Moira
3 O Peso do Fio
Notas iniciais


Os últimos quatro dias tinham sido um verdadeiro tormento. Todas as noites, o mesmo sonho me perseguia. Nele, Prim chorava enquanto dizia que eu havia matado nossa mãe que ela era infeliz. Presa àquela vida, sem liberdade alguma, por minha culpa. Que eu tinha prometido protegê-la e falhado.
Eu tentava me explicar, mas ela não me ouvia. Então meu pai aparecia, não dizia nada.Apenas me observava com aquele olhar quieto e pesado que eu conhecia tão bem. Não havia raiva nele, o que tornava tudo pior. Só decepção. Uma tristeza funda, como se tivesse esperado algo melhor de mim.
Prim se afastava dizendo que não nos veríamos mais.
Meu pai ficava por último, parado, imóvel… até virar o rosto e ir embora sem dizer uma única palavra. Então eu acordava com o peito doendo, o corpo trêmulo e a sensação sufocante de ter falhado com os dois. Depois disso, o sono não voltava, eu apenas assistia ao dia amanhecer pela janela do quarto.
E, por mais que tentasse esconder o quanto aquilo me afetava, as olheiras começaram a me denunciar e não demorou para Prim perceber. O problema foi ela ter perguntado durante o café da manhã de domingo.
“Estou bem, Prim.” Foi tudo o que consegui responder.
Meu avô abaixou lentamente o jornal na ponta da mesa e me observou por cima dos óculos. Durante a semana, ele raramente aparecia nas primeiras refeições do dia, embora o jantar fosse obrigatório, todos os dias, pontualmente às sete. Aos domingos pela manhã, porém, ele fazia questão de ocupar a cabeceira da mesa com o mesmo ar de quem acreditava controlar tudo ao redor.
As refeições com ele eram os momentos que eu mais odiava na semana, uma encenação de família feliz que só convencia minha irmãzinha.
“Você não parece bem.” Insistiu Prim.
Respirei fundo, tentando conter a irritação. Ela não tinha culpa, e eu não queria demonstrar nada na frente dele. Meu único desejo era me levantar, sair dali, me trancar no quarto e desaparecer por algumas horas, mas eu não daria esse prazer a ele.
“São só pesadelos”, respondi sem encará-la. “Nada demais, não se preocupa.”
Ela assentiu, provavelmente associando tudo aos nossos pais, como sempre fazia quando o assunto eram pesadelos.
“Coloca uma folha de oliveira embaixo do travesseiro. Isso ajuda a espantar pesadelos. Mags me ensinou.” Sorri de leve. Eu sabia que aquele ensinamento também tinha sido passado à nossa mãe. Ainda lembrava dela colocando folhas de oliveira embaixo do meu travesseiro quando eu era pequena, principalmente nas noites de tempestade. “Talvez visitar a mamãe hoje te faça bem”, Prim continuou. “Pode ser saudade.”
“Vamos visitar a mamãe?” A pergunta escapou antes que eu conseguisse disfarçar. Meu estômago se contraiu imediatamente, como sempre acontecia quando eu precisava vê-la.
“Você não contou pra ela, vovô?” Prim perguntou, virando-se para o outro lado da mesa.
“Acabei esquecendo, querida.” A voz dele soou doce. Ensaiada. O tipo de doçura que ele reservava apenas para ela.
“Pedi pra Mags fazer uma sobremesa”, Prim comentou animada. “Vai fazer bem pra mamãe. Faz quase um mês que não visitamos ela.” Meu avô sorriu e acenou com a cabeça antes de voltar a atenção para o jornal.
“Aproveitem e passem na igreja”, disse para mim, sem erguer os olhos. “Acender uma vela, confessar os pecados… isso costuma ajudar a dormir melhor, Katniss.” A alfinetada veio precisa. “Sua mãe era bem religiosa. Até cogitei enviá-la para um colégio interno em Atenas. Aprender mais sobre a fé faz bem a uma mulher.”
Uma isca lançada no ar. Um aviso.
Aquilo era um jogo.
Assim como os motivos por trás daquela visita à minha mãe.
Não era carinho por Prim.
Nem compaixão.
Era controle.
Era ele quem decidia quando podíamos visitá-la. Ele quem controlava tudo. E escolher aquele domingo servia apenas para me lembrar, mais uma vez, do quanto dependíamos dele. Do quanto minha mãe dependia dele. Porque sem o dinheiro dele não existiriam remédios, clínica ou cuidado algum. Não respondi. Apenas me servi de mais café, forte e amargo, como tudo naquela casa.
Menos de uma hora depois, eu estava pronta e senti um alívio imediato ao descobrir que ele não nos acompanharia. Embora não fosse uma surpresa. Ele nunca ia conosco.
