Missão 01
4 Capítulo 4
Notas iniciais
- Porque eu sou como ele. Mattew Haworth... foi isso que o sistema disse. Ele também é um intruso.
- Não. — Mattew surpreendeu a si mesmo ao falar. Sua voz, que quase nunca era usada, saíra rouca e baixa. As peças lentamente iam se encaixando em sua mente. Ele tinha alguma coisa em comum com aqueles três, isso era certo. Provavelmente fora recolhido como eles de sua base. Apesar disso, nunca tinha ouvido falar daquele tal de Weiss. Nunca tinha ouvido sua voz antes e, se abrisse os olhos e o procurasse, duvidava muito que já o tivesse visto. Não, Mattew não conhecia aquele garoto. Como os dois poderiam ser intrusos, então?
Contudo, pouco depois de dizer aquilo, enquanto os outros ainda olhavam-no estupefatos, já que não esperavam que ele estivesse ouvindo, muito menos que falasse, pensou sobre aquele devaneio que tivera quando abrira a porta. Que lugar era aquele? Não haviam lugares assim nas Bases, ou ao menos não na Base 8. E todos os que estavam ali passaram suas vidas inteiras naquelas bases. Da Base 1 ou 2, onde ficavam desde bebês até os quarto anos, para a Base 3 ou 4, onde ficavam até atingirem idade o suficiente para serem separados e enviados para as Bases de 5 a 8, onde ficavam até seus 18 anos, quando se formavam e iam trabalhar nas naves cargueiras. Não havia, em hipótese alguma, um lugar onde uma cena como aquela poderia acontecer. E ele tinha certeza de que aquilo era uma memória há muito perdida. Mattew nunca gostara de estudar a respeito de civilizações. Cidades com muitas pessoas são caóticas demais para agradar sua mente sensível a problemas. Na verdade, o próprio fato de se incomodar com multidões era estranho, caso tivesse sido criado com todas aquelas outras pessoas. A única conclusão que podia chegar era que o tal de Weiss tinha razão. Ele era um intruso. Fora jogado ali em algum momento e memórias falsas foram implantadas nele.
- Ou sim. — se corrigiu, após pensar melhor.
- Ele fala! — Liene parecia estar genuinamente surpresa. — Achei que gente da Base 8 só sabia "pegar caixa, carregar caixa, soltar caixa"!
- É claro que eles sabem falar, Liene. — Rodrick retrucou, mas ainda assim parecia hesitante. — Como eles entenderiam os comandos se não falassem? Quero dizer, pelo menos eles entendem linguagem humana...
- Eu já disse. Ele não é da Base 8! E você, Liene, deve ter esquecido que todos são criados juntos até os 10 anos de idade. Os que vão para a Base 5 e os que vão para a Base 8. Me diga que criança de 10 anos não sabe falar. — Weiss bufou e depois se dirigiu a Mattew, que engolira em seco, repentinamente temeroso. — Mattew. Abra os olhos.
E assim ele fez. Imediatamente foi ofuscado pela luz do ambiente e os fechou novamente, demorando para voltar a abri-los e esperar se acostumar. Assim que ouviu a risada de deboche da garota, sentou-se e olhou para ela. Liene era maior do que ele esperava. Uma garota alta, forte, com feições nada delicadas e postura nada feminina. Cabelos loiros, curtos e espetados, e olhos castanhos acinzentados. Poderia até mesmo duvidar que ela era uma garota caso não soubesse muito bem que homens não tinham seios. Depois, olhou para os outros. Não sabia dizer qual dos garotos era Rodrick e qual era Weiss só de olhar. Não, pensando melhor, Weiss parecia ser mais sério que Rodrick, então este deveria ser o que estava apoiado na parede, com um sorriso enorme no rosto. Chegava a doer no rosto de Mattew ver alguém sorrindo tanto. Rodrick era tão alto que conseguiria tocar o teto sem nem esticar o braço. Usava o cabelo preto num corte militar e tinha olhos tão negros quanto o cabelo. Sua pele era morena, um tom que Mattew considerava agradável. Só depois de registrar muito bem os dois, resolveu prestar atenção em Weiss.
Ficou boquiaberto. Weiss era mais alto que Liene e menor do que Rodrick, porém algo em sua postura fazia com que parecesse maior e mais poderoso, exigindo respeito. Os cabelos eram castanho-claros, ou poderiam ser considerados loiro-escuros, não tinha certeza disso. O que mais chamava atenção eram os olhos assustadoramente claros de Weiss. Como se tivessem sido pintados bem de leve por um lápis verde. Aqueles olhos estavam fixos nos olhos de Mattew e pareciam poder ver através dele, penetrando sua mente e entendendo-o melhor do que ele próprio era capaz. Liene era realmente forte e Rodrick era realmente grande, entretando o mais amedrontador do grupo era, de longe, Weiss.
- Perdeu alguma coisa no meu rosto, Mattew?
- N... não. Desculpe. — Mattew nunca sentira a voz vacilar tanto. Quando tentara falar, as palavras simplesmente sumiram de sua mente normalmente tão cheia delas. Desviou o olhar para Liene, que começara a rir inexplicavelmente.
- Esse garoto..! Ele é tão pequeno! Eu tinha reparado nisso antes, mas agora está mais visível! Quantos anos ele tem? Doze?
- Não exagere. — Rodrick se segurava para não rir também. — Ele não parece ser novo, só é baixinho.
