Moça, seu namorado é gay
4 4 – Amor de cinema
Notas iniciais
Isso significa que ela pode conter erros ortográficos e de concordância verbal. Se achar algum, eu agradeceria muito que anotasse no bloco de notas e mandasse para mellorine189151@gmail.com ou ainda por MP.
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4
O cinema não tem fronteiras nem limites. É um fluxo constante de sonhos. (Orson Welles)
– Espere! Não fuja! – Sasuke trouxe Haruno de volta pelo braço.
Ela estava tremendo muito; assustada demais. Queria respirar. E fugir seria muito mais fácil do que explicar algo que não estava claro nem para ela mesma. Sasuke? Então, eu te beijei porque eu estou confusa. Não sei se quero você ou o meu ex. Nem pensar. Culpava-se também. Principalmente; porque estava sempre se derretendo para qualquer um que mostrasse afeição e era aí onde residia todos os seus problemas. Má escolha.
– Talvez seja melhor eu ir agora – disse sem pensar. Ir para onde? Não sabia. Mas sabia que iria.
– Ia para onde? – Sasuke era mais cabeça do que ela. Sim, senhor. – Estava chovendo muito lá fora e está frio. Quer pegar um resfriado? Lembra que está chegando o dia da sua apresentação e que não pode ficar doente? Se fizer isso, todo o seu esforço vai ser jogado fora. É isso que quer?
Sakura descobriu com o tempo que o poder de persuasão de Sasuke era muito forte, porque ele não conseguia as coisas somente quando mostrava o seu sorriso mais lindo. Muitas vezes ele não precisava sequer abrir a boca para conseguir algo.
– É que—
– Você está assim por conta de um amor não correspondido? – Sasuke riu fraquinho. Haruno nunca lhe contou nada, mas nem precisava. Ele sabia ler as pessoas e ela não era muito difícil de ser lida. – Apenas esqueça um cara que não te merece.
É que eu estou envergonhada pelo beijo que roubei de você, também. É por isso que eu quero ir.
Haruno não conseguia olhá-lo nos olhos. Não conseguia levantar a cabeça. Tudo o que ela via era um par de tênis branco e suas sapatilhas. Depois olhou para a porta do elevador. Manter seus olhos fixados na porta de metal seria melhor. Seria melhor do que encarar os olhos negros e intensos de Sasuke em cima dela. Aqueles olhos estavam com vontade de recriminar a sua íris verde. Por que é tão mais fácil fugir do que encarar os problemas de frente?
Não sabia a resposta. E talvez nunca soubessem. Era uma pergunta questionada por muitas pessoas.
– Quem é o seu fantasma? – Sasuke levantou seu queixo e fez Haruno encará-lo. Seus olhos ainda estavam vermelhos. – Quer que eu mate ele pra você?
Ela riu. Como ele poderia ser tão compreensivo, Deus? Só sendo gay um homem tão perfeito assim, pensou Haruno.
O meu fantasma, Sasuke-kun, não é um garoto que brinca com meus sentimentos. O meu fantasma sou eu mesma.
Haruno acordou do seu devaneio desnecessário (nas suas próprias palavras) e pensou no que poderia fazer para dar um fim àquela conversa por demais desagradável, que Sasuke tentou, a todo custo, manter para que ela não saísse correndo. Não sabia porque ele fazia isso, e nem ele mesmo fazia, mas o fez. Se importava com ela. Criou por ela um carinho especial. E não queria perdê-la de vista àquele instante, porque sabia o tipo de pessoa que Haruno era: ingênua. Ingênua demais.
– Eu não acho que te dizer o nome do meu fantasma vai adiantar de nada. Só eu mesma posso lutar contra isso. É só que no momento ainda sou covarde para encarar esses problemas de frente, mas eu espero que um dia eu consiga. – Suspirou, sorrindo amargamente para si mesma. – Um dia eu consigo...
Seu braço estava ficando leve diante da força exercida pela mão de Sasuke em torno dele. Aos poucos, estava desistindo de fugir. E talvez Sasuke conseguisse fazer isso em questão de poucos minutos, era só tentar, de uma maneira ou outra, fazer algo que amenizasse o seu sofrimento. O que uma menina desiludida da vida poderia fazer embaixo da forte chuva? Não sabia. E mesmo diante das explicações, ainda não entendia porque ela queria sair. Tinha medo do desconhecido.