Mandava sempre Seneca, o motorista que eu considerava muito mais um espião do que um empregado.
O carro desceu pelas ruas estreitas da cidade, passando pelas vinhas que começavam a amarelar com o fim do verão. A clínica ficava no interior, nos arredores do vilarejo de Sérvia, cerca de uma hora de carro, entre colinas e oliveiras. Era o tipo de lugar bonito demais para abrigar tanta dor.
“Vou esperar no carro, senhoritas”, Seneca avisou abrindo a porta. Desde que completei dezoito anos ele não precisava mais nos acompanhar, embora algumas vezes fizesse isso. Assenti, e ele se afastou.
De todos os homens que trabalhavam para o meu avô, ele era o que eu menos suportava. Eu sabia que cada palavra dita, cada atraso, cada suspiro seriam relatados mais tarde.
Prim caminhava à frente, carregando a caixa com loukoumades. O doce tinha sido ideia dela. No fundo eu sabia que para ela levar o doce favorito da nossa mãe era a esperança de que o cheiro despertasse alguma lembrança boa. Nunca tive coragem de dizer a ela que, às vezes, lembrar do que é bom também dói. Ela não precisava desse tipo de melancolia , não quando era tão jovem.
A recepcionista nos recebeu com um sorriso gentil e um “bem-vindas” ensaiado. Era sempre a mesma, havia quase nove anos. Após a rápida identificação seguimos pelo corredor silencioso até o jardim dos fundos, o mesmo onde sempre ficávamos. As mesas de ferro, o cheiro de terra seca e os ciprestes altos davam ao lugar um ar de calma forçada.
Prim ajeitou a sobremesa sobre a mesa, tirou da bolsa os guardanapos. Fazia tudo com tanto cuidado que me partia o peito. Mesmo com nove anos recém completos, ela lidava com tudo aquilo melhor do que eu. Talvez porque nunca tivesse conhecido nossa mãe inteira já que era apenas um bebê quando tudo aconteceu, minha irmã só conhecia essa versão quebrada de uma mulher que diziam ser sua mãe. Talvez porque era uma criança pura que ainda acreditava que amor era suficiente para consertar tudo.
Vi quando Wiress surgiu, empurrando a cadeira de rodas. Eu, involuntariamente, desviei o olhar. Mesmo depois de tantos anos, ainda doía encará-la.
Era difícil conciliar a imagem daquela mulher que um dia abandonou o conforto e os luxos da casa do pai para viver com o homem que amava em uma vida simples, sempre sorrindo, sempre buscando o melhor em todos, com o que restava agora.
Ali, diante de mim, ela parecia um retrato desbotado do que foi um dia. Pálida, confusa, com os olhos presos em um ponto que não existia.
“Olha só quem veio ver você hoje, Eleutheria.” Wiress disse, com a mesma doçura de sempre. “Suas filhas. E olha… vocês vão comer sobremesa antes do almoço. E vejo que escolheram seu doce favorito.” Minha mãe olhou para nós como se tentasse nos encaixar em alguma lembrança antiga, enquanto observava o doce sobre a mesa.
“Katniss não gosta muito de loukoumades, ela prefere baklava.” Ela disse de repente, com uma certeza que me quebrou um pouco. O olhar dela brilhou por um segundo, como se uma janela tivesse se aberto. “Ela é como o pai dela nisso… Minha menina. Minha pequena. Ela tem seis anos agora.”
“Ah, baklava é mesmo um ótimo doce”, Wiress comentou com calma. “Mas a Katniss já não é mais criança. Isso faz muito tempo.” Mamãe franziu a testa e olhou para mim como se eu estivesse no lugar errado. “Ela fez vinte anos, lembra?”, continuou apontando de leve para mim. “Olha como ela está crescida… e ficou linda. Assim como a Prim.”
Aquele era um pequeno ritual, repetido em quase todas as visitas. Uma apresentação paciente, na tentativa de lembrá-la de quem éramos. Porque, na mente dela, eu ainda era uma criança. Ela quase não se lembrava de Prim. E, quando lembrava, era sempre como um bebê recém-nascido.
“Prim é um nome bonito... Eu gosto desse nome.”
“Ela estava agitada esta manhã”, explicou Wiress, inclinando-se discretamente para mim. “O doutor ajustou a dosagem. Ela pode ficar um pouco aérea. Não se preocupem. Vou ficar sentada ali. Se precisarem, é só me chamar.” Assenti e a observei se afastar e sentar em um dos bancos do jardim, a alguns metros.
