Moiras

13 Por um fio


Notas iniciais
Esse é o último revés dessa história. Eu precisava fechar alguns buracos e me ocorreu outra forma senão essa. Boa leitura.

À noite, Jane estava visivelmente cansada e logo foi para o quarto. Weller a seguiu minutos depois para se certificar de que tudo estava bem. Sempre muito independente, Jane não solicitava ajuda para o banho ou para se trocar, apesar da dificuldade por estar com o braço imobilizado. Ele bufava toda vez que se oferecia para ajuda-la e era docemente dispensado. Naquele momento, entretanto, algo o surpreendeu: ela já estava deitada na cama, ainda vestida.

— Jane, está tudo bem? _ ele se colocou ao lado dela.

Ela abriu os olhos: _ Sim. Só estou muito cansada...minha cabeça dói.

— Você tomou o remédio pra dor há pouco. Talvez ainda não tenha feito efeito. Não é melhor tirar essa roupa pra você ficar mais confortável? Quer ajuda?

Ela apenas concordou com a cabeça, mas nem se mexeu.

Kurt tentou ser o mais gentil que podia. Desabotou suas calças e as deslizou por suas pernas bem devagar. Teve ainda mais cuidado para retirar sua blusa. Duas coisas chamaram muito sua atenção: ela tinha perdido peso nos últimos dias e ainda sentia muita dor no braço.

— As dores voltaram? Eu não devia ter te deixado brincar tanto com Bethany. Você se esforçou demais

— As dores nunca passaram, Kurt. Brincar com Bee me fez muito bem. Foi um dos meus melhores dias ultimamente.

— Ver as mulheres da minha vida juntas foi maravilhoso!_ seus olhos se encheram de lágrimas de alegria e ele deu um selinho em Jane.

Kurt tomou um banho rápido e foi direto pra cama. Ele estava preocupado com Jane.

“Amanhã os resultados dos exames ficam prontos.” Foi seu último pensamento antes de pegar no sono.

Não se passaram duas horas até que ele fosse acordado pelos gemidos de Jane.

Pesadelos”, pensou e estendeu os braços para puxá-la mais perto e acordá-la. O primeiro toque já fez com que ele despertasse completamente. Ela estava ardendo em febre. Rapidamente, ele acendeu a luz do abajur:

—Jane, por favor acorde!_ disse após ver que ela continuava delirando sonolenta após ele ter ligado a luz _ Jane, fala comigo.

Ela abriu os olhos e disse baixo:

—Kurt...eu não estou me sentindo bem...

Ele saltou da cama já vestindo suas roupas. Em seguida, pegou o chambre dela e a envolveu. Sua preocupação só aumentou ao perceber que ela mal suportava seus toques na áreas próximas ao ferimento causado pela bala, a vermelhidão ali era intensa.

“Droga!”

Ela não protestou quando ele a pegou nos braços para tirá-la do apartamento. Já na garagem, acomodou-a na SVU e colocou o sinto para mantê-la segura. Ele não iria dirigir de forma cuidadosa. O hospital no último andar do NYO era a melhor opção. Os exames do dia anterior foram feitos lá e isso deveria agilizar o atendimento.

Enquanto desrespeitava o limite de velocidade e todos os semáforos do caminho, Kurt procurava manter a conversa para que Jane ficasse lúcida, mas sua preocupação aumentava à medida que suas respostas eram mais curtas e fracas. Por telefone, ele acionou a emergência do hospital que os receberia na porta de entrada do prédio.

Enquanto ele procurava a melhor forma de retirá-la do carro, ela apenas disse:

— Fica comigo.

— Sempre, nada me tiraria daqui.

Dois enfermeiros aguardavam com uma maca. Assim Jane foi deitada ali, os dois pareceram muito preocupados e, ainda no elevador, pegaram um acesso venoso para já iniciar a hidratação e estar disponível para a medicação assim que os médicos solicitassem. Saíram do elevador, chamando a atenção da equipe médica para o caso:

— A pressão está caindo rapidamente!

— batimentos diminuindo...

Jane não conseguia se manter acordada. Nos momentos em que conseguia abrir os olhos, os sons, as luzes, os rostos desconhecidos sobre ela, a dor forte, tudo se misturava à flashbacks do black site da CIA:

— Kurt... _ ela chamava_ Kurt, por favor.... não deixa eles me machucarem...

Weller tentou ficar ali segurando sua mão, mas tinha sido obrigado a se afastar para dar espaço ao trabalho dos médicos. Ele reconheceria sua voz mesmo fraca e distante:

— Jane, está tudo bem, nós estamos cuidando de você. Eu não vou sair de perto de você...