Uma pergunta aqui, outra ali, a manteria ocupada. Decidiu fazer outra:
– Está frio, e hoje eu não irei mais trabalhar no computador. Estava pensando se você não gostaria de ir ao cinema comigo... Ou quem sabe, assistirmos um filme juntos em casa mesmo, já que está frio. Homem de Ferro 3 está bom pra você? Se não estiver, não tem problema. Eu deixo que você escolha. Pode ser até mesmo A Walk to Remember... Eu não irei reclamar. Te prometo!
Seus olhos se encheram de lágrimas. Era a mesma proposta que tinha em mente. Era possível que os dois, de alguma forma, estivessem conectados? – Você está mesmo disposto a fazer isso por mim?
Assim como odiava que o sexo masculino fosse gentil com ela, também amava. Mas era como se esse fosse um sinal que tudo daria errado depois. De que os primórdios de ter alguém se importando a levariam, outra vez, para o mesmo precipício e ruína da alma. O que fazer quando o coração não para de chorar? Era como se a cada batida, a cada sístole e diástole, as lágrimas iam e voltavam para o coração.
– Ué, eu estou dizendo que sim, não estou? – Riu e colocou atrás da orelha uma mecha de cabelo rosa úmido.
– Obrigada! – Ela se aconchegou no seu abraço.
Sabia que aquela foi uma péssima escolha. Poderia muito bem se enfurnar no quarto e chorar debruçada sobre a cama, repetindo para si mesmo o quanto era fraca e patética, como fazia em outrora; talvez assim conseguisse mudar, tendo conhecimento de suas próprias fraquezas. Poderia escolher a seleção musical mais triste e deixar que as entrelinhas da canção contassem a sua história, dizendo algo como “Oh baby, no more, don’t leave me”. Poderia olhar as nuvens carregadas e acinzentadas pela janela chorando junto consigo. E aí depois adormeceria às 11 da noite. Sasuke bateria na porta do quarto e ela diria que não está com fome. Mas, escolheu ir ao cinema.
E na pior das hipóteses, sim, aquele era o seu precipício.
Ótima noite para chorar, péssima para se apaixonar.
[...]
Secou seu cabelo depois de um banho morno. Passou batom vermelho sangue e rímel preto. Decidiu adotar o estilo chique, porém desposado. Também sabia se vestir bem e tinha bom gosto quando estava empolgada. Jeans justo, uma camiseta preta com lantejoulas e uma jaqueta de couro para espantar o frio. A armadura da vez estava devidamente aderida ao corpo, os olhos não estavam mais inchados e a sombra negra daria um jeito em qualquer resquício esquecido de ser mascarado. Procurou a bolsa e a carteira. Havia dado um jeito em tudo, mas esqueceu-se de verificar se tinha dinheiro para ir ao cinema. Deixava a maioria do seu dinheiro no banco 24 horas, mas não queria ter que parar no meio do caminho para sacar. Isso a deixava ainda mais pobre.
– Quando estou atrasada, tudo some! – Disse para si mesma, mas Sasuke a escutou reclamar:
– O que foi, Coração? Está procurando algo?
Haruno corou assim que bateu os seus olhos nele. Aquela camiseta vermelha que se destacava por debaixo da jaqueta de couro estava fazendo um contraste muito bonito com a sua pele branca e cabelos estupidamente negros e vivos. Pensou, por um instante, em como seria bom correr suas mãos por aqueles fios e sentir a sua maciez no tato. Mas quando se deu conta das besteiras que estavam tomando conta de seus pensamentos mais uma vez, balançou a cabeça e retornou à realidade.
Não acontecia algo de muito diferente na imaginação fértil e hétero de Sasuke. Aquela roupa justa, aderente ao corpo, deixava que as curvas de Haruno ficassem mais expostas do que com as roupas que comumente usava. Era como se pudesse vê-la novamente em trajes de banho, ou então porque estava imaginando demais. Perguntou a si mesmo porque a garota de exóticas madeixas róseas e lindos olhos verdes reclamava tanto da aparência; não era nenhuma miss, mas ainda assim era muito bela.
– N-Não estou conseguindo achar a minha carteira... – Ele fez gesto de procura e escondeu o rubor da face. – Acho que não poderemos ir ao cinema esta noite. A não ser que você não se importe de dar uma paradinha no caminho para que eu possa sacar algum dinheiro. – Estava morta de vergonha, porque conhecendo Sasuke, sabia que ele se oferecia para pagar a conta, e ela não estava querendo isso. – Tudo o que eu tinha em mãos gastei nas compras de hoje à tarde.
