Mister D
17 Capítulo 17
Acordei do lado de Dante, ele dormia tranquilamente enquanto eu observava seu rosto, ele era tão lindo, mas conseguia ter qualidades maiores que sua beleza. Ele realmente chamava atenção por onde passava, e deixava sempre um ar de mistério. Acho que todos que o conhecem devem pensar o mesmo que eu pensei, por que ele faz isso? Ele é tão lindo, o que ele tanto esconde?
Ele escondia algo a mais e eu conheci isso ontem. Conhecê-lo daquela forma me assustava, eu nunca havia me enganado tanto com alguém, ainda mais no bom sentido, e depois disso tudo eu estava aqui, na casa dele, logo após conhecer a irmã que ele tanto cuida, ainda por cima estava aqui, deitada do lado dele. O que estava acontecendo comigo? Ontem quando ele me beijou algo diferente aconteceu, não foi como os outros beijos, que pra mim sempre foram vazios, foi diferente, eu senti algo que não soube identificar o que era. Era estranho, mas era bom. Depois do beijo ele perguntou se eu queria que a irmã dormisse com ele e eu dormiria no quarto dela, ele não aceitou que eu dormisse no sofá. Não achei justo também tirar a cama da irmã, então tive a loucura de oferecer que eu dormisse com ele. Mas não me arrependo, nunca dormi com um sentimento tão esquisito e bom na minha vida. Ele me abraçava durante a noite, e eu sentia como se eu pudesse confiar nele para me proteger, como se eu soubesse que ele faria isso caso eu precisasse e essa sensação é melhor do que comer uma pizza num domingo a tarde. Antes que Dante acordasse, me arrumei e fui embora. Sim, eu fugi, depois daquilo tudo meus sentimentos estavam completamente confusos, não queria me deparar com ele acordado e ter que encarar aqueles lindos olhos que com toda certeza passariam a ideia de “o que vai acontecer com a gente agora?”. Eu não estava preparada para essa pergunta, nem para encarar nada que pudesse me lembrar que eu estava em uma cilada. Dante, o garoto de programa que eu estou escrevendo uma história sobre a vida, ele mesmo que consegue bagunçar qualquer pensamento correto que eu tenha, e trazer a tona sentimentos desconhecidos. E Thiago, ex namorado da minha irmã, o corajoso, quem me defendia, quem eu olho e penso que “esse homem eu quero me casar, esse homem não vai fazer nada que me machuque”. Como eu posso ter me enrolado tanto nessa situação? Hoje era dia de ir na empresa falar sobre o que eu já havia escrito ou decidido sobre a minha história, eu não daria detalhes de tudo o que eu havia escrito, gostaria que fosse algo que impactasse, que trouxesse surpresa, mas eles saberiam que eu me decidi sobre o nome da história, seria “Mister D”, um homem que esconde segredos por trás de um vida repleta de desejos. Se fosse aprovada eu seria contratada para ser a escritora das histórias semanais da revista, e com certeza essa seria a minha primeira história publicada. Quando cheguei na empresa, estranhei o clima que encontrei no local, todos estavam sorrindo como se houvesse alguma piada, quando entrei pude ver alguns cochicharem, meu sentido dizia que algo estava errado, pensei que fosse nervoso, ou algo negativo que minha cabeça havia inventado, não era a primeira vez que ela fazia isso, era bem comum na verdade, mas antes fosse isso. Era algo ruim, eu pude perceber assim que avistei minha irmã do lado da minha “ futura chefe”, pensando positivo.— O que faz aqui? — Perguntei a ela enquanto a via sorrir debochadamente. Era aquele sorriso que eu tanto odiava estampado no rosto dela, sorriso de vencedora.— Sasha, foi um prazer conhecer sua irmã. — Minha futura chefe falou sorrindo. — Ela é uma grande advogada, conhecida, por que não nos contou sobre ela? — Sim… ela é… — Ignorei a pergunta dela, só conseguia olhar Dandara com ódio e queria que ela me respondesse o mais breve possível. — Ela me contou uma coisa engraçada. Você está apaixonada pelo seu trabalho? É verdade? — Minha futura chefe soltou uma risada descontraída. — Sua irmã é muito boa, ela pensou em você e veio nos contar isso, você quer desistir desse emprego?— O que? Não… isso não é verdade… e… eu nunca desistiria.— Querida, se seu coração fala mais alto… — Minha futura chefe riu, parecia se divertir com a situação. — Você pode desistir. Saiba que vai entrar aqui como piada né, se apaixonar por um garoto de programa… convenhamos é bem engraçado.— Nunca… eu nunca iria me apaixonar por ele. Ele é só o meu projeto, eu não sinto nada por ele e nunca vou sentir, em hipótese alguma, todo dia que eu estou com ele é apenas a trabalho, tudo que eu faço é pelo trabalho e por essa história, ele é apenas uma peça pequena para eu chegar no fim da fase. Olhei todos a minha volta e pareceram se conformar com o que eu disse, eu falei aparentando tanta sinceridade que comecei a pensar se eu não pensava aquilo realmente. Pude ver minha irmã sorrir ainda da mesma forma vitoriosa, por que ela estava daquele jeito? Ela não tinha ganho nada, pelo contrário, tentou me fazer parecer uma idiota num local que nem meu ambiente de trabalho é ainda. Qual era o problema dela? Por que esse desejo todo em me tornar infeliz?
