Moira

4 O Fio Esticado


Notas iniciais
Boa tarde! Espero que estejam bem. E até que voltei em um tempo aceitável desta vez. A Bel me ajudou com as imagens. As que ficaram bem feitas foram obra dela; as meio ruins foram por minha conta mesmo. Agora, vamos para o capítulo! Boa leitura!



Não tenho ideia se alguém me viu sair, mas não me importava de verdade com isso, não mais. O resto da noite tinha sido terrível. O nó na garganta e a vontade de chorar me impediram de dormir direito. Por mais que eu entendesse Gale e seus sonhos, o fato dele querer arriscar o futuro e a felicidade da minha irmã doía.

Quando meu despertador tocou, a única vontade que eu tinha era a de fingir que o mundo não existia e ficar o dia inteiro no quarto. Mas eu não podia me dar esse luxo. Então apenas segui minha rotina diária.

Na faculdade, as aulas transcorreram tranquilamente, embora eu mal tivesse prestado atenção em qualquer uma delas.

“Katniss”, Annie me chamou enquanto eu seguia em direção à saída do campus depois da última aula. Naquele dia, eu tinha evitado até mesmo minha amiga. “Como você não me disse nada sobre estar noiva?” Olhei para ela sem entender por um instante, tentando acompanhar o que ela dizia. “Só fiquei sabendo porque o Finn comentou que o Peeta está na cidade.”

“Quem?”, perguntei, sem ânimo para conversar.

“Como assim quem, Katniss? Peeta Mellark, seu noivo.” Ela parou, me obrigando a fazer o mesmo, a poucos metros do estacionamento. “Soube que ele estava em Atenas, mas voltou para assumir os negócios da família e se casar… e imagina a minha surpresa quando descobri que a noiva dele era a neta mais velha do Coriolanus Snow. Minha amiga há oito anos… que não me contou nada.”

“Não é nada oficial ainda…” tentei desviar. “Eu ainda vou conhecer o…”

“Peeta. Espera, você nem sabia o nome dele?” Se eu fosse sincera, diria que não sabia absolutamente nada sobre ele e principalmente que não tinha interesse em saber.

“Eu preciso ir para casa, Annie.”

“O que está acontecendo?” ela insistiu, dando um passo na minha frente. “Fiquei sabendo ontem que vocês estão noivos há anos, e você nunca me contou. E agora ele está de volta à cidade, o que significa que o casamento vai acontecer.”

“Não é nada demais.” Ela soltou um riso curto, incrédulo.

“Como não é nada demais? Vocês vão se casar em breve. Isso significa que você vai ter sua própria casa, sua família… e eu sei o quanto você queria sair da casa do seu avô. Eu sei o quanto ele pode ser...” Observei ela escolher rapidamente a palavra como quem não quer ofender. “Rígido.”

“Como se isso fosse mudar alguma coisa”, rebati. “Vou sair da casa do meu avô para morar com um estranho. Onde está a parte boa nisso tudo?” Annie hesitou, como se procurasse as palavras certas novamente.

“Katniss… não é assim. Vocês vão se conhecer… e ele vai ser seu marido.”

Soltei um riso baixo, sem humor.

“E isso pode ser ainda pior. Ele pode muito bem ser um lobo em pele de cordeiro.”

“É claro que não. O Peeta é uma ótima pessoa, o Finn me garantiu.”

Fiquei quieta. Eu não tinha motivo nenhum para confiar no julgamento de Finnick Odair, mas dizer isso em voz alta soaria como um ataque e Annie levaria para o lado pessoal.

Vinda de uma família rica e respeitada, ela sempre foi, para o meu avô, o tipo de companhia aceitável. Talvez por isso ele nunca tenha interferido na nossa amizade.

“Annie, eu não quero falar sobre isso agora, está bem?” Eu a adorava. E, muitas vezes, quis contar sobre o Gale. Dividir que estava apaixonada, que havia encontrado alguém quem me fazia feliz. Mas eu sabia que ela não entenderia. Para Annie, respeitar os mais velhos e aceitar o que eles decidiam como “o melhor” não era uma escolha era uma regra.

