Mochileiro do Apocalipse

1 Capítulo 1. - Depois da tempestade


Já faz alguns meses desde que chegamos a Centralia e ainda assim não consegui me acostumar com meu novo serviço. Centralia, uma zona segura criada, depois que os mordedores apareceram em meio ao caos e o desespero pessoas se puseram ao trabalho de cercar e criar comunidades e assim não perder o resto de humanidade que ainda temos. Centralia, Ruptura, Kants, Fordland e Jericó ás últimas cidades seguras em pé, todas habitadas, porém cada uma com suas diferenças.

Eu dividia a habitação com uma antiga amiga, do mundo antes do apocalipse, seu nome é Gabriela a única que eu encontrei depois do DIA DO LEVANTE. Um quarto de apartamento com direito a cozinha e banheiro foi dado a nos pelo governo popular dividíamos tudo que nos era dado desde roupas até a cesta básica não recebíamos muito, pois não tínhamos quase nada.

Acordei cedo aquela manhã de sábado esperando encontrar Gabriela ainda na cama, mas já havia saído á muito tempo, trabalhar com cultivo era muito exigente, não se podia parar de produzir nenhum dia do contrário iria faltar comida a população. Meu trabalho era alguns minutos depois então como ainda tinha algum tempo resolvi preparar café na cozinha e me preparar para o trabalho.

Na cozinha tínhamos alguns problemas com água encanada, mas tínhamos uma bela vista que era acima dos muros mostrando a aglomeração de mortos vivo que a cada dia era cada vez mais crescente. E meu amigo... Quanto mais gente mais atenção deles nós chamamos por isso sempre esteve na minha cabeça à importância de manter sempre grupos pequenos, mas se a proteção for boa o bastante pode manter o grupo sempre crescendo. A parte mais difícil de fazer o café sempre foi esquentar a água eu realmente esquecia e estragava o café e não foi diferente aquele dia, mas como era o resto da caixa de café tinha que engolir aquilo com as forças que tinha.

Depois de engolir o café frio voltei ao quarto e peguei meu casaco no armário de roupas e com mais nada a fazer decidi ir para o trabalho, chegar mais cedo talvez me rendesse alguma coisa a mais na cesta básica. Depois de pegar o casaco, e também o colocar, eu desci a escadaria do prédio e fui diretamente pela porta da frente. No meio da rua tudo se encontrava na maior tranqüilidade poucos vizinhos se encontravam nas ruas pegando seus caminhos para o trabalho o ar estava estagnado com o cheiro dos muitos cadáveres depois dos muros.

— Bom dia, Vinicius. – Disse Amélia uma vizinha do prédio ao lado.

— Bom dia, Dona Amélia. – Respondi – Como vai hoje?

— Muito bem meu filho, Obrigada. – Respondeu Dona Amélia.

— Vou indo agora Dona Amélia o trabalho chama. – Disse para Dona Amélia enquanto me despedia.

— Até mais ver meu filho. – Despediu-se.

Dona Amélia era uma velha senhorinha de idade (já na casa dos 58 anos) perdeu o marido a pouco, logo após a minha chegada à cidade, ela era muito simpática e sempre que podia me emprestava alguns de seus filmes de aventura dos anos 80, mas toda a simpatia tinha um lado ruim. Dona Amélia cultivava algumas mudas de maconha dentro de casa que eu conseguia ver pela janela do quarto, mas por pena não denunciei ainda e provavelmente nunca iria denunciá-la, pois ela era muito legal comigo e com Gabriela.

Alguns metros andando pela calçada e eu estava já ao lado do ponto de ônibus esperando o próximo passar, provavelmente o ônibus industrial. Estava tudo calmo no ponto de ônibus tão calmo que eu cheguei a quase dormir em pé do lado da placa, mas fui acordado por outro vizinho meu que chegou ao ponto de ônibus logo depois.

— Bom dia, Vinicius. Você anda dormindo a noite? – Perguntou Emilio.

— Com os grunhidos a noite toda e seus “inferninhos” no andar de cima têm como alguém dormir? – Respondi em certo tom de sarcasmo.

