Missão 01

3 Capítulo 3


- Sr. Mattew Haworth, favor retornar para seus aposentos.

A voz saíra de alguma caixa de som que não estava visível, isso era certo. Não era uma voz natural, parecia algo automatizado, como a voz de um androide, o que era estranho. Androides com inteligência artificial desenvolvida o suficiente para falar eram bem caros, mesmo naqueles dias. Realmente não eram o tipo de coisa que se costuma encontrar numa nave de bases de Marte, onde o orçamento era o mínimo possível. Mattew não tinha certeza se essas informações eram precisas, porém acreditava que era algo assim. Um androide o mandara voltar para seus aposentos. Ele tinha duas opções. A mais sensata era obedecer, entrar de novo naquele quarto caótico. A segunda parecia mais atraente, apesar de mais louca, e foi o que fez: Se levantou e saiu andando numa direção aleatória pelo corredor, ignorando completamente o pedido.

- Sr. Mattew Haworth, retorne para seus aposentos.

Agora não era mais um pedido, era uma ordem. Mattew continuou andando. O corredor se extendia, sempre igual, e agora não poderia mais voltar nem se quisesse — todas as portas eram idênticas, não havia como saber qual era a de seu quarto. E o corredor continuava, com as mesmas luminárias, o mesmo chão de madeira, o mesmo forro de veludo vermelho nas paredes, tudo tão igual que o desnorteava. Por mais que andasse, não chegava no fim. Tudo era sempre igual. Estava preso num labirinto e teria de abrir uma porta caso quisesse sair. Contudo, como saberia qual porta o levaria à saída? Será que havia uma saída ali? Por quê o androide parara de chamar? Mattew parou de andar e ficou parado na frente de uma porta, respirando fundo. Aquela confusão toda estava deixando-o com dor de cabeça e assim não conseguia pensar. Era a única coisa que poderia fazer agora e não estava conseguindo. Resolveu abrir a porta. Vermelho. O vermelho estava perturbando sua mente. Muito vermelho. Sangue.

Ele era pequeno, muito pequeno. Tinha de erguer o rosto para ver as estranhas pessoas à sua volta. Não fazia ideia de onde estava e o lugar o assustava muito. As pessoas passavam sem se importar com ele, apenas empurrando-o de um lado para o outro. Alguém mandou-o sair do caminho. Mattew não conseguia sair do caminho. Ele não sabia o que era o caminho e o que não era, talvez mesmo que soubesse não conseguiria sair, no meio de toda aquela gente. Homens e mulheres de várias idades, até mesmo pessoas pequenas, como ele. Crianças. Olhou para as próprias mãos. Elas tremiam de medo do desconhecido, medo, uma sensação que ele não sabia descrever e não queria sentir nunca mais. Medo. Olhou as pequenas manchas nos cantos de seus dedos, manchas vermelhas de um líquido espesso. Tentou ver as roupas que usava. Uma camiseta que outrora fora branca. Naquele momento, sua camiseta, assim como suas mãos, estava coberta do líquido vermelho. Não se lembrava de como aquilo fora parar ali. Não se lembrava de nada. Seu nome era Mattew, ou pelo menos acreditava nisso. Ergueu o rosto mais uma vez para as pessoas estranhas que passavam e sentiu a visão escurecer lentamente, seus joelhos cedendo, e caiu de cara no concreto áspero, soltando apenas um suspiro de surpresa.

- Ele não quer acordar. — Ouviu alguém falar, a voz da pessoa parecendo abafada, porém lentamente ficando mais clara. Parecia ser a voz de um garoto. Talvez alguém da idade dele. Se perguntasse, será que aquela pessoa poderia responder todas aquelas perguntas que estavam atormentando-o? Provavelmente, nem todas, mas ao menos uma... Tentou abrir os olhos, sem sucesso. Sentia o própio peito se movimentando na respiração, o coração batendo, e nada mais. Seus braços pareciam estar amarrados ao lugar onde repousava, assim como suas pernas. Nada lhe obedecia.

- Ou talvez ele esteja acordado, mas não consiga se mover. — Agora a voz era de uma garota. Uma garota! Imediatamente sentiu um leve arrepio percorrer o corpo. Nunca falara com uma garota, nem estivera próximo o suficiente para ouvir a voz de uma tão claramente. Mesmo assim, tinha certeza que era uma garota. Não conseguia definir se o arrepio fora de temor ou de animação, contudo ficou contente de receber resposta de alguma parte de seu corpo. Se bem que não queria abrir os olhos para ver a garota. A ideia o assustava. Ensinaram-lhe na Base que as mulheres seriam suas superiores, mandando em seu trabalho nas naves, e nunca deveria haver qualquer tipo de interação além da profissional entre eles. Sua curiosidade não estava conseguindo vencer seu nervosismo naquele momento.

- Choque psicológico? — Uma terceira voz perguntou, novamente parecendo ser de um garoto, porém um garoto diferente. Essa voz era mais grossa do que a primeira, e mais baixa. De algum modo, era reconfortante. Mattew nunca ouvira uma voz grossa como aquela falar num tom que não fosse para debochar dele ou dar-lhe uma bronca. Sentia-se mais relaxado ao notar uma leve preocupação. — Não sei se tenho como ajudar nisso.

- Só jogue agua na cara dele. — A garota riu, dando alguns tapas em algo que parecia ser de madeira pelo som. — Se não acordar, desistimos. Bem que eu achei estranho alguém conseguir resistir aos sedativos... e ainda ter a sorte de andar até o nosso quarto.

- Talvez ele tenha te ouvido rindo e resolveu entrar pra procurar ajuda, Liene. Ou pra tentar matar o demônio. — O dono da primeira voz falou num tom debochado, mas mesmo assim não parecia estar querendo ofender. Mattew conseguia sentir que aquelas pessoas eram ligadas umas às outras de um jeito mais forte do que qualquer ligação que ele já tivera. Eram ligadas ao ponto de falarem mal umas das outras apenas por brincadeira, sem ter a intenção de ofender. Ele também queria pessoas que fossem assim com ele. Pessoas que poderia chamar de amigos. Novamente, quis abrir os olhos. Dar um sinal de que estava ouvindo e que queria participar da conversa, apesar de não saber o que falar.

- É possível que ele acorde caso joguemos água, mas pode acordar com medo de nós. Ele era da Base 8, afinal. Eles são criados tão isolados do resto do universo que podem se assustar com qualquer coisinha que não faça parte do mundinho que conhecem.

- Liene. Rodrick. Quietos. — A terceira voz sibilou e os outros dois imediatamente obedeceram. Mattew sentiu um impulso de engolir em seco. Quem quer que fosse aquele garoto, tinha um certo poder, como se estivesse numa posição mais elevada. — Ele está nos ouvindo. Veja o rosto dele com atenção. Os músculos estão se contraindo e não é involuntariamente.

- Sinceramente, Weiss, como você consegue saber essas coisas? — Liene reclamou.

- Porque eu sou como ele. Mattew Haworth... foi isso que o sistema disse. Ele também é um intruso.