Moira
1 O Tear do Destino
Notas iniciais

“Gosto do que está propondo. Será vantajoso para ambas as famílias. Tenho certeza de que vão ver com bons olhos essa união.” Reconheci a voz do meu avô atrás da porta firme, satisfeita, o tipo de voz que gosta de ser a última a tomar a decisão.
“Vão sim.” A outra voz, desconhecida, soava calma e controlada.
“Em uns quatro anos podemos formalizar tudo.” Continuou meu avô. “Um bom noivado, depois uma festa de casamento, que vai movimentar Thalessi.”
“Acho melhor esperarmos mais.” Respondeu o homem, ponderado. “Não gosto da ideia de casamento antes dos dezoito. Deixe ela crescer, se tornar adulta antes de formalizar qualquer coisa. Não há pressa, e muito menos necessidade de autorizações judiciais. O tempo amadurece as decisões que precisam durar.”
“Claro, podemos esperar para o casamento.” A voz do meu avô manteve aquele tom firme e calculado. “Mas o noivado deve ser firmado antes. É importante que todos saibam que eles têm um compromisso. Evita especulações. Protege o nome. E o nome, meu caro, é o que sobrevive quando todo o resto passa.”
“Peeta está indo para o Brasil, um intercâmbio de um ano.” Explicou o homem. “Minha esposa é descendente de brasileiros, e isso significa muito pra ela. Depois, ele volta pro serviço militar. Effie quer que ele curse faculdade em Atenas. Acho que será um bom tempo para que ela estude. Sem distrações.”
“Está com dúvidas, Mellark?” o tom do meu avô soou provocativo, algo beirava a afronta. “Sua família nunca foi de arranjos matrimoniais. Costumam separar negócios e sentimentos. Esses acordos que fortalecem alianças não são o estilo de vocês. E você só tem um filho... talvez queira que ele se apaixone, como você.”
“Acha mesmo que cheguei onde cheguei sem sacrifícios Snow?” A voz do homem mudou. Ficou mais grave, como se o peso das próprias escolhas tivesse se infiltrado nas palavras. “Tenho um filho, e é por isso que preciso pensar no futuro dele, no melhor pra ele e para os negócios, então eu garanto ele fará o que for preciso. Construí um império, e quero que ele dure. Paixão passa. Estabilidade, não. Esse acordo é uma garantia. Uma aliança sólida, não uma fantasia. Nos negócios, minha palavra vale mais que ouro, você pode confiar.” O silêncio que seguiu pareceu mais alto que as próprias vozes.
Então ouvi, o som seco de dois copos se tocando em um brinde entre homens que acreditavam mais em herança do que em sentimentos.
“A família é tudo.” Disse meu avô, satisfeito. “Podemos nos considerar família.”
Aquela lembrança ainda estava nítida na minha mente, embora tenha demorado para entender o que aquela conversa significava. Demorei para perceber que, atrás daquela porta, tinham decidido o rumo da minha vida como quem assina um contrato.
E que, sem perceber, eu já tinha perdido algo que nem sabia que podia ser tirado de mim: a liberdade de escolher.
Em Thalessi, destino não é apenas uma palavra. É uma crença tão antiga quanto os sinos que tocam ao amanhecer.
Algo que se aprende antes mesmo de entender o que significa, como uma prece sussurrada e passada de geração em geração.
As pessoas daqui acreditam que nada acontece por acaso.
Que cada nascimento, cada encontro e cada perda são traçados por fios invisíveis, tecidos pelas Moiras.
Ah, as Moiras...
Provavelmente a primeira lenda que escutamos, ainda no ventre, quando nossas mães a sussurram baixinho, como se temessem ser ouvidas.
Dizem que elas são filhas de Zeus e de Têmis, a deusa da justiça.
Três irmãs eternas que vivem na penumbra, tecendo a vida de cada ser humano na Terra.
Cloto, a mais jovem, fia o fio da existência e, com ele, cria o começo.
Láquesis, com seu olhar sereno, mede o comprimento da linha, decidindo o quanto ela durará.
E Átropos, a mais silenciosa, com sua tesoura dourada, corta o fio no instante exato em que o destino se cumpre.
Nem mesmo os deuses escapam de suas mãos, por isso, lutar contra o destino é o mesmo que desafiar o próprio Olimpo.
E, curiosamente, isso é algo em que a cidade nunca deixou de acreditar. Não como fé afinal, o politeísmo já não é praticado a muito, mas muito tempo, mas como memória, como sombra.
Assim como grande parte do país somos em maioria devotos da Igreja Ortodoxa, das procissões que sobem as ruas de pedra nas festas de santos. Mas a fé, aqui, nunca vem sozinha. Ela é sempre acompanhada de um resquício do passado que ninguém assume, mas todos carregam.
