Moira
2 Antes do Primeiro Nó
Notas iniciais


Havia algo no ar, uma quietude densa, como se o verão tivesse levado até o som dos passos nas calçadas. O vento soprava morno, arrastando folhas secas pelas ruas estreitas, e cada som parecia se prolongar mais do que devia enquanto eu caminhava devagar, tentando disfarçar o nervosismo que me fazia olhar por cima do ombro a cada esquina.
O movimento de turistas era visivelmente menor com o fim da temporada, a cidade voltava à rotina calma, quase parada, pelo menos até a próxima festividade. Ainda assim, mantive o passo firme e discreto, evitando chamar atenção. Segui pelas vielas antigas, onde as janelas permaneciam fechadas e as vozes se perdiam nas paredes de pedra.
Ali, fora do limite do centro histórico, eu me sentia mais segura, menos observada. Mesmo assim, mantive a maior discrição possível. O caminho se estreitava, coberto de pedras e sombras. A velha igreja, fechada e tomada pelo tempo, tornava o cenário ainda mais esquecido pela maior parte da população. E a partir dali, me permiti correr, até a caverna mais afastada, quase no limite da floresta.
Cheguei o mais rápido que pude até aquele ponto já tão conhecido e, embora pudesse jurar estar atrasada, não encontrei ninguém. Encostei em uma das pedras e consultei o horário no celular. Ele realmente estava atrasado. Por um instante, pensei em mandar mensagem, mas o sinal ali era inexistente.
Suspirei, inquieta. Ele não podia demorar. Eu precisava chegar em casa antes que meu avô começasse a fazer perguntas. Nunca fui uma boa mentirosa e, por mais que soubesse guardar segredos, mentir era algo completamente diferente.
Alguns minutos depois, o som de pedras rolando pelo chão me fez levantar o olhar. E lá estava ele.
O mesmo sorriso. O mesmo olhar. Mas havia algo diferente. O cansaço marcava seu rosto de um jeito que eu não lembrava. Ficamos alguns segundos apenas nos observando, como se tentássemos reconhecer um ao outro depois de tantos meses. Fui a primeira a sorrir. Ele abriu os braços e foi o suficiente para que eu corresse até ele, pulando em seu colo como se o tempo finalmente tivesse voltado a correr. Embora, na verdade para mim, nada mais existia fora daquele abraço e o beijo que veio em seguida carregava toda a saudade acumulada entre nós.
“Eu senti tanto a sua falta.” Falei entre um beijo e outro.
“Eu também.” Ele respondeu, a voz rouca, um riso breve escapando. “Não houve um único dia em que eu não pensasse em você. Mas eu voltei. Estou aqui agora.”
“Jura que nunca mais vai me deixar?” Sussurrei, sem conseguir esconder o medo. Ele passou a mão pelo meu rosto, o toque leve, quase reverente, como se tentasse memorizar cada traço do meu rosto.
“Eu não te abandonei, Catnip. Eu precisava ir.” Ele murmurou baixinho no meu ouvido. “Você sabe que não foi escolha minha.” E eu sabia. O serviço militar não era uma escolha, era uma imposição. Mesmo assim, aceitar quase doze meses longe dele tinha sido demais. O medo constante, a distância, o silêncio, tudo.
“Eu sei. Só estava com saudade. Muita saudade.” A respiração dele era diferente, mais pesada, mais contida, como se o corpo ainda não tivesse esquecido o ritmo do quartel. “Você está diferente. Mais sério, mais quieto.”
“Lá a gente aprende a mudar. Mas ainda sou o mesmo cara. Ainda te amo. Ainda quero você como nada mais no mundo.” Senti as pedras frias da caverna nas minhas costas quando ele me pressionou de leve contra elas. Por um instante, tudo desapareceu, só havia o vento passando pelas árvores lá fora, só o som do coração dele batendo junto ao meu.
“Gale...” chamei entre os beijos, sem perceber o tom da minha própria voz.
“Hum.” ele sorriu. “Chama de novo.”
“Como assim?”
“Meu nome. Fala de novo. Passei meses ouvindo só o meu sobrenome. Quero ouvir o jeito que você fala.” Sorri, o olhar preso no dele.
“Gale... Gale.” O sorriso que veio depois era o mesmo de antes, mas o olhar já não era. O tempo longe tinha levado uma parte dele, a leveza, talvez. Embora as responsabilidades, a morte do pai e a necessidade de trabalhar cedo já o tivessem endurecido antes, agora havia algo diferente. Havia um outro tipo de homem diante de mim. “Você recebeu minhas cartas?” perguntei, e ele confirmou com um leve aceno. “Então por que não respondeu?”
