Moça, seu namorado é gay
3 3 – Medos que assombram, fantasmas que retornam
Notas iniciais
Isso significa que ela pode conter erros ortográficos e de concordância verbal. Se achar algum, eu agradeceria muito que anotasse no bloco de notas e mandasse para mellorine189151@gmail.com ou ainda por MP.
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3
O maior erro que você pode cometer é o de ficar o tempo todo com medo de cometer algum. (Desconhecido)
Sakura estava se aprontando para dormir quando sentiu sede e foi até a cozinha beber um copo d’água.
– Coração... – Sasuke se surpreendeu ao ver a garota perambulando pelo apartamento só de sutiã e calcinha. Seus cabelos bagunçados davam um charme peculiar a ela. Ela achou que não teria problemas, uma vez que já estavam morando juntos há muito tempo e tinha a certeza plena que era gay. Que mal tinha ver uma magricela nada atraente de roupa íntima? Mas isso era o que ela pensava. Era atraente.
– O que foi? – Perguntou sem dar muita importância.
Sasuke teria que dar um jeito na sua cara de cão excitado, se quisesse que ela não desconfiasse de nada.
– Nada não. É que a cor de sua roupa íntima é do babado! Acho que essa cor me cairia bem. Talvez devêssemos um dia fazer compras juntas... – Sua tentativa de tentar enganá-la era evidente, mas Haruno não se deu conta do seu nervosismo. Só queria voltar para a cama, teria um dia longo no dia seguinte.
Estava com tanto sono que não se deu conta, também, do ataque gayzônico de Sasuke. Ele nunca puxava a voz para um tom feminino. Segundo ele, a única coisa que ele tinha de diferente dos outros homens era o gosto sexual. Não via porque imitar mulheres na roupa e na voz. Haruno certamente pensaria que ele queria brincar com ela falando daquela forma.
— Como quiser... — Ela deu meia volta, sonolenta.
Quando Haruno, aparentemente, já estava de volta ao seu quarto, longe do que Sasuke pudesse falar, ele disse: — Será difícil conviver... Será difícil, amiguinho.
O amiguinho de Sasuke, que se encontrava no meio de suas pernas, concordou.
[...]
O céu tinha uma cor de água suja, cinza e chapada.
Junho passou, Julho passou, Agosto passou, Setembro passou, Outubro passou e Novembro também passou.
Pesadas nuvens marcavam o início do inverno do Japão. Segundo os meteorologistas, esta temporada seria mais longa do que as demais. Já se viam cidadãos de Luva, cachecol, botas longas e outros apetrechos de frio pela movimenta capital japonesa. Mães passavam de braços atados com seus filhos indo preguiçosos para o colégio. Dormir até tarde em um dia frio era sempre a melhor opção de todas. Melhor até mesmo do que livro e chocolate quente.
E Haruno não estava muito diferente.
A água quente saiu da torneira murmurejando. A pele de Haruno pinicava e ficava vermelha debaixo da água, mas não abdicaria do seu sagrado banho matinal. Passou minutos só tentando colocar os dois pés para dentro da banheira e só conseguiu com um impulso de coragem. Quando terminou, o frio voltou a tomar conta do seu corpo. Vestiu roupas quentes.
Sua primeira lembrança nítida da noite anterior foi de que havia aparecido seminua na cozinha, mas isso não importava mais. Lembrou-se apenas porque não costumava ficar tão exposta nem mesmo no vestuário, na frente das amigas. Tinha vergonha do seu corpo. O fato estava feito e era incontestável. Onde morava o problema, afinal, se ele gostava da mesma fruta?, a garota se perguntou. Ficou tranquila e sorriu para si mesma. É melhor que fosse assim mesmo.
