Mister D
12 Capítulo 12
Quando a morte senta pra contar uma história não adianta tentar escapar, o que resta é sentar, prestar atenção, pegar uns lencinhos e se preparar pra chorar. É coisa rápida. A morte costuma ser rápida com seus finais. Pensei em Dante, eu precisava falar com ele, é estranho, pensar nele nesse momento, mas eu me sentia mal, seu rosto estava em minha mente, eu queria dar um ultimo abraço nele e dizer que ele era uma pessoa boa, uma pessoa que merecia tudo de bom na vida, que ele precisava sair dessa vida porque ele merecia coisa melhor, merecia mais do que aquelas mulheres vazias que afogam as mágoas com ele. Ele merecia uma mulher para estar ao seu lado todos os dias, não apenas na cama de um quarto numa sexta a noite.
Quando você sofre um acidente você sente medo de morrer, sente medo de deixar tudo acabar do jeito que está, e eu não queria morrer, não por causa dos meus pais, depois de tudo que haviam me dito, aposto que ficariam feliz em saber que eu morri, iriam acabar as decepções, eles só teriam uma filha, a filha perfeita que todos amam que só trás alegria. Eu não podia deixar isso acontecer. Eu não podia dar essa felicidade a eles, então eu precisava acordar, não era hora de ir embora, eu precisava voltar, para falar com Thiago, Dante, para dizer aos meus pais que eu quero que eles esqueçam que sou filha dele, eu tomei minha decisão, não podia ser tarde demais, eu ia embora, não me importa para onde, só iria sair do inferno que eu já chamei de casa um dia. Fui abrindo meus olhos aos poucos, ainda sentindo muita dor, senti minhas mãos arderem, virei lentamente meu olhar para baixo e vi Thiago, apoiado na minha cama de cabeça baixa dormindo, me surpreendi com a presença dele. Fiz um esforço e subi meu olhar para o relógio que estava na parede, não consegui enxergar muito bem as horas, então tentei deduzir, pude perceber que já era madrugada, entre 3 e 4 da manhã, por isso Thiago dormia, deve ter ficado bastante tempo comigo. Eu sentia muita dor naquele momento, pude ver vários curativos pelo meu corpo, mas nada quebrado, ainda bem, conseguia mexer tudo com esforço por causa da dor e dos remédios. Fiz força e levantei minha mão, levando-a até a cabeça de Thiago, acariciei seus cabelos e depois de alguns segundos ele levantou a cabeça rápido se assustando. Assim que me viu acordada ele abriu um sorriso enorme, feliz ao ver que eu estava bem.— Desculpe, queria estar acordado quando visse você acordar. Mas não durmo há um dia. — Ele disse levando sua mão até a minha. — Como você está?— Estou bem… Um dia? Que dia é hoje?— Hoje é quarta. Você ficou um bom tempo desacordada.— Ai meu Deus… o que foi que eu fiz? Eu poderia ter morrido. Mas é que eles afetam tanto a minha mente sabe? Machuca ouvir aquelas coisas, eles são meus pais, apesar de tudo, eles são.— Eles não deveriam falar aquelas coisas pra você. Nenhum pai fala aquilo para a filha, não sei qual o problema deles… — Thiago balançou a cabeça negativamente. — Mas você é forte, você vai superar isso.— Eu acho que já superei, não vai doer mais. Eu preciso parar de deixar as coisas me abalarem tanto, acho que a vida mesmo me dá sinais de que preciso parar. — Falei me lembrando do que tinha acontecido na noite da homenagem com a minha irmã e agora um acidente em que eu quase morri. — Eu to sempre dizendo que preciso crescer, mas acho que não sei como crescer e deixar o amor de lado.— O amor deles não vale nada, talvez você precise de um amor sincero.— Quem sabe um dia eu possa ter. — Thiago acariciou minha mão.— Eu preciso me desculpar também… — Ele abaixou a cabeça, evitando me encarar. — Quando Dandara contou sobre seu envolvimento com aquele cara eu surtei, eu queria brigar com você, mas você fez por uma boa causa, pelo seu sonho, então por mais que eu não goste de você com ele, eu te digo para não desistir. — Eu não irei, e tá tudo bem. Acho que eu mesma me julguei por ter entrado nessa. Eu mesma disse pra mim que aquilo não era nada bom, mas eu estava errada. Conhecer Dante foi algo bom, me arriscar foi bom, conhecer você também, agora eu vou sair de casa, não quero estar perto daquelas pessoas.— Sim, você está certa. Se quiser você pode ficar comigo, eu ia adorar estar com você todos os dias.— Não posso aceitar isso, preciso me virar sozinha dessa vez. — Esbocei um sorriso para ele. — Mas me diz, como Dandara descobriu sobre ele?— Ela te seguiu, se escondeu, armou todo um plano para parecer que não estava em casa. Ela contou que ouviu você dizer sobre as coisas com ele, e ouviu ele dizer que ele era um garoto de programa que só queria o dinheiro das mulheres, que explorava até uma velhinha.— Ela é boa nessas coisas, em armar. Ela é esperta. Mas ela mente também, não foi exatamente isso que ele disse. Disse algo parecido, mas Dante não é assim.— Sim, ela é. Foi por isso que terminei, não gosto de pessoas assim, eu gosto de você, você é diferente.
— Thiago. — Dei uma pausa — Por que está aqui? Você deveria ter ido descansar.— Eu quis ficar com você. Pensei em avisar seus pais também, mas deixei a decisão pra você. E também porque acho que só eu deveria estar aqui, somente pessoas que se importam de verdade com você, que tem sentimentos por você. Eu realmente gosto de você, e dormiria dias num hospital se precisasse. Sorri ao ouvir ele dizer aquilo e ele retribuiu, em seguida ele aproximou lentamente seus lábios dos meus, como eu não conseguia levantar ainda por causa das dores, ele inclinou seu rosto sobre a cama, aproximou seu lábios e me beijou calmamente. Seu beijo era suave, cuidadoso, como quem não quisesse me machucar, era bom e carinhoso, como se eu sentisse suas palavras ditas anteriormente sendo demonstradas pelo toque de seus lábios.
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