Depois de um tempo entrei na reunião com minha futura chefe e dei alguns detalhes sobre minha história, disse que não revelaria o nome dele e nem nada que pudessem o identificar, ela concordou. Depois contei sobre o título, ela pediu mais, mas eu pedi que ela confiasse em mim, ela era uma boa pessoa, talvez um pouco metida, mas aparentava ter bom coração, ela me deu essa oportunidade e eu não queria desperdiçá-la.— Qual o seu problema? — Falei morrendo de raiva assim que encontrei Dandara parada do lado de fora da empresa, como se me esperasse. — Qual o motivo disso?— Nenhum irmã, só vim fazer uma brincadeira. — Dandara sorriu. — Alias, obrigada por deixar o seu querido e-mail e senha de onde você escreve essas histórias ridículas, conectados no computador de casa. Pude ver tudo que você escreveu até aqui, e olha… estou impressionada, você tem um jeito vadia de roubar namorados, mas ainda consegue se apaixonar por um garoto de programa só porque ele aparenta ter um bom coração? Você é patética.— O que? Você… — Falei explodindo de raiva, ainda não estava acreditando que ela leu minha história.— Sim, eu sou uma menina má, achei que já soubesse.— Você não tinha o direito.— Você também não tinha de roubar meu namorado, e agora trocá-lo por outra pessoa? Coitadinho…— Eu não estou apaixonada pelo Dante.— É, eu ouvi tudo que você disse lá dentro, acho que me enganei. Mas que bom que gravei tudo e mandei para o Dante, agora ele não está mais enganado sobre você também.— Você não fez isso… você não tem o número dele… — Naquele momento meus olhos encheram de lágrima, imaginei a dor e mágoa que Dante teria ao ouvir aquilo tudo. — Você não fez…— Quando eu segui você eu tratei de pagar alguém para descobrir o número dele, falei que queria um programa por 4 mil reais, mas que precisava marcar. Olha como é fácil conseguir algo com ele… curioso não é…— Você é um demônio.— Não… eu sou um anjo, estou abrindo os olhos das pessoas sobre você. Você é uma inútil, ladra de namorados que não respeita a própria família. Todos que te conhecem tem vergonha de você, acho que você mesma tem vergonha de você, olha o que você é… se olha no espelho… você é apenas um pedaço de nada em um corpo humano. Irmã querida… já tá na hora de você acordar e perceber que você é completamente nada. Não consegui me controlar naquele momento, o ódio tomou conta de mim. Encarei minha irmã com toda a raiva do mundo enquanto a ouvia falar, e antes que ela falasse algo a mais que me fizesse enforcá-la, levantei minha mão direita e dei um tapa na cara dela com toda a força que eu tinha. Pude ver ela abaixar a cabeça enquanto sentia dor, depois de alguns segundos ela se levantou e me encarou cheia de ódio em seus olhos, seu rosto estava vermelho marcado com a palma da minha mão.— Eu roubei seu namorado porque você não teve a capacidade de fazer com que ele não precisasse desejar nenhuma outra, se ele me procurou a culpa não foi minha. Se for para eu não ser comparada com você, então nossa… eu amo ser inútil... Eu? Vergonha de mim? Você quer saber? Já tive sim, muita, mas hoje eu tenho orgulho de mim, eu aturei tanta gente ruim e digna de pena como você e ainda estou de pé… e sim irmã, você está certa, eu sou um nada, todos nós somos, um nada vazio que se enche ao longo da vida. O meu nada está cheio de bons sentimentos agora, enquanto o seu está cheio de merda… a merda que você se tornou. Agora um aviso, se você tornar a se meter na minha vida de novo, vai desejar ter ganhado milhões de tapas como esse. Minha irmã parecia não acreditar no que eu havia feito e dito, quando sai de perto dela ainda pude ver seu olhar de raiva se perder a medida que eu me distanciava. Nem eu consegui acreditar que havia dado um tapa na cara dela e falado todas aquelas coisas engasgadas, como eu desejei e sonhei com esse dia, não com o momento do tapa e sim o momento em que eu iria ser forte e dizer tudo que eu sempre pensei na cara dela. Como era boa aquela sensação, doce sensação de libertação. Quando cheguei na casa de Leonardo, ele estava parado na entrada, como se me esperasse, seu olhar era de confuso e triste, logo pude ligar os pontos e perceber que Dante havia falado com ele. Eu precisava consertar as coisas, não podia sequer imaginar Dante com raiva de mim. Mas se ele ficasse eu não poderia o culpar, por que eu havia falado aquelas coisas? Por que eu tinha tanta vergonha de assumir que gostava dele? Que ele era um amigo e quem sabe algo mais? Qual era o problema comigo? Dante não merecia aquilo, e por mais que eu não queira que ele me odeie, seria justo se acontecesse.