Miss You Love
3 Chapter 3: Big Shot Deal
Notas iniciais
Hoje completava exatamente oito meses que o Comendador José Alfredo de Medeiros havia morrido, o que significava que faltava apenas dois meses para que o prazo que Maria Marta havia estipulado para casar com Maurílio vencesse. E a cada dia que passava Maurílio conseguia mais poder na empresa e em suas vidas. Todos os dias os irmãos tentavam encontrar meios de levantar a Império e impedir que Maria Marta se case com Maurílio. E hoje não era diferente.
– Estamos ficando sem tempo. – disse Maria Clara assim que a reunião de negócios acabou e todos foram embora, exceto pelos quatro irmãos que ficaram para tentar bolar outra estratégia para salvar a empresa do buraco.
– Cristina, nós precisamos agilizar esse processo de salvar a Império de qualquer jeito, o prazo está quase acabando. – falou José Pedro com pesar, e passando as mãos nos cabelos em um sinal claro de nervosismo. – Eu não pretendo entregar a minha mãe de bandeja para aquele maldito. – completou sentando-se em uma das cadeiras de frente para a de Cristina.
– E eu muito menos, já imaginou aquele zé roela se mudando lá pra casa e nos obrigando a chamar ele de papai? – disse João Lucas desmanchando o nó da gravata e jogando-se em uma das poltronas da sala da presidência que agora pertencia á Cristina.
– Eu sei gente, tá sendo difícil pra mim também. Mas, tudo que já tentamos falhou. Nesse momento a gente precisa de uma solução rápida e imediata. – respondeu Cristina e deu um longo suspiro, sentando-se na cadeira de presidente.
– E se a gente vendesse os diamantes? O dinheiro iria dar para salvar a Império e ainda sobrava para a nova coleção. E então não precisaríamos levar nossa mãe para o holocausto. – sugeriu José Pedro, ele já havia pensado nisso antes, mas desistiu ao lembrar-se da promessa feita ao pai pouco antes dele morrer.
– Zé Pedro! – exclamaram todos juntos. Zé Pedro então levantou as mãos para cima em um sinal de rendimento e murmurando algo como “não está mais aqui quem falou”, a verdade era que todos ali haviam pensado alguma vez nisso, e sem dúvidas salvaria a empresa e sobraria uma boa quantia para se estabelecerem novamente, mas a promessa feita os fazia rapidamente desistir da idéia. – Nós não podemos fazer isso, nenhum de nós. Foi o último pedido do nosso pai – falou Cristina e então se virando para Maria Clara. – Como está o andamento da nova coleção?
– Os desenhos estão prontos, você sabe. Mas estamos ficando sem obra prima para confeccionar as peças. – respondeu Clara a olhando de forma cética, e logo desviando o olhar para a paisagem do Monte Roraima. – Nosso pai gostava tanto desse monte, ele acreditava que indo até lá ele iria conseguir algum tipo de luz, que ia se fortalecer. Que voltando ao lugar aonde ele começou tudo era uma motivação para seguir em frente. – dizia Maria Clara ficando com os olhos marejados, levantou a cabeça para cima em uma tentativa de fazer com que as lágrimas não descessem.
– É isso! – exclamou Cristina. – Como eu não tinha pensado nisso antes? É exatamente isso que temos que fazer! – continuou fazendo com que todos os olhares se voltassem para ela.
– O quê? Ir até aquele monte sinistro? – questionou Lucas confuso – Como isso ia tirar a empresa dessa bad? – continuou questionando. E confundindo ainda mais todos os presentes. Cristina olhou para ele com as sobrancelhas franzidas.
– Claro que não, João Lucas! Eu quero dizer que nós temos que voltar até onde toda essa crise começou. – respondeu Cristina sorrindo como se tivesse feito uma grande descoberta e agora com suas esperanças totalmente renovadas.
– A crise começou quando o dinheiro das nossas contas sumiu. – disse José Pedro pensativo, como se tivesse captado o que Cristina queria dizer. – Mas é claro! Se a gente conseguir rastrear esse dinheiro e fazê-lo retornar para a conta da empresa... – começou ele.
–... Os nossos cofres ficariam cheios de novo e todos os nossos problemas estariam resolvidos! – completou Maria Clara sorrindo abertamente.
– É... Pessoal! Desculpa atrapalhar o momento esperança de vocês, mas isso já foi feito. E o dinheiro evaporou, sem dar pista nenhuma. – interrompeu João Lucas ao lembrar-se de que na primeira semana eles tentaram localizar para onde o dinheiro havia sido transferido e como.