Haruno foi até à padaria da esquina comprar pão para o café e no caminho se perdia em devaneios. Enumerou nos dedos os problemas para resolver àquele dia. Primeiro teria que encontrar uma boa faxineira, mas o dinheiro estava pouco, ainda, e talvez nenhuma aceitasse trabalhar por mixaria. De toda forma, ela cuidaria do assunto, nem que ela mesma tivesse que dar um jeito na bagunça do apartamento. Porque nada estava onde devia estar.
Havia roupas jogadas por toda a mobília (de Sasuke), canecas e copos sujos na pia da cozinha (que Sasuke usou e não lavou), pilhas e pilhas de enlatados entupindo o lixeiro (porque Sasuke não botou o lixo para fora), papéis amontoados e desordenados no sofá (também usado por Sasuke). Enfim. O apartamento espaçoso e aconchegante estava ficando pequeno para tanta bagunça. Lembrou-se que ele nunca tinha ficado assim, foi depois que Sasuke se mudou para lá que as coisas mudaram bastante. E, honestamente, isso estava passando dos limites. Vou colocar ele pra pagar a empregada, pensou ela; a não ser que ele quisesse limpar a sua bagunça, mas duvidava muito que ele fizesse isso.
Haruno pediu pães franceses. Quando voltou para casa, foi sorrateiramente em bicos de pés até o quarto ao lado do seu – não mais pintado de rosa –, colocou a mão por cima da maçaneta e forçou. Estava destrancada.
– Sasuke-kun, precisamos conversar. – Ela entrou e fechou a porta atrás de si. – O que está fazendo? – Se referiu aos papeis que estavam nas mãos de Sasuke.
Haruno encontrou Sasuke desleixado na cama e apenas de cueca box, mesmo que o tempo estivesse tão frio à ponto de pelar a pele de qualquer um. Seu cabelo estava bagunçado e conferia a ele um ar sexy, seu rosto ainda pertencia a alguém que estava dormindo.
– Tira esse computador aí de cima. Vai que isso dá câncer de pele! – Haruno repreendeu Sasuke por estar com o notebook diretamente na pele, acima do estômago. Ela também queria mandar ele colocar algumas roupas, mesmo que já estivesse acostumada à encontrá-lo assim nas manhãs de sábado. Ele pagava o aluguel em dia e pensou que não tinha o direito de dar um intimato desses, embora isso a incomodasse bastante.
Ele riu e tirou o computador de cima dele.
– Sasuke, o que está fazendo? Está muito ocupado? Precisamos ter uma conversa séria. – Ela foi sem rodeios e sua cara não estava para brincadeiras.
– Estou resolvendo um caso.
– Resolvendo ou tendo um caso com o computador?
– Por que está tão irritada comigo, Coração? O que foi que eu fiz?
– Você nasceu. – Ela virou os calcanhares para ir embora. Deixou a raiva subir a cabeça e esse não era o momento certo para falar com ele. Seria a TPM se aproximando? – Você precisa usar alguma proteção. Pode acabar pegando algum vírus, sabe?
Ela abriu a porta para ir embora, Sasuke levantou rápido da cama e a segurou pelo braço. – Olha, a Sakura-chan sabe fazer piadas... – Ele se arrependeu de ter dito o seu nome quando viu a raiva tomar forma no rosto dela. – Foi só uma brincadeira, ok? – Ele levantou as mãos espalmadas para o ar, em sinal de rendição. – Foi só uma brincadeira...
– Tome cuidado com as suas brincadeiras. – Fuzilou Sasuke com o olhar. – E é melhor dar um jeito no chiqueiro que você transformou o meu apartamento.
– Desculpe, ok? – Ele se ajoelhou no chão e agarrou as pernas de Haruno, fazendo-a cambalear. – Desculpe! Desculpe mesmo.
– Ok, ok. Mas me solte! – Ela tentou puxar as pernas. – Eu vou tropeçar, Sasuke. Me solta.
Sasuke levantou e deu um beijo na testa dela. – Olha, eu mesmo vou dar um jeito na bagunça. Não vou contratar empregada, pra você ver que eu posso ser responsável. Te juro!