“Fala comigo. Por que você está assim?” Ela insistiu, mais suave agora. E eu sabia que ela estava mesmo preocupada para insistir, para não deixar pra lá. “Eu sei que deve estar nervosa pra conhece-lo, mas não precisa. Eu fiz várias perguntas pro Finn ontem à noite…” Me forcei a não desviar o olhar. “E, assim… ele falou bem do Peeta. Disse que ele é educado, respeitoso… mas não de um jeito forçado, sabe? Falou que ele foi criado em uma família bem estruturada, que os pais são presentes e que ele é um bom filho. E isso conta, né? Ninguém quer alguém que não respeita nem os próprios pais.” Fiquei em silêncio e ela continuou. “E, mesmo sendo filho único… ele não é mimado de um jeito ruim. O Finn até riu disso, porque é o que todo mundo espera, ainda mais com a família dele. Ele parece bem pé no chão.” Ela respirou fundo, mais leve como se fosse contar a maior descoberta de todas. “E, bom… ele não disse que ele é bonito, mas falou que é ‘arrumadinho’. E vindo do Finn, você sabe o que isso significa… que ele definitivamente não é feio.” Annie soltou um riso baixo.

“Annie...”

“E eles estudaram juntos por um tempo… não tanto quanto a gente, mas mantiveram contato, se viam às vezes durante a faculdade….” A voz dela suavizou um pouco mais. “Eu sei que você não queria isso… mas, pelo que eu ouvi, ele não parece ser alguém ruim, Katniss. Pelo contrário seu avô achou um bom partido pra você.”

“Eu não quero um bom partido, não quero me casar com ele, Annie”, acabei estourando, não me importava com aquela lista do que ela considerava qualidades. “Eu não o conheço e não tenho motivos para isso. Eu só queria que meu avô entendesse que eu não sou uma mercadoria à venda, que ele pode lucrar me casando com alguém que eu não conheço e com quem provavelmente serei infeliz. Não se pode ser feliz em um casamento desses. Planejado apenas para aumentar os lucros dos negócios da família. Quem hoje em dia ainda se casa assim?”

Eu estava cansada, exausta, e disse tudo o que estava entalado na minha garganta sem pensar. Mas bastou o olhar dela para eu me arrepender. Para me dar conta do que tinha dito em voz alta.’

“Eu não sou infeliz, Katniss”, ela disse, com a voz firme, mas nitidamente magoada.

Annie tinha a minha idade e havia se casado há alguns meses com Finnick , devido a um acordo feito pelas famílias. Mas, diferente de mim, gostou da ideia. Ela foi criada para aceitar aquilo. Os pais dela haviam se casado daquela forma e os avós também. Dessa forma quando completou dezoito anos, os planos da família pareceram normais e ela se jogou de cabeça na relação, e após um breve noivado o casamento foi inevitável.

“Annie...”

“E eu também não sou uma mercadoria. Meu pai quis o melhor para mim, e Finn é o melhor para mim. Eu não o conhecia, mas faz parte de qualquer relacionamento conhecer o outro. Nós não trocamos olhares na multidão e nos apaixonamos como nos filmes, mas eu me permite conhece-lo, permiti deixá-lo entrar na minha vida. Ele é bom para mim, ele me faz feliz e me respeita, e o mais importante a gente se ama.”

“Me desculpa. Eu não quis dizer isso.”

“Não, você quis. E quer saber? Se você prefere ficar lamentando as escolhas do seu avô, dizendo que tudo é antiquado, em vez de dar uma chance a um homem que pode te fazer feliz… não há nada que eu possa fazer. Mas ser feliz ou não também é uma escolha sua. Assim como você pode muito bem negar esse casamento, até porque acordos matrimoniais não são escritos na pedra.”

Observei Annie seguir seu caminho. Eu não queria magoa-la, mas era impossível ignorar o quanto pensávamos diferente sobre casamento.

