Mizpá
17 Blood River
Notas iniciais
Boa leitura, até segunda ~
- Iullia? – Uma mulher alta, cabelos negros e compridos, com os olhos marcados por um impecável delineador chamou pela casa aparentemente vazia – Querida? – pôs a bolsa no sofá e deu os ombros – ela não está aqui, querido.
Um homem também alto entrou na sala, dando de cara com a esposa, que estava tirando os sapatos e deixando-os no canto da sala, por pura preguiça de subir até o segundo andar. O homem sentou no sofá e a mulher o acompanhou, ambos suspiraram cansados; faziam um tempo que não conseguiam simplesmente sentar e respirar em paz, sem funcionários chamando-os o tempo todo e sem números.
- Sebastian provavelmente está na natação – ele deitou no colo da mulher – Poderíamos aproveitar.
- Aproveitar pra dormir né? – os dois gargalharam – se eu deitar naquela cama eu só durmo, sério.
- Então somos dois – fechou os olhos, estavam naquele laboratório à base de café a dias.
- Então pra quê ta me chamando pra meter, Aaron?
- Custa nada tentar, Mei.
Riram mais ainda e Mei levantou o rosto pela risada. No teto branco estava uma imensa mancha escura, como uma infiltração. Ela cutucou Aaron que abriu os olhos, percebendo a mancha no teto e suspirando, apenas mais problemas.
- Infiltração? Aqui é basicamente o quarto de Iullia... – ele levantou e pôs as mãos na cintura, olhando pro teto.
- O banheiro de Iullia, você quis dizer. – ela se levantou também e coçou a nuca – isso não estava aí...
- Cano quebrado – torceu os lábios – Deve esta tudo molhado por lá, se prepare – riu sem humor.
Os dois suspiraram novamente, dando adeus a tentativa falha de tirar o dia para dormir. Os dois subiram as escadas e seguiram o corredor calmamente, girando a maçaneta de cristal da porta da filha caçula. O quarto estava um pouco fora de ordem, já que o lençol da cama não estava lá, como se tivesse sido tirado de forma rápida, espalhando todas as pelúcias e travesseiros da cama king.
Aaron e Mei automaticamente olharam para a porta do banheiro particular de Iullia, que estava um forte barulho de água jorrando, mas também perceberam que a água não estava passando por debaixo da porta. O casal correu até a porta e tentaram abrir, mas estava trancada.
- Iullia? – Mei gritou desesperada, enquanto o marido tentava arrombar a porta – Iullia, minha filha!
A porta fora arrombada e uma imensa proporção de água avermelhada molhou os pés dos desesperados pais e entrou no quarto da caçula, molhando todo o carpete e suas pelúcias. Os dois entraram no banheiro e viram a banheira cheia, onde a vermelhidão na água estava bem mais forte e a sua pequena, delicada e indefesa caçula estava dentro dela, com a metade do corpo imerso na água, a torneira ligada, fazendo a água transbordar por toda parte. Mei não agüentou e olhou para o chão, vendo que o lençol da cama estava lá, impedindo a passagem de água por debaixo da porta, mas toda aquela água vermelha fazia seu cérebro latejar.
- Os pulsos dela... – a voz de Aaron foi à única coisa que Mei tentava se concentrar – Vamos para o hospital.
Aaron a pegou no colo, molhando sua roupa e correndo até o andar de baixo, tentando socorrer sua única menina que no momento estava desacordada. Mei desligou a torneira e tirou a toalha do ralo do banheiro, tentando amenizar aquela piscina interna, literalmente, do banheiro de sua filha. A morena comprimiu os lábios e sentiu seu nariz arder, assim como seus olhos encherem d’água; O que estava acontecendo em sua própria casa que ela não sabia? Que tipo de situação era aquela que ela estava passando? Sua filha havia tentado se matar e ela não sabia o que fazer, como agir. Pra falar a verdade, nenhuma mãe saberia.
Agarrou suas mãos tremulas nos cabelos lisos, em um ato de total desespero e viu um papel rosa boiar pela água; mesmo com o papel molhado a tinta da caneta não havia sido tão danificada e com a caligrafia redonda de sua filha, no papel rosa manchado pelo sangue estava escrito;
“Vocês poderiam me perdoar pela bagunça?
