela tinha. Foram vários dias em trabalho de parto, as monjas explicaram que o corpo dela não aceitava se separar do bebê. A dor no rosto daquela mulher quando segurou o corpinho de filho nos braços me chocou tanto que cheguei a fotografar os dois. Nunca consegui apagar as fotos do meu celular. Agora fico pensando que eu estava ali e fotografei por algum motivo. Morro de medo que isso aconteça comigo também. Perder um filho é algo insuperável.

Kurt tentou controlar sua respiração. Não podia ser ... ele tentou focar em Bethany que agora dormia pacificamente, mas algo em seu coração pedia pra ele perguntar:

—Você disse que isso foi no Nepal, por acaso você poderia me mostrar as fotos que fez?

— Claro que posso_ e encontrou as fotos passando o celular para Weller.

Ele olhou para aquilo completamente em choque. Seus músculos congelaram e as lágrimas correram por seu rosto.

— Eu disse que era triste...

—Kurt, o que foi?

— Jane...

— Jane? _ Allie puxou o telefone_ meu Deus..._ e o devolveu a ele passando a mão suas costas num gesto de consolo.

—Vocês a conhecem?

— Por favor, você pode me passar essas fotos? Eu preciso delas...ela é minha esposa.

—Nossa... me passa seu número para eu te mandar... eu sinto muito.

Allie interveio:

— Está vendo, essas fotos estavam aí para que você nos ajudasse a entender o quanto foi difícil tudo que Jane passou. Não é porque seu bebê vai morrer. Você pode se acalmar.

Pouco depois as crianças foram atendidas e puderam ir pra casa, não havia sinais de infecção, bastava hidratar, observar e controlar a temperatura.

Já era mais de 4 am quando ele estacionou no prédio de seu apartamento. Tudo que ele queria era poder envolver Jane em seus braços e dizer que a amava...Deus, como ela era forte por enfrentar tudo aqui sozinha e ainda ser capaz de sorrir pra ele como naquela manhã. Sim, ele podia ceder mais. Naquele momento o maldito gelo na barriga que o acompanhava por medo dela partir novamente já não importava mais.

Ele tentou entrar sem fazer barulho e foi direto para o quarto. A luz do abajur estava acesa. Jane estava enrolada sobre si mesma do seu lado da cama. Suas mãos fortemente fechadas sobre seu peito.

— Jane, o que aconteceu? _ ele se ajoelhou ao lado da cama e sua mão tocou seu rosto suavemente, limpando as lágrimas

— Eu estou bem...fiquei na cama como prometi... me desculpe...

Kurt tentou envolvê-la para que ela se sentisse mais segura:

—Não precisa se desculpar... Você quer conversar sobre isso?_ ela apenas olhou em direção as mãos fechadas sobre o peito_ Tudo bem, eu estou aqui agora.

—Depois que você saiu...eu me senti muito sozinha... eu fiz tudo errado e..._ as lágrimas sufocaram suas palavras.

—Não pense assim. Você foi forte até demais. Às vezes é um pouco teimosa, impulsiva. E eu também sou. Mas nós vamos achar uma forma de conviver com isso, não vamos?

— É o que eu quero mais que tudo.

Ele tocou suas mãos:

— O que tem aqui, Jane?

Aos poucos ela foi abrindo as mãos e ele pode ver a aliança:

—Eu sei que não tinha esse direito... mas_ ela procurou controlar sua respiração que estava descompassada_ eu precisava tanto dela...queria sentir que não estava sozinha...Eu e Roman tínhamos uma moeda que trocávamos quando estávamos passando por momentos difíceis. Achei que não precisaria mais dela quando ele se foi porque eu tinha..._ e olhou para a aliança_ eu tinha você. Mas agora eu não tenho mais nada.

Kurt se colocou bem em frente à ela para que seus olhos estivesse completamente conectados antes de começar a falar.

— Jane, essa aliança é sua, sempre foi. Você pode pegá-la e pode até usá-la se quiser. Você conquistou esse direito me amando mais que qualquer outra pessoa.

Os olhos dela pareciam ainda confusos, incapazes de entender como ele era capaz de entender tudo o que ela sentia. Ele continuou:

— Obrigada por ter amado nosso filho e ter cuidado dele da melhor forma que você pode. E muito, muito obrigada por não ter partido com ele. Se você ficou, sei que foi por mim, por que não queria me deixar sozinho.

Kurt pegou a aliança da mão de Jane:

—Eu posso? _ demonstrando sua intenção de devolver a aliança ao dedo dela.

Quando um sorriso brotou no rosto de Jane, ele já sabia a resposta:

—Eu te amo tanto, Kurt.

Ele colocou a aliança de volta em seu dedo:

—Eu também te amo mais que tudo, Jane Weller.

Eles se beijaram de uma forma única que ainda não haviam experimentado e dormiram agarrados um ao outro.

Na tarde seguinte, Allie trouxe Bethany para ver Jane. Em poucos minutos as duas já estavam completamente entrosadas e brincando no chão da sala. Bethany fazia questão de ignorar todas as outras pessoas no apartamento, só comia o que Jane oferecia, só brincava com ela.

—Kurt, você quis se casar na igreja e eu nunca te perguntei se gostaria de batizar a Bethany.

—Se você não se importar, Allie, isso seria muito importante pra mim.

—Então, eu escolho o padrinho: Connor. E se a madrinha tem que ser um exemplo a ser seguido, acho que Bethany já escolheu a melhor...