Mister D

16 Capítulo 16


— Eu estou meio confusa, preciso de você. — Falei sentada no sofá junto com Leonardo.

— O que aconteceu? — Ele perguntou curioso direcionando seu olhar pra mim.

— Não consigo mais entender meus sentimentos. Eu gosto de Thiago sabe? Eu realmente gosto dele, mas quando eu estou com Dante…

— Espere… Dante? — Leonardo abriu um sorriso, eu não tinha reparado o quanto eles se tornaram amigos. — O que acontece?

— Não fique tão feliz… eu não sei o que é… só não consigo me controlar.

— Eu acho que você gosta dele.

— Eu acho que eu já passei da fase de achar. Não consigo mais mandar em mim, isso é sinal não é?

— Com certeza, você o ama.

— Não, amor não… amor é impossível, acho que não sinto isso nem por mim, não chame de amor, não é isso, não chegou nesse ponto, mas eu gosto dele. Gosto mesmo. E também gosto do Thiago, como pode isso? Eu que raramente gosto de alguém me pego gostando de dois.

— A vida trás surpresas as vezes.

— Não foi uma surpresa boa.

— O que não foi bom? Gostar do Thiago ou gostar do Dante?

Antes que eu pudesse responder Leonardo, senti meu celular tremer e o peguei para ver o que era, quando o desbloqueei pude ver que era uma mensagem de Dante, ele parecia desesperado, estava escrito “por favor vem aqui na casa da idosa que eu tomo conta, por favor venha logo, eu preciso de você”. Estranhei aquela mensagem, a forma como ele parecia desesperado falando que precisa de mim. Dante raramente dizia por favor para algo, e muito menos assumia precisar de alguém, ele era orgulhoso, conseguia se virar sozinho, mas nos últimos dias ele estava parecendo outra pessoa, acho que eu provoquei isso.

Interrompi minha conversa com Leonardo e disse que eu precisava ir, peguei as chaves do meu carro e dirigi em direção a casa da senhora. Como eu já havia decorado o caminho e não era muito longe, logo eu cheguei lá. Geralmente Dante me esperava na porta, mas quando desci do meu carro e me aproximei vi que ninguém estava lá. Toquei a campainha pensativa imaginando o que poderia estar acontecendo, ouvi a voz de Dante de dentro da casa pedindo que eu entrasse pois a porta estava aberta.

Quando entrei encontrei Dante sentado no sofá de cabeça baixa, ele ouviu meus passos e quando me aproximei ele levantou a cabeça para me olhar, tinha lágrimas em seus olhos, escorrendo lentamente pelo seu rosto, ele estava chorando. Nunca imaginei que Dante fosse do tipo de chorar, mas lá estava ele, parecia acabado, mal conseguia me olhar, seu rosto estava triste e era como se eu pudesse ver que ele estava machucado, que algo nele estava doendo por dentro.

— Dante… — Falei sentando do lado dele e o abraçando. — O que houve Dante?

— Ela morreu. — Ele falou brevemente e pude sentir em meu ombro, onde ele estava com a cabeça encostada, outras lágrimas descerem de seu rosto.

— O que? Não acredito… — Falei acariciando o rosto dele. — Eu sinto muito.

— Eu sabia que ela era muito idosa sabe? Mas eu achei que ela fosse durar mais. Ela era como uma mãe pra mim, eu a amava como uma mãe, não aceito perdê-la assim, não era pra acontecer…

— Ela te amava também, como um filho, pode ter certeza disso.

— Ela deixou a casa pra mim. Mas tá tão vazia… sem ela… a mãe que eu nunca tive.

Doía meu coração ver Dante daquele jeito, logo ele que demonstrava sempre estar feliz, nunca havia o visto triste, e agora vendo me sinto tão inútil, eu queria poder ajudá-lo, mas não tinha nada que eu pudesse faz, nem ninguém. Só queria tirar a dor dele, porque vê-lo sofrendo daquele jeito causava dor em mim também. Eu com certeza gostava de Dante mais do que eu podia, mais do que eu imaginava um dia gostar, mas se tem algo que aprendi com a vida é que ela não te pergunta se algo pode acontecer, simplesmente acontece e você tem que aceitar.

