Mister D

7 Capítulo 7


Adormeci no hospital esperando que Leonardo se recuperasse, acordei com um dos enfermeiros me cutucando dizendo que Leonardo já havia acordado e podia ir pra casa. Quando olhei para o lado não vi Dante na cadeira, achei que ele havia ido embora e me deixado lá enquanto eu dormia, mas depois de alguns minutos pensativa vejo ele vir do corredor do hospital, estava segurando dois copos de café e dois salgados. Ele me olhou e acho que percebeu que eu me surpreendi por ele ainda está lá, ele sorriu.

— Bom dia. Você não comeu nada, acho melhor se alimentar. — Ele disse me entregando o salgado e o copo de café. — Seu amigo já acordou.

— Eu sei… Escuta… — Olhei pra ele encarando seus olhos. — Te devo uma.

— Você pode me pagar de joelhos depois.

— Deixa de ser ridículo. — Sorri e comecei a comer meu salgado. Ele retribuiu o sorriso e fez o mesmo.

Assim que terminamos de tomar nosso “café da manhã” fomos ver Leonardo, ele estava bem melhor, parecia arrependido e se desculpou, disse que não valia a pena chatear todos a sua volta porque uma pessoa o chateou. Eu concordei e o abracei forte, Leonardo agradeceu a Dante e logo fomos embora, levei primeiro Dante para sua casa, ele disse que iria trabalhar mais tarde e que se eu quisesse podia acompanhá-lo pois hoje era noite de arranjar muitas mulheres, eu neguei dizendo que estava muito cansada e precisava descansar e eu realmente estava. Depois levei Leonardo pra casa, ouvi ele dar a desculpa pra sua mãe de que passou a noite na minha casa e então segui para a minha casa, queria descansar um pouco, não havia dormido direito no hospital, a cadeira era desconfortável, eu precisava no mínimo dormir a tarde inteira.

Como dito, dormi a tarde inteira, quando acordei eram 18 horas da noite, olhei meu celular e tinha uma mensagem do Thiago dizendo “precisamos conversar, me encontre na bar da esquina, vá de vestido”. Aquele “precisamos conversar” com certeza era sobre o clima da outra noite, ainda não havíamos falado sobre aquilo, alias, eu não queria nem pensar naquilo. Aquela noite foi tudo tão estranho, eu senti desejo de beijar o namorado da minha irmã, aquilo era errado, mas eu sempre fiz tudo tão errado e ele era um cara tão certo, eu não consegui evitar o desejo de atender a seu pedido e encontrá-lo no bar.

Lembrei-me de Dante dizer que hoje era dia de arranjar várias mulheres e de que hoje era a noite de baile. Onde o bar se transformava num lugar onde os casais dançavam. Aquele bar era o melhor da nossa região, todo mundo gostava de ir lá, alguns tinham datas especificas, como o baile ou a noite das amizades na qual todo mundo deveria conhecer um ao outro, eu ia no dia do álcool, o dia mais comum, onde o único objetivo era encher a cara, exatamente o que eu fazia. Era a primeira vez que eu ia na noite de baile, Leonardo havia me chamado para dançar com ele, por isso o pedido citando um vestido, aquilo com certeza não era correto, mas quando li seu nome no meu celular eu quis tanto vê-lo que não consegui negar.

Tomei um banho e coloquei meu vestido vermelho que realçava bastante minha cintura, ele tinha as costas abertas e era longo até meu tornozelo, coloquei um salto preto, passei meu perfume doce amadeirado e me maquiei para encontrá-lo. Nunca gostei muito de maquiagem, então passei apenas lápis de olho, rímel e um batom rosa bem claro. Enquanto me olhava no espelho, percebi que eu era totalmente o oposto da minha irmã. Ela adorava aparecer, caprichava na maquiagem, adorava coisas brilhosas, adorava tudo que a fizesse aparecer mais do que qualquer outra pessoa. Fiquei pensando se ela sabia que seu namorado não estaria em casa naquela noite. Pensei em qual desculpa ele havia dado a ela.

Quando cheguei no bar vi Thiago vestido com um smoking preto, ele estava incrivelmente lindo e elegante e quando me aproximei pude notar que estava cheiroso também, ele havia caprichado para aquela noite, seu cabelo estava penteado cuidadosamente. Aquilo me deixou com um sentimento estranho, além de querer agarrá-lo naquele momento, eu pensei que ele também queria fazer o mesmo. Por que se não por qual motivo estaria lá?

— Isso é errado. — Eu disse assim que me aproximei dele. — Eu não deveria estar aqui.

— Eu sempre fiz tudo certo na minha vida. Mas quando se trata de você… Eu gosto tanto da coisa errada. — Ele sorriu estendendo a mão pra mim, me convidando para dançar. — Só quero curtir a noite.

— Thiago… — Eu queria dizer que não queria ficar tão próxima a ele, mas eu também não iria mentir, então segurei sua mão e me aproximei dele, colando nossos corpos. Estava tocando uma musica lenta, especificamente dizendo era “thinking out loud”, uma musica perfeita para um romance entre casais, mas eu pensei que minha irmã sempre gostava de ser má comigo, eu não devia ligar por estar dançando uma musica lenta com seu namorado.