Ele estava reunindo toda a sua concentração para não desabar em lágrimas ali mesmo. Pouco depois, assistiu completamente impotente Jane ser levada para a UTI. Uma médica se aproximou:

— Sr. Weller, como o senhor pode observar, nós estamos fazendo todo o possível para estabilizá-la. Tudo indica que ela está entrando num quadro de sepse por conta do ferimento no ombro, talvez ainda existam estilhaços da bala espalhados por ali. Ela teve algum episódio de febre nos últimos dias?

— Não, ela parecia bem, só cansada e com tontura...

— Você se lembra qual a medicação que ela estava usando?

Kurt tentou organizar seus pensamento para disponibilizar aos médicos o máximo de informações que podia. Nesse momento, essa era a única forma de ajudar Jane. Relatou os nomes e horários dos remédios.

—Hum, essa medicação pra dor também funciona como antipirético e, provavelmente, mascarou a febre. Bem, foi necessário colocá-la em coma induzido para mantermos um quadro de estabilidade. Iniciamos uma associação de dois antibióticos potentes para combater a infecção: Imipenem e Vancomicina. Será necessária uma nova cirurgia, mas o ideal é que a infecção seja controlada primeiro. Ela também vai precisar de uma transfusão sanguínea e esse é nosso maior problema no momento. O sangue dela é raro e não temos disponível aqui no hospital. Já fizemos uma solicitação, mas a parte burocrática é um pouco demorada. Ela tem algum parente com o mesmo sangue que possa ser doador? Isso ajudaria muito.

— O irmão dela. Eu vou entrar em contato.

Ele não tinha tido qualquer contato com Roman desde o anexo no final do sequestro de Jane. Mas ele sabia quem poderia contatá-lo e ligou imediatamente para Tasha, colocando-a a par dos acontecimentos. Em tempo recorde, a portaria ligou solicitando a liberação da entrada dela e de Roman no NYO.

Após a transfusão, o difícil encontro dos dois aconteceu no corredor:

— Roman, obrigado.

—Eu perdi minha irmã pra você, Weller. Se não fosse você, ela teria voltado pra mim. Então vê se cuida direito dela. _ o rosto de Roman era sombrio, mas seus olhos estava cheios d’água.

— Eu juro que tenho tentando... _ Weller não conseguiu mais resistir as lágrimas. Tasha se aproximou solidariamente. _ Num instante tudo parece estar bem, no outro ela simplesmente escorrega através dos meus dedos.

— Kurt, isso tudo é uma sequência triste de acontecimentos que escapam ao controle de todos vocês. Não se culpe. E nem você, Roman. Vocês dois precisam se entender, pelo bem de Jane.

— Ele nunca vai entender.

— Você está certo, eu nunca vou entender o caminho que você escolheu, Roman!

— Sobreviver, Weller. Foi isso que eu e Alice fizemos durante anos naquele orfanato. E foi Shepherd quem nos tirou de lá. Nós éramos crianças e ela se tornou tudo pra nós. Você quer que Jane viva sem um passado, mas o passado sempre bate à porta. Eu só continuo tentando sobreviver. Não vou deixar você me trancar como um animal de novo.

— Kurt, Roman tem me ajudado com informações que solucionaram vários casos. Ainda não tornei isso oficial porque temos que ter um conjunto relevante de intervenções para conseguir atenuar as acusações contra ele.

— Eu não sabia...

— Ninguém sabe, Kurt. Vamos, Roman, vou te tirar daqui antes de amanhecer.

Apesar de Tasha se esforçar em defender Roman, ela entendia o lado de Weller. Ela mesma vivia em conflito nessa relação complicada que tinha com ele. As explosões de violência de Roman precisavam de cuidado, mas isso não seria possível enquanto sua cabeça estivesse à prêmio nas agências de segurança do país.

Após deixar Roman seguro do outro lado da cidade, Zapata voltou ao SIOC para acompanhar Weller. Mais próximo do amanhecer, ela avisou Reade e Patterson sobre o que estava acontecendo.

Foi necessário um arsenal de esforços para convencer Weller a descansar no seu escritório. A visita só aconteceria pós as 8 am, era inútil ficar ali em pé naquele corredor. As horas se arrastaram. Patterson chegou por volta das 6 am, pouco depois de receber as notificações da amiga. Reade só poderia estar presente depois do almoço.

—Kurt, eu sei que é um momento difícil... _Patterson tentava encontrar a melhores palavras, pois sabia que qualquer deslize pioraria ainda mais a situação. Mesmo assim, era necessário _ mas acho que seria bom realizar novos exames sobre os impactos da substância radioativa sobre o organismo de Jane. Isso pode estar contribuindo pra piorar o quadro dela.