– Vou estar te observando... – Ela apontou dois dedos para seus olhos e, em seguida, apontou para os de Sasuke estabelecendo um aviso de que ficaria de olho alerta nele. – O café está quase pronto e depois eu vou ao shopping. Se você terminar de arrumar o apartamento cedo, podemos ir juntos. Você disse que queria roupas da mesma cor que as minhas... – Corou. – Eu posso te ajudar.
Haruno tinha recebido o pagamento e agradeceu aos céus por poder ter uma graninha extra em suas mãos. Há séculos estava morando na rua da amargura.
– Eu disse?! – Sasuke ficou confuso, mas depois se lembrou da noite anterior. – Ah, sim! Eu disse! Claro que sim. Eu vou com você.
Haruno esperou que Sasuke lavasse a louça, colocasse o lixo para fora e guardasse as roupas e os papeis espalhados pela casa; já estava acostumada a tomar seu café da manhã junto com ele.
[...]
Na mesa da cozinha, durante o café da manhã, riram a respeito de um vídeo engraçado que era febre na internet no momento e de algumas piadas de programadores em um site destinado a pessoas da área; eles sempre tinham algo para rir e conversar juntos. Apesar das desavenças, morar juntos estava sendo uma experiência incrível para ambos.
– Então eu disse que nós iremos ganhar e então ela se sentiu mais confiante. Eu tenho que passar mais confiança para as meninas já que sou a líder. Sabe? Elas dançam esplendorosamente bem, mas se sentem intimidadas com as The Dolls. Confesso que já cheguei a passar pela mesma situação e isso não faz muito tempo, mas também não ficamos atrás, entende? Foi por isso que levamos o título no ano passado. Eu acho que temos tudo para ganhar novamente esse ano. E vamos!
Haruno explicou a Sasuke os últimos detalhes para a competição que escolheria as animadoras de torcida do time de baseball do colégio Lohan. Por razões não bem explicadas, a competição foi adiada para o final do ano, muitos meses depois desde a antiga data determinada. Haruno disse que isso tinha cheiro das The Dolls no meio, porque elas não estavam preparadas antes para uma competição. No mundo capitalista, tudo, ou quase tudo, se resolve com dinheiro e Haruno sabia disso.
Mas se por um lado as The Dolls se prepararam muito nesse tempo, o grupo que Haruno liderava também não ficou pra trás.
– Eu gosto dessa sua auto-estima quando fala de dança. Você foi feita para isso. De longe o seu sonho nunca será uma bobagem. E é legal que você corra atrás dele como vem fazendo. É assim que conseguimos o que a gente quer.
– Eu acredito no meu potencial. É por isso que sonho alto – disse sonhadora. – Eu amo o que faço. Minha mãe sempre disse que eu morreria de fome se seguisse sonhando com isso, ela sempre quis que eu fosse uma médica, mas eu morreria na primeira aula de anatomia. Odeio ver sangue também. Ela pensa que eu vim para a capital para correr atrás de seu sonho, mas a verdade é que eu estou aqui para lutar pelo meu próprio sonho.
Sasuke que a observava sem desviar, pegou uma colher de chá na mesa e mexeu o seu café com leite sem abandonar o sorriso no rosto.
– Quero te ver um dia como uma dançarina famosa.
Era engraçada a maneira como Sasuke segurava a xícara. Ele sempre dava uma “quebradinha de mão” para aparentar que tinha a classe de uma bixa afetada, mas preferia mil vezes tomar bebidas em copos grandes. Foram horas treinando o modo como devia segurar uma xícara com classe.
– Você não quer ver a coreografia que eu estou preparando? – Perguntou envergonhada.
– Eu posso?
– Pode...