“Era arriscado. Você sabe disso.” Ele olhou pra mim, atento. “Está com raiva?” Neguei com a cabeça. Não havia raiva. Apenas uma tristeza mansa entre nós, o tipo que não se diz em voz alta, aquela que apenas se sente. “Tenho algo pra você.” Ele disse, pegando meu pulso com cuidado e observando a pulseira que ele mesmo havia me dado antes de partir, e do bolso tirou um pequeno adorno de coração, prendendo-o ao pingente. “Meu coração só pensou em você todo esse tempo.”
“É lindo. Obrigada.” Falei baixinho, tentando disfarçar o nó na garganta, que surgia quando ele fazia essas pequenas coisas e me desarmava por inteiro.
“Comprei pensando no seu aniversário.” Acrescentou. “Sinto muito por não ter ligado.” Por um momento, o silêncio entre nós pareceu dizer tudo. Eu entendia. O que tínhamos era um segredo, um amor escondido pelo nosso bem. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele me puxou de novo e me beijou. Dessa vez, o beijo foi diferente. Mais contido, mais lento, mas de uma sinceridade quase dolorida. “Algum sinal dele?” ele perguntou, quebrando o silêncio, referindo-se ao noivo invisível, o fantasma de um acordo feito pelo meu avô logo depois da morte do meu pai.
“Não.”
“Talvez ele também não queira esse casamento. Talvez seja um bom sinal.” Ele riu de leve. “Vai ver aparece casado... quantos anos ele tem mesmo? Trinta? Quarenta?”
“Não sei.” Admiti, a voz mais baixa. A ideia de me casar com um homem mais velho e completamente desconhecido ainda me assustava.
“Deve ser pra aceitar um casamento por conveniência... quem mais faz esse tipo de coisa hoje em dia?”
“Por incrível que pareça, muita gente aqui na cidade.” suspirei. “Às vezes parece que a cidade parou no tempo. Conheço mulheres na minha idade que já são casadas, em acordos assim.”
“Você pode dizer não, sabe disso, não é?” ele insistiu, a voz mais firme. “Nenhum juiz de paz, nenhum padre pode te obrigar a casar.”
“Eu sei.” respondi, olhando pro chão. “Ainda assim, tem muita coisa em jogo. Prim... tudo depende de como isso ficar.”
“Eu sei.” ele concordou, pensativo. “Mas ele não vai voltar agora.”
“Ou talvez a gente precise se apressar.” murmurei. Não queria pressioná-lo, mas sentia que o tempo estava se fechando ao nosso redor, como um cerco invisível.
“Temos tempo.” ele respondeu, tentando soar calmo. “Esse cara deve estar gastando a fortuna da família pelo mundo.”
“Tomara.” respirei fundo. “Mas estou com uma sensação ruim.”
Ele segurou meu rosto entre as mãos, o olhar fixo no meu.
“Ei... eu estou aqui. Não pensa nisso, tá?” murmurou. “Eu te amo.” A voz dele soou diferente mais rouca, mais grave, como se cada palavra carregasse um peso que eu ainda não entendia. Ele me olhou por um instante, e senti que tentava guardar aquele momento.
“Eu também te amo.” respondi.
O sol já se escondia quando deixei o esconderijo, deixando Gale para trás. Ele sempre esperava alguns minutos antes de sair, por segurança. A cidade parecia a mesma, mas dentro de mim algo tinha mudado depois de vê-lo. Caminhei devagar, como quem volta pra um lugar ao qual não pertencia.
A parte mais rica da cidade com suas casas alinhadas, varandas floridas e silêncio constante me parecia cada vez mais distante de quem eu era. Mas ainda era parte da minha vida. Uma parte irreal, que odiava. Assim que entrei em casa, o mesmo frio de sempre me envolveu. O mesmo silêncio perturbador. Subi as escadas devagar, apesar de chegar mais tarde teria tempo até as sete horas, horário do jantar e isso já era uma vitória. O som dos meus passos ecoou alto demais naquele espaço que nunca me acolheu. Nem meu quarto parecia meu. Nada ali tinha a ver comigo.
Tinha acabado de sair do banho quando Lavinia bateu à porta, o tom contido de sempre.
“Senhorita Everdeen, seu avô está chamando. No escritório.”
