Moira
11 O Fio Entre Nós (Parte 1)
Notas iniciais
Quando Peeta falou sobre a inauguração do restaurante, me animei por alguns minutos, mas não dei atenção demais àquilo. Na minha cabeça, a possibilidade daquela viagem realmente acontecer era praticamente nula. Meu avô nunca permitiria que eu viajasse com ele antes do casamento. Na maioria das vezes mal conseguíamos ficar sozinhos por muito tempo. Sempre existia alguém por perto, era como se, de alguma forma, meu avô tivesse medo de que tempo demais ao lado de Peeta acabasse criando perguntas que eu não saberia responder. Então não esperava que a conversa sobre a viagem fosse além daquela caminhada em Servia.
Mas, para minha surpresa, na sexta-feira de manhã eu não estava indo para a faculdade. Estava dentro do carro do loiro seguindo para Kozani. A viagem durou pouco mais de uma hora pelas estradas cercadas por colinas enquanto Prim praticamente vibrava no banco de trás desde o instante em que descobriu que viajaríamos de avião.
Ainda não faço ideia de como Peeta convenceu meu avô, talvez ele realmente fosse absurdamente persuasivo. Talvez meu avô estivesse tão desesperado para garantir aquele casamento que aceitasse qualquer coisa vinda dele. Ou talvez existisse dinheiro envolvido. Honestamente, nenhuma das opções parecia impossível, mas acabei decidindo não pensar muito sobre aquilo quando vi Prim praticamente eufórica no pequeno aeroporto de Kozani. Seria a primeira vez dela em um avião.
Na verdade, minha também.
O terminal era pequeno comparado às imagens grandiosas que eu costumava ver na televisão, mesmo assim tudo parecia movimentado demais. Pessoas caminhando apressadas, anúncios ecoando pelos alto-falantes e Prim olhava tudo como se tivesse acabado de entrar em outro mundo. Mags parecia a segundos de sofrer um infarto tentando impedir que ela chegasse perto demais das enormes janelas de vidro como se fosse perigoso de alguma forma, mesmo sendo nitidamente seguro. Enquanto Effie observava a cena com calma ao lado do marido, que dormia sentado antes do embarque começar.
“Ele sempre dorme assim?” perguntei baixo para Peeta enquanto observávamos Haymitch inclinado de maneira desconfortável na cadeira.
“Meu pai não é muito matinal.” Ele respondeu tranquilamente. “Se acorda cedo demais, dorme em qualquer lugar que puder.”
“Uma vez ele dormiu durante o café da manhã.” Effie comentou sem nem levantar os olhos do celular. “Foi sinceramente ofensivo.”
Peeta riu provavelmente lembrando da cena. Não demorou muito para sermos chamados para o embarque e pouco tempo depois já estávamos acomodados no avião. Prim insistiu em ficar na janela ao lado de Mags na fileira da frente enquanto Effie e Haymitch ficaram logo atrás de nós.
“Quer sentar na janela? A chegada em Atenas é bonita. Vale a pena ver.” Assenti tentando parecer tranquila.
Mas a verdade era que existia um desconforto estranho no meu estômago desde o instante em que entramos no avião.
Peeta percebeu, claro que percebeu. Ele apenas não comentou.
Sentou ao meu lado com naturalidade e mexeu no celular por alguns segundos antes de colocá-lo no modo avião. A decolagem foi horrível, o barulho dos motores e a velocidade aumentando rápido demais. A sensação do chão simplesmente desaparecendo.
Olhei discretamente para Peeta esperando encontrar algum sinal de preocupação. Mas ele parecia completamente calmo. Como se estar a milhares de metros do chão dentro de uma máquina de metal fosse perfeitamente aceitável.
“A descida não é assim, né?” Perguntei assim que o avião finalmente estabilizou no ar.
“Não.” A voz calma ajudou mais do que eu gostaria de admitir. “É bem mais tranquila.” Continuou. “Você quase nem sente. E dá pra aproveitar a vista.” Olhei pela janela, as nuvens pareciam próximas demais.
“Será que vai dar pra ver o mar?” Perguntei antes mesmo de pensar muito.
“Vai.” O sorriso dele aumentou levemente.
“Prim vai amar.” Acabei dizendo baixo demais. “Ela sempre quis conhecer o mar.” Peeta manteve o rosto na minha direção com atenção imediata.