“Mãe… as aulas voltaram.” Prim começou como se o fato de nossa mãe não reconhecê-la não importasse, enchendo o silêncio como sempre fazia. “Quase toda a minha turma é a mesma… e a professora disse que vamos estudar os deuses em historia esse ano… Katniss disse que esse e um tema que você gosta...”
Continuei calada, ouvindo minha irmã falar. Eu quase nunca falava com minha mãe. Era Prim quem fazia isso. E ela parecia não se importar, mesmo quando mamãe quase não respondia. Ela ficou ali, perdida, enquanto Prim contava tudo o que tinha acontecido nas últimas semanas.
O acidente, há oito anos, levou meu pai. E, embora não tivesse feito o mesmo com minha mãe, chegou perto o suficiente para levá-la de outra forma.
A pancada na cabeça, brusca demais, violenta demais, deixou marcas que nenhum remédio ou tratamento conseguiu curar por completo. Desde aquele dia, o tempo deixou de seguir uma linha consistente para ela.
Minha mãe não separava passado e presente. Às vezes, lembrava de um detalhe com precisão impressionante, o cheiro de um prato, uma frase dita anos atrás, como se tivesse acabado de acontecer. Em outras, se perdia no meio da própria frase, como se o pensamento se apagasse antes de chegar ao fim. Havia dias em que me via como criança. Em outros, não me reconhecia. E quase nunca entendia quanto tempo tinha passado desde aquele dia.
Dores de cabeça constantes, tonturas, momentos de confusão que surgiam sem aviso. E crises que vinham como ondas, principalmente quando alguma lembrança se aproximava demais do dia do acidente. Ou dele.
O amor da vida dela.
As crises vinham sempre que ela se lembrava que o tinha perdido, um luto nunca vivido, repetido inúmeras vezes, como se ela descobrisse, de novo e de novo, que ele tinha partido.
As enfermeiras tentavam mantê-la ancorada na realidade, corrigindo com cuidado, lembrando que os anos haviam passado, que nós havíamos crescido. Era um esforço contínuo e, na maioria das vezes, inútil. No fundo, a mulher diante de mim era apenas uma casca, uma presença vazia ocupando o lugar de quem ela tinha sido.
Depois de algum tempo, Prim insistiu em tirar uma foto.
“Só pra guardar”, ela disse, sorrindo. “Pra colocar no álbum.”
E eu não neguei. Era sempre assim. De tempos em tempos, ela tirava uma foto para o álbum da família e trazia uma cópia para deixar no quarto da nossa mãe. Segundo Prim, aquilo ajudava. Dava a ela uma imagem fixa de nós. Algo que não mudava, mesmo quando a memória mudava.
Do meu ponto de vista, era fazê-la acordar ao lado da foto de estranhos. Ainda assim, eu não tiraria isso dela, não quando a vida já tinha tirado tanto de alguém tão jovem.
Comemos alguns bolinhos e depois caminhamos lentamente pelo jardim. Tudo indicava que aquela seria uma visita tranquila, mas não foi.
“Quando o Arvid vai chegar?” minha mãe perguntou de repente e a pergunta fez Prim parar na mesma hora. “Ele está atrasado.”
Minha irmã me olhou, assustada. Ela sabia o que viria.
“Mãe…”
“O papai não vem”, respondi, sem entrar em detalhes, como sempre fazia para tentar evitar uma crise.
“Por que não?”
“Ele não pode vir. E nós precisamos ir, esta tarde.”
“Não.” A voz dela começou a tremer. “Ele vai trazer a sobremesa. Baklava… Katniss pediu. Ele não vai deixar de trazer. Não pra Katniss… não pra nossa menina.” Wiress se aproximou rápido, alerta.
“Eleutheria”, disse com firmeza gentil. “Vamos entrar um pouco, está bem? Você precisa descansar.” Minha mãe levou a mão à cabeça e eu reconheci o gesto.
Sempre começava assim.
Os dedos tocavam a cicatriz, e a lembrança deixava de ser distante.
Ela vinha inteira. Presente. Incontrolável.
E, com ela, o descontrole.
Uma mulher perdendo o marido… de novo.
“Mãe, precisamos ir”, falei, tentando proteger Prim do que viria a seguir.
“Eleutheria, se despeça das meninas”, pediu Wiress, já mais firme. “Vamos entrar.”
Nos despedimos rápido e seguimos em direção à saída, mas no meio do caminho, Prim parou de repente.
“Esqueci minha bolsa.”
“Eu busco”, respondi de imediato e voltei sozinha.
Então eu vi. Três enfermeiras tentavam acalmá-la enquanto administravam alguma medicação. Mamãe gritava o nome do meu pai, desesperada, se debatendo como se tivesse acabado de receber a notícia da morte dele.