Haruno tomou a xícara das mãos de Sasuke e levou ele para a sala de dança pelo braço. Ele nunca tinha ultrapassado aquela porta, porque ela sempre estava trancada à chave, que estava bem guardada nas coisas de Haruno. Quando entrou, aprovou a decoração. Era muito impecável lá dentro. Paredes pintadas de creme e vermelho, espelhos por todos os lados, iluminação forte e barra de metal em duas paredes.
Haruno o chamou com o dedo indicador para que entrasse mais e fechasse a porta. Ela se agachou até o aparelho de som que ficava no chão e deixou tocar a primeira música aleatória, porque ela se dava bem com qualquer melodia.
A música tinha letras que dizia algo como “você é meu príncipe”, “o luar se espalhava através do camarim” e de como o protagonista da letra deixava a cantante sem fôlego. Sasuke concordava. Estava ficando sem fôlego também, mas isso não se devia à letra da música ou a sua batida sensual.
Na imaginação de Haruno, o salão estourava em aplausos enquanto dançava de olhos fechados; quando ela entrou em cena, não se intimidando por mil pessoas estarem olhando boquiabertas para ela, sorriu, porque estava sempre pronta, olhando para a multidão cativada e eloquente. A plateia (Sasuke) foi ao delírio com a sua apresentação, sempre com a mesma coragem.
[...]
Haruno e Sasuke estavam sentados na praça de alimentação do shopping. O sorvete de chocolate e coco de Haruno foi se tornando mingau quando ela deixou de comer para prestar atenção nas devassas que passavam pelos dois e ficavam olhando o contraste entre eles. Ela, uma menina sem sal e sem graça (na sua própria opinião); Sasuke, lindo e charmoso. Como aquele garoto está com aquela menina, o que viu nela?, Haruno sabia que as garotas se perguntavam. Mas na verdade, elas só estavam paquerando Sasuke mesmo, que não se deixava levar para cumprir o seu bom papel de gay.
Ela sorriu imaginando a cara das meninas ao saberem que Sasuke era gay.
Na loja de roupas, seus olhos não estavam em Sakura enquanto ela ajustava seu biquíni, mas alguns conjuntos masculinos estavam; mesmo que ela se considerasse uma tábua. Olhou o seu reflexo no espelho e, como já era de costume, não gostou do que viu. Colocou um vestido de moda praia e julgou que agora o espelho estava mostrando uma imagem melhor do que a anterior. Até porque o vestido cobria as suas curvas.
Haruno só saia para comprar roupa de verão no inverno, porque as lojas estavam em liquidação, e roupas de inverno no verão, pelo mesmo motivo.
– Moça, acha que está melhor assim? – Perguntou incerta à moça que estava atendendo-a.
– Está linda! – Respondeu com um sorriso maior do que o rosto, porque mentir era a alma do negócio. Só que Haruno percebeu.
– Sou mesmo uma desgraça... – Suspirou para si quando voltou a ver o seu reflexo no espelho. – Sasuke, venha aqui. Preciso da sua ajuda!
Concluiu que a opinião do seu amigo gay seria melhor do que a opinião da vendedora e a sua própria juntas. Não sabia se era mito da sociedade, mas os homossexuais tinham um gosto apurado para as últimas tendências de moda e roupas fashionistas. E Sasuke estava sempre bem vestido, o que contava muito.
Sasuke que estava mais preocupado em trabalhar pelo seu telefone celular, se aproximou: – O que foi, Coração?
A vendedora ficou de boca aberta com o apelido de Haruno. A primeira coisa que pensou foi que Sasuke era bonito demais para ser namorado dela. E aquele jeans claro e a camisa vermelha lhe caiam tão bem! Era quase um insulto Haruno estar vestindo um jeans maior do que ela, camisa do Nirvana e uma jaqueta de couro tão velha que não lhe protegia mais do frio.
– Gostei desse vestido, mas acho que ele não fica bom em uma pessoa como... Eu. O que você acha?
