Aprendi que nem tudo são flores, nem todos os dias têm sol. Mas não há tristeza que não passe, nem felicidade que dure para sempre. Demorei, mas finalmente aprendi, finalmente entendi que eu não podia deixar a vida me abater tanto, por mais que esteja tudo ruim, que tudo se desmorone, que isso dure tanto tempo que você pense que nunca vai passar, vai passar sim, pode acreditar, como dizem, sempre passa. Eu sou prova viva disso, uma pessoa desacreditada, que tudo dava errado, que se abala por muitas coisas, uma pessoa que sofre, como todas as outras. Mas agora isso ia mudar, eu ia me mudar, sair do lugar que me fez tão infeliz, sair de casa, sair de perto dessas pessoas que não acrescentavam em nada. Quando sofri o acidente, depois de acordar e beijar Thiago, eu orei para Deus e fiz um pedido. Pedi que a vontade dele fosse maior do que a minha e pedi que me desse um sinal, um sinal de que era a coisa certa sair da minha casa. Pude sentir uma felicidade tomar conta do meu coração quando fiz a oração, me fazendo crer que era o caminho certo a seguir.
Como poderia não ser? Aquelas pessoas não eram pessoas que deveriam estar comigo. Quem deve estar é quem realmente gosta de mim. Então eu sabia que era a coisa certa a se fazer. Eu ia passar um tempo na casa do Leonardo, ele disse que como só moram a mãe dele e ele sempre teve um espaço sobrando na casa, além do mais eles tinham um sofá cama, não seria dificil eu me acomodar. Era um grande favor do meu melhor amigo, um favor que iria mudar a minha vida completamente. Algo que muda minha vida para melhor não podia faltar o Leonardo, ele sempre esteva presente nesses momento e dessa vez não seria diferente.
Demorei um dois dias no hospital, e quando finalmente saí estava com alguns curativos de arranhões, ralados e cortes ainda pelo corpo. Quando entrei em minha casa que em breve passaria a não ser mais, meus pais me olharam espantados e perguntaram o que havia acontecido, eu apenas olhei para eles friamente e continuei a seguir meu caminho até meu quarto, ignorei-os completamente. Tranquei a porta do quarto quando cheguei nele, queria sossego e já não conseguia mais olhar para a cara deles, então comecei a arrumar a mala rapidamente, queria sair o mais rápido possível daquele lugar que um dia eu chamei de lar.
Enquanto eu arrumava, ouvi meus pais gritarem por um longo tempo e baterem na porta pedindo que eu a abrisse, novamente ignorei e não respondi nada, depois de alguns minutos eles finalmente cansaram e pararam de tentar algum diálogo comigo. Eles não haviam percebido que eu estava com raiva e que não queria saber deles na minha vida mais, aquilo não era uma família para mim, nunca havia sido, a família ali era só os três, eu estava sobrando e precisava sair de lá. E quer saber? Aquilo não me afetava nem um pouco, não mais.
Depois de um tempo cheguei a casa de Leonardo. Quando terminei de arrumar minhas malas chamei um táxi e vim para cá. Meus pais olharam e fizeram milhões de perguntas que eu novamente não respondi. Eu estava livre agora, finalmente aconteceu. Uma vez eu li que quando você tira as coisas ou pessoas ruins da sua vida, a vida passa a dar certo. E eu acreditava fielmente nisso, depois de hoje eu tinha fé de que tudo seria perfeito, que a partir de hoje eu ia escolher meu destino, eu não ligaria mais para o que meus pais pensam, e se eles amam tanto a Dandara, a acham tão perfeita, aproveitem a vida toda somente com ela e esqueçam que já tiveram outra filha.
— Léo, a campainha tá tocando. — Falei enquanto arrumava um lugar para colocar minha mala assim que escutei a campainha tocar.
— Abre para mim, eu disse para ele que você estaria aqui e mandei o endereço. — Leonardo me respondeu.