Assim, nas mesmas casas onde se acende uma vela diante da imagem da Virgem, há também um olho grego pendurado sobre a porta. Há sempre alguém que ainda deixa um punhado de sal no batente quando alguém adoece. As pessoas rezam, mas também tocam três vezes na madeira para afastar o mau agouro. E quando alguém morre jovem, há sempre quem diga, em voz baixa.
“As Moiras se apressaram.”
Desde cedo, aprendemos na escola sobre cada um dos deuses, mas sempre nos dizem que pertencem à mitologia, a histórias, não a fé.
Mesmo assim, nos ensinam, de forma sutil, a respeitá-los. Ninguém ousa zombar dos deuses aqui. Como se, de algum modo, eles ainda observassem.
Queimar incenso, fazer o sinal da cruz, pendurar o mati... são apenas formas diferentes de tentar o mesmo. Afastar o que não se pode controlar.
Na cidade, o divino e o supersticioso aprenderam a dividir o mesmo altar. Cada um, no seu momento. Um à luz, como costume e outro escondido na sombra como aquilo que se teme desafiar.
Foi nesse lugar que cresci.
Minha mãe, como a maioria das mulheres daqui, acreditava em Deus com a mesma devoção com que evitava desrespeitar os deuses antigos. Ia à igreja toda semana, mas ainda deixava romãs na porta no primeiro dia do ano, “para a sorte não se perder no caminho”. Fazia o sinal da cruz três vezes antes de sair de casa e, quando o vento soprava forte das colinas, murmurava baixinho que os deuses estavam zangados.
Já meu pai era diferente.
Vinha de uma família norueguesa, havia sido batizado na igreja luterana, mas nunca foi um homem religioso. Para ele, destino era apenas uma palavra bonita para explicar o acaso. Não acreditava em deuses, nem em milagres, mas gostava das histórias do Olimpo. Ele dizia que eram o jeito que o povo dali encontrou para tentar entender o inexplicável e que, no fundo, toda fé nasce do medo de estar sozinho no mundo. Todas as tardes, enquanto o sol se punha e o cheiro de pão e azeite tomava a casa ele me contava histórias.
E, então entre tantas histórias baseadas nas lendas sobre heróis e deuses, havia uma que ele nunca deixava de repetir e que embora nada tivesse haver com mitologia e heróis era a que eu mais amava ouvir. A história de como conheceu minha mãe.
Nesse momento, ela se juntava a nós e tudo parecia ficar mágico. Ela estava a caminho da faculdade quando o carro quebrou na estrada. Meu pai, indo para o trabalho a pé, parou para ajudar. Foi um encontro improvável já que ela estava atrasada, e aquele nem era o caminho que ele costumava fazer.
Ela era filha de uma família rica e influente, com toda uma descendência grega. Ele, um homem simples, com pais que haviam arriscado a sorte em outro país, moldado pelo próprio esforço.
Mamãe dizia que foi o destino. Que o universo conspirou para que o carro parasse justo quando ele passava.
Mas meu pai ria. Dizia que, se acreditasse em destino, nunca teria parado.
Ele acreditava em escolhas.
Ela, em caminhos escritos.
E eu cresci entre essas duas verdades. Entre o destino e as escolhas, entre as consequências e a vontade dos deuses.
Até o dia em que as escolhas ou talvez as próprias Moiras decidiram mostrar sua ironia. Na curva da estrada que dividi Thalessi e Kallisttria, o carro do meu pai capotou após uma batida e levou com ele o protagonista da minha história favorita. Uma curva próxima do lugar onde eles se encontraram pela primeira vez.
Desde então, aprendi que finais felizes pertencem apenas aos romances. E que, se o destino realmente existe, ele não tem piedade. Já que une duas pessoas apenas para separá-las depois. Ele não é justo. Pois se fosse justo, eles ainda estariam juntos. E nós ainda seríamos uma família.
Hoje, acredito que meu pai estava certo. Fazemos o nosso próprio destino através das escolhas. Mesmo quando ele nos é imposto.
Mesmo quando o mundo insiste em chamar de “vontade divina” aquilo que, na verdade, é apenas poder e decisão de alguns.
Porque, no fim das contas, tudo se resume a isso: escolhas.
O problema é que, muitas vezes, elas não são nossas. Às vezes, é a decisão de outra pessoa que define o caminho que chamam de destino.
Meu pai escolheu parar para ajudar, e isso o levou até o amor da vida dele.
Mas alguém escolheu beber e dirigir e essa escolha o tirou de mim.
E eu... Eu estou disposta a escolher o meu caminho mesmo que o preço disso seja desafiar tudo o que Thalessi chama de sagrado.
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