E naquele instante, eu soube que a noite estava só começando embora tudo dentro de mim desejasse que ela acabasse logo.
“Já vou descer, obrigada por avisar.” Terminei de trançar os cabelos ainda úmidos e segui pelo corredor, encontrando Prim no caminho.
Minha irmã era meu oposto. Aos nove anos, carregava uma inocência que parecia iluminar o ambiente uma alegria intocada pelo peso da casa e do passado. Tinha as feições da minha mãe, o mesmo sorriso doce, mas herdara do papai os cabelos loiros que caíam na testa, uma mistura improvável, mas que parecia o melhor dos dois.
“Você demorou, Katniss. Aconteceu alguma coisa?”
“Não, está tudo bem. E você, como foi a aula?”
“Foi bom. A professora disse que vamos começar a estudar os deuses.”
“Mitologia.” Sorri de leve, o ensino fundamental trazia boas lembranças, meu pai amava fazer o dever de historia comigo nessa época, um momento nosso.
“Consigo tirar historia de letra com sua ajuda, não estou preocupada, mas tem gente na sala que acha muita coisa.”
“Sim, você vai se dar muito bem esse ano em historia, assim como ano passado.” Ela sorriu. “Que bom que você está gostando. O vovô me chamou. Nos vemos no jantar, tá?”
Ela assentiu e foi para a sala de jantar com um sorriso, leve como sempre. Eu por outro lado segui até a grande porta que dividia o escritório de Coriolanus Snow do resto dos mortais como se arrastasse correntes. Uma batida bastou para ouvir o “entre” vindo do outro lado da porta.
O escritório era ainda mais frio que o restante da casa. A mesa de mogno coberta de papéis, livros escuros nas prateleiras, cortinas pesadas sempre fechadas. O cheiro de tabaco e couro. Ele não ergueu os olhos de imediato, e observei parada em frente a ele enquanto ele virava folhas, fazia anotações, como se o tempo fosse dele.
“Vejo que chegou um pouco mais tarde hoje.” Ele falou sem erguer os olhos dos papeis.
“Desculpe o atraso. Não vai se repetir.” Os anos vivendo com ele me ensinaram a não rebater apenas me desculpar, dizer que faria melhor.
“A pontualidade é o mínimo que se espera de uma dama.” A voz dele saiu seca, firme, mas sem pressa. “O respeito de uma mulher se constrói com obediência e disciplina e não com desculpas Katniss.” Assenti, mesmo que o relógio antigo atrás dele marcasse sete horas, e na pratica não tivesse me atrasado.
“Sinto muito.” Desviar e não confrontar era o melhor caminho.
“Você cresceu.” Ele entrelaçou os dedos, por fim me encarando. “Vinte anos, quase dona de si... Quase.” A forma que ele me olhava dava um sensação estranha, como se estivesse perdendo algo e isso me assustava. “ Confesso que pensei em ter essa conversa quando fez dezoito, mas achei que você poderia amadurecer um pouco mais.” Ele fez uma pausa e pude ver que estava analisando cada uma das minhas reações enquanto isso. “Na nossa família, tornar-se mulher sempre significou responsabilidade, não liberdade.” Mantive o silêncio, sabendo que definitivamente nada de bom começava assim. “Embora você não o carregue, sabe a importância do sobrenome Snow não sabe?”
“Sei sim, senhor.” Como não saber disso se havia passado os últimos anos ouvindo sobre, sendo cobrada por isso o tempo todo.
“Sou um homem que preza pela palavra e pela honestidade, você sabe disso.” Ele fez um gesto curto com a mão, daqueles que usava para encerrar discussões. “Por isso, quero fazer um trato com você, aqui e agora. Nada de mentiras. Seremos honestos um com o outro, independentemente de qualquer coisa. Eu digo a verdade. Você diz a verdade. Certo?”
Aquilo era arriscado, um terreno novo e perigoso. Ainda assim, eu sabia que não tinha escolha.
“Sim.” Minha voz saiu baixa demais. Eu podia sentir minha garganta seca.
“Mais alto. Com respeito.” Ele inclinou levemente a cabeça. “Vamos lá, você é uma mulher agora, não mais uma menina.”
“Sim, senhor.”