Quando fui abrir a porta, o primeiro nome que veio em minha mente era o de Dante. Era o único que poderia ser, ele e Leonardo haviam se falado bem depois daquela noite, agora eles conversavam pelo celular, trocavam comentários sobre mim e diversas outras coisas, eu estava estranhando essa amizade, mas talvez não fosse ruim. E lá estava Dante, parado na minha frente assim que abri a porta.
— Podemos conversar? — Ele disse enquanto encarava meus olhos.
— Sim…
— Sinto muito pela forma como falei com você.
— Não entendi muito bem também, você estava estranho. — Falei fechando a porta, como não era minha casa preferi conversar com ele do lado de fora. — O que aconteceu?
— Eu não tinha entendido também o porque de eu estava tão irritado, mas depois eu comecei a perceber que era ciúmes. Ver seus olhos brilharem ao ouvir que Thiago não pediu seu dragão chamado irmã em casamento fez eu me sentir mal.
— Ciúmes? Desde quando você tem ciúmes de mim?
— Eu não sei. É novo pra mim também.
— E o que você quer aqui? Veio tão longe só se desculpar?
— Na verdade queria sexo. Sexo contigo deve ser muito bom.
— Para de besteira… — Soltei uma risada baixa. — Podia ter me ligado.
— Você devia sorrir mais, é lindo quando você sorri. — Ele sorriu para mim, parecia nervoso. — Não vim só para isso. Estou só descontraindo, não sei como falar o que tenho para dizer…
— Tente…
— Eu gosto de você… é estranho, eu sei, é estranho até pra mim porque eu enjoo de tudo muito rápido, e não to enjoado de você. Eu sei que eu tenho defeitos, os piores, eu sei que eu sou diferente de quem você sonha pra sua vida. Sou chato, grosso, to sempre mudando de humor, você vai ter que me aguentar. E eu sei que você possivelmente gosta daquele mauricinho, mas eu precisava tentar, se não eu nunca me perdoaria – Ele deu uma pausa parecendo aliviar um peso enorme. — Mas eu sei também que você precisa de amor, e eu tenho. Entre todos os meus defeitos minha melhor qualidade, talvez a única, seja ter me apaixonado por você.
Quando ouvi aquilo não consegui me mexer, nem se quer falar nada, fiquei apenas ali parada olhando para ele, tentando entender se eu estava sonhando ou se aquilo era mesmo verdade. Nunca ninguém havia se declarado daquela forma para mim, eu não sabia o que dizer, como reagir. Era Dante, o garoto que saia com várias mulheres algumas noites em troca do dinheiro delas, era ele ali, parado na minha frente, dizendo estar apaixonado por mim. Apaixonado por mim mesmo depois de dormir com milhões de mulheres. Ele era a minha história, não podia estar apaixonado por mim, não tinha nada a ver eu e ele juntos, não era dessa forma que tinha que ser, não era isso que eu sentia por ele.
— Fala alguma coisa por favor. — Dante falou depois de alguns segundos em silêncio, que para ele devem ter parecido séculos.
— Dante… eu… não… — Eu realmente não sabia o que falar. — Eu…
— Eu sei que você tem algum muro protegendo seu coração... E eu vou pular ele. Talvez você não esteja apaixonada por mim, mas eu preciso que me dê uma chance.
— A questão não é essa, a gente não tem nada a ver…
— Você acha que eu não sei disso? Isso me faz ficar mais maluco ainda. A gente não foi feito um para o outro, eu tenho noção disso, não temos absolutamente nada em comum. Você curte o dia, eu aproveito a noite, mas agora quero aproveitar o dia e a noite com você.
— Dante… para… você sai com muitas mulheres todas as noites… pode estar carente de um carinho, se enganando, isso vai passar, muitas mulheres virão e você vai ver que isso tudo ai que disse foi muito doido.