— Sabe como? As meninas me adoram. – Disse Emilio com um sorriso malicioso em seu rosto. – Eu poderia arrumar uma para você também, sabe para você largar um pouco daquela menina que mora com você.

— Não. Você entendeu errado eu e a Gabriela apenas dividimos o mesmo apartamento. – Respondi.

Emilio puxou um maço de cigarros do bolso levando um cigarro até a boca e com a outra mão acendeu o cigarro com um isqueiro.

— Quer? – Disse Emilio me oferecendo um cigarro.

— Não obrigado, mas você também não devia estar fumando isso.

— Não seja careta o mundo acabou e você continua como se ainda existisse.

— Não que eu ache que o mundo vai voltar ao normal, mas os costumes não mudam com tanta facilidade assim. – Disse para Emilio que parecia não estar mais me ouvindo.

Emilio deu uma tragada funda no cigarro e soltou a fumaça logo em seguida esboçando um rosto relaxado e tranqüilo mesmo que daqui a pouco tempo tivesse que ir ao trabalho.

A conversa foi deixada no ar e ficamos naquilo por alguns minutos até que o ônibus chegou ao ponto.

— Essa e minha carona. Até depois Emilio. – Eu disse me despedindo de Emilio.

Dentro do ônibus a fumaça que fiquei cheirando por algum tempo parecia sair dos pulmões e dar espaço ao ar frio que vinha da janela. Sentei na cadeira mais próxima a janela e fiquei encarando a rua durante todo o trajeto.

...

Desci do ônibus depois de algum tempo de viagem em frente ao Distrito-4, a área de distribuição, onde eu começaria a trabalhar. O distrito ainda acordava, as grades eram destrancadas e os inúmeros trabalhadores começavam a chegar pela entrada principal fazendo muita algazarra. Fui seguindo o fluxo de pessoas cada vez mais para dentro do prédio; como uma correnteza de um rio, era difícil seguir contra a vontade da maioria até que finalmente consegui sair do meio e sentar em um banco localizado em uma das praças.

Depois da confusão me encontrei sozinho naquele pequeno espaço, perdido, quando uma voz chamou minha atenção.

— Ei, você. Por acaso você e o Vinicius Campana? – Perguntou o homem desconhecido de dentro de uma das lojas.

— Sim, sou eu mesmo. – Respondi.

— Pode chegar aqui menino. Fui informado que você será meu novo ajudante. – Disse o homem.

Fui posto para trabalhar com um cara muito estranho apesar de falar fluentemente o português brasileiro qualquer um podia perceber os seus erros na pronuncia revelando um português falado na antiga cidade de Portugal. Outra coisa muito marcante naquele sujeito era seu grande bigode branco e o fato dele ser um senhor bem parrudo quase como o Batman nas edições de Frank Miller.

Entrando na loja do velho português fui de encontro com o mesmo para cumprimentá-lo.

— Prazer, sou Vinicius... Vinicius Campana Rocha. – Me apresentei para o português.

— Prazer... Chamo-me Amaro. Amaro Valmir. – Respondeu Amaro devolvendo o aperto de mão.

O aperto de mão veio seguido da repentina chegada de um cliente a loja de roupas.

— Seu primeiro cliente. – Disse Amaro depois de largar minha mão.

Fui de encontro ao cliente que esperava na entrada da loja.

— Bom dia senhor. Quer alguma coisa? – Perguntei ao estranho.

— Estou procurando um par de botas... Se possível de número 42. – Disse o estranho.

Voltei minha atenção para Amaro que para minha surpresa já estava voltando do armazém nos fundos com uma caixa de sapatos, provavelmente com um par de botas. Apenas para conferir fui olhar dentro da caixa e dentro dela estava lá um par de botas pretas de número 42, o exato pedido do cliente.

Voltei para a porta e entreguei a caixa ao cliente o deixando ir embora sem dar nada em troca, por que afinal estávamos vivendo em uma comunidade socialista onde produzimos e distribuímos.