Entrei no carro e Seneca seguiu direto para casa. Mesmo sem ânimo algum, precisei ajudar Mags a planejar o jantar do dia seguinte. Como se soubesse que eu não estava nada animada para decidir pratos, arranjos, toalhas ou louças, Mags tomou todas as decisões sozinha e eu não me opus a nenhuma delas.

Eu confiava nela de olhos fechados. Mags era mais do que a governanta ela era a figura materna mais próxima que tive nos últimos anos, além de ter praticamente criado minha mãe desde o dia que ela nasceu, já que foi esse também o dia que minha avó faleceu.

No fim da tarde, acompanhei Mags até o mercado da cidade para comprar o que faltava para o jantar. Seneca nos levou e ficou esperando no carro enquanto caminhávamos pelas vielas estreitas entre bancas de temperos, azeitonas e cestos cheios de frutas maduras.

O mercado estava movimentado àquela hora. O cheiro de pão recém-assado se misturava ao das ervas secas penduradas perto do balcão de queijos, enquanto algumas senhoras conversavam alto perto das caixas de tomate.

Mags escolhia tudo com calma, apertando berinjelas, analisando figos e reclamando baixinho do preço do azeite novo daquela safra. Eu apenas a seguia, distraída demais para realmente prestar atenção em qualquer coisa ao redor…

Até me assustar quando senti um corpo trombar no meu e uma mão segurar meu braço antes que eu perdesse o equilíbrio.

“Me desculpe, senhorita.” A voz de Gale fez meu coração acelerar imediatamente.

Levantei o olhar e encontrei os olhos dele por apenas alguns segundos, mas foi o suficiente para sentir o ar prender nos meus pulmões.

“Não foi nada”, consegui responder. Só então percebi que Mags estava a poucos centímetros de distância, concentrada em comparar cebolas com a atenção de quem escolhia algo muito mais importante do que legumes.

“Eu preciso falar com você”, Gale murmurou, movendo os lábios quase sem emitir som, antes de seguir pelas barracas em direção a uma rua menos movimentada.

Fiquei dividida.

Havíamos terminado na noite anterior, e aquilo era arriscado demais.

Observei Mags atentamente. Ela continuava analisando os ingredientes do jantar com a calma de sempre, completamente alheia ao caos dentro da minha cabeça.

Então tomei minha decisão.

“Mags, vou procurar os temperos que você precisa.”

Ela concordou com um pequeno aceno, sem sequer olhar na minha direção.

Segui pelo caminho que Gale havia feito minutos antes e o avistei à distância. Assim que percebeu que eu vinha atrás dele, saiu em direção a uma rua onde as pessoas geralmente estacionavam para ir ao mercado.

O sol começava a baixar entre os prédios baixos da cidade, tingindo as paredes claras das lojas com tons dourados.

Gale entrou em um carro antigo, azul desbotado pelo tempo, que um dia tinha pertencido ao pai dele.

Olhei ao redor antes de entrar rapidamente no banco do passageiro.

“O que você quer, Gale?” Ele virou o rosto imediatamente na minha direção.

“Falar com você.” A tensão na voz dele era evidente. “O que foi aquilo ontem à noite?” Mantive o olhar fixo na janela atrás dele.

“Achei que tivesse sido clara. Foi um término.” Ele soltou uma respiração curta, desacreditada.

“Um término? Sério, Katniss?” Passou a mão pelos cabelos, frustrado. “Você não pode terminar comigo assim.”

“Posso, sim. E terminei. Agora preciso voltar antes que Mags perceba alguma coisa.”

“Katniss, não é assim.” Gale passou a mão pelo rosto, claramente cansado. “Você está nervosa. Nós dois estamos. Tem muita coisa acontecendo agora.” Ele respirou fundo antes de continuar. “Eu amo você. Quero ficar com você.”

Balancei a cabeça devagar.

“Não, você não entende.” Minha voz saiu mais baixa do que eu esperava. “Se me amasse de verdade, fugiria comigo sem hesitar. Eu não posso ficar aqui. Não posso me casar com você e abandonar Prim ou minha mãe.” Ele permaneceu em silêncio por alguns segundos, me observando com atenção.