Como se fosse a primeira vez que descobria que o homem que amava havia morrido. Mas não era. Eu mesma já tinha perdido as contas de quantas vezes a vi passar por aquilo, por aquela dor, por aquele momento.
E, ainda assim, ver aquilo doía mais do que tê-la perdido. Vê-la sofrer como se estivesse perdendo alguém que ama, quase todos os dias, era também, de certa forma, ir perdendo ela aos poucos, dia após dia.
As palavras do meu avô, ditas quatro dias antes, ecoaram na minha mente, e não consegui imaginar uma realidade em que minha mãe estivesse em outro lugar que não fosse aquela clínica.
Como eu poderia pagar pelos remédios? Como cuidar dela em tempo integral? Como pedir algo assim a Gale, sabendo que ele não teria como ajudar. Quando entrei no carro e entreguei a bolsa a Prim, ela me olhou ansiosa.
“Ela estava bem?”
“Estava sendo levada para o quarto”, uma meia verdade ainda sim torci para que ela tirasse suas próprias conclusões. Felizmente ela não perguntou mais nada, apenas olhou para o vidro, alguém tão jovem não devia passar por aquilo.
Encostei a cabeça no banco e fechei os olhos enquanto o carro seguia de volta para a casa do meu avô. E, mais uma vez, senti que tudo estava sendo decidido por mãos que não eram as minhas.
A segunda-feira amanheceu linda, setembro tinha esse efeito sobre o tempo. O céu limpo, de um azul profundo, o sol ainda presente, mas mais gentil do que no auge do verão. O vento morno carregava o cheiro das oliveiras e da terra seca, e o calor já não sufocava como em agosto.
Era o tipo de dia que convidava à leveza. À sensação enganosa de que tudo podia estar no lugar. Infelizmente, minha realidade estava longe disso.
Os pesadelos tinham me mantido acordada boa parte da noite. Entre uma virada inquieta e outra na cama, eu pensava em Gale e em como precisava falar com ele o mais rápido possível.
Desde o nosso último encontro, depois do retorno dele, não tínhamos conseguido nos ver. E, sem meu celular, eu não podia sequer mandar uma mensagem.
Eu precisava avisá-lo que nosso namoro não era tão secreto quanto imaginávamos.
Ele precisava saber que meu avô sabia.
Só de pensar no que ele poderia fazer para manter aquele jogo de dinheiro e poder funcionando como queria, meu estômago se revirava. A ideia de Gale sendo ameaçado, pressionado ou prejudicado por minha causa me deixava em alerta constante.
Durante a madrugada sem sono, formulei um plano. Não era perfeito. Estava longe disso, mas era a única coisa que parecia fazer sentido naquele momento. Agora eu só precisava convencê-lo, o problema era encontrar um jeito de vê-lo.
Segui minha rotina como em qualquer outro dia, mas não consegui prestar atenção em uma única palavra dita pela senhora Laskaris. A voz dela se misturava a um ruído distante e contínuo enquanto minha mente ensaiava, repetia e corrigia cada frase do que eu diria a Gale assim que o encontrasse.
“Katniss.” Annie, ao meu lado, tocou meu braço, me arrancando do torpor.
Quando olhei para frente, percebi que minha amiga não era a única me encarando. A sala inteira observava meu silêncio.
Engoli seco.
“Desculpa, não entendi a pergunta.” Falei diretamente para a professora, que me observava atentamente. Embora eu ainda segurasse a caneta, meu caderno estava completamente vazio.
“Durante o período clássico ateniense, podemos dizer que a democracia incluía toda a população?” Respirei fundo antes de responder com a voz firme.
“Definitivamente não.” Ela continuou me olhando, esperando que eu prosseguisse. Por sorte, aquela era uma das minhas matérias favoritas. “A democracia ateniense nesse período incluía apenas os cidadãos. Homens adultos nascidos em Atenas. Mulheres, escravizados e estrangeiros ficavam de fora.” Ela assentiu levemente.
“Certo. Como disse a senhorita Everdeen, a democracia era limitada nesse período. Para a próxima aula, quero um texto de duas mil palavras sobre o tema. Explorem quem ficava de fora e qual foi o impacto desse modelo na história.” Ela fez uma breve pausa antes de fechar o livro sobre a mesa. “Estão dispensados.” O som das cadeiras sendo arrastadas preencheu a sala. Fechei meu caderno e juntei os livros, pronta para seguir Annie até a saída. “Senhorita Everdeen, um minuto.”
Parei imediatamente.
“Claro.” Observei os outros alunos saindo e segui na direção oposta, descendo a fileira de mesas até a frente da sala, onde ficava a mesa da professora, levemente elevada. Ela me encarou por alguns segundos.