— Parabéns você está pegando o jeito do negócio. – Disse Amaro.

— Você fica aqui na frente da loja e eu vou ficar no armazém. Se precisar de alguma coisa e só pedir que eu pego aqui nos fundos.

— E só isso que eu tenho que fazer? – Perguntei.

— Sim. Só isso. – Respondeu Amaro.

Conformado com as instruções de Amaro. Passei para trás do balcão e me confortei na cadeira estofada e fiquei ali esperando a chegada de mais pessoas.

...

O primeiro dia passou até bem rápido; poucas pessoas foram até a loja hoje, mas mesmo assim alguns mais necessitados foram em busca de roupas e calçados. Já era quase meio-dia, o horário normal de almoço, e como já fazia um bom tempo que ninguém fora a loja Amaro decidiu fechar mais cedo aquele dia alegando que se ninguém tinha vindo até aquele momento ninguém mais viria.

Saindo do trabalho ainda na metade do dia não tinha muita coisa para fazer então fui andando sem destino por dentro do distrito procurando o que fazer até o momento em que uma loja me chamou a atenção, uma loja diferente localizada entre outras duas distribuidoras de tecido; Artigos Militares vinham escritos logo acima da entrada mesmo parecendo não ter nada ao fundo podia-se ver um rifle da segunda guerra ao fundo servindo de decoração.

Logo que entrei fui recepcionado por um homem velho; provavelmente o dono do lugar.

— Boa tarde. Procura alguma coisa especifica? – Disse o velho homem.

— Estou apenas olhando, mas obrigado. A arma ali presa na parede e de verdade? – Perguntei.

— Sim, Sim. E um velho rifle de guerra de origem Russa a Mosin-Nagat muito utilizado pelos atiradores de elite da antiga Rússia. – Disse o velho, confirmando minha dedução.

— Você... Tem mais armas aqui dentro? – Perguntei para o velho.

— Um estoque inteiro, mas só para exposição e decoração. Não se usam mais armas dentro de Centralia. – Explicou o velho.

— Poderia me mostrar algumas? Gostaria de decorar meu apartamento.

— Alguma preferência de arma? – Perguntou o velho.

— Pistolas, por favor.

Em alguns poucos instantes o senhor entrou no armazém e voltou com três caixas variadas e ás colocou sobre o balcão.

— Pode escolher. – Disse o velho com um sorriso no rosto como se ele não tivesse clientes há muito tempo.

Com a mesma felicidade do velho vendedor levei a mão a primeira caixa a minha esquerda e abri bem devagar revelando uma M1911, pistola de fabricação americana, da segunda guerra. Deixando a nostalgia de lado fechei a primeira caixa e abri a segunda que acabou revelando uma Cz75, uma pistola muito utilizada pelo exército nas suas épocas mais contemporâneas.

— Realmente uma coleção bem bonita. – Disse para o velho.

— Você também gosta? – Perguntou o velho com um sorriso no rosto. – Você também gosta de ver armas de fogo.

— Sim, me sinto bem. – Eu disse.

Enquanto a conversa seguia levei á mão a terceira caixa que guardava uma pistola Beretta M9.

— Essa e uma das minhas preferidas. Foi meu pai que me deu quando eu fui servir o exército. – Disse o velho.

Depois de olhar as três caixas eu finalmente escolhi qual delas eu levaria a M1911, por ser uma arma mais antiga, mais clássica, e representar para mim os confrontos da Segunda Guerra Mundial.

— Posso ficar com a M1911? – Perguntei para o velho.

— Pode. Afinal elas não valem mais nada para mim. Não consigo arrumar balas para nenhuma arma então estou distribuindo para decoração.

— Esse “Pedaço de história” vai ficar bem legal na minha parede.

Sem muita cerimônia peguei logo a caixa e sai de lá com tudo debaixo do braço, apenas me despedindo do senhor e indo embora para casa.

...

Notas finais
Gostaria de agradecer a quem tirou um pouco do próprio tempo para acompanhar a história e espero que estejam gostando, pois ainda existe bastante material escrito..