Missão 01
2 Capítulo 2
Quando abriu os olhos, demorou cerca de dez segundos para conseguir perceber que estava deitado numa cama, e isso queria dizer alguma coisa, já que normalmente demoraria dois ou três. Tentou levantar um braço, mas, como esperado, não conseguiu. Mattew se sentia fraco como nunca, sua garganta doía de tão seca e seus lábios deveriam estar rachados e sangrando. Dores agudas no abdome o informavam que ainda não comera nada desde que começara a operação de evacuação e que, por algum motivo desconhecido, precisava urgentemente ir ao banheiro. Tomado pela contradição daqueles fatos, fechou os olhos novamente, resolvendo imaginar por quanto tempo estivera desmaiado e onde provavelmente estaria. Se estivesse desmaiado há menos de quatro horas, devia estar na enfermaria da Base 8, contudo de algum modo isso parecia estar errado. Primeiro, porque os funcionários da enfermaria já deviam ter saído na terceira nave. E segundo porque a enfermaria fedia pra caramba, e aquele lugar, onde quer que fosse, tinha cheiro de menta.
Começou a analisar mentalmente que tipo de lugar teria cheiro de menta. Um consultório de dentista, talvez. Mas não haviam consultórios nem dentistas na Base 8. Havia um, alguns anos atrás, porém ele morrera num dia infeliz de uma enorme infecção nos dentes, já que não tinha outro dentista para cuidar dele. Que outro tipo de lugar? Alguma coisa relativa a pasta de dente. Não, talvez fosse uma cozinha. Alguma coisa relativa a cozinha. Também não era possível. Irritado por não conseguir chegar a uma conclusão lógia, abriu os olhos novamente e sentiu-os ardendo, ofuscados pela sala de paredes brancas iluminada por uma luz branca forte demais. Teria resmungado, reclamando, porém tinha a impressão de que se emitisse qualquer tipo de som, sua garganta descascaria ou sabe-se lá o que acontece com uma garganta seca demais.
Lentamente sua visão voltou e assim começou a examinar o ambiente. Estava deitado numa cama de ferro, onde havia um lençol branco, a fronha do travesseiro era branca, ele mesmo estava usando pijamas brancos e a coberta era azul com desenhos de flores roxas. Era um absurdo, pensou. Ninguém em sã consciência colocaria flores roxas num cobertor azul. Todos deveriam saber que amarelo combinava mais. Olhou em volta. Não havia nada nas paredes brancas. O quarto era realmente pequeno, o único móvel ali era a cama de ferro onde estava deitado. Esticou um pouco o pescoço e reparou que o chão era coberto de azulejos desenhados com padrões estranhos. Quem quer que fosse a pessoa que projetara o quarto, era realmente estúpida de colocar azulejos de parede de banheiro no chão. Se fosse no chão de um banheiro, poderia passar por um erro técnico, porém aquilo não era — até onde ele sabia — um banheiro.
E havia a porta. Era uma porta realmente estranha. Normalmente, as portas eram de compactado de madeira simples, ou se fosse numa nave, seria uma pesada porta de metal com isolador de ambiente. Aquela porta parecia ser de madeira verdadeira, com detalhes entalhados e uma maçaneta brilhante. Uma madeira escura, realmente bonita, entretando que nada condizia com o ambiente e aquilo estava deixando Mattew louco. Queria realmente encontrar a pessoa que projetara o quarto e estapeá-la para ver se ela adquiria o mínimo de senso estético. Um ambiente como aquele deveria ser composto por cores suaves, ou estar completamente branco. O cobertor, os azulejos, a porta. Aquela maçaneta irritantemente brilhante. Esses distúrbios, e nada mais, foram o suficiente para que ele se pusesse de pé. Porém, devido a uma coincidência estranha do destino, assim que seus pés alcançaram o chão, a luz foi desligada e não havia mais erro estético para mantê-lo de pé. Sentiu os joelhos cederem e deu de cara com a superfície fria e sem cor do chão no escuro.
Mais irritado ainda do que antes, o que não era algo muito fácil, começou a tatear o chão para procurar a maldita cama de ferro. Se arrastando pelo chão liso, acabou encostando na parede oposta de onde estava a cama. Continuou, sentindo a vontade de estapear alguém aumentando cada vez mais. Primeiro, a pessoa que projetara o quarto. Segundo, a pessoa que apagara as luzes. Caso fosse a mesma pessoa, estapearia ela por duas. Acabou encostando na porta. Sabia facilmente que aquilo era a porta simplesmente porque a madeira tinha um cheiro forte de madeira, algo realmente incomum, mas ajudava bastante. Ergueu, com dificuldade, o braço para procurar a maçaneta. Somente quando a tocou percebeu que não conseguiria abri-la enquanto estivesse no chão, pois era uma maçaneta redonda. Odiando o inventor das maçanetas redondas, ficou de pé com todo o esforço que podia, apoiando-se na porta enquanto girava a porcaria da maçaneta. A parte boa era que a porta estava destrancada. A parte ruim era que a porta abria para fora, e Mattew acabou caindo no chão, novamente batendo a cara amorosamente nele.