— Como faz pra tirar essa dor daqui de dentro? — Dante disse segurando as lágrimas enquanto me olhava.

— Eu não sei o que te dizer… só que eu estou aqui com você.

Passamos algum tempo naquela posição, eu ouvindo tudo o que Dante estava guardando dentro de si. Ele chorou um pouco ainda e depois parou, pareceu finalmente se confortar. Em nenhum momento eu deixei de abraçá-lo, só queria ficar ali perto dele o acariciando, queria salvá-lo, da mesma forma que ele havia me salvado duas vezes. Eu sei que não se compara, a dor de perder alguém sempre é pior, mas eu queria poder aliviar um pouco a dor, fazê-lo se sentir confortável, queria que ele visse que eu podia ser o porto seguro dele.

— Obrigado por ficar comigo, me ajudou bastante. — Dante disse se arrumando para ir embora da casa.

— Queria ter feito mais…

— Você fez o suficiente, esteve comigo quando eu precisei.

— Você já fez o mesmo.

Assim que saímos da casa, Dante trancou a porta e logo quando eu ia entrar no meu carro ele me fez um convite, pediu que eu o deixasse em casa e eu aceitei. Dirigi até a casa dele e quando chegamos lá Dante pediu que eu entrasse, eu nunca havia entrado em sua casa e não esperava que ele convidasse algum dia. Não sabia também o que poderia encontrar lá, sempre imaginei que ele era solitário, morava numa casa toda bagunçada e tinha pôster de mulheres na parede. Mas quando entrei lá vi que minha imaginação estava totalmente errada, era o contrário do que eu havia dito. A casa era arrumada, bem decorada, e quando subimos para o segundo andar, Dante me mostrou um quarto de criança, todo pintado de rosa, tinha bonecas em cima da cama e estava muito bem arrumado assim como toda a casa. Ao ver aquele quarto algo em mim ficou incomodado, pensando que Dante tinha uma filha, e quando eu vi uma criança de aparentemente 10 anos vir em minha direção fiquei curiosa para conhecê-la.

— Sasha, essa é Miriam, minha irmã. — Dante disse mexendo no cabelo da menina, ele parecia cuidadoso com ela.

— Oi… — Demonstrei mais felicidade do que o normal, na verdade me senti aliviada por saber que ela era irmã, e não filha. — Nossa, que linda você Miriam… eu me chamo Sasha.

— Oi, você também é muito bonita. — Miriam respondeu sorridente, ela parecia ser uma menina muito simpática. — Você é a namorada do meu irmão?

— Não… somos amigos. — Soltei uma breve risada com a pergunta dela. — Você tem quantos anos?

— Tenho 11. Meu irmão fala muito de você.

— Chega. Vai brincar vai. — Dante disse e beijou o rosto da menina.

Miriam fez uma cara triste para ele e disse que queria ficar, mas ele disse que depois ela ficava mais para me conhecer, porque ele precisava conversar comigo naquele momento. Ela pacientemente concordou e ficou no seu quarto brincando com suas bonecas, eu e Dante descemos e fomos para a sala, ele pediu que eu sentasse no sofá e perguntou se eu queria beber algo, eu agradeci e disse que não, então ele começou a falar:

— É por causa dela.

— O que é por causa dela?

— O que eu faço, é por causa dela. O dinheiro que ganho é perfeito para nós podermos viver. Consigo pagar o colégio dela e não deixar que ela passe fome.

— Dante… por que não me contou sobre ela?

— Nunca falo sobre ela pra ninguém, ela é minha única família.

— Cadê os pais de vocês?

—Minha história é meio deprimente. — Dante tentou sorriso, mas saiu um pouco forçado. — Eu fui preso há um tempo atrás…

— O que tem a ver com sua família?

— O motivo. Minha mãe e meu pai pareciam uma família feliz, quando Miriam nasceu tudo foi uma maravilha, eu sempre quis uma irmã, e quando ela fez quatro anos eu prometi a ela que sempre iria cuidar dela, e estou cumprindo, não importa como.

— E o que aconteceu?