— Não, não é isso. Eu até conversei com o Leonardo, ele sabe. E eu não quero que passe, eu quero que seja você, quero que acabe essa coisa de "outras virão", quero brigar com o destino e falar que não haverá outra. — Ele se aproximou de mim nesse momento e segurou a minha mão, ficou encarando meus olhos por longos segundos antes de continuar. — Poderíamos brigar juntos, poderíamos ser só nós dois, poderia ser pra sempre.
Aquele era mesmo o Dante? Falando daquele jeito todo carinhoso e apaixonado. Por que ele havia se apaixonado por mim? O que eu tinha feito para ele ter esse tipo de sentimentos por mim? Nós não temos nada a ver, qual o problema dele? Nunca ficaremos juntos, não tem como, ele era a minha história, eu estava escrevendo sobre os programas que ele fazia com mulheres ricas e solitárias, será que ele tinha noção disso ou havia esquecido o que ele era? Como eu poderia ter sentimentos e querer ficar ao lado de alguém como ele? Sim, ele havia se tornado um ótimo amigo, ele era uma boa pessoa, disso eu tinha total certeza, mas um relacionamento? Aonde ele está com a cabeça? Isso nunca vai acontecer, as coisas estão finalmente se acertando na minha vida, não posso cometer nenhuma burrice, e o que as pessoas vão pensar quando me perguntarem aonde eu conheci meu namorado e eu responder que foi fazendo programa em um bar. Não, sem chance, eu nunca iria sentir nada por Dante e ele não deveria sentir por mim, eu precisava avisar a ele antes que fosse tarde, se é que não era.
— Dante, eu não sinto o mesmo. Você pode ser meu amigo, ser tudo o que você quiser, só não me ame. Não me ame nunca. É um conselho que eu te dou, porque eu não sinto nada mesmo por você e nunca vou sentir. Eu gosto de você como amigo porque você tem um bom coração, eu sinto muito, mas não consigo sentir nada além disso. Nunca vou sentir, eu tenho certeza e acho melhor você ter essa certeza também para não correr o perigo de se iludir de alguma forma. Porque eu e você, nunca vai acontecer.
Tentei ser o mais sincera possível, menos pelo fato de esconder que eu nunca gostaria dele pelo fato de achar nojento o que ele faz, isso eu não podia falar porque o deixaria mais triste ainda. E eu não quero vê-lo triste, jamais vou querer. Ele é um dos motivos de eu estar melhor agora, ele esteve comigo quando eu precisei, eu jamais esqueceria isso, jamais esqueceria a pessoa que ele era.
Assim que falei aquilo Dante me encarou com um olhar triste, pude perceber que aquilo havia doído nele e senti uma pontada em meu peito, ele acenou com a cabeça e foi embora sem falar mais nada. Ver ele caminhando lentamente enquanto ia embora fez com que eu me sentisse muito mal, queria correr até ele e dizer o quanto eu sinto muito por ele ter gostado de mim, não era para isso acontecer, agora eu havia o magoado e as coisas ficariam estranhas entre nós. O dia de entregar minha história estava chegando e o personagem principal estava apaixonado pela autora, como eu posso lidar com toda essa confusão?
Quando chegou a noite ouvi meu celular vibrar sobre o sofá onde eu estava deitada, era uma mensagem de Thiago, ele perguntou aonde eu estava, eu respondi que estava na casa do meu melhor amigo, ele respondeu com um “hum” parecendo ciumento e logo depois pediu o endereço para que pudesse vir me ver. Eu sorri ao ler a mensagem, pensei se existia pessoa mais atenciosa e perfeita que o Thiago. Logo passei o endereço para ele e subi para o quarto para tomar um banho antes que ele chegasse.