– E você está se preocupando com isso? Eu te chamei para ir ao cinema, logo eu vou pagar a conta. – Sasuke sorria por dentro, porque fora ele mesmo quem escondeu a carteira de Haruno enquanto ela tomava banho.
Os dois já conviviam juntos há um bom tempo, e Sasuke sabia que Haruno insistiria em pagar a sua parte, mas ele queria assumir sozinho a responsabilidade. Não era porque estava se passando por homossexual que teria que dividir a conta com uma garota. Afinal, ele a convidou, mesmo que não soubesse que ela estava com a mesma ideia em mente.
– Não precisa... Eu quero dividir a conta. – Haruno era de uma seriedade inacreditável, mas por dentro já dava cambalhotas de felicidade por poder poupar um dinheiro a mais.
– Já estamos atrasados e eu já disse que irei pagar a conta. – Ele pegou Haruno pelo braço e saiu puxando até a porta. Haruno até se sentiu culpada por, de certa forma, estar usufruindo da boa vontade dele, tirando vantagem e economizando. Decidiu mudar de ideia. Não iria aceitar.
– Espera, espera, Sasuke-kun. – Ela o fez parar. – Não... – Ela sorriu amenamente, de uma forma doce. – Quando voltarmos, eu vou procurar a minha carteira e aí eu te pago.
– Falando assim até parece que não somos amigos, Coração... – Ele fez biquinho.
Amigos... Que palavra peculiar.
– Ok então, você quer pagar, então pague. Rum! – Ela sorriu.
– Primeiro as damas. – Ele abriu a porta e deixou que ela passasse primeiro.
[...]
A chuva não estava mais tão intensa, mas continuava limpando as calçadas da capital japonesa. Era fina, ralinha, até mesmo gostosa. O frio, por mais que fosse contradição, estava aconchegante. Sasuke e Haruno tiveram que dividir um único guarda-chuva e a imagem dos dois juntos era muito romântico. Tinham que aceitar que formariam um belo casal. Formariam.
Outros casais também andavam de mãos dadas, embora alguns preferissem andar lado a lado. O ar cheirava a lámen, porque algumas barracas espalhadas pelos lugares aproveitavam o clima frio para vender algo quente e faturar com isso. Algumas lojas que vendiam roupas de inverno ainda estavam abertas e dentro delas as pessoas compravam sem parar, principalmente quando era vista uma placa que indicasse que tudo estava pela metade do preço. Apesar disso, as promoções pareciam não chamar a atenção de Haruno, que estava mais preocupada em queimar o rosto por sua mão estar tocando levemente a mão de Sasuke no cabo do guarda-chuva que seguravam juntos. Depois de um certo tempo, ela deixou que ele o segurasse sozinho.
– A noite está tão bonita... Não é? – Haruno se recriminou por ter perguntado algo tão tolo, mas qualquer simples pergunta seria melhor do que o silencio. A cena em que ela roubou um beijo de Sasuke ainda martelava em seus pensamentos. E estar com ele ali, agora, parecia que tudo tinha ficado pior.
Sasuke percebeu sua vergonha e pensou em bancar a bixa afetada para fazer a menina rir.
– Coração, olha só aquele cara. Deus do céu... Que delícia! – Ele fez cara de tarado e, ainda com essa expressão, completou: – Ah, sim... É que as pessoas estão alegres. Sorrisos espantam o frio; aquecem o corpo, a alma e o coração. Mas eu bem que queria um gato como aqueles para me esquentar em uma noite como essa... – Haruno olhou pra ele boquiaberta, sem saber o que dizer. – Você não?
Haruno desviou os olhos para o rapaz que tinha chamado a atenção de Sasuke. Magro, alto, com cabelos lisos e pretos até a altura dos ombros. Fumava um cigarro que já estava morrendo em sua boca encostado à porta de um restaurante, onde deveria trabalhar. Bom, pelo menos tem bom gosto para homens bonitos, pensou Haruno, mas o cara aparentava ser mais velho que Sasuke. Uns dez anos a mais que os 23 anos de Sasuke.
– É... Pode ser – foi tudo que respondeu a ele.
