Mister D
6 Capítulo 6
No dia seguinte ao meu encontro com Dante, optei por ficar em casa escrevendo alguns tópicos que colocaria na minha história. Era certo de que eu escreveria sobre suas noites no bar, seus alvos, sobre sua vida fora do bar também, a forma como tratava a pobre idosa e também sobre seu passado, mas eu precisava saber mais, me aprofundar em cada tema, saber sobre o que realmente aconteceu em seu passado, e como havia sido na prisão, mas algo me diz que ele não falaria sobre aquilo tão facilmente. Eu precisaria arrancar a força, algo que acho improvável, ou fazer com que ele se aproxime de mim, que me veja como uma amiga. Prefiro a segunda opção, apesar de também não gostar muito dela.
— Sas… Você viu o meu terninho? — Minha irmã entrou no quarto atrapalhando meu raciocínio. — Minha empresa me chamou para ser homenageada, preciso achar meu terninho. Fui uma das que mais ganhou casos no mês, já me veem como prodígio, assim como aqui em casa, não é legal?— Não, eu não vi… Como ela podia ser assim? Eu aposto que ela sabia aonde estava o terninho, só veio aqui para jogar na minha cara que era considerada uma das melhores advogadas da sua empresa. Assim como meus pais também foram na idade dela. Aquilo era angustiante, enquanto ela estava no auge da vida, com uma namorado perfeito, pais que a amam e conquistando tudo no emprego, eu estava andando com um garoto de programa para escrever sobre ele, e só depois ter a chance de trabalhar na revista, isso se gostassem da minha história. Que droga, eu sou a irmã mais velha, eu deveria estar trabalhando, sendo feliz, e minha irmã deveria seguir meu exemplo, mas está totalmente ao contrário, eu estou em busca de seguir o exemplo dela, e o pior é que não sei se vou conseguir. Quando chegou a noite, observei Dandara se arrumar pra sua festa, ela estava tão feliz e tão segura de si, fiquei pensando se algum dia eu teria aquela sensação. Depois de observar ela sair de casa sinto meu celular tremer em meu bolso, quando o pego vejo uma mensagem de Leonardo escrita de forma totalmente errada, mas que consegui ler, dizia para eu encontrá-lo no bar urgentemente, ainda tinha outra coisa escrita, mas pelo fato de estar completamente errado, não consegui identificar o que era.Cheguei no bar e me deparei com uma situação estranha, Leonardo estava no bar, sentado na cadeira com a cabeça encostada na bancada, perto de um copo vazio. Quando me aproximei notei lágrimas em seu rosto, e logo estendi minha mão para tocá-lo, ele assim que a sentiu levantou a cabeça para me olhar, e foi ai que entendi o porque das mensagens estarem escritas tão erradamente, Leonardo estava bêbado, aquele estado eu entendia muito bem. Mas ele não era assim, ele não era como eu de encher a cara para esquecer problemas, então por que ele estava daquele jeito?— Léo… o que houve meu Deus? Léo? — Cutuquei ele quando vi que logo após levantar a cabeça para me olhar ele a abaixou novamente. — Leonardo…— Eu… — Ele voltou a chorar, e permaneceu com a cabeça baixa. — Ela terminou comigo. Disse que eu não presto pra ela, mas eu fiz tudo por ela. Eu fiz… o meu tudo não é suficiente? Me pede outra bebida por favor… Eu quero ir pro hospital.— Não. Leonardo você não pode, você tem problemas com bebida, não lembra? Por favor, levanta, vamos embora, a gente conversa melhor.— Não. Eu não quero voltar. — Ele gritou comigo. Era dificil ver meu melhor amigo daquele jeito, alguém que sempre me apoiou, sempre foi bom comigo, e quando ele precisa de mim eu não posso fazer nada. Leonardo namorava uma menina ha dois anos, pra falar a verdade eu nem gostava dela, mas nunca falaria isso pra ele. Ela era mesquinha, se sentia a melhor. Quando ele a conheceu, ela era de um curso diferente do dele na faculdade, enquanto ele cursava jornalismo comigo, ela se dedicava a nutrição. Eles se conheceram por acaso, e ele logo se apaixonou por ela, lembro-me dele falar tanto sobre ela antes até de beijá-la. Mas eles eram tão diferentes, ele fazia o estilo estudioso que gosta de ficar em casa, romântico, carinhoso e bom amigo. Ela era o estilo brincalhona, matava aula sempre que a chamavam pra algo, adorava sair pra dançar e a maioria dos meninos da faculdade davam em cima dela. Eu sabia que ela iria partir o coração dele. Mas quando ele disse todo animado que ela havia dito que gostava dele eu achei que o amor poderia fazer com que opostos realmente se atraiam, o amor poderia mudar os dois para que pudessem ser suficientes um para o outro. Eu estava errada. Acreditar no amor talvez fosse um suicídio. O suicídio do seu coração.— Léo… eu estou aqui, vem comigo por favor. — Continuei a falar com ele, mas ele não me dava ouvidos. — Olha… ela não te merece…— Cala a boca. — Ele gritou e jogou o copo que estava perto dele no chão, quase atingiu meu pé. Leonardo há dois anos atrás havia enchido a cara em uma festa, ele então passou tão mal que ficou um dia inteiro desacordado, sua mãe entrou em desespero e me culpou por não impedir que ele bebesse. Ela me contou que ele sempre que bebia muito passava mal, que ele tinha um problema no fígado, ela havia explicado o que era, mas eu não me recordava, e desde esse dia ele não havia passado de três copos pequenos de álcool, eu conversei com ele, disse que não queria ficar sem meu melhor amigo e ele entendeu, parou de beber e começou a apenas me acompanhar. Foi dificil para ele no inicio, mas depois ele se acostumou e me agradeceu, disse que precisava de um motivo para parar porque ele não aguentava mais se sentir tonto e vomitar sempre.