“Vocês nunca viram?” Balancei a cabeça.
“Quando eu era pequena meu pai falava que um dia levaria a gente.” Dei de ombros tentando soar casual. “Mas nunca aconteceu.” A lembrança veio rápida. Meu pai falando sobre praias como se fossem lugares quase mágicos. A água azul, os barcos. Casas brancas espalhadas pelas ilhas. “Depois Prim pediu algumas vezes pro meu avô.” Continuei. “Mas ele nunca levou.”
Talvez fosse nervosismo ou talvez o fato de Peeta escutar sem interromper, mas as palavras pareciam escapar com mais facilidade do que deveriam. Porque em algum momento percebi que estava falando demais.
Sobre coisas aleatórias, sobre meu pai, sobre nunca ter saído realmente de Thalessi além da faculdade e da clínica, que ficavam nas cidades vizinhas.
E Peeta apenas ouvia.
Sem pressa, sem parecer entediado.
Como se cada detalhe realmente importasse.
Até que o avião balançou bruscamente. Foi rápido. Um solavanco forte o suficiente para fazer algumas pessoas prenderem a respiração ao redor. Meu corpo reagiu antes da minha cabeça e agarrei a mão dele imediatamente. Os dedos fechando em volta da mão dele sobre o apoio do assento. Só percebi o que tinha feito alguns segundos depois.
Olhei pra ele sem graça, pronta para me afastar, mas ao invés de parecer surpreso ou fazer qualquer comentário, ele apenas virou a mão devagar entre os meus dedos, segurando a minha de volta com calma. Como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.
“Ei.” A voz dele saiu baixa, tranquila. “Foi só turbulência.” Outro pequeno balanço atravessou o avião. Instintivamente apertei a mão dele mais forte. “Já vai passar.” Murmurou. “Não se preocupa.” O polegar deslizou pela lateral da minha mão num gesto automático, quase reconfortante demais.
Outro pequeno solavanco atravessou a cabine.
Menor dessa vez, mesmo assim continuei segurando a mão dele. E em momento algum Peeta tentou se afastar. Lá na frente Prim seguia completamente fascinada olhando pela janela enquanto apontava alguma coisa para Mags do outro lado das nuvens.
“Ela realmente gostou disso.” Peeta comentou observando minha irmã rapidamente.
“Ela gosta de qualquer coisa nova.” Murmurei e acabei sorrindo sem perceber. Talvez ainda fosse efeito do nervosismo ou talvez existisse alguma coisa fácil em conversar com Peeta. As palavras simplesmente aconteciam.
Sem aquele desconforto constante que eu esperava sentir perto dele. Mais alguns minutos passaram até que a turbulência finalmente terminou de vez. Só então percebi que ainda segurava a mão dele. E que em algum momento nossos dedos tinham se encaixado direito. Como se aquilo tivesse acontecido naturalmente durante a conversa o calor subiu imediatamente pelo meu rosto, então soltei a mão dele rápido demais.
“Desculpa.” Murmurei automaticamente, e ele virou o rosto na minha direção a expressão tranquila de sempre. “Eu não devia....”
“Ter segurado a mão do seu noivo durante uma turbulência?” Revirei os olhos tentando ignorar o constrangimento.
“Você entendeu.”
“Entendi.” O sorriso dele suavizou um pouco. “E está tudo bem.”
Continuamos conversando e quando chegou a hora do pouso, ele foi de fato tranquilo e a vista incrível. As montanhas surgiram primeiro entre as nuvens antes da cidade aparecer aos poucos, entre construções e ruas que pareciam se estender infinitamente até o mar ao fundo. Prim praticamente grudou na janela assim que percebeu a água azul aparecendo à distância.
“Aquilo é o mar?” perguntou num tom tão animado que até Mags acabou sorrindo. Peeta lançou um olhar rápido na direção dela antes de olhar para mim.
“Bem-vindas a Atenas.”
Diferente do pequeno aeroporto de onde saímos, o aeroporto de Atenas parecia enorme e muito mais movimentado. Pessoas atravessavam os corredores apressadas puxando malas enquanto anúncios ecoavam em grego e inglês pelos alto-falantes sem parar.
Luzes, lojas, painéis enormes.