— Um dia tudo desmoronou. Eu estava estudando direito, era meu sonho ser advogado, havia passado no vestibular porque passei anos estudando. — Dante contava tudo sem me olhar. — Era um dia chuvoso, meu pai estava trabalhando e Miriam estava na escola, era pra eu chegar mais tarde em casa, mas eu decidi sair mais cedo. Quando cheguei em casa me deparei com minha mãe no sofá, aos beijos com o vizinho da gente.

— Meu Deus…

— O ódio tomou conta de mim quando vi aquilo. Eu não consegui segurar, eu parti pra cima dele, o espanquei quase até a morte, minha mãe tentou evitar e se meteu na frente, eu acabei a acertando também. O amante dela me denunciou para a policia, e quando meu pai soube ele botou minha mãe pra fora, mas ela aparecia ainda para ver Miriam. Minha mãe nunca foi uma boa mãe, apesar de antes sermos felizes, nunca achei que ela se importasse muito com a gente.

— Dante… isso é muito triste.

— Eu fui preso e meu pai teve que arranjar dinheiro para pagar a fiança, demorou para que ele arranjasse. Quando eu finalmente sai ele adoeceu, teve câncer no pâncreas e acabou falecendo. Ele deixou essa casa para mim, mas como eu havia sido preso, eu perdi a bolsa de estudos, não tinha condições de pagar uma faculdade então fiquei sem emprego. Era só eu e minha irmã, ninguém ia querer me contratar sabendo que eu já havia sido preso. Eu precisava cuidar da Mi, então optei por dar prazer as mulheres em troca de dinheiro.

— Dante, eu não sabia. Isso foi um gesto lindo da sua parte. — Falei tocando o rosto dele. — E sua mãe?

— Ela foi embora, nunca mais a vimos, acho que foi morar em outra cidade.

Dante passou a tarde inteira contando mais sobre a sua vida, e quanto mais eu o conhecia mais eu o achava uma pessoa maravilhosa. Eu estava totalmente enganada sobre ele, nunca havia conhecido uma pessoa tão batalhadora quanto ele. No inicio eu achava que ele não era bom para o meu mundo, mas ouvindo aquilo tudo começo a pensar que eu não sou boa para o mundo dele. Ele era corajoso, forte, amoroso, decidido, cuidadoso, dedicado e era extremamente família, o jeito que ele desistiu do seu sonho para cuidar da irmã era algo digno de um ser humano maravilhoso, e era isso que Dante era.

Depois de um tempo Miriam desceu para ficar conosco. Eu sugeri que assistíssemos um filme no sofá. Dante preparou uma pipoca, pegou dois cobertores e começamos a ver um filme de aventura. Depois de um tempo, Miriam acabou adormecendo, como já era de noite, Dante a pegou no colo e a levou para seu quarto. Ele a cobriu cuidadosamente e deu um beijo de boa noite nela. O carinho que ele tinha com ela me fez pensar que eu gostaria de ter um irmão como ele.

— Você cuidou muito bem dela. Ela é uma ótima menina. — Disse a Dante assim que voltamos a nos sentar no sofá.

— Sim, ela é.

— Bom… já está tarde, acho melhor eu ir embora.

— Você pode ficar? Pode dormir no quarto que está vago. Era dos meus pais.

— Tudo bem.

— Muito obrigado. Você foi ótima hoje.

— Você é ótimo… sabe… eu me enganei sobre você.

— Você não sabia de nada sobre mim.

— Agora eu sei, e te acho o cara mais incrível que conheço.

— Eu… — Dante disse e aproximou seu rosto do meu. Sua mão deslizou até minha cintura e segurou na mesma. — Eu queria que você me achasse um cara que merece estar com você.

— Quem disse que eu já não penso isso? — Encarei os lábios dele por algum segundo.

Dante sorriu em seguida e aproximou seus lábios dos meus. Roçou um no outro por alguns segundos e logo em seguida me beijou. Eu correspondi deslizando minha língua sobre a dele. Por mais que ele tivesse dito que não beija no trabalho, ele beijava muito bem, parecia um profissional nisso. Nosso beijo durou alguns minutos, Dante havia deitado por cima de mim e começou a me acariciar, o clima estava cada vez mais quente e eu começava a sentir calor, tive que diminuir um pouco o ritmo antes que eu fizesse alguma besteira, não era o momento de algo mais intenso com ele, por mais que no momento, fazer isso era a coisa que eu mais queria.