— Ele está lá dentro. — Leonardo apenas disse isso e abriu a porta para eu entrar antes que eu pudesse falar algo.— Dante… eu sinto muito. — Falei assim que entrei na casa de Leonardo e o vi sentado no sofá de cabeça baixa. — Eu não queria ter dito aquilo… eu só…— E por que disse então? — Eu não sei… eu…— Você não queria que todos pensassem que você pode ter se envolvido com uma pessoa como eu. — Ele me encarou seriamente enquanto falava. — Eu sou um idiota, deixei você entrar na minha vida, roubar meu sossego, e droga, eu ainda pensei que você vale o preço de eu perder todo o sossego que eu tinha. Minha vida era perfeita sabe? Apesar dos pesares, até eu me apaixonar por você. Eu não sofria, não tinha sentimentos, e olha eu agora, estou um trapo. É como se eu ouvisse um barulho de um copo de vidro caindo no chão, mas depois me desse conta que é apenas o meu coração partido em pedaços.— Dante, por favor, me perdoa. Eu sei que eu fiz besteira, você não merecia… você é… — Uma lágrima desceu dos meus olhos enquanto eu tentava falar.— Eu sou um trouxa, que acreditou em você. É claro que você só queria me usar, olha pra você, você é rica, tem faculdade, nunca poderia ter sentimentos por alguém como eu, só o trouxa aqui que pensou isso. Não é culpa sua, você fez bem seu trabalho, me usou direitinho… alias, espero que sua história seja boa, que vire um sucesso, só assim não corre o risco de eu esbarrar com você novamente naquele bar procurando histórias para escrever. Espero que faça sucesso para eu nunca mais ter que olhar para a sua cara. Vi Dante se levantar e caminhar lentamente até a porta, parecia que cada passo que ele dava era uma facada no meu coração, um corte e doía, sangrava. Eu queria mandar ele parar, queria dizer que tinha sim sentimentos por ele, mas como eu poderia provar isso? Nem eu mesma sabia ao certo o que sentia por ele e aquele áudio que minha irmã gravou piorava mais ainda a situação. Se eu mandasse ele parar e tentasse explicar algo que nem eu entendo, iria machucá-lo ainda mais. Preferi deixá-lo sair pela porta fazendo com que eu me machucasse, do que causar ainda mais dor a ele.— Sasha… — Leonardo disse aproximando-se de mim sentada no sofá. Eu chorava agarrada na almofada, só queria que a dor no meu peito parasse. — O que foi aquele áudio? Por que você fez isso?— Porque eu sou uma idiota. — Levantei a cabeça para encarar Leonardo, as lágrimas desciam do meu rosto incessantemente. — Por que eu sempre tenho que fazer coisas erradas?— Eu não sei…— Ta doendo… mas eu preciso parar, eu prometi que seria forte.— Tudo bem desmoronar algumas vezes, o mundo aceita que você seja fraca as vezes. Não tem problema admitir que machuca.— Machuca e muito. Faz parar de doer Léo. — Abracei Leonardo ainda chorando, só queria que alguém me apertasse tão forte que meu coração parasse, só assim não doeria mais.— Eu sinto muito, não posso fazer isso. — Léo colocou a mão em meu cabelo e começou a acariciar lentamente. — Você o ama?— Não. Claro que não.— E por que dói assim? Por que te afeta tanto?— Eu não sei… amizade? Respeito? Carinho?— Eu te conheço, você tem medo de decepção. Mas amor não é uma decepção. Não é porque todos a sua volta não souberam amar que você também não saiba. — Léo segurou me rosto enquanto me falava tudo. — Para de ficar repetindo pra si mesma que não é amor, que é respeito, amizade, compaixão ou qualquer outra coisa. Você sabe mais do que ninguém que não é nada disso. Você pode tentar se enganar o máximo possível, mas você não vai conseguir mudar a verdade. Por mais que o tempo passe e você negue, você sabe que é ele. Finalmente é ele. Não, Leonardo estava errado, não era amor, eu não o amo, não amo, não amo, não amo mesmo. Isso não é amor. Eu não amo Dante, eu não o amo. Eu com toda certeza não o amo, tá escrito na minha testa que não o amo, eu picharia o prédio mais alto só para escrever que eu não o amo. Não o amo mesmo, é a verdade, eu não o amo. Repeti 500 vezes na minha mente, e em nenhuma delas era verdade.
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