Pelo que vi até mesmo o metrô tinha uma estação ali.
Tudo parecia rápido demais, caótico demais.
Seguimos pela cidade em dois carros alugados e o trânsito era, sem dúvida, pior do que qualquer coisa que eu já tinha visto. Motos surgiam entre os carros como se ignorassem completamente a existência de faixas. Buzinas ecoavam o tempo inteiro. Mesmo assim Peeta parecia acostumado com tudo aquilo.
Dirigia com tranquilidade enquanto conversava ocasionalmente com Haymitch pelo viva-voz e mudava de faixa com uma naturalidade assustadora. Além disso conhecia bem o caminho, o que não me surpreendeu muito considerando que ele tinha morado ali nos últimos anos.
Paramos para almoçar em um restaurante perto do centro antes de seguir para o hotel e quando finalmente chegamos já passava das três da tarde. Mas não tive muito tempo para prestar atenção nos detalhes do quarto que ficaria. Effie aparentemente já tinha toda a programação planejada. Incluindo horário marcado no salão do hotel. Para todas nós. O que deixou Mags claramente desconfortável assim que percebeu que incluía maquiagem, cabelo e manicure.
“Effie, eu tenho quase setenta anos.” Ela murmurou enquanto era praticamente arrastada até uma cadeira.
“E merece tratamento de rainha justamente por isso.” Effie respondeu sem permitir discussão.
Prim, obviamente, adorou tudo, principalmente o fato de existir alguém disposto a fazer tranças elaboradas no cabelo dela. Quando finalmente terminamos tivemos tempo apenas de trocar de roupa antes de seguir direto para o restaurante.
Haymitch e Peeta tinham ido na frente resolver os últimos detalhes da inauguração, mas um carro já nos esperava na entrada do hotel e, quando chegamos, os dois apareceram quase imediatamente do lado de fora para nos receber.
Haymitch foi o primeiro a se aproximar. Estendeu a mão para Effie, ajudando ela a sair do carro e então beijou rapidamente a esposa enquanto murmurava alguma coisa que não consegui ouvir direito, mas pelo sorriso satisfeito dela, provavelmente algum elogio.
Peeta ajudou Mags e Prim primeiro e só depois se virou na minha direção. A mão dele encontrou a minha com naturalidade enquanto eu saía do carro e, antes que eu pudesse me afastar, ele levou meus dedos até os lábios num gesto rápido demais.
“Você está linda.” Murmurou próximo o bastante para que só eu ouvisse.
O vestido tinha sido um presente de Effie para a inauguração. Elegante sem parecer exagerado. O tecido azul-escuro caía reto pelo corpo em uma modelagem simples, preso apenas por delicados bordados dourados nos ombros que lembravam antigos desenhos gregos. As mangas longas transparentes suavizavam o frio da noite enquanto a cintura marcada deixava tudo sofisticado de um jeito discreto. As luzes douradas do letreiro iluminavam parcialmente a fachada elegante do restaurante enquanto pessoas conversavam próximas à entrada segurando taças de vinho.
Entramos de braços dados e me surpreendi imediatamente com o que encontrei.
O Mellark’s era bonito, muito bonito. Elegante sem parecer exagerado.
As paredes em tons claros, a iluminação baixa e os detalhes em madeira escura deixavam tudo sofisticado de um jeito confortável. As grandes janelas davam vista para uma avenida movimentada enquanto música suave preenchia o ambiente sem atrapalhar as conversas.
Não pude deixar de pensar que nunca tinha visto um restaurante daquele estilo em Thalessi.
Ali tudo parecia maior, mais moderno, mais vivo.
E então lembrei de Peeta comentando certa vez que a localização próxima ao centro e aos hotéis tinha sido proposital justamente para atrair públicos diferentes. Me mantive ao lado dele praticamente o tempo inteiro enquanto caminhávamos entre as mesas recebendo convidados.
Empresários, fornecedores, clientes importantes e amigos da família.
Peeta falava com todos com uma facilidade surpreendente e sempre fazia questão de me apresentar como sua noiva. E talvez tenha sido ali que percebi o quanto ele realmente pertencia àquele lugar. Ele se comunicava bem com todo mundo.