— Ei, o que tá acontecendo? — Ouvi uma voz familiar se aproximar de nós, e quando me virei era Dante, até havia me esquecido que ele trabalhava aqui. — Você quase a acertou…— Dante. Esse é o Leonardo, ou uma parte dele né.— Seu namorado? — Dante franziu a sobrancelha quando me olhou, parecia irritado. — Não, meu melhor amigo.— O que houve com ele?— A namorada terminou com ele. Ele não era pra estar aqui, ele tem problema no fígado. E ele tá tão triste, eu não sei… — Começou a me dar desespero naquele momento, e Dante percebeu, eu havia prometido a mãe de Leonardo que cuidaria dele, e naquele momento eu estava falhando. — Não sei o que fazer, ele não… ele não pode… Léo por favor, vamos. Dante me olhou curioso, parecia surpreso em me ver desesperada. Ouvi Leonardo pedir mais uma bebida em seguida, Dante levantou a mão pro alto e fez um sinal negativo ao barman, provavelmente ele o conhecia, pois o barman guardou a bebida que Leonardo havia pedido. Ao ver aquilo Leonardo tomou impulso e conseguiu se levantar da cadeira, foi pra cima de Dante com raiva, gritou algo como “Você não me conhece, por que fez isso, devolve, manda ele botar, manda agora”. Eu tentei gritar para que Leonardo parasse, ele agarrava Dante pela camisa, Dante apenas o olhava friamente. — Não fiz por você, fiz por ela. Por mim você se afundaria nesse álcool a vontade. — Dante disse a Leonardo. — Se você quer estragar sua vida por uma garota que te deixou fique a vontade.— Você não sabe de nada. — Leonardo continuou a gritar e tentou acertar um soco em Dante, mas ele estava tão tonto que errou o alvo. — Não fala dela seu marginal.— Me chame do que quiser, nada do que você fala é real. Você está com o coração partido, eu entendo, mas você quer mesmo partir o coração da sua melhor amiga? Ela te ama. Ela não te deixou, mesmo você estando aqui bebendo, passando vergonha.— Mas eu fiz de tudo por aquela garota. Eu comprei o celular que ela queria, gastei meu salário inteiro com ele. Eu levei flores, falei que a amava todo dia…— Pra esse tipo de gente, amor não é o suficiente. Mas você deu o seu melhor cara, você cumpriu o seu papel, você esteve lá quando ela precisou, você demonstrou seu amor, você já tá sofrendo por ela, você já fez tudo que podia, agora você precisa superar. Talvez não supere hoje, nem amanhã, mas vai passar, um dia vai. Você vai achar alguém melhor que ela, porque alguém vai valorizar seus atos como ela nunca fez. Alguém vai ter medo de te perder e não vai te largar nunca, apesar dos seus erros, um dia essa pessoa vai aparecer, pode ter certeza, e você vai rir depois, vai rir de ter gastado seu tempo com essa mulher que não merecia um segundo do seu dia. Olhei Dante de outra forma naquela noite. Não estava acreditando naquelas palavras, no primeiro momento achei que eu estava sonhando, aquele não era o Dante, não parecia com ele. Aquelas palavras eram doces e esperançosas demais e ele parecia dizer aquilo pra si mesmo, não para Leonardo. Será que ele tinha a esperança de encontrar alguém que saiba de seus erros e ainda diga “eu gosto do seu errado”? As palavras de Dante fizeram efeito em Leonardo, ele deixou de segurar Dante com raiva e passou apenas a se apoiar nele. Leonardo ainda chorava, mas seu rosto mudou completamente depois do que Dante disse. Ele ainda estava mal, era visível, mas depois de tudo aquilo pareceu se tocar, e então fez a coisa mais certa a se fazer naquele momento.— Vamos embora. Você está certo. — Leonardo disse a Dante, e logo em seguida começou a passar mal, vomitou no sapato de Dante, e logo seu rosto se tornou pálido, sua boca havia perdido a cor, e eu voltei a ficar em desespero.