– Se gostou, leve. – Deu de ombros. – A gente tem que usar aquilo que nos faz sentir bem. Ou você não vai comprar o vestido só por conta do sorriso falso dessa vendedora? – Ele apontou para ela, que estava ao seu lado, com o polegar. A mulher ficou vermelha dos pés à cabeça. – Você ficou linda, garota. Seu bumbum ficou ainda mais durinho! – Ele deu uma tapinha discreta em suas nádegas.
– Só que... – Sentiu-se corar. – Os meus seios ficaram desvalorizados... Eu não tenho peitões.
– Que história é essa de peitões? – Sasuke piscou para Haruno, que entendeu e entrou na brincadeira de “como deixar uma vendedora sem graça diante de um casal exibicionista”. Ele pegou nos peitos dela. – Seus peitos são firmes! São lindos!
– Ai, amor, não faz isso... – Gemeu. – A moça está nos vendo...
– Vo-você... – Pigarreou. – Você vai levar o vestido, moça?
– Posso pagar no cartão?
– Parcelado?
– Parcelado.
[...]
Às 16, Haruno foi ensaiar com o seu grupo no ginásio do colégio. Na volta pensou em uma ideia brilhante. Sasuke tinha ficado em casa trabalhando no computador, como havia acontecido nos três sábados anteriores, e resolveu chamá-lo para sair essa noite. Começou a chover, mas isso não impediria os dois de ir ao cinema, por exemplo. Para que serviam os guarda-chuvas?
– Ino, estou dizendo que hoje não vai dar. Estou pensando em chamar o Sasuke para sair.
As duas estavam compartilhando o mesmo guarda-chuva na volta para casa.
– O gatão que mora com você? – A amiga riu. – Estou dizendo que você anda com muito azar no amor, hein! Quando encontra um cara gato e legal... Ele é gay! E, ainda por cima, você quer chamar ele pra sair! Você só pode estar louca... Você não terá um encontro com um gato, você vai ter um encontro de amigas.
– Como é maldosa, Ino!
– Você tem que arranjar um namorado com muita urgência para preencher o vazio do seu coração. A gente ensaiou aquela música que dançava quando conheceu Naruto e você ficou toda pra baixo. Por que não passa uma borracha nisso tudo? Certamente te faria bem.
– Não é tão fácil quanto parece.
– Não é tão difícil quanto parece – Ino retrucou. – Passa aquela borracha que tem o nome “novo namorado” estampado nela. Você se ocupando com um cara que curte a mesma fruta que você não vai te ajudar em nada.
– Eu estou feliz sozinha. Eu não quero voltar a ser prepotente novamente.
– Quer dizer que não irá ao encontro de casais?
– Ino, você irá se atracar com o Gaara na primeira oportunidade, e eu vou ficar constrangida ao lado de alguém que mal conheço. Como é mesmo o nome dele? Yamamoto? Que tipo de nome é esse? Eu não quero ir. Ponto final. Posso até me relacionar com pessoas que acabam me machucando muito, no final das contas, mas não vou sair com um cara que nunca vi na vida.
– Mas...
– Boa sorte, Ino! – Haruno atravessou a rua enquanto o sinal estava fechado.
Ino, diferente de Haruno, tinha uma incrível sorte no amor, só não sabia aproveitá-la bem. Desde a última vez em que disse que estava saindo com um cara, trocou de namorado seis vezes. E eles sempre acabam ligando pra ela no dia seguinte pedindo pra voltar. Por conta disso, ela achava que poderia dar conselhos amorosos à Haruno, que estava sempre sendo a pessoa que levava o pé na bunda.
Mas não era como se isso acontecesses sempre, porque, justamente por esse motivo, é que não teve muitos relacionamentos amorosos.
De todo modo, Ino não gostava de ver sua amiga tão só.
Já era o terceiro encontro de casais armado propositalmente por ela e o terceiro rejeitado. A desculpa era sempre a mesma, mas na cabeça de Ino, Haruno ainda estava apaixonada por Naruto, e talvez ainda estivesse mesmo. Só ela poderia dizer isso.