Sempre sorrindo, sempre atento, lembrava nomes, perguntava sobre famílias e escutava de verdade quando alguém falava. Era o anfitrião perfeito, em nenhum momento pareceu nervoso, pelo contrário ele parecia confortável. Como se tivesse nascido para aquilo.
Mais tarde nos sentamos em uma das mesas próximas às janelas e precisei admitir que a comida era fantástica. Muito melhor do que eu esperava.
Peeta comentou que o chef principal trabalhava havia anos no restaurante da família em Tessalônica como sou-chef e que depois de muita insistência aceitou assumir a cozinha do novo restaurante.
“Chaff é absurdamente teimoso.” Haymitch comentou antes de beber um gole de vinho. “Então, se ele aceitou vir pra cá, significa que esse garoto infernizou a vida dele por meses.”
“Insisti mesmo porque sabia que ele estava pronto.”
Depois da sobremesa, a própria equipe chamou Chaff para o centro do salão e metade do restaurante começou a aplaudir. Pela quantidade de pessoas se aproximando para cumprimentá-lo, ficou claro que muitos convidados já o conheciam.
Haymitch anunciou que iria embora assim que parte dos convidados começou a sair, alegando que estava com sono. Effie concordou imediatamente que já estava tarde para Prim continuar acordada e Mags obviamente foi arrastada junto. Eu já estava prestes a dizer que iria também quando Peeta falou naturalmente.
“Eu levo Katniss depois, tudo bem pra você?” Assenti antes mesmo de pensar muito. “Não se preocupe.” Ele completou olhando para Mags. “Prometo entregar ela inteira no hotel.” Prim soltou uma risadinha antes de sair.
Então, sem perceber muito bem como, acabei ficando ali com Peeta até o último cliente ir embora. E honestamente... foi divertido. Assim que a porta do restaurante finalmente se fechou, uma pequena comemoração improvisada começou entre a equipe.
Nada exagerado, só o alívio coletivo de quem tinha sobrevivido a uma inauguração importante.
Uma garrafa de champanhe foi aberta na cozinha.
Taças apareceram.
Alguém aumentou a música.
E de repente o restaurante elegante parecia apenas uma casa cheia de pessoas cansadas e felizes. Aquilo talvez tenha sido o que mais me surpreendeu, a naturalidade. Os cozinheiros sentados nas bancadas, os garçons se servindo de sobremesa na cozinha, as risadas ecoando entre panelas e caixas de estoque.
E isso me permitiu experimentar outra sobremesa enquanto brindava discretamente com o restante da equipe. Peeta fez um pequeno discurso de agradecimento antes da meia-noite.
Nada ensaiado, nada formal demais. Só sincero. Fez questão de agradecer cada pessoa ali como se realmente acreditasse que o restaurante só existia por causa delas. E observando ele no meio da cozinha, conversando com todos, percebi como era difícil enxergá-lo apenas como “o chefe”.
Talvez pela pouca idade ou pela forma simples como tratava todo mundo. Os primeiros botões da camisa já estavam abertos, a gravata tinha desaparecido em algum momento da noite e ele ria facilmente enquanto ajudava alguém a carregar caixas perto do estoque.
Não parecia distante, nem arrogante. Só cansado e genuinamente feliz.
“Aqui é sempre essa loucura?” perguntei mais tarde quando ele estacionou o carro em frente ao hotel depois de passarmos por diversas ruas ainda cheias mesmo perto das duas da manhã.
Luzes coloridas iluminavam bares, tavernas e cafeterias ainda cheios enquanto grupos de pessoas caminhavam pelas calçadas apesar do frio de dezembro. Peeta soltou uma risada antes de desligar o carro.
“Na verdade isso aqui está calmo.” Comentou olhando a avenida movimentada. “Estamos em baixa temporada. O movimento de verdade acontece no verão.” Aquilo me fez olhar novamente para fora. Se aquilo era calmo, eu honestamente não queria imaginar como Atenas ficava em julho. “Mas essa região é conhecida pela vida noturna.” Continuou enquanto pegava a chave no painel. “E Atenas nunca fica completamente silenciosa. Principalmente nos fins de semana.”
“Isso parece cansativo.”