- Calem a boca, vocês dois, e parem de rir. — Weiss rosnou para eles e imediatamente os dois pararam. — Perdoe nossa falta de educação, Mattew. Vejo que você não é muito de falar... — enquanto dizia aquilo, apoiava-se na cama ao lado dele, e abria um ligeiro sorriso — Deve ser de pensar. Pode compartilhar conosco um pouco do que se passa na sua cabeça nesse momento?
- Claro. — Mattew olhou em volta mais uma vez. Liene, mais forte e descontraída do que as garotas costumavam ser, mesmo rindo de coisas que o deixavam desconfortável. Rodrick, seu sorriso enorme e caloroso, seu bom-humor. Weiss. Tinha tantas coisas para pensar a respeito de Weiss. Como ele era mais misterioso do que todo aquele lugar. Como ele conseguia chegar a conclusões tão facilmente e sabendo tão pouco. Weiss era mais magro que Rodrick e Liene. Não parecia ser fisicamente fraco, todavia não possuía músculos proeminentes. Todos os que viviam nas Bases eram visivelmente fortes. Na Base 8, o único que era franzino era Mattew. Weiss dissera "eu sou como ele" se referindo a Mattew. Dissera "Ele também é um intruso". O que queria dizer que por si só chegara a conclusão de que havia algo de muito errado ali. Liene, diferente. Rodrick, diferente. Weiss, muito diferente. Mattew... também muito diferente. Achou a ideia insana quando ela tomou forma, porém não havia outra explicação. Aquilo devia ser a verdade. — Eles estão recolhendo falhas.
- Como assim, falhas? — Liene sorriu, interessada, ao mesmo tempo que Weiss confirmava afirmativamente.
- Falhas, Liene. Aqueles que deram errado. Só que eu ainda não entendi como, Weiss. E também não entendi como você e aquele ali perceberam isso enquanto eu só consigo pensar num peixinho dando voltas num aquário. — Rodrick levantou uma sobrancelha, intercalando olhares entre Weiss e Mattew.
- É óbvio. Isso sempre me incomodou, mas como eles reuniriam tantas crianças nas bases? Será que existem tantos pais dispostos a simplesmente largar os filhos? Eles nunca mais os veriam de novo. Além do mais, estamos na era da mais alta tecnologia! Por que temos que ter pessoas trabalhando em naves cargueiras enquanto robôs fazem nossa comida? Então eu cheguei nesta conclusão. É mais barato plantar, colher e dar de alimentar do que extrair minérios que um dia se esgotam. Fazer uma terra infértil virar uma plantação exuberante não é nada com a tecnologia desses dias. Agora, como ter certeza de que essas pessoas que estão treinando vão executar perfeitamente o trabalho e não vão se rebelar? Simples. Alterações genéticas. Fazem um "biotipo", forte e que não questiona nada, sempre focado no trabalho. E o único jeito de ter uma legião de pessoas com essas mesmas características é criando elas em laboratório. Vocês, Liene e Rodrick, deram errado em algum ponto. Liene não é nem um pouco focada no trabalho e não adianta negar que você mesma sabe disso. — Weiss olhou ameaçador para Liene, fazendo uma pausa em seu discurso — E Rodrick, você questiona. Pode não questionar muito, mas pensa muito mais do que a maioria e isso pode ser um problema para eles. Fora que nem o melhor dos planos tem 0% de chance de falha. Era óbvio que algumas falhas iam ocorrer. Para evitar que ocorram de novo, precisam examinar essas falhas, assim podem corrigir o que deu errado. O que acha, Mattew?
- Eles não deveriam pintar uma parede de azul claro. — Mattew murmurou, olhando para a parede. Perdera a concentração logo no começo do que Weiss estava falando e começara a devanear sobre a composição do quarto — Quase não dá para notar que é azul e não branco. Apesar de que ainda é melhor do que meu quarto. Aqui não tem azulejos de banheiro no chão.
Weiss encarou-o, espantado com a falta de interesse do garoto naquele assunto. Mattew não se interessava justamente porque já tinha desenvolvido toda a teoria de Weiss antes de mencionar as falhas e não achou necessário acompanhar a explicação dele. Fora que a maneira que os olhos verdes de Weiss brilhavam enquanto ele falava dava-lhe calafrios.
- Deixe ele em paz, Weiss. — Rodrick ria muito e logo foi acompanhado por Liene — Acho que entendi boa parte do que você disse... ou não. Ainda tenho uma dúvida ou outra. E o Mattew já deve ter pensado nisso tudo antes de você começar a falar, não fique tão assustado.
- Você entendeu, Roddy? — Liene deu uns tapinhas no ombro de Weiss, que ainda encarava Mattew — Então me explica, porque eu não entendi droga nenhuma. Só entendi uma coisa. Por que só eu e o Roddy somos falhas? Você, Weiss, e o novato não deveriam ser também?
- Eu já disse. Nós somos intrusos. Eu não me lembro de nada de fora das Bases, então só posso dar a teoria, mas não dá para negar que eu e Mattew somos muito mais diferentes do que vocês. Diferentes demais para ser uma falha. — Weiss parecia ficar cada vez mais irritado enquanto Mattew continuava encarando a parede com uma expressão vazia.
- Tá, tá. A propósito, é muito chato chamar ele de Mattew. Vamos dar um apelido para ele também.
- Liene, não. E eu não concordei em ser chamado de Roddy.
- Ah, o que custa? Não precisa ser nada estranho. Que tal Matt?
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