Pelo olhar cansado, percebi que eu não tinha sido a única pessoa daquela cidade a atravessar a madrugada sem conseguir dormir.

Do lado de fora do carro, o vento balançava as folhas das oliveiras plantadas perto do estacionamento, espalhando o cheiro seco das filhas no ar.

“Eu fujo com você.” As palavras vieram finalmente.

Mesmo que a expressão dele não demonstrasse exatamente felicidade.

E eu entendia o motivo.

“Sério?” perguntei, sentindo o peito se encher de algo que já não experimentava fazia dias. Alívio. Esperança. “Você está falando sério?”

Gale assentiu devagar.

“Sério.” Segurou minha mão entre as dele. “Eu amo você. Se quiser ir embora, nós vamos.” Ele desviou o olhar por um instante, como se organizasse os próprios pensamentos. “Vou conversar com a minha mãe. A gente encontra algum lugar seguro fora daqui.” Então hesitou. “Mas você sabe que levar a Prim sem autorização é ilegal, não sabe?”

Pela primeira vez desde a conversa com meu avô, sorri de verdade.

Não me importava com a lei.

Desde que não nos encontrassem, aquilo bastava.

“Qual é o plano?” ele perguntou. Respirei fundo antes de responder.

“Sábado. Pegamos o último ônibus para Tessalônica, mas descemos antes, em Larissa.” Falei rápido, como se tivesse repetido aquilo dezenas de vezes na cabeça. “Acho que vamos chegar lá antes de perceberem que fomos embora. Isso nos dá alguma vantagem, e a cidade é perto suficiente para não desconfiarem de lá de cara.” Gale assentiu em silêncio, atento. “Depois seguimos para o litoral.” Senti um pequeno sorriso surgir. “Prim sempre quis conhecer o mar.”

Ele concordou novamente, mas eu conhecia Gale o suficiente para perceber que já fazia contas mentalmente, calculando dinheiro e as possibilidades. Sempre mais prático do que eu. “ Uma vila de pescadores talvez, vou conseguir um emprego eu juro. Vamos conseguir.”

“Vamos sim.”

“Encontro você na rodoviária às onze e meia no sábado”, falei.

“Onze e meia.” Ele apertou minha mão de leve. “Vou estar lá.” Inclinei o corpo na direção dele e beijei seus lábios rapidamente.

Mesmo com o estacionamento quase vazio, eu não queria arriscar.

“Preciso voltar.”

“Katniss…” A voz dele saiu mais baixa. “Nós vamos ficar bem.” Fechei os olhos por um segundo, querendo acreditar naquilo com todas as minhas forças.

“Vamos ser felizes”, sussurrei. “Eu sei que vamos.” Então sorri de leve. “Até sábado.”

“Até sábado.”

Saí rapidamente do carro e voltei para o movimento do mercado.

Encontrei Mags perto das bancas de queijo e azeitonas, falando sobre a qualidade dos produtos com o dono enquanto segurava um ramo de orégano fresco nas mãos.

“Onde você foi parar?” perguntou distraidamente assim que me aproximei. “Ainda preciso dos temperos. E você desapareceu.”

“Me distraí olhando outras coisas”, respondi rápido demais.

Mags lançou um olhar breve na minha direção antes de voltar a atenção para a banca.

“O que vai fazer sem mim em breve, hein?” comentou com naturalidade enquanto pegava pequenos pacotes de ervas secas. “Nem os temperos consegue lembrar.”

Meu peito apertou por um instante.

Ela não fazia ideia do peso que aquelas palavras tinham.

Soltei o ar devagar, agradecendo internamente por ela não desconfiar de nada.

Naquela noite, pela primeira vez em semanas, consegui dormir.

Na sexta-feira, acordei estranhamente leve.

Aquela noite seria apenas mais um jantar teatral em que fingiríamos ser uma família perfeita. Bastava não irritar meu avô. Não demonstrar nervosismo. Não dar motivos para desconfiança.