“Às vezes é.” Admitiu sorrindo de leve. “Mas eu gosto.” Deu de ombros antes de abrir a porta. “Nem sempre. Mas às vezes dá energia.” Saí do carro observando as luzes espalhadas pelas avenidas. Tão diferente de Thalessi. Naquela hora, durante o inverno, toda cidade já estaria dormindo. “Amanhã levo vocês pra conhecer um pouco daqui.” Continuou enquanto atravessávamos a entrada iluminada do hotel. “Tem bastante lugar legal.”
Seguimos para o saguão quase vazio enquanto um funcionário organizava algumas malas próximas da recepção. Peeta parou por alguns instantes para conversar rapidamente com o gerente. Os dois pareciam se conhecer bem demais para aquilo ser apenas educação.
“Você já se hospedou aqui?” Perguntei enquanto esperávamos o elevador, ele soltou uma risada cansada.
“Eu praticamente morei aqui durante parte do verão.” Explicou. “A inauguração atrasou algumas vezes e quando começamos o projeto eu ainda estava no estágio.” Passou a mão pela nuca. “Foi um período meio caótico.” As portas do elevador se abriram, entramos sozinhos.
“Mas você não morava aqui?”
“Morava.” Confirmou. “Eu tinha um apartamento alugado perto da universidade.” O olhar desviou para os números do painel. “Mas quando adiamos a inauguração de junho pra dezembro e tinha planos de voltar a Thalessi em parte desse tempo não fazia sentido renovar o contrato.” Sorriu de lado. “Então entreguei o apartamento e isso aqui virou meio que meu refúgio enquanto eu resolvia as coisas.”
Aquilo me surpreendeu mais do que deveria, eu nunca tinha pensado muito sobre como aqueles últimos meses tinham sido pra ele. O restaurante parecia algo tão naturalmente ligado a ele que era fácil esquecer que Peeta também estava tentando provar alguma coisa ali.
“Se importa se eu te mostrar um lugar?” Olhei pra ele, aquela provavelmente era a primeira vez que ficávamos realmente sozinhos por tanto tempo. Mesmo assim assenti.
Então ele apertou o botão do vigésimo andar ao invés do décimo segundo onde todos estavam hospedados. Quando o elevador parou, Peeta me conduziu silenciosamente até a porta das escadas.
Subimos mais dois lances antes dele empurrar uma pesada porta corta-fogo. O vento frio atingiu meu rosto imediatamente. Demorei alguns segundos para perceber onde estávamos.
O terraço do hotel, era amplo e quase vazio. Havia alguns bancos de madeira espalhados perto das laterais e pequenos jardins simples e mal iluminados, como se quase ninguém realmente subisse ali.
Mas foi a vista que me fez parar, a cidade inteira se espalhava diante de nós iluminada em dourado e branco.
Avenidas movimentadas, prédios, faróis cortando as ruas mesmo naquele horário. Mais ao longe as luzes começavam a diminuir perto das colinas escuras que cercavam parte da cidade. E então eu vi.
A Acrópole.
Iluminada no alto da colina como algo antigo demais para parecer completamente real, as luzes douradas destacavam as colunas claras do Parthenon contra o céu escuro enquanto toda a cidade parecia existir ao redor dela.
Era magnífica.
Silenciosa.
Imponente.
“É lindo.” Murmurei sem conseguir evitar, e ele sorriu discretamente.
“Imaginei que gostaria.” A voz saiu mais baixa dessa vez. “Eu gosto de vir aqui.” Ele caminhou até perto da grade de proteção, mas esperou alguns segundos antes de voltar a falar, como se me desse tempo para realmente apreciar a vista. Só então apontou para alguns pontos da cidade. “Ali é Pláka.” Explicou. “Cheio de restaurantes, tavernas, cafés... fica lotado no verão.” Depois apontou um pouco mais à esquerda. “Monastiraki fica naquela direção. E mais pra lá começam os bairros com os bares e clubes.” Observei tudo tentando organizar mentalmente aquela cidade enorme vista de cima. O vento atravessava o terraço com força suficiente para balançar as mechas soltas do meu cabelo. “Eu vinha aqui quase todas as noites.” Continuou mais baixo dessa vez. “Principalmente quando parecia que alguma coisa no restaurante ia dar errado.”
Olhei pra ele por um instante. Era estranho imaginar Peeta inseguro sobre qualquer coisa. Ele parecia confortável demais no próprio mundo, como se sempre soubesse exatamente o que fazer.