“Você não estava prestando atenção.” Permaneci em silêncio. “Saber a resposta ou conhecer o tema não significa que você acompanhou a aula.”
“Me desculpa, eu…” Ela ergueu a mão, me interrompendo.
“Não importa, Katniss. Você tem potencial para este curso. Gosta do que é ensinado aqui, isso é evidente. Mas nada disso adianta se você não estiver realmente presente.” Sustentei o olhar sem saber o que responder. “Nas últimas aulas, é como se estivesse aqui apenas de corpo. Espero que sua redação seja uma das melhores, como tem sido até agora. Eu realmente não gostaria de ter que dar uma nota ruim.”
Apenas assenti.
Encontrei Annie parada na porta. Mesmo tendo esperado por mim, ela não perguntou o que a professora queria. Apenas começou a caminhar ao meu lado, a próxima aula era de Arqueologia Básica, uma eletiva que ficava do outro lado do campus. Não que a universidade fosse grande.
Foi então que alguém esbarrou no meu ombro.
“Desculpa.” A voz fez meu corpo gelar, ele não parou.
“Que mal-educado”, Annie comentou, olhando na direção dele.
Segui seu olhar.
Gale, com um moletom cinza de capuz, caminhava em direção ao prédio de Ciência Política. Ele não estudava ali. Se tinha aparecido, era por um motivo.
Era por mim.
“Annie, pode ir na frente. Preciso passar na biblioteca.”
Ela franziu a testa.
“Pra quê?”
“Preciso fazer algumas pesquisas. Já te encontro na aula.”
“Quer que eu vá com você?”
“Não.” Respondi rápido demais. Ela me observou por um momento.
“Se eu me atrasar, pego suas anotações depois.” Annie assentiu e seguiu em direção ao prédio.
Esperei até ela desaparecer de vista.
Então mudei de direção.
O prédio de Ciência Política estava quase vazio. Com as aulas em andamento, os corredores permaneciam silenciosos. Mantive o passo firme, tentando parecer apenas mais uma aluna atrasada.
“A senhorita sabe me dizer onde fica a cafeteria?”
Sorri antes mesmo de olhar.
Gale estava ali.
O abracei com força, sem me importar com a possibilidade de ser vista. Ele hesitou por um segundo, surpreso. Eu nunca fazia aquilo. Sempre fui cuidadosa demais com nossos encontros, mas eu precisava.
Como se aquele gesto pudesse apagar os últimos dias. O perfume dele me envolveu imediatamente, algo fresco e verde, que lembrava folhas esmagadas e madeira úmida, como o cheiro das colinas depois da chuva.
Um cheiro que sempre me fazia pensar em liberdade.
Respirei fundo, sentindo meu corpo finalmente relaxar.
“Eu precisava tanto te ver...”
Ficamos assim por alguns instantes, até que ele segurou minha mão e me puxou para fora do prédio. Saímos para um pátio que eu nunca tinha usado antes. Era mais afastado, quase escondido, com poucos alunos espalhados, alguns com livros abertos no colo, outros distraídos no celular. Provavelmente estavam com aula vaga.
Seguimos até o canto mais distante e nos sentamos em um banco parcialmente escondido pela sombra de uma árvore.
“Catnip…” Ele encostou a testa na minha, sorrindo, mas sem me beijar. “Tentei falar com você. Você não atendeu.” A animação veio logo em seguida. “Eu tenho ótimas notícias.” Afastei um pouco o rosto, observando. “Lembra daquele emprego naquele cruzeiro de luxo? Eu consegui. Vou trabalhar a bordo. O salário é bom e, se eu me sair bem, posso ser chamado pra alta temporada no ano que vem… o que significa ganhar ainda mais.”
Uma semana antes, aquilo teria me feito sorrir.
Gale sempre teve planos assim. Tentava, insistia, falhava, tentava de novo. Aquela era a primeira vez que algo realmente dava certo. Mas, naquele momento, a notícia soou como o pior timing possível.
“Amor, você está me ouvindo? Isso é importante.”
Eu sabia que era. Na prática, significava sair da cidade, ganhar dinheiro, conhecer gente nova. Para alguém como Gale, significava estabilidade. Futuro. Uma chance real de mudar de vida.
“O navio parte em três semanas.” Ele falava rápido, animado. “Vou ficar fora uns seis, talvez sete meses. Mas vou receber bem. E talvez consiga algumas folgas entre um cruzeiro e outro pra vir te ver.”
Assenti, mas ele continuou.
“Se der certo… em um ano, talvez dois, eu consigo algo fixo. A gente pode se casar. Ter uma casa nossa. Trazer a Prim.”
Engoli em seco.
“Gale…” forcei as palavras a saírem. “Ele sabe.” A mudança foi imediata. O sorriso desapareceu.