Como ironia do destino, Haruno encontrou o demônio quando apertou o botão do elevador e esperou que ele se abrisse.
– Hey, Sakura! – Aquele sim não tinha medo de chamá-la pelo nome. Fazia isso para irritar.
Estavam no estacionamento do prédio. Lá tinha armários para guardar as roupas de chuva dos moradores. Não havia mais ninguém ali. Somente as luzes amarelas que iluminavam as paredes de concreto rebocado.
– Preciso falar com você – continuou e se escorou à parede ao lado da porta do elevador, encarando-a. – Tem um tempo pra mim?
– Eu não tenho nada pra você – respondeu com uma máscara de gelo.
– Que pena. Eu estou querendo voltar com você; sabe? – Entretanto, não havia nenhum resquício de afeto ou arrependimento em sua voz, como ela já imaginava que seria quando eles voltassem a se encontrar.
– Ah! Chega de desculpas. Já estou farta delas. Acha mesmo que eu acredito em suas histórias? Me poupe. – Ela passou a apertar o botão do elevador mais vezes repetidas, impaciente com a sua demora.
Ele sorriu sinicamente e se colocou de frente ao elevador, deixando Haruno sem escapatória. – Você ainda me ama, Sakura!
A garota riu alto, escondendo o pânico e a verdade expressa em seu medo, por trás das fajutas gargalhadas. Ainda o amava, e não era pouco. Mas nunca mais iria admitir aquilo.
Quando viu ele se aproximar para beijá-la, saiu correndo para fora em busca de um táxi que a levasse para qualquer lugar, com tanto que estivesse longe dele. Mas, quando atravessou a avenida, abarrotada de carros, ônibus e pedestres que insistiam em atravessar fora da faixa, arrependeu-se. O que estava fazendo, afinal? Fugindo? Como uma tola? Como sempre? Retornou de cabeça erguida, mesmo que por dentro ainda estivesse morrendo aos pouquinhos.
– Você é engraçada, Sakura. – Riu aos prantos. – Eu sabia que iria voltar.
– Voltei porque não tenho nada a temer. Não ouse me seguir, não quero você na minha casa.
Ela passou direto por ele, mas parou quando ouviu algo... Revelador.
– Eu quero dormir com você hoje. – A garota sentiu-se, por um instante, ofendida. – Vamos lá, Sakura... Eu sei que isso não é tão difícil assim. Você estava esperando por isso há muito tempo, não? Estava doida para que alguém sussurrasse o seu nome enquanto te comia, certo? Vamos lá, eu estou disposto a fazer isso por você hoje.
– Não me chame de Sakura, desgraçado... – Foi o que disse, com os olhos cheios de ódio e ressentimento. – E o que há? Está pensando que as coisas vão voltar a ser tão fáceis? Você não vai conseguir mais nada de mim, Naruto.
– Claro que vou. – Ele se aproximou, deixando Haruno encurralada na parede, e acariciou seu rosto com o dorso da mão. – Você sempre foi uma garota fácil... Não negue, porque você não mudou.
Sua voz tinha um timbre sinistro, grave e suave, mas ainda assim, repleta de ameaças. Os olhos eram os de um predador certo de sua presa. Haruno, por outro lado, sentia ansiedade, sufoco, desespero, parecia ter sido isolada de seu mundo.
– Eu te odeio! – Ela cuspiu na cara dele.
Tentou ir embora, sentiu o perigo no ar, cortante como arame farpado, Naruto a agarrou, de novo, pelo braço.
– Não! – Tapou-lhe a boca. – Você me ama! Agora olhe nos meus olhos e diga o que você sente por mim... Vamos, sussurre nos meus lábios. – Ele colou seus lábios aos dela, torturando-a até obter uma resposta do seu agrado. – Fala, cachorra! Eu sei muita coisa sobre você.