Ele acabou se sentando em um dos bancos de madeira próximos da grade e fiz o mesmo ao lado dele. O vento ali em cima era muito mais frio do que nas ruas. Durante toda a noite estivemos em ambientes aquecidos e agora a temperatura atravessava facilmente o tecido fino do meu vestido. Sem dizer nada, Peeta tirou o próprio terno e colocou sobre meus ombros.
“Você vai ficar com frio.” Comentei.
“Eu sobrevivo.” Acabei ajeitando o tecido ao redor do corpo, o terno ainda estava quente e tinha o cheiro suave do perfume dele. Por alguns minutos ficamos apenas observando a cidade em silêncio.
“Então...” Olhei pra ele. “Essa inauguração saiu exatamente como você queria?” Peeta demorou alguns segundos antes de responder.
“Melhor.”
“Não que eu entenda muito disso...” Murmurei observando as luzes espalhadas pela cidade lá embaixo. “Mas acho que você fez um bom trabalho.” Olhei novamente pra ele antes de continuar. “O restaurante é provavelmente o mais bonito que eu já vi. E tudo estava ótimo.” Ele sorriu de leve.
“Obrigado.” Agradeceu sincero. “Mas grande parte do mérito é da equipe. Eles foram incríveis.” O olhar dele desviou para a cidade iluminada. “São muito talentosos. Não só aqui, mas em todas as filiais do Mellark’s, não conseguiria nada sem eles.”
Aquilo me surpreendeu mais do que deveria. Ali longe do restaurante, sem convidados ou funcionários por perto, ficou claro que o discurso dele mais cedo não tinha sido apenas educação. Peeta realmente parecia grato por cada pessoa que trabalhava com ele.
“Agora é esperar pra ver a opinião do público.” Comentou com um pequeno sorriso cansado.
“Vai ser positiva.” Respondi sem pensar muito. “Acredite.” Ele virou o rosto na minha direção outra vez.
“Obrigado por estar comigo hoje.” Disse mais baixo dessa vez. “Foi importante pra mim.” O vento atravessou o terraço outra vez antes dele continuar. “Muita gente em Thalessi acha minha mãe excêntrica.” Comentou divertido. “O que... honestamente... não deixa de ser verdade.” Acabei sorrindo de leve. “Ela é uma socialite extremamente dramática, orgulhosa e ligada às duas culturas da família e completamente incapaz de fazer qualquer coisa de forma discreta.” O sorriso dele aumentou um pouco. “Mas ela tem um coração enorme.” A forma como falou aquilo tornou impossível não perceber o carinho na voz dele. “Muita gente fala coisas horríveis sobre o casamento dos meus pais.” Continuou depois de alguns segundos. “Sobre a diferença de idade, sobre como ela apareceu do nada na vida dele...” Ele deu um pequeno sorriso sem humor. “Como se eles soubessem alguma coisa.”
Fiquei em silêncio ouvindo.
Nas últimas semanas eu também tinha ouvido comentários.
Sobre Effie.
Sobre Haymitch.
Sobre dinheiro e interesse.
E até boatos cruéis questionando se Peeta realmente era filho dele.
“As pessoas falam demais.” Murmurei, e ele assentiu devagar.
“Meu pai não estaria aqui sem ela.” Disse olhando novamente a cidade. “Quem vê de fora talvez não entenda, mas eles construíram muita coisa juntos. Meu pai começou a prosperar sozinho, mas desde que minha mãe entrou na vida dele, eles cresceram juntos.” Soltou uma respiração baixa antes de sorrir de leve. “Eles são parceiros há mais de trinta anos.” O silêncio se instalou por alguns segundos. Então Peeta voltou o olhar pra mim. “Eu não quero ser só o herdeiro do Haymitch Abernathy Mellark.” A voz saiu mais séria dessa vez. “Não quero viver na sombra do que ele construiu.” Passou a mão pelos cabelos antes de continuar. “E também não quero estragar aquilo que meus pais levaram a vida inteira pra construir.” Observei ele em silêncio. “Eu quero merecer tudo isso.” Continuou. “Quero fazer minha parte. Quero que meu pai tenha orgulho de mim.” Sorriu de lado rapidamente. “Não que ele não tenha. Não é isso.” O olhar encontrou o meu outra vez. “Só quero contribuir.” O vento frio atravessou o terraço enquanto ele sustentava o olhar de um jeito absurdamente calmo. “E eu gostaria muito de ter você ao meu lado nisso.”