– Acontece João Lucas que uma transferência de uma quantia como essa deixa rastros. Tudo o que a gente precisa é saber onde procurar exatamente. Deixa eu ver uma coisa... – respondeu José Pedro e logo indo de frente ao computador ao lado de Cristina e começando a checar arquivos.
***
– Josué, você conseguiu o que eu te pedi? – perguntou José Alfredo ao seu fiel amigo. Ele havia pedido para que Josué fizesse uma nova busca sobre o Maurílio, desta vez com mais detalhes e informações.
– Tá aqui Comendador. – respondeu Josué entregando um envelope lacrado nas mãos de Zé. – Mas como isso pode ser útil pra acabar com o Maurílio? – questionou Josué sentando-se em uma cadeira que havia de frente para a cama.
– Você não pode acabar com alguém sem conhecer a pessoa direito, right? – respondeu Zé abrindo os envelopes e sentando-se na beirada da sua cama, analisando o dossiê com os olhos. – O antigo relatório que você me trouxe não tinha muitas informações aproveitáveis, mas esse aqui deve ter alguma coisa que nos ajude a acabar com aquele cabra e arrancar ele das nossas vidas de uma vez por todas. – completou com os olhos ainda vidrados no envelope que continha em mãos.
***
– Eu sei, já entendi isso. – falava Maurílio ao telefone baixo, com medo de alguém aparecer já que ele se encontrava na casa da família Medeiros e qualquer um poderia aparecer por ali e escutar. – Mas para isso teríamos de tirar a bastardinha da jogada. – ele disse após ouvir orientações do outro lado da linha.
– É, não vai ser tão difícil assim. – a pessoa ao outro lado da linha o mandou instruções do que fazer. – Eu vou resolver isso. Pode deixar. Nos falamos. – e assim desligou o telefone rapidamente, olhando para os lados e então saindo do apartamento dando uma desculpa esfarrapada ao mordomo.
***
– Zé Pedro? – chamou Amanda dando duas batidas na porta. – Pedrinho? – chamou novamente quando não obteve resposta e logo tratou de abrir o trinco e encontrou José Pedro dormindo em frente ao computador. – Só você mesmo, né? – perguntou para si mesma e colocou o café que havia trazido em cima da mesinha e se aproximou dele com o intuito de acordá-lo. – Acorda, já é de manhã e você tá todo torto. – falava enquanto o sacodia, até que ele abriu os olhos.
– Amanda? O que houve? – perguntou ele coçando os olhos ainda confuso e sonolento. – Eu dormi aqui? – continuou questionando ao analisar a situação em que estava com as roupas amassadas e o cabelo todo despenteado, sem falar na dor que sentia em sua coluna por ter dormido naquela posição.
– Foi. Afinal, o que você tanto faz na frente desse computador? – perguntou Amanda ao ver ele um pouco mais desperto e o entregando o café que havia trazido. – Você nunca foi de trazer trabalho para casa, nem de ficar horas na frente do computador. – lembrou ela.
– São assuntos importantes, se tudo der certo iremos conseguir salvar a Império e a minha mãe daquele crápula do Maurílio. – disse ele enquanto bebericava do café.
– Bem, nesse caso eu vou deixar você trabalhar. Tomara que você consiga achar uma saída. – dizendo isso Amanda deu um beijo na bochecha de José Pedro e tratou de sair e encostar a porta.
– Então vamos lá. – falou Zé Pedro para si mesmo e ligando o computador novamente tratando de continuar com sua busca.
***
– Então quer dizer que a mãe desse sujeito tá viva. Jesuína Ferreira. – diz Zé ao terminar de ler as primeiras páginas do dossiê sobre Marílio.
– E o que o Comendador pretende fazer com essa informação? O senhor acha que pode ser útil? – pergunta Josué ao terminar de ler as páginas também, entregando-as de volta na mão de José Alfredo.
– Eu acho que sim, aqui tá dizendo que ela tá morando em São João Del Rey, não fica tão longe assim. Podemos ir de carro. - disse ele colocando o dossiê dentro do envelope e deixando em cima da mesinha ao lado da cama. – E depois eu estou precisando sair um pouco dessa cidade, Maria Marta já está desconfiada de que eu estou vivo pelo o que Cristina andou me contando, a cascavel de Cora já me viu e Clara quase conseguiu me ver no dia que cheguei ao Rio, um tempo longe também vai me fazer bem. Não consigo mais ficar trancado aqui dentro feito um bicho. – continuou o homem de preto levantando e olhando a janela através da cortina.
– E quando nós vamos?– questiona Josué.
– Hoje mesmo, é só o tempo de avisar Cristina e caímos na estrada