Depois de tantos choques como aqueles, poderia se casar tranquilamente com o chão. Parecia-lhe uma melhor alternativa do que passar oresto da vida solteiro, o que normalmente acontecia com os trabalhadores nas naves cargueiras, onde não havia suporte para famílias. Na verdade, eles sequer tinham contato com a sociedade externa, somente algumas poucas vezes durante a vida. Nada profundo o suficiente para desencadear um relacionamento amoroso. Nada profundo o suficiente nem para desencadear um relacionamento superficial. As más línguas diziam que noventa por cento dos trabalhadores das navez cargueiras morriam virgens. Outros nove vírgula quatro por cento tinham relações homossexuais. Já os últimos zero vírgula seis, aqueles eram tão raros que seus nomes deveriam entrar para um museu. De qualquer modo, Mattew naquela altura já era íntimo o suficiente do chão para propor casamento.
O chão do lado de fora do quarto era diferente. Era um chão de madeira clara, macia, o que deixara o impacto proporcionalmente menor ao impacto que sofrera no chão de azulejos de banheiro. Também era mais quente, apesar de que Mattew gostaria de ter descoberto isso com a mão e não com o rosto. Olhou em volta, estava num corredor. As paredes do corredor eram forradas de veludo vermelho e no teto havia algumas luminárias em estilo antigo. As portas combinavam perfeitamente com o corredor, agora que via direito. Tudo confirmava sua hipótese de que a pessoa que projetara o quarto era retardada. Se o corredor seguia aquele estilo, os quartos também deveriam seguir. É de praxe.
Imaginou o que aconteceria caso aparecesse alguém e o encontrasse ali, de pijamas brancos, fugindo de um quarto que era uma pura anomalia coberta de caos, deitado no chão de madeira enquanto se esticava para tocar o forro de veludo vermelho na parede oposta, apesar de a parede onde estava a porta do quarto ser mais próxima. Dizem que coisas mais desafiadoras dão uma sensação melhor de tê-las conquistado no final, então se esticou até tocar o veludo da parede oposta. Era macio, como veludo deveria ser. Suspirando de alívio por não estar se enganando quanto aquilo, tentou ficar de pé. A princípio, penso que a tarefa seria fácil, contudo seus joelhos não pareciam estar querendo colaborar com isso. Apoiou-se na parede e foi subindo aos poucos até que conseguiu ficar sustentado — precariamente — sobre as próprias pernas. Andou devagar, ou talvez devesse usar o termo "arrastou os pés", fechou a porta do quarto e passou a admirar a beleza do corredor e como tudo se encaixava perfeitamente ali.
Mattew não conseguiu contabilizar muito bem quanto tempo ficou parado observando o corredor, mas quando resolveu andar para procurar alguém que pudesse lhe explicar que lugar era aquele, suas pernas já doíam de cansaço. Resolveu se sentar ali e esperar, então. Uma hora apareceria alguém. Se não tivessem planejado que ele saísse do quarto, provavelmente alguém, ou ao menos um robô, levaria comida. Poderia perguntar o que estava acontecendo para a pessoa. Se fosse um robô, teria de pensar num outro plano. Decidindo isso, apoiou-se na parede e começou a tentar contar quanto tempo ficaria ali. Um segundo, dois segundos, três segundos. Quando chegou no quinto minuto, acreditou que já tinha se perdido demais e não era mais possível confiar em sua conta. Suspirou e continuou a esperar alguém chegar ali.
Aquele tipo de decoração era realmente bonita, porém não se encaixava na época que estavam. Aquela era a era das naves espaciais, das batalhas interplanetárias, da luta pelo controle do Sistema Solar entre as maiores nações que já não mais eram do planeta Terra, que já estava desgastado depois de tantos milênios de ocupação imprudente. Decorações daquele tipo eram comuns nos séculos XIX e XX, de acordo com o que ele aprendera numa aula de história onde puderam perguntar o que quisessem para o computador. "Você não vai precisar saber isso, mas pode perguntar se tiver vontade" era a ideia da coisa. Eles só precisavam aprender a serem bons trabalhadores em naves cargueiras, só isso. Não precisavam de aulas de matemática ou línguas. Passariam o resto das vidas nos porões das naves e teriam muito pouco tempo de férias. De qualquer modo, a decoração não se encaixava.
Seria aquilo uma nave? Se fosse, então por que estava tão estável? Nenhuma nave tinha tecnologia o suficiente para ficar sem um tremor sequer enquanto estivesse em movimento. A não ser que estivesse parada, entretanto por que diabos estariam numa nave parada? E onde ela estaria parada, para começo de conversa? Estaria ainda na Base 8, esperando que a nave fosse lançada? Por que colocariam esse tipo de decoração tão trabalhada para garotos como eles, que apodreceriam dentro de porões? Ou será que a nave já partira, e essa era a tão misteriosa sexta nave, que ninguém sabia quem ou o quê levaria? Ah, talvez fosse isso. A sexta nave. Ninguém sabia o motivo de existir a sexta nave se, pelo que é previsto no protocolo, todos já teriam sido evacuados após a saída da quinta. Não era uma nave reserva, sempre diziam que ela era lançada. Por quê? E por que motivo, caramba, estaria na sexta nave? Mattew desmaiara antes da saída da quinta, poderia perfeitamente ter sido jogado nela antes do seu lançamento. Então por quê?
- Sr. Mattew Haworth, favor retornar para seus aposentos.
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