“Ótimo, acho que, para começar, o melhor é eliminar as mentiras. Principalmente a maior delas, aquela que paira entre nós há anos.” Ele fez uma pausa breve. “Vou lhe dar a chance de começar.” Meu coração acelerou e, por um instante, temi que ele pudesse ouvi-lo, embora soubesse que isso não era realmente possível. “Se não quer começar, então eu começo.” Ele alinhou alguns papéis sobre a mesa antes de continuar. “Uma pergunta simples. Seu atraso tem relação com os jovens que voltaram do alistamento ontem, não tem?” Não respondi. Não sabia o que dizer. “Você foi se encontrar com o Hawthorne nas cavernas.”
Meu estômago revirou.
“Eu…”
“Vamos lá, fizemos um acordo.” A voz dele permaneceu calma. “Não torne isso mais difícil do que precisa ser.”
“Fui.” Não havia como negar. Aquilo era um fato.
“Muito bem.” O olhar dele pareceu ficar ainda mais frio. “Um pouco de verdade, finalmente. Me diga você realmente achou que eu não sabia?” Embora parecesse impossível, o tom dele ficou ainda mais gelado. “Um namoro escondido com aquele descendente de turcos sem raízes.” O desprezo na voz dele era quase sutil. “Acha mesmo que pode me enganar tão facilmente?” Tentei manter o rosto firme, mas senti o medo crescer dentro de mim. Ele sabia. E aquilo me apavorava, não apenas por mim, mas principalmente por Gale.
“Você acredita mesmo que eu não sei por onde você anda? O que faz no seu tempo livre?” Ele continuou, sem elevar a voz. “Eu sei tudo o que você e sua irmã fazem Katniss.” O silêncio pesou entre nós antes que ele voltasse a falar. “Ah, minha querida… como você ainda consegue ser tão inocente?” Havia quase diversão no tom dele. “Acha que eu não percebia que era sempre a primeira a correr pra buscar as correspondências? A espera constante por respostas que nunca chegavam?” Senti meus dedos endurecerem ao lado do corpo. “E os encontros depois das aulas…” Ele ajeitou lentamente os punhos da camisa. “Confesso que achei interessante observar até onde isso iria.” Uma pausa curta. “Pensei que acabaria antes que eu precisasse intervir.”
Meu estômago se apertou ainda mais.
“Sua mãe, ao menos, teve coragem de me olhar nos olhos.” A expressão dele permaneceu impassível. “E seu pai teve a mínima decência de vir pedir a mão dela, mesmo sabendo qual seria minha resposta.” Um novo silêncio voltou a se instalar entre nós, pesado demais para aquele escritório. “Eles escolheram não me ouvir.” Ele inclinou levemente a cabeça. “E a vida se encarregou de fazê-los pagar por isso.” Senti um arrepio subir lentamente pela minha nuca. “A diferença é que você parece disposta a repetir o mesmo erro.” Os olhos dele se prenderam aos meus. “Com menos honra, inclusive.”
Tive vontade de responder, de defender Gale, meus pais, dizer qualquer coisa. Mas minha garganta parecia travada. Então ele sorriu. Um sorriso pequeno, frio, quase elegante.
“Agora me diga…Vocês já falaram em casamento?”
“Não.” Ouvi minha própria voz sair rápido demais. A verdade era que embora falássemos do futuro, Gale não havia pedido.
“Ah.” Ele sorriu, sem alegria. “Então ele é mais sensato do que imaginei… ou apenas menos comprometido e interessado apenas em encontros furtivos em lugares inapropriados para uma mulher de família.” A pausa seguinte foi longa, calculada. “Deus me livre você ter sido tola o suficiente para perder sua virtude em uma caverna úmida.” O desprezo atravessou a última frase. “Seria deprimente.” O silêncio seguinte pareceu sufocar o escritório inteiro, como se ele realmente esperasse alguma reação minha. “Dei minha palavra ao pai do seu noivo.” Ele voltou a me encarar com frieza, os dedos dele se moveram lentamente sobre a mesa. “Se fizer com que eu pareça um homem sem palavra diante desta cidade, como sua mãe fez as consequências serão imediatas.”
“Que consequências?”
“Primrose.” Ele disse o nome como quem pressiona uma ferida. “Você acha que, por já ser maior de idade, pode requerer a guarda dela, não é?”
“Sou o parente legal mais próximo. Eu posso cuidar dela.”
“Pode?” Ele inclinou novamente a cabeça, paciente. “Deus, achei que essa parte seria mais fácil. Você pode fazer isso… nos seus sonhos, a realidade é bem diferente.” Senti o frio subir pelo corpo. “Nenhum juiz entregaria uma criança a alguém sem casa, sem emprego, sem estabilidade nenhuma. Ou você já esqueceu quem sustenta você?” Ele manteve o olhar fixo em mim. “Você acha que a vida é um conto de fadas? Que amor coloca comida na mesa? Que amor sustenta uma criança? Sem contar que, aqui, conexões ainda valem ouro. E eu as tenho.”