— Sobre aquela noite… — Encostei minha cabeça em seu ombro enquanto o ouvia falar e balançava lentamente. — Eu não me arrependo. Eu queria sim beijar você, não posso mentir. Eu não me sinto bem com a Dandara, mas com você… bem… eu me sinto tão vivo.

— Mas você é namorado dela, você não pode estar assim comigo enquanto está com ela.

— Eu não quero estar com ela mais. A menina que eu me apaixonei não existe mais nela. Talvez nunca tenha existido, eu conheci uma pessoa totalmente diferente do que ela é hoje.

— Mas ela sente algo por você.

— Não tenho certeza disso. A única certeza que eu tenho é que queria que você estivesse no lugar dela. — Ele sorriu logo após dizer aquilo e continuou. — Acho que conheci a irmã errada.

Nunca pensei que alguém um dia iria preferir a mim do que a minha irmã. Depois de anos vendo meus pais darem preferencia a ela, passei a não acreditar que alguém um dia daria preferencia a mim, e era isso que Thiago estava fazendo estando comigo naquele momento, me dando preferencia. Mas será que eu era melhor do que ela como ele achava que eu era? Ele não sabia muito sobre mim, minha irmã era tão feliz, tão confiante, tinha um emprego, era respeitada nele e considerada a melhor, e eu não tinha nada disso, não tinha um emprego, não era nem um pouco confiante, não conseguia achar algo que me fizesse ser feliz a longo prazo, minha felicidade durava pouco, muitas vezes durou apenas segundos. Será que ele aguentaria isso com alguém? Ele não poderia perceber que se enganou comigo depois de um tempo, igual aconteceu com minha irmã?

— Vamos lá fora. Tem uma coisa que quero lhe dar. Podemos dar uma volta também. — Ele falou assim que percebeu que a música chegou ao seu final.

— Não queria dançar? — O encarei sorrindo e quando desviei o olhar de seus olhos acabei esbarrando o olhar sem querer em Dante, ele estava segurando uma bebida, ele me encarou por longos segundos e depois olhou para Thiago, eu não disse nada e voltei a me virar para encarar Thiago, ignorando completamente a presença de Dante, não queria que Thiago soubesse que sou amiga de um garoto de programas. O que pensaria de mim?

— Já dançamos… Eu só quero estar com você. — Thiago disse suavemente.

— Então vamos… — Sorri pra ele e o puxei até a porta de saída do bar, queria ficar longe de Dante antes que ele viesse até nós.

Comecei a caminhar com Thiago pela rua, ela estava meio deserta, alguns minutos podíamos ver alguém passar, mas eram momentos raros, era apenas eu e Thiago andando a noite, sozinhos. O silêncio entre nós se fez por alguns segundos, até Thiago o quebrar dizendo que tinha algo pra mim em seu carro e ia buscar. Ele pediu que eu esperasse parada onde estava e foi o que fiz, vendo ele correr em direção a seu carro. Esperei poucos minutos até ele voltar, ele veio em minha direção com a mão para trás para que eu não pudesse ver o que era, e quando se aproximou o suficiente para que eu sentisse sua respiração ele mostrou o que estava escondendo. Me entregou uma única rosa vermelha. Ela era linda, a peguei com delicadeza e a cheirei, depois levantei meu olhar para ele, que me encarava fixamente como quem quisesse ver se eu reagi bem ao presente.

— Gostou? — Ele perguntou depois de alguns segundos. É claro que eu havia gostado. Nunca havia recebido uma rosa, nem mesmo do meu ex namorado. Era a primeira vez, e foi uma sensação maravilhosa.

— Claro. É linda.

— Ela é cheia de vida não é? Assim, tão vermelha… — Ele sorriu. — Mas um dia ela murcha, ela perde a cor, mas mesmo assim, as pessoas nunca param de plantar e querer tê-las em seu jardim. Não param de achá-la linda. E realmente ela é linda, talvez ela não saiba disso, mas ela é. E não é por dias ruins que ela deixa de ser linda.

Eu havia entendido a metáfora dele. Era algo para mim aquilo. Talvez eu estivesse errada, talvez ele sabia sim sobre mim, aquilo foi dito por alguém que me conhecia. Aquilo mexeu comigo, fiquei parada ali por alguns segundos o encarando sem dizer nada, ele queria dizer que mesmo com meus problemas, mesmo eu estando triste ele ainda me achava linda, e que não vão ser meus erros ou meus dramas que fariam com que ele deixasse de me achar linda. Eu precisava ouvir aquilo, precisava saber que mesmo eu não gostando de quem eu era, ou de quem eu havia me tornado, ainda existia alguém que era capaz de gostar de quem eu sou. Esse alguém era o meu cunhado, namorado da minha irmã. Esse alguém era quem eu menos esperava. Mas não é assim que as coisas acontecem? Gostamos de alguém que menos se espera.