Meu coração apertou de uma forma desconfortável, porque existia sinceridade demais nele naquele momento.
“Peeta...”
“Eu não sei o que você espera dessa união.” Continuou mais baixo. “E você não precisa me contar se não quiser.” Fez uma pequena pausa. “Mas eu quero que acima de tudo a gente seja parceiro.” As luzes douradas da cidade refletiam discretamente nos olhos azuis dele enquanto ele falava. “Eu não me importo com o que as pessoas digam sobre nós.” Disse com calma. “Contanto que a nossa realidade seja clara. Contanto que a gente possa contar um com o outro.” Engoli em seco antes da pergunta escapar quase sem querer.
“E se você se apaixonar por alguém?” Ele não pareceu surpreso nem incomodado. “Quer dizer...” Continuei mais baixo. “O nosso casamento não é exatamente convencional. Pelo que eu sei, sua família normalmente não faz esse tipo de acordo.” Peeta me observou por alguns segundos antes de responder.
“Eu não acho que isso vá acontecer.” Disse simplesmente. “Sou um homem comprometido.” O tom permaneceu tranquilo. “E vou agir como tal.” Depois sorriu de leve. “Mas eu prometo ser sincero com você.” O silêncio voltou por alguns instantes. “A verdade é que isso não começou com a gente.” Continuou. “Mas somos nós que vamos fazer dar certo.” Meu peito apertou ainda mais. “E eu prometo fazer o meu melhor pra que a gente seja feliz.” A voz dele saiu baixa. “Mas agora... com tudo tão perto...” Hesitou por um instante. “Eu preciso saber se isso é o que você quer também.” O vento atravessou o ar lentamente. “Tudo aconteceu rápido.” Continuou olhando diretamente pra mim. “E no fundo eu sei que vamos nos conhecer de verdade só depois do casamento.” Um sorriso pequeno surgiu no canto da boca dele. “Mas é isso que você quer, Katniss?”
Sentados lado a lado naquele terraço, com Atenas inteira iluminada diante de nós, consegui enxergar sinceridade demais nos olhos dele. Peeta era muito mais do que imaginei durante todos aqueles anos em que sequer me importei o suficiente pra saber o nome dele.
E ele merecia muito mais do que aquilo.
Mais do que alguém com o coração em pedaços.
Mais do que uma noiva obrigada a estar ali.
Por um instante tive vontade de contar tudo.
Falar sobre Gale.
Sobre meu avô.
Sobre o quanto aquele casamento nunca tinha sido uma escolha minha. Dizer que ele merecia alguém melhor, mas eu não podia. Porque para manter Prim perto de mim aquele casamento precisava acontecer.
“Sim.” Minha voz saiu baixa e mesmo querendo desviar o olhar, não consegui.
Estávamos perto, muito perto, Peeta ergueu a mão devagar até tocar meu rosto, os dedos deslizando cuidadosamente pela minha pele como se esperasse que eu pudesse me afastar a qualquer instante, mas eu não me afastei.
E acho que ele percebeu isso, porque no segundo seguinte diminuiu ainda mais a distância entre nós. Consegui sentir a respiração dele antes dos lábios finalmente tocarem os meus.
Delicado primeiro.
Quase hesitante.
Um beijo leve, como se ele ainda estivesse me dando a chance de parar aquilo, mas eu não parei. E quando correspondi, senti o beijo se aprofundar só um pouco mais.
Calmo.
Quente.
Meu coração acelerou de forma completamente involuntária enquanto os dedos dele continuavam acariciando meu rosto lentamente. A sensação de estar ali com ele era... agradável.
Peeta se afastou devagar alguns instantes depois, deixando pequenos selinhos antes de encostar a testa na minha por um breve segundo. E só então sorriu.
E naquele momento decidi que, mesmo que nunca amasse Peeta da forma como amava Gale, eu faria o possível para aquele casamento dar certo.
Porque ele merecia isso.
E talvez, eu pudesse aprender a ser alguém capaz de estar verdadeiramente ao lado dele.

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