– A única coisa que você realmente sabe sobre mim é... Nada. Isso é tudo o que sempre saberá! – Haruno tentou olhar por cima do ombro de Naruto para localizar a saída de emergência casos ele fizesse fazer algo contra a sua vontade, embora duvidasse que conseguisse escapar dele.
Estava farta.
Farta de ser tratada como uma inútil, de se submeter à vontade dos outros. De ser taxada de fraca e ganhar a culpa depois do mal feito a ela mesma. Como poderia sair desse precipício se sempre que tentava os velhos fantasmas vinham puxar seu pé de novo?
Naruto, irritado, chegou mais perto e deu um beijo em Haruno de fazer doer os lábios. Suas mãos agarraram seus cabelos, impedindo que Haruno virasse a cabeça. Ela, por sua vez, mordeu a língua que ele agressivamente enfiou em sua boca, depois o lábio inferior, já com gosto de sangue, mas ele não parou. Empurrou seus ombros com o máximo de força que tinha, mas não conseguiu afastá-lo. O beijo parou quando ele, e somente, ele quis.
Tudo em seu coração estava inflamado e desordenado. A verdade era que ainda o amava, mas melhor seria esconder a verdade por trás das lágrimas que derramaria mais tarde em seu quarto. Seu cupido, o vagabundo, era usuário de drogas.
Só agora compreendia que não adiantava fugir do passado, ele fica dando voltas e voltas, dentro da gente, fazendo-se notar nas mentiras mais dolorosas, até que você se conscientize de sua presença.
[...]
– Coração? – Sasuke surpreendeu-se com Haruno aos prantos. Estava saindo para comprar um café expresso quando deu de cara com ela no elevador totalmente dilacerada.
– Sasuke-kun! – Ela desabou em seus braços e fez deles seu porto seguro. – Por que comigo, hein? POR QUÊ? Por que eu não consigo achar alguém nessa droga de vida que me ame e me respeite?
Haruno até pensava que estava se afetuando demais a Sasuke, se apaixonado pela pessoa maravilhosa que era. Mas sempre colocava uma barreira entre eles que fazia com que voltasse os pensamentos para o ex. Sasuke era o homem mais confiável do mundo para ela, mas não foi feito pra ela amar. O que restava era fazer dele seu melhor amigo e por isso poderia e estava pronta para contar tudo.
– Por favor... – Soluçou, como uma criança acordando de um sonho ruim. – Me ajuda...
Ele sorriu e beijou o canto de seus olhos. Quem os visse ali se privilegiaria com uma cena digna de cinema, uma cena romântica com dois pombinhos que se reconciliaram depois de uma briga sem nexo algum, ou depois de passar tanto tempo separados pela distância. E Haruno bem queria que fosse, mas não era.
– Sasuke...
– Sim, pode falar. Estou te ouvindo, Coração. Não se preocupe. Eu estou aqui com você.
A garota desolada e com o coração na mão, por algum motivo que a própria não entendeu, fez algo que depois deixaria a si mesma perplexa. Beijou o seu colega de apartamento. Mas não era um beijo de apaixonados porque não havia sentimentos, não havia desejo, não havia sequer línguas envolvidas. Era um colar de lábios com um sentimento indeterminado. Os olhos permaneceram fechados, temerosos com a possibilidade de enxergá-lo parado, quase inerte, apenas esperando que ela percebesse que não estava sendo correspondida.
– Desculpe, Sasuke-kun.
A princípio, não teve coragem de abrir os olhos. Sonhou que aquilo não estava acontecendo. Mas abriu-os depois, e deparou-se com a realidade. Desesperou-se.
– Desculpe, Sasuke-kun – repetiu –, eu só estava querendo que outra pessoa fosse forte por mim.
Não poderia pensar em algo melhor pra dizer ao menos uma vez na vida? Nada disso justificaria o que acontece. Mas achou bom ressaltar.
Só esqueça isso... Por favor, esqueça isso, Sakura...
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