“Quem?” , ele perguntou mesmo sabendo a resposta.
“Meu avô.” Falei baixo. “Ele está com o meu celular. Por isso eu não te respondi.” Gale passou a mão pelo rosto, tenso.
“Então a gente se casa agora.” disse, sem hesitar. “Hoje. Eu falo com a minha mãe e…” Por um segundo, aquilo me atingiu, tinha peso. Era real, significava que meu avô estava errado. Que o homem à minha frente me amava. Que eu não era um segredo, nem um caso passageiro. Mas ainda sim balancei a cabeça.
“Não funciona assim.” Ele franziu a testa.
“Por quê não?”
“Porque não é só chegar e assinar um papel. Precisa de documentação, publicação, prazos… mesmo um casamento simples leva dias. Às vezes semanas.” Ele pensou rápido.
“Então você vai pra minha casa enquanto isso. A gente enfrenta tudo juntos e casa antes de eu embarcar, deve dar tempo.” Balancei a cabeça novamente.
“Eu não posso.”
“Você é maior de idade, Katniss. Ele não pode te impedir.” Soltei o ar devagar.
“Pode sim.” Ele me olhou, confuso.
“Ele pode alegar qualquer coisa. Instabilidade, dependência… o que for preciso. Ele conhece gente suficiente pra atrasar tudo até você ter que ir embora.” Parei por um instante antes de continuar. “E mesmo que desse certo… nenhum juiz vai me dar a guarda da Prim.” Minha voz saiu mais baixa. “Eu não tenho renda. Não tenho casa. E você nem vai estar aqui.” Contei tudo. Cada detalhe da conversa com meu avô e Gale ouviu em silêncio.
“Ele não faria isso.” disse por fim. “É loucura.” Levantei o olhar.
“Ele faria.” O silêncio se instalou entre nós.
Pesado.
Difícil de ignorar.
“Vamos fugir…” disse, mais baixo agora. “Levar a Prim. Vamos pra outra cidade, pra qualquer lugar.” Gale respirou fundo.
“E o trabalho? Se eu não aceitar, acabo com qualquer chance de ser aceito em outro cruzeiro. Katniss, você sabe o quanto foi difícil conseguir essa vaga.” Ele passou a mão pelo rosto antes de continuar.
“Eu me formei praticamente sendo empurrado no colégio, trabalhando até tarde todos os dias. Meu inglês… eu me viro, mas nem curso eu tenho. Eu coloquei meu melhor moletom só pra entrar nesse campus sem chamar atenção.” Ele olhou ao redor por um instante. “Eu não pertenço a um lugar assim.” Por um segundo, senti um aperto no peito. Do jeito que ele disse, parecia que eu pertencia. “Eu não posso me dar ao luxo de pagar dez mil euros por ano, fora livros e material, num cursinho de História.”
Claro que eu sabia disso, e era exatamente por saber o quanto tinha sido difícil pra ele que aquilo complicava tudo. Mas, ainda assim, doeu.
Porque eu tinha entrado na faculdade não só a pedido do meu avô, mas também pensando no nosso futuro. Em ter uma profissão. Em ajudá-lo depois.
“Eu tenho que ir…” olhei para baixo, sem conseguir encará-lo.
Senti a mão dele tocar meu rosto.
“Me desculpa.” a voz dele saiu mais baixa. “Me desculpa, amor. Eu fui um idiota agora, eu sei.”
Balancei a cabeça de leve.
“Tá tudo bem.”
Ele respirou fundo, tentando se recompor.
“A gente vai achar uma solução.” prometeu. “Eu vou te ver em breve.”
Segui em direção à aula, que já havia começado há algum tempo, e me sentei ao lado da Annie como de costume.
Ela não disse nada de imediato. Apenas me observou com aquele olhar atento, o mesmo que eu conhecia há anos , o olhar de quem nunca precisava de muitas palavras para perceber quando algo estava errado.
“Achou o livro?” Demorei um segundo para entender.
“Que livro?” Ela franziu levemente a testa.
“Você não foi na biblioteca?” perguntou, por fim, em voz baixa.
Levei um instante para lembrar da desculpa que havia dado… e do motivo do meu atraso.
“Ah… não. Depois procuro com mais calma.” Ela não desviou o olhar.
Annie nunca foi do tipo que insistia. Nunca pressionava. Mas também nunca ignorava.
“Você anda estranha desde a semana passada.” disse com cuidado, mantendo o tom baixo enquanto o professor escrevia no quadro, como se não quisesse me assustar.
A frase me atingiu mais do que eu esperava.