Quando chegaram à porta do cinema, as luzes da fachada reluziram na íris verde de Haruno e Sasuke ficou encantado. Ela ficou animada rapidamente, como uma criança pedindo para os pais lhe comprarem pipoca amanteigada. Ela era fofa. Fofa demais para um cara que convivesse com ela não se apaixonar. E Sasuke era o cara que convivia com ela.
Ela se perguntou qual foi a última vez em que esteve ali e concluiu que fazia bastante tempo. Desde o término de seu namoro com Naruto, esteve o tempo todo depressiva. Era sempre assim. Até que encontrasse um novo amor e voltasse a se desiludir com o sexo masculino e consigo mesma. Estava começando a se convencer de que o melhor era estar sozinha.
– Que filme iremos ver, Coração? – Sasuke perguntou quando chegou a vez dele na bilheteria.
Haruno sorriu. – Você está sempre jogando as escolhas na minha mão.
Ele queria colocar outra coisa na mão dela.
– Vamos, escolhe.
– Pode ser o que quiser, eu não sou boa para escolher quando o assunto é filmes. Você provavelmente ficaria entediado com o filme que eu escolhesse. – Ela sorriu de forma doce. – Você está pagando a conta, você escolhe o filme.
– Ok então – ele usou a informação a seu favor –, vou escolher um filme de terror.
Tão clássico.
– Aqui – ele deu a ela uma nota de cinquenta –, pede pra mim ali no cara dos lanches duas pipocas com bastante manteiga, refrigerante e amendoim com açúcar.
Ela revirou os olhos. – Você e essa sua solitária aí dentro...
[...]
A sala de cinema não estava cheia, mas também não estava vazia. Estava nas proporções certas. À frente das cadeiras de Sasuke e Haruno não estava sentado ninguém obeso ou alto o suficiente para atrapalhar as visões dos dois. A única coisa que poderia atrapalhar era o silêncio. Ninguém conversava ou cochichava, e isso atrapalhava, de certa forma. Filme de terror aliado ao silêncio tornava deixava o ambiente tenso e macabro. A sorte era que Haruno não tinha medo de filmes de terror como a maioria das garotas. Era uma característica sua nada feminina, mas que adorava em si. Uma das poucas.
O filme escolhido foi Evil Dead, considerado por alguns cineastas o filme de terror do ano. Um remake de um dos clássicos do cinema.
– Será que ainda falta muito para começar? – Estava entediada, não apreensiva.
– Sério que está ansiosa? Outras meninas na sua pele ficariam com medo. Olhe ao seu redor.
Haruno olhou, e viu uma gama de mulheres agarradas a braços masculinos, inertes como estátua. Aquilo tudo era por conta de um filme de terror? Por algo que não existe? Que patético!, ela pensou.
Sasuke continuou: – Não é um filme romântico e não chegou a hora da parte mais linda e kawaii desu do filme para que esses casais estejam tão juntos assim, certo? – Ele riu. – Elas estão com medo. Mas você não. Mulheres...
Mulheres...?!
Ok, ele me excluiu do público feminino.
– Ah e você acha que eu não sou mulher só por isso? – Haruno perguntou a Sasuke mais por brincadeira. – Você me considera um homem, Sasuke-kun?
Ele riu e disse: – Não mesmo. – Sua voz ficou grave, de repente. – Se eu te considerasse um homem a gente já estaria se pegando no banheiro. Seus olhos verdes me encantam.
Seus olhos verdes me encantam...
Certamente, Haruno acharia, a partir daquele momento, uma coisa boa ter olhos verdes.
– En-Então – pigarreou –, me conte mais sobre o filme. Nunca assisti esse daí.
– Você já se perguntou porque é preciso fazer um remake de algo que já é bom? – Sasuke abriu um sorriso. Haruno negou com a cabeça. – Remakes devem vale apenas para algo ruim, que precisa ser melhorado. Porém, o motivo de terem feito um remake de Evil Dead foi apenas para melhorar a qualidade de áudio e vídeo. Sempre foi um ótimo filme de terror. Um dos clássicos.
– Entendo... – Estava achando interessante. Sentia que sua noite poderia melhorar ainda mais. – E sobre o enredo, o que me conta?
– Não lhe conto nada! – Ele tocou a ponta de seu nariz, fazendo graça. – Não quero dar spoiler e estragar a susprise.
– Ok então. – Haruno riu.