Em menos de quarenta e oito horas, eu estaria longe dali com Prim e Gale.

Quando desci as escadas, a casa inteira já estava em movimento.

Empregados cruzavam os corredores carregando bandejas de prata, toalhas de linho e vasos com flores brancas recém-colhidas enquanto Mags coordenava tudo com aquela firmeza silenciosa que parecia manter a casa inteira funcionando.

Tomei café na cozinha mesmo, sentada perto da janela, porque a sala de jantar estava sendo preparada para a noite.

Pela janela, eu conseguia ouvir o som distante dos sinos da igreja da cidade misturado ao barulho das cigarras no jardim.

Prim parecia encantada com toda a movimentação.

Observava os preparativos como se fosse uma grande celebração, ajudando Mags a dobrar guardanapos enquanto fazia perguntas demais e roubava pedaços de queijo da cozinha sempre que achava que ninguém estava olhando.

Agradeci mentalmente por ela estar feliz.

Eu sabia organizar um jantar perfeitamente.

Anos de aulas de etiqueta tinham me ensinado exatamente como uma anfitriã deveria agir. Como servir vinho. Como sorrir na medida certa. Como conduzir conversas sem nunca parecer entediada.

Mas nunca tive interesse genuíno por nada daquilo.

Muito menos agora, quando tudo parecia existir apenas para impressionar um homem que provavelmente me enxergava como parte de um acordo entre famílias.

Na faculdade, tudo pareceu normal demais.

E isso me doeu mais do que deveria.

Não consegui evitar pensar que talvez nunca terminasse aquele curso.

Depois da fuga, provavelmente precisaria aceitar qualquer trabalho que aparecesse para ajudar Gale nas despesas.

Ainda assim, nada me atingiu tanto quanto perceber que Annie sequer olhou para mim naquele dia.

Eu a tinha magoado.

E sabia disso.

Mas nossas realidades eram diferentes demais.

Eu não conseguia compreender como alguém podia aceitar um casamento que parecia uma negociação entre famílias.

Ao mesmo tempo, uma parte de mim queria desesperadamente que Annie me entendesse.

Mesmo sabendo que, para ela, aquilo nunca pareceu uma prisão.

O casamento dos pais dela tinha dado certo.

O dos avós também.

Por gerações, os Cresta construíram a vida através de alianças cuidadosamente escolhidas, sobrenomes importantes e promessas feitas muito antes do amor existir.

Talvez por isso Annie enxergasse tudo de forma tão diferente.

Assim que as aulas terminaram, encontrei Seneca me esperando do lado de fora da universidade para me levar até o salão onde meu horário já estava marcado.

Passei o restante da tarde entre hidratações, corte de cabelo, escova, maquiagem e as últimas fofocas da cidade.

O salão ficava perto da praça principal, em uma rua estreita cheia de varandas floridas e pequenos cafés onde senhores passavam horas jogando tavli e discutindo política como se o destino da Grécia dependesse deles.

Por mais que eu detestasse o jeito exageradamente fútil das mulheres dali, não consegui evitar algumas risadas enquanto escutava comentários sobre casamentos, vizinhos e escândalos que provavelmente deixariam de importar em menos de uma semana.

Prim também foi levada até lá.

E, como sempre, ficou encantada com toda a atenção.

Quando terminaram o cabelo dela, minha irmã praticamente brilhava de felicidade diante do espelho.

No horário previsto, estávamos prontas.

Como eu já esperava, Seneca trouxe nossas joias a pedido do meu avô para que escolhêssemos o que usar naquela noite.

Prim decidiu rápido.

Escolheu um colar delicado e brincos discretos, simples o suficiente para combinar com ela.

Eu, por outro lado, observei tudo com atenção.

Precisava escolher algo valioso, mas não chamativo demais. Algo que pudesse vender depois sem despertar suspeitas imediatas no meu avô.

Meus dedos passaram lentamente pelas caixas de veludo até encontrar uma pulseira fina de ouro antigo e um par de brincos pequenos com diamantes.

Discretos.

Mas valiosos o suficiente.