Estudávamos juntas desde o sétimo ano, quando entrei em uma escola particular completamente perdida e de luto. Annie, com seu jeito tímido, tinha sido a única que ficou. Que respeitou meus silêncio, meu afastamento, meus dias bons e os ruins.
Ela não fazia perguntas difíceis. Só… permanecia.
Com o tempo, isso se tornou mais do que amizade. Era constância. Era alguém que não ia embora quando tudo ficava difícil.
Acabamos escolhendo o mesmo curso na faculdade, primeiro porque eu estava perdida, depois porque ambas amávamos História.
E, em todos esses anos, Annie aprendeu a me ler melhor do que qualquer outra pessoa.
Ela sabia quando algo estava fora do lugar. Mesmo quando eu fingia que não estava.
“Hoje você quase não prestou atenção em nada.” continuou.
“Não é nada.” menti, mais uma vez. “Só cansaço.”
“Tem certeza?” Ela inclinou levemente a cabeça, havia preocupação ali. Não curiosidade. Não julgamento.
Só cuidado, um cuidado silencioso, constante… quase teimoso.
“Eu prometo que estou bem.” disse, mais baixo. “Depois me passa suas anotações, por favor.” Ela suspirou, resignada, e empurrou o caderno na minha direção, mas não estava satisfeita.
E eu sabia disso.
Porque Annie nunca acreditava completamente quando eu dizia que estava bem.
E, ainda assim… ela respeitava.
Ela não sabia o que estava acontecendo. Não fazia ideia do que eu escondia, mas sabia que algo tinha mudado.
E estava ali mesmo assim.
Eu sabia que, de alguma forma, o tempo estava acabando.
E não tinha ideia do que poderia fazer agora, com a chance de trabalho para Gale longe da cidade, tudo parecia ainda mais urgente.
E sabia que seria difícil falar com ele outra vez. O campus não ficava na cidade e, por mais que Kallistria estivesse a apenas quarenta minutos de carro, ele não podia se dar ao luxo de ir até ali com frequência.
Sem contar que… eu me sentia cada vez mais observada.
No início, tentei me convencer de que era coisa da minha cabeça, mas, no fundo, sabia que não era.
Algumas pessoas dizem que as coisas pioram quando menos se espera. E eu passei a acreditar nisso no momento em que cheguei ao meu quarto, naquela quarta-feira, e encontrei a caixa de presente sobre a cama.
Senti um aperto imediato no estômago.
Eu sabia de quem era antes mesmo de abrir.
Quando me mudei para aquela casa, era comum encontrar presentes no meu quarto. No início, bonecas. Depois, roupas, algumas joias.
Nunca soube exatamente o motivo.
Talvez uma tentativa vazia de criar a imagem de uma família feliz.
Talvez controle disfarçado de cuidado, mas nunca me senti confortável com nenhum deles e com o tempo, isso mudou.
Ele continuava comprando tudo o que fosse necessário, sempre o melhor, afinal ninguém podia suspeitar da farsa da nossa família, mas os objetos simplesmente apareciam no guarda-roupa ou na cômoda.
Sem gesto.
Sem explicação.
Sem afeto.
Abri a caixa. O vestido era preto, de corte simples e elegante, logo abaixo dos joelhos. O tecido era leve, estruturado o suficiente para marcar postura, não juventude e sério demais para alguém da minha idade. Havia também um par de sapatos de salto médio, fechados, discretos, confortáveis o bastante para longas horas em pé.
Tudo de extremo bom gosto. E absolutamente calculado. Deixei tudo dentro da caixa e a guardei no fundo do guarda-roupa. Provavelmente aquilo era apenas mais uma peça do jogo do meu avô.
Prim chegou da escola no horário de sempre e ficou encantada com o vestido que havia encontrado em sua própria cama. Diferente de mim, ela não achou nada estranho. Para ela, aqueles gestos ainda eram comuns.
Durante o jantar, a voz do meu avô me questionou com atenção a minha reação.
“Você não me disse se o presente agradou, Katniss.” Levantei o olhar, surpresa. “Primrose comentou mais cedo o quanto apreciou o dela. Mas você não disse nada.”
“São lindos. Obrigada.”
“Fico feliz. Quero que usem na sexta-feira. Teremos convidados.” Senti um alívio breve. Apenas mais um jantar. Provavelmente de negócios. Mais uma encenação da família perfeita.
“Quem vem jantar conosco, vovô”, Prim perguntou com naturalidade. O sorriso dele se aprofundou antes de responder.
“Os Mellark, querida.” O nome não era estranho, mas não me dizia nada. Antes que minha irmã pudesse perguntar qualquer coisa, ele continuou. “O noivo da Katniss finalmente voltou à cidade. Virá com a família para conhecê-la.” Quase deixei o talher cair. “Não preciso dizer que espero a melhor postura das duas, não é?”, continuou com calma. “Afinal, é o seu futuro, Katniss. E você sabe que o seu futuro influencia diretamente o futuro da Prim. Quero o melhor para vocês. Não vou estar aqui para cuidar de vocês para sempre.”