Depois de algum tempo Thiago chegou, sai da casa de Leonardo e pedi que Thiago me acompanhasse em uma caminhada pela rua. O bairro onde Leonardo morava era muito tranquilo, parecia até interior, havia algumas pessoas andando pela rua, não tinha bares, as ruas eram limpas, com casas bonitas, e em alguns pontos haviam até bancos para as pessoas sentarem se quisessem, e foi exatamente neles que eu e Thiago nos sentamos.
— Antes de você falar qualquer coisa preciso fazer isso… — Thiago começou dizendo e logo segurou meu rosto com suas duas mãos puxando-o para mais perto do seu, em seguida ele me beijou carinhosamente e cheio de desejo.
— Nossa… — Falei assim que terminamos de nos beijar. — Por que isso?
— Estava com saudades de te beijar. Não podia esperar nem mais um segundo.
— Você é um carente. — Brinquei com ele e dei uma mordida leve em seu queixo. — Como vou lidar com isso?
— Ah vai ter que aguentar… você aguenta tudo? — Ele perguntou maliciosamente. Não sei porque, mas aquilo fez eu me lembrar de Dante.
— Depende do seu tudo…
— Ó, depois não quero chorando. — Ele riu e me abraçou em seguida. — Ta cheirosa.
— Já sei, tava com saudades do meu cheiro também?
— Sinto saudades de você toda, vem cá.
Thiago novamente me puxou e me beijou, dessa vez mais calmo. Fechei meus olhos e correspondi a seu beijo, mas algo estranho aconteceu enquanto sentia sua língua brincar com a minha. A imagem de Dante veio na minha mente, era como se eu estivesse beijando ele naquele momento e não Thiago. Será que eu tinha algum sentimento pelo Dante? Não, que coisa ridícula, esse pensamento nele era só pelo que aconteceu mais cedo, com certeza.
Terminamos de nos beijar e quando abri meus olhos mais uma surpresa, encarei Thiago e vi outra pessoa no seu lugar, vi Dante. Não sei se aquilo era possível, ver o rosto de uma pessoa no lugar do de outra, era meio louco, me assustei realmente, e Thiago percebeu, perguntando o que houve. Eu não respondi, fiquei olhando para ele ainda assustada, não era Thiago que eu estava vendo, eu via Dante, com seus olhos azuis me encarando profundamente. Que loucura era aquela? Eu enlouqueci? Sacudi a cabeça em seguida e finalmente pude ver Thiago novamente.
— O que houve? Ta se sentindo mal? — Thiago disse tocando meu rosto.
— Não… é… sim… to meio enjoada, podemos voltar pra casa do Léo?
— Sim, não quer um médico? Posso fazer algo?
— Não, é só cansaço mesmo, da viagem, preciso descansar.
— Tudo bem.
Voltei para casa junto com Thiago e me despedi dele com um selinho demorado. Talvez eu estivesse mesmo cansada, vendo coisas e tudo. Eu precisava dormir, e foi exatamente o que eu fiz, arrumei meu travesseiro e cobertor no sofá e deitei para dormir e esquecer uma parte do dia de hoje. Não a parte que me mudei de casa, essa parte era para ser lembrada eternamente. A parte a ser esquecida era que Dante estava apaixonado por mim e teve a coragem de vir me dizer, e a outra parte era eu pensar tanto nisso a ponto de ver o rosto dele. Isso era normal?
Era Thiago quem eu queria, eu não podia ver o rosto de Dante no lugar do dele. Thiago deveria ser minha única atenção. Talvez eu esteja exagerando, talvez meu cérebro pregou uma peça só para eu me lembrar daquele momento ruim com Dante. Momentos ruins que não me abalavam mais. Eu tinha aprendido finalmente que quando você encontra as pessoas certas, qualquer momento fica bom, qualquer tristeza sai correndo e qualquer desânimo desaparece. Quando encontramos nosso lugar, não importa o que está acontecendo no mundo, o resto vira apenas resto e aquele momento se torna único. Encontrei Thiago, e passei a entender tudo.
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