Haruno estava irritada consigo mesma por dentro. Mesmo que estivesse mais calma, sabia que fazia aquilo somente para Sasuke não perceber o quanto ela estava nervosa. E vê-lo ali calmo e tranquilo demais piorava a situação. Sua cabeça dava mil voltas, não entendia o porquê das provocações de seu amigo gay. Estava fazendo ele o mesmo que os outros garotos? Se não gostava da fruta, para quê comer? Só para vomitá-la depois? Claro, puras metáforas. Metáforas que estavam levando Haruno à loucura. Você está imaginando coisas, Sakura. Ele não te olha com esses olhos.
Ou será que sim?
Logo atrás dos dois, um casal que estava ali desde início, começou a manifestar presença. Aparentemente, estavam fazendo do lugar o melhor para discutir a relação. A garota dizia que ainda estava confusa, que não sabia ao certo se ainda estava apaixonada pelo garoto, que insistia em beijá-la, em altas investidas que chegaram aos ouvidos de Haruno e Sasuke.
– Quando tudo ao seu lado se torna fresco, novo e excitante, você descobre que descobriu o amor. Que está apaixonado.
– Está dizendo isso pra quem? – Haruno parou de comer pipoca para perguntar.
– Pra você. – Riu.
– E por quê? – Ela não entendia.
– Para que não se esqueça de como deve distinguir os sentimentos pelas pessoas. Você ainda acha que está apaixonada pelo seu ex-namorado, mas a sua vida se tornou um inferno desde que terminaram. Logo, não está mais amando. Ninguém ama nessas condições. As pessoas se acostumam a achar que estão amando. Você está apenas remoendo os fantasmas do passado, porque se sente só e odeia essa sensação.
– Você fala como se tivesse passado pela mesma dúvida, pela mesma situação...
Ele sorriu. – Eu passei...
Era um dia glorioso, daqueles dias da primavera que prometem a mais pura inocência e novos recomeços. O tipo de dia em que a luz acende a cidade como se fosse milhares de lâmpadas faiscantes, quando seu namoro chegou ao fim.
– Ele te magoou muito? – Haruno perguntou receosa, com os olhos entristecidos.
– Ele?! – Ele se confundiu todo, porque não era homossexual como ela pensava e, obviamente, estava falando de uma garota, que exigia pronome feminino.
– É, ele.
Ele se tocou depois.
– Quem conhecia Karino – ou no caso, Karin, a ex-namorada de Sasuke – sabia que controle não era uma palavra aplicável a ele. Não media as palavras que falava e acabava magoando não só a mim, mas todas as pessoas ao seu redor.
Sasuke refletiu, sabendo que a descrição se tratava dele mesmo e de como havia magoado a sua ex-namorada Karin. Pediu perdão e ela consentiu, mas quando pediu pra voltar, cheio de arrependimentos, ela recusou. Com razão. Contudo, sua antiga personalidade gélida e séria demais o fez refletir que algumas mudanças deveriam acontecer quando se deseja ficar com alguém que é oposto, para que o amor se instale e se adéque. O seu eu anterior morreu e fez a pessoa que ele era hoje, mas jamais conseguiria voltar, voltar mesmo, a consertar o copo quebrado. É que não tinha conserto.
Haruno permaneceu em silêncio enquanto ele pensava. Se falasse alguma coisa, talvez chorasse, e não queria mais fazer aquilo; não na mesma noite. Diria algo como “eu te entendo” e ali deixaria de ser um cinema para virar um consultório ou uma terapia de casal.
– Palavras me fogem... – Ele disse simplesmente, balançando a cabeça. Era o bastante.
– Não precisa dizer mais nada.
Ele pegou a mão de Haruno e sorriu. – Não se preocupe, eu já superei. E quero que aconteça o mesmo com você para que possamos sorrir mais vezes juntos. Eu sinto que estamos começando a nos dar realmente bem, como devem ser os bons amigos. – Ele acariciou os dedos dela e um arrepio correu por sua espinha. – Ou quem sabe até...
Namorados?
– Melhores amigos? – Haruno completou.
– É – ele sorriu concordando –, melhores amigos.
Ela sorriu de volta. – Olhe, Sasuke-kun, o filme está começando.
Haruno levantou o braço da poltrona que separavam as cadeiras dos dois e chegou bem perto dele. Aconchegando sua cabeça em seu ombro, ela permaneceu assim até o término do filme.
– Não use o “kun” comigo, moça.
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