Moiras
17 Cláusula 1
Notas iniciais
Quando os amigos saíram, Jane foi para a cozinha para colocar tudo em ordem. Kurt foi atrás, mas estava decidido a não deixá-la terminar.
— Enfim sós. _ sussurrou ao pé de seu ouvido e depois começou a distribuir beijos por seu pescoço.
Estranhamente, Jane se esforçou em continuar o que estava fazendo:
— O dia de conto de fadas está acabando. Quando o despertador tocar amanhã cedo, nós dois teremos um longo dia de trabalho pela frente. Melhor deixar isso em ordem.
— Janie, eu consigo dar um jeito nisso bem rápido amanhã. Eu quero comemorar agora, com você. _ e a virou pra ele e levantou seu queixo para que seus olhos se encontrassem _ Ei, Sra. Weller, você se lembra do que Patterson disse? Nós podemos ter um bebê!
Jane apenas desviou o olhar. Ela sabia o que veria no rosto dele depois dali: a alegria iria desaparecer e a culpa era dela de novo.
— Olha pra mim, Jane. Você não gostou da notícia?
— Claro que gostei. Um peso a menos. É ótimo não ter que carregar essa culpa...
Kurt se afasta, recosta na bancada, cruza os braços e franze a testa. Jane continuou, ainda sem ser capaz de olhá-lo nos olhos:
— Kurt, eu só preciso de um tempo pra me adaptar, eu sei que posso...
— “Se adaptar”... Você faz a ideia de construirmos uma família juntos parecer difícil de digerir...
— Não é isso... Mas não é simples pra mim. Kurt, por favor, está tão tarde... não é hora pra ressuscitar meus demônios.
— Você está certa, é tarde..._ enquanto se dirige para o quarto, ele passa pela geladeira e bate com o dedo sobre a cláusula 1 do contrato _ talvez um dia deixe de ser tarde para nós... ou não.
Jane olhou para o alto e respirou fundo. Virou-se para a pia com a intenção de retomar o trabalho com a louça, mas não pode. Correu as mãos pela beirada da pia, buscando a coragem que não vinha. Então, ela caminhou até a geladeira e olhou para o “contrato”. Era simples e objetivo. Era a expressão do desejo de fazer o melhor. Porque Kurt merecia isso. Não! Eles mereciam isso.
Sua mente a levou de volta ao avião, enquanto se dirigiam para Washington numa corrida contra o relógio para parar Shepherd e em suas lembranças ecoou a voz dele “Nós podemos ser felizes.”
Jane foi para o quarto e se sentou na cama ao lado dele. Kurt já tinha se deitado. Respirou e começou:
— Mais de trinta anos da minha vida foram apagados. Por um tempo, tudo o que eu queria era lembrar, era saber quem eu era... mas descobrir foi pior. Quando você me prendeu naquela noite, eu só queria te falar, explicar o que fiz e porque fiz...
Ele se sentou:
— Jane...
— Não, Kurt. Por favor, me deixa continuar. Doeu demais, mas eu sabia que estava sendo muito difícil pra você também e que eu teria a chance de explicar tudo no interrogatório. _ ela riu com um sarcasmo triste _ Na primeira semana de “interrogatório”, eu tinha certeza de que você apareceria pra me tirar de lá. Quando eu entendi que estava sozinha colhendo os frutos dos meus erros, foi muito difícil, mas foi pior ainda voltar pra vocês. Nosso encontro no motel, as “alfinetadas” da Tasha, quando você disse que não suportava ficar na mesma sala que eu, caminhar para a morte todo dia me infiltrando na Sandstorm, prestar contas a Nas... Teve dias em que me perguntei se não seria mais fácil voltar pra CIA. Mas eu precisava corrigir meus erros, mesmo que eu tivesse que viver no inferno pra isso! Eu não me lembro do meu passado e, depois do ZIP, tudo o que eu vivia precisava ser esquecido para eu pudesse sobreviver.
— Eu sei de tudo isso, Jane. Eu sinto muito por tudo. Mas nós estamos aqui agora...
— Eu não terminei, Kurt. Eu sei que você sabe e foi incrível tudo o que fez por mim depois de tudo. E eu enfrentaria tudo novamente por você, por nós. Mas... _ ela limpou a garganta, tentando encontrar as palavras para continuar _ Receber a sentença de morte para o nosso filho foi bem pior... sentir ele crescendo, lutando pela vida e perdendo a batalha dentro de mim... _ as palavras faltaram, nenhuma dela é capaz de descrever a dor da perda de um filho.
Weller a puxou pra ele:
— Jane... _ ele acariciou seus cabelos e suas costas.
— Eu só quero que você entenda que eu não posso esquecer isso. Eu não posso esquecer nosso filho, Kurt.
— Eu não quero que você esqueça. Eu só pensei que a dor diminuiria agora que podemos ter outro bebê... Sei que isso não o substituiria, mas tenho certeza que ele quer você feliz.
— Eu prometo que vou fazer de tudo pra conseguir sonhar com uma família de novo. Mas eu não tenho certeza disso agora, só o que eu sinto quando te ouço falando sobre um novo bebê é medo. Medo de tudo se repetir. Ainda não sabemos muito sobre as novas bio tatoos...
— Jane, nossa família já está aqui. Somos nós dois e Bethany, Sarah, Sawyer, Roman, o team. É o bastante pra mim. Desculpe se me empolguei as notícias._ e levantou o rosto dela, para que seus olhos se encontrassem_ Você está aqui comigo, e isso me faz mais que feliz. Eu juro!
— Obrigada... Você é tudo pra mim...
— Eu te amo! _ e deu um selinho nela. _ Jane, você não precisa esquecer as coisas horríveis que se passaram, pode desabafar comigo sempre que quiser.
Ela balançou a cabeça
— Eu sei. Mas eu também não quero viver em função desses momentos difíceis, Kurt. Quero fazer diferente... ser feliz.
— Eu entendo. Tenho tentado construir momentos bons para nós, mas te ouvir falando do nosso passado agora... Eu sinto tanto por não poder mudar o que aconteceu. Eu queria poder ter estado mais presente.
— Tenho certeza disso, Kurt. Eu sempre soube. E agora você está aqui, nós estamos. _ ela entrelaçou os dedos de sua mão esquerda entre os dele para depois voltar a se fixar nos seus olhos.
Ele deixou sua testa cair se encostando na dela e sorriu.
— Quando estamos assim, todo o resto parece tão pequeno e sem importância.
Jane alcançou seus lábios se permitindo a conexão que tanto precisavam naquele momento. E tudo fazia sentido de novo, não havia conflitos nem medo, só a intensidade daquele sentimento. Eles não precisavam de mais nada.
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