“Você está linda, Katniss.” Prim sorriu para mim através do reflexo do espelho. “Tenho certeza de que ele vai se apaixonar no instante em que te ver.”

Tentei sorrir de volta.

“E eu sei que ele é uma boa pessoa”, continuou com a inocência tranquila de quem realmente acreditava naquilo. “Vovô nunca aceitaria esse casamento se ele não fosse.”

Meu peito apertou.

Assim como Annie, Prim também tinha crescido cercada por aquele tipo de pensamento.

E, embora eu odiasse admitir, nunca tive coragem de mostrar a ela o quanto aquilo me assustava.

Nunca consegui impedir meu avô de transformar controle em cuidado diante dela.

Lavinia apareceu pouco depois para nos avisar que os convidados estavam chegando.

Assim que alcançamos o corredor principal, ouvi o som distante da campainha ecoando pela casa.

Respirei fundo antes de continuar andando.

Caminhei devagar, como uma dama deveria fazer.

Embora, por dentro, eu não me sentisse uma.

Me sentia apenas uma impostora vestida para representar um papel que nunca escolhi.

Antes de descer, parei discretamente perto da escada e olhei em direção ao hall de entrada.

Vi primeiro o casal.

A mulher loira estava de braços dados com o que acreditei ser o marido e parecia elegante de um jeito natural, como aquelas pessoas que parecem ter nascido sabendo exatamente como sorrir, falar e ocupar um ambiente.

O homem ao lado dela tinha uma postura séria, embora aparentasse certo cansaço por trás da cordialidade educada.

Então eu o vi.

Alguns passos atrás dos dois.

Meu olhar foi direto para o terno preto impecável, perfeitamente ajustado ao corpo. Tudo nele parecia preciso demais. A postura reta. Os ombros alinhados. A mão parcialmente escondida no bolso como se até aquele gesto tivesse sido ensaiado antes.

Os cabelos loiros estavam arrumados com cuidado excessivo.

Foi então que ele ergueu o olhar na minha direção.

Como se já soubesse exatamente onde eu estava.

Senti meu corpo inteiro ficar alerta.

Esperei que ele desviasse os olhos ao encontrar os meus.

Mas ele não desviou, o tipo de olhar que parecia observar muito mais do que deveria.

Não havia surpresa ali. Nem curiosidade exagerada pela mulher que ele deveria conhecer naquela noite.

Havia calma.

Uma calma controlada que me incomodou imediatamente.

Porque homens como ele sempre me deixavam desconfortável.

Homens educados demais. Perfeitamente treinados para entrar em qualquer ambiente e parecer pertencer a ele.

Provavelmente mais um filho de família importante acostumado a conseguir exatamente o que queria.

Exatamente o tipo de homem que meu avô escolheria.

E aquilo, sozinho, já bastava para me fazer querer manter distância.

Ainda assim, o olhar permaneceu firme no meu por tempo suficiente para que eu sentisse um aperto estranho no estômago.

Como se ele estivesse tentando entender alguma coisa.

A sensação foi tão absurda que quase desviei o olhar primeiro.

Engoli em seco.

Então ele inclinou levemente a cabeça.

Um gesto pequeno.

Educado.

Discreto o suficiente para passar despercebido por qualquer outra pessoa.

Mas chamou a minha atenção imediatamente.

Porque não pareceu formalidade.

Pareceu confirmação.

E então aconteceu.

Lento.

Quase contido.

Os lábios dele se curvaram em um sorriso breve.

Não arrogante.

Não convencido.

Pior.

Seguro.

Como se aquela noite já tivesse começado exatamente do jeito que ele esperava.

E, sem entender o motivo, senti um arrepio subir lentamente pela minha nuca quando Peeta Mellark sorriu para mim.

Notas finais
E ele chegou... e eu estou cada vez mais ansiosa para escrever os próximos momentos com ele. Espero que tenham gostado do capítulo. Muito obrigada a todos que estão acompanhando. Comentem o que estão achando. Adoro os comentários. Tenham uma ótima semana. Beijos!