Minha garganta secou.
“Eu posso cuidar da Prim sozinha. Vou provar que sou a melhor para ela. Eu posso trabalhar.”
“O melhor?” Ele soltou um suspiro quase condescendente. “Uma casa minúscula, cheia de gente? Talvez obrigá-la a abandonar a escola e trabalhar em alguma colheita pela cidade? É isso que você chama de melhor para ela?” O ar pareceu pesar ainda mais. “Lembre-se de que estamos falando a verdade.” Ele abriu uma pasta tirando um panfleto dela e o estendeu em minha direção. “Se você insistir no Hawthorne, eu lutarei com tudo pela guarda da sua irmã e estou falando de lutar para mantê-la longe de você. Porque a guarda eu já tenho.”
“Você não pode nos afastar.”
“Claro que posso, Primrose irá direto para um internato ortodoxo em Atenas, um colégio para moças, regime integral, disciplina e silêncio. Um tanto antiquado, admito… mas longe o suficiente da cidade.” Ele me observou com frieza absoluta. “E, sem emprego, ou vivendo de algum trabalho miserável na parte pobre da cidade duvido que consiga ir a Atenas vê-la sequer uma vez por ano.”
Olhei o papel que ele estendeu e vi o panfleto do Internato St. Eirini. O brasão da escola brilhava em meio algumas informações sobre ela.
“Ah, mas há outra responsabilidade que você pode assumir.” Ele continuou, a voz baixa, sem emoção. “A clínica onde sua mãe está.” Parou, como quem saboreia o efeito das palavras. “Eu corto os pagamentos e deixo isso pra você. A responsabilidade passa para você e para o seu… amado. Sem mim, o tratamento não se mantém. Talvez vocês possam levá-la para aquela casinha minúscula onde ele mora hoje, com a mãe e os irmãos. Sim, isso seria adorável não acha? Sua mãe na situação dela vivendo naquele lugar minúsculo sem remédios sem acompanhamento, acredito que ela não dure mais que um mês.”
“Você não faria isso.” Minha voz quase não saiu. “Ela é sua filha.”
“Minha filha morreu no dia em que se casou.” Ele respondeu, sem sombra de remorso. “A mulher naquela clínica não é minha filha. É uma sombra, uma casca vazia que seu pai destruiu.”
Ele tamborilou os dedos no móvel. Uma, duas, três vezes e então parou. O silêncio parecia parte do castigo.
“Seu acordo de casamento ainda está de pé, esperava que já tivesse sido cumprido, mas seu noivo esta fazendo os caprichos da mãe em Atenas.” Concluiu. “Rompa, e você perde sua irmã e sua mãe no mesmo gesto. Mantenha, e tudo segue em paz, eu garanto. Seu futuro marido tem dinheiro Katniss. Não vou mentir, a família dele já se misturou com estrangeiros, o sangue deles não é tão puro quanto o meu, mas considerando que sua mãe se casou com um xéno, era o melhor que podia conseguir. Mas ele ainda têm fortuna, influência, e um sobrenome que pesa em muitas cidades.” Ele me olhou com frieza a voz baixa, quase cordial. “Sei que você fará o que é certo sem que precise intervir. Lembre-se a honra está acima do desejo e o amor passa, a vergonha não.” Tentei dizer algo, mas nada saiu. “ Agora me dê seu celular”
“O que?”
“Chega desse romance barato, não vou facilitar para que façam planos ou para que fiquem se encontrando por ai. Agora Katniss me entregue o celular ou devo considerar isso uma afronta e começar entrar em contato com a diretoria do St. Eirini?” Estendi o aparelho, mas ele não o pegou apenas fez sinal para que o deixasse na mesa. “Pode ir.” Ele voltou aos papéis como se nada tivesse acontecido. “Primrose, imagino, já deve estar esperando para o jantar.”
Saí sem dizer qualquer outra palavra. O corredor parecia mais comprido do que de manhã. A conversa martelava por dentro como um castigo. Encontrei Prim em seu lugar de costume na sala de jantar, contando alguma coisa para Lavinia. Por um segundo, quis pegá-la no colo e arrancá-la dali, mas apenas sorri o suficiente para ninguém perguntar nada.
Mesmo com vontade de chorar.
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