Minha irmã disse algo sobre ele ainda viver muitos anos. Eu mal ouvi.
“Vou para o meu quarto.”
“Você ainda não terminou o jantar.”
“Não estou com fome. Posso me retirar, por favor?” Ele me olhou longamente. Eu sabia que estava dando exatamente a reação que ele queria.
“Tudo bem, querida. Pode ir.” Subi o mais rápido que pude. Não acendi a luz do quarto. Apenas me deitei e abracei o travesseiro com força. A ideia daquele homem voltar e de querer ocupar um lugar na minha vida me sufocava.
Alguns minutos depois, ouvi Prim entrar no quarto. Fingi estar dormindo. Ela hesitou por um instante antes de sair em silêncio. A única coisa que ocupava minha mente era Gale. As horas passaram lentamente. Quando olhei para o relógio, já passava da meia noite. Foi então que tomei uma decisão.
Seria perigoso, mas eu precisava arriscar. Fechei a porta do quarto, coloquei alguns travesseiros sobre a cama em um gesto infantil, quase inútil e desci pela árvore em frente à janela. Atravessei o jardim e saí de casa em silêncio. Por ser quarta-feira, as ruas estavam quase vazias. Ainda assim, caminhei rápido, quase correndo, até a parte baixa da cidade. O bairro menos favorecido, onde eu havia nascido e vivido até os doze anos.
Cheguei sem ser vista à casa simples onde Gale morava. A casa onde, em algum momento, acreditei que moraria também.
Sabia que ele dormia no quarto dos fundos. Pulei o pequeno muro e bati de leve na janela. Gale abriu com o rosto desconfiado.
“Katniss? O que você está fazendo aqui?”
“Precisamos conversar.”
Ele abriu espaço para que eu entrasse. O quarto era pequeno, simples, mal iluminado, mas ele não o dividia com ninguém. “Aconteceu alguma coisa? Ele fez algo?”
“Ele está voltando, Gale.”
“Quem?”
“O noivo. Meu avô marcou um jantar para me apresentar a ele.” Gale passou a mão pelos cabelos.
“Então não volta pra lá. Fica aqui. Se quiser, não volta nunca mais.”
“Não, Gale. Precisamos fugir.”
“E viver como? Isso é loucura.”
“Não é.” Mantive a voz baixa. “Tem ônibus noturnos saindo da cidade. Podemos seguir depois para uma cidade perto do mar, onde ninguém nos procure. Depois seguimos viagem em algum barco. Eu tenho algum dinheiro. E na sexta ele provavelmente vai me entregar as joias para escolher o que usar no jantar. Podemos vender. Não é muito, mas é o suficiente para começar. A gente trabalha. Eu trabalho. Mas se eu ficar… eu não vou ter escolha.”
“É claro que você tem escolha”, ele respondeu. “Você tem vinte anos, não é uma criança, responde por si mesmo. Pode se casar comigo. Seguimos o plano que falei.”
“Não.” Balancei a cabeça. “A Prim é minha irmã. Eu não posso deixá-la. Não posso permitir que ele a mande para um colégio rígido, longe de tudo e de todos. Longe de mim.”
“É só um colégio, Katniss. Sei que não é comum, mas não é para sempre. A gente dá um jeito. Prim não é sua filha, você não pode deixar de viver por ela. Podemos tentar colocar sua mãe em um lugar mais barato, conseguir ajuda…”
“Você não vai fugir comigo?” Ele ficou em silêncio por um momento.
“Katniss, eu te amo. Quero me casar com você. Mas esse trabalho é uma oportunidade única. Não só pra mim, mas pra minha família também. Eu não acho que seu avô vá cumprir tudo o que disse. Ele só quer te assustar.”
“Você está disposto a arriscar?”
“Katniss…”
“Não.” Minha voz falhou, mas me mantive firme. “Eu não posso arriscar. Não posso pensar em mim agora. A Prim é só uma menina e olha tudo que ela já passou. Ele vai usar tudo o que tem para me atingir. E a pior arma que ele tem é a guarda da minha irmã.” Engoli o choro. “Se você não quer fugir conosco… então acabou.” Meus olhos arderam, mas me recusei a chorar ali.
Antes que ele dissesse qualquer coisa, pulei a janela e corri de volta para casa. Por maior que fosse o meu amor por Gale, eu não poderia viver ao lado dele sabendo que minha irmã era infeliz.
Pela felicidade da Prim, eu daria a minha em troca.
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