Weller se remexeu desconfortavelmente na cadeira e concordou com um gesto. Patterson não esperou mais. No andar do hospital, conversou com a médica responsável ao lado do leito de Jane.

— Ela é forte, está estável. As próximas 72 horas são cruciais para avaliarmos a eficácia dos antibióticos. Com a infecção sob controle, poderemos realizar a cirurgia. Por enquanto só podemos esperar. Vamos coletar as amostrar que você solicitou e enviamos ao seu laboratório.

Patterson apertou delicadamente a mão da amiga e sussurrou ao seu ouvido: _ Força aí, Jane. Não desista agora. Tem um cara apaixonado que não pode viver sem você lá fora.

7:45 am foi o tempo máximo que as meninas conseguiram reter Weller no escritório. Assim que a visita foi liberada, ele entrou na UTI e beijou suavemente a testa de Jane:

— Oi, Janie. _ como sempre, as palavras não vinham. Como ele queria ter a habilidade que ela tinha para falar com as pessoas._ os médicos disseram que você está estável e isso é bom. Agora temos que esperar 72 horas, não é muito, não é mesmo? Nós vamos passar por isso juntos, Jane, eu enfrento o que for preciso com você, por que você faz de mim uma pessoa melhor. _ as lágrimas pingavam mesmo sem sua autorização e concluiu _ Não me deixe...

Ele sentiu a mão de Jane apertar a sua, em seguida ela se mexeu levemente. Uma enfermeira se aproximou para verificar os aparelhos.

— Está tudo bem com ela?

— Aparentemente sim. _ então ela observou como a mão de Jane apertava a de Kurt. _ Vocês dois têm uma ligação muito forte. Ela está reagindo a sua presença. Isso não é comum com a sedação.

Kurt virou-se para Jane com um sorriso:

— Eu entendi, Jane. Você está comigo nessa.

As próximas 72 horas foram tranquilas, apesar do tempo parecer um inimigo difícil de ser vencido. Todos na UTI ficavam encantados com a forma como ela reagia a presença de Kurt. Ele nem conseguia ficar muito à vontade porque sempre enfermeiros e médicos estavam por perto observando e suspirando pelo casal.

Durante esse tempo, Weller pensou muito sobre o que Roman havia dito. Ele precisava conhecer melhor o passado de Jane, não porque não a conhecesse, mas para poder estar lá para ela caso qualquer memória voltasse. Ele pediu os arquivos para Tasha e revisou cada informação, relatório e vídeo do arquivo. Ao final de tudo aquilo, ele estava ainda mais certo do amor que sentia por ela. Descobrir que Nas acompanhou a tortura de Jane no black site através de relatórios semanais, deixou-o enojado por ter dormido com aquela mulher.

Jane reagiu bem aos remédios e foi operada assim que a infecção estava sob controle. Logo depois da cirurgia, o coma foi revertido e a respiração mecânica pôde se suspensa. A expectativa era que ela voltasse à consciência nas próximas 24 horas. A equipe médica tinha uma certeza: queria Weller ali quando ela acordasse. Então, liberaram sua permanência na UTI logo após os procedimentos terminarem.

Assim que ele entrou e a beijou, sua reação foi imediata: os movimentos começaram suaves após cada fala de Kurt, então foram se tornaram mais fortes.

—Vamos, meu amor, volta pra mim.

Ela abriu devagar os olhos e, assim que pode vê-lo de forma nítida, sorriu. A UTI inteira aplaudiu.

Mais alguns dias se seguiram, com Jane já no quarto. No dia da alta, Tasha ficou com ela no hospital enquanto Patterson acompanhou Weller para dar uma geral na casa. No caminho para o SIOC, Weller parou em uma loja de pelúcias e comprou um dragão simplesmente horrível para presentear Jane. Assim que entraram no quarto, Tasha não pode conter a expressão de horror e cochichou com Patterson:

— Como você deixou isso acontecer?

— Eu juro que fiz de tudo para dissuadi-lo, mas ele fixou a ideia nessa coisa horrível aí.

Jane, entretanto, estava encantada:

— Pra mim? Oh, Kurt, é tão lindo! _ e não soltou mais a pelúcia

Patterson e Tasha ficaram pasmadas e assim que Weller saiu para assinar a documentação da alta, tentaram explorar o assunto com Jane:

— Você gostou mesmo do dragão?

— Eu amei. Adoro dentes e garras. Eu tinha um tubarão de pelúcia com dentes enormes, mas me desfiz dele depois do casamento. Kurt tinha ciúmes do bicho... Eu também gosto muito daquele personagem de Monstrons SA , ele me deu um quando doei o tubarão. Como é mesmo o nome dele?... Sully!

As meninas trocaram olhares divertidos sobre o relacionamento incomum de Jeller.