E se eu sobreviver, não conte ao Sebastian
Eu imploro.”
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Eram 3h da manhã, era apenas mais uma noite sem dormir e aquela em especial me fazia lembrar de todo o dia anterior, que eu poderia categorizar como “perturbador”. Jason havia nos avisado que não iria ficar fazendo telefone sem fio com Iullia, mas se por algum acaso fosse realmente preciso, faria, apesar de que quando eu sai da psiquiatria, ele disse que ela simplesmente havia desaparecido, nem mesmo seu choro era ouvido.
O relógio marcou 3h01 e eu percebi que todos aqueles pensamentos estavam fazendo, para mim, a hora passar mais devagar. Rolei pela cama, me enrolando ainda mais nos grossos lençóis, depois eu iria me virar pra sair dali. Virei o rosto e olhei para o diário de camurça que estava em cima do criado mudo, o diário que revirava todos os meus pensamentos.
Eu pensava como Ai me amava de outra forma a não ser fraternal, não conseguia vê-la de outra forma, ela sempre seria a minha irmã caçula, a irmã que meus familiares diziam para proteger dos marmanjos e se for pra pensar dessa forma, eu teria de protegê-la de mim mesmo, ou eu que teria de me proteger dela, tanto faz.
Entretanto, todo o problema não estava de “eu nunca a vi de outra forma” e sim é que eu nunca a reconheci como uma irmã. Como eu sempre disse, eu não dependia de minha mãe para muita coisa e ela como boa parte das mulheres tinha o sonho de ter um filho, quem precisasse ensinar matemática ou que precisasse de ajuda para fazer uma redação e eu nunca precisei disso, até por que, quem teria dificuldades em coisas tão estúpidas?
Iullia tinha.
Lembrei dela dizendo que o Ouji era um verdadeiro gênio, como se todos os físicos-químico-matemáticos e qualquer outra coisa, tivessem pegado seus devidos DNA e implantado em um embrião e nesse caso, seria eu. E ela também citou de como eu odiava ser chamado de gênio, prodígio, perfeito ou qualquer coisa do gênero, ela disse que eu achava aqueles adjetivos desnecessários, já que qualquer pessoa poderia fazer aquilo.
- Mas o Ouji não percebia que ele era realmente incrível, ele não gostava de admitir isso, para mim ele era o mais superior que todos os mortais e eu não estou mentindo Tsuki... Ele parecia ser tão intocado quando qualquer Deus e adorado também, ele simplesmente não parece existir. – recitei suas palavras.
Suspirei, ela me conhecia tanto que chegava a ser perturbador, ela sabia todas as minhas manias, expressões, músicas favoritas, desenhos, mangás, tudo, tudo ela sabia, porém a única coisa que ela não sabia era por que eu não “gostava” dela. Isso, nem eu mesmo sabia.
Olhei novamente para o relógio, 3h15 e começou a nevar lá fora. Decidi que faria algo que acho que jamais fiz, mas as circunstancias do tédio me pediram medidas desesperadas; levantei-me da cama e me arrastei até o quarto dos meus pais, abrindo a porta devagar para não ver o que não devia. Os dois estavam enrolados nas cobertas pelo frio que estava, fechei a porta e fui até a cama, me enfiando no meio dos dois.
- Mas que porra... – meu pai abriu os olhos lentamente – o que você está fazendo aqui?
- Tem bicho no meu armário – minha mãe riu e deu espaço para que eu deitasse no meio dos dois.
- Então vamos lá ao quarto que eu te mostro que tem ninguém lá, seu moleque – bufou irritado.
- Claro que tem – senti os braços da minha mãe apertar a minha cintura, minha cabeça estava no peito dela.
- Calado e abrace seu filho, Aaron – senti os braços do meu pai também me apertarem. – é tão bom tê-lo aqui, filho.
O calor dos meus pais era aconchegante, debaixo daquelas cobertas grossas eu me senti amado, mais do que qualquer outra pessoa.
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