— Léo, pelo amor de Deus, Léo… Olha pra mim, calma. — Ele havia desmaiado, Dante o segurou e eu me aproximei para segurar seu rosto. — Leonardo, fala comigo, me perdoa, eu não devia ter deixado.. Leonardo, por favor… Dante, eu…— Não foi culpa sua. Vamos levá-lo ao hospital.— Mas você não vai trabalhar hoje?— Não, vamos. Dante carregou lentamente Leonardo até meu carro e o colocou no banco traseiro, ele pediu que eu ficasse atrás segurando a cabeça de Leonardo e deixasse que ele dirigisse. Nunca havia deixado alguém dirigir meu carro, mas naquele momento confiei em Dante. E assim ele começou a dirigir, pisando no acelerador para que chegássemos rápido até o hospital. — A mãe dele vai ficar desapontada. — Falei acariciando o rosto de Leonardo, enquanto uma lágrima descia do meu rosto. — Ele cuidou tanto de mim, e quando precisou eu não pude impedi-lo.— Não se culpe. Não tem como cuidar de um coração partido se a pessoa não aceitar. É uma dor que só quem sente sabe dizer.— Você já teve o seu coração partido?— Não por uma paixão, mas pela pessoa que eu mais amava na vida sim… Quem seria a pessoa que ele mais ama? E como essa pessoa poderia ter partido seu coração? Não conseguia imaginar Dante como uma pessoa machucada, alias eu não o conhecia direito, e isso fazia com que eu pensasse apenas uma coisa sobre ele, que ele era apenas o homem que eu conheci aquela noite e que me ofereceu uma noite de prazer. Mas os dias se passavam e eu cada vez mais percebia que ele não era nada daquilo, ele poderia ser duas pessoas ao mesmo tempo. Era como se Mister D fosse um personagem, e ele era Dante, um homem machucado, desacreditado que ainda sonhava em ser amado. E se ele fosse apenas uma pessoa em busca de alguém que o livre de toda aquela angústia? Eu precisava saber mais sobre ele. Quem realmente era Dante? Quando chegamos ao hospital, os médicos internaram Leonardo e começaram a fazer seu tratamento, eu e Dante esperamos na sala de visitas. Eu agradeci e disse a ele que ele poderia ir embora se quisesse, que aquilo iria demorar. Dante disse que não, que ficaria lá comigo até ele acordar, que não era bom ficar sozinha em um hospital. Eu apenas sorri e agradeci a ele novamente.— Não avise a mãe dele. — Dante disse depois de algum tempo. — Ele vai ficar bem. E depois ele vai decidir se vai contar a ela ou não. — Mas… — Pensei melhor, acho que Dante estava certo, talvez eu não precisasse contar. — Tudo bem.— Você é uma boa amiga. — Dante disse calmamente, se aproximou de mim e logo sorriu – Você não é tão mimada sem amor quanto eu pensava.— Idiota. — Dei um tapa de leve no braço dele e sorri. — Obrigada por hoje, você foi excelente. E também não é tão insuportável o quanto eu pensava. E não é só sexo também.— O que? — Ele fez cara de espantado e logo voltou a rir. — Eu ainda queria jogar você na minha cama e te mostrar que eu posso te dar o melhor orgasmo. Mas não pense que só porque ajudei seu amigo eu serei amorzinho na cama, lá não é lugar de ser assim, lá eu te colocaria no seu lugar, ia só colocar com força enquanto ouço você gemer.— Você percebeu que está em um hospital? — Pela primeira vez eu ri das sacanagens que ele falou. — Estragou o momento.— Nós temos um momento? — Ele sorriu e se aproximou mais, o suficiente para que seu corpo encostasse no meu. — Cala a boca. — Falei retribuindo o sorriso e me virando para encará-lo, ele fez o mesmo e olhou fixamente em meus olhos. Eu me aproximei mais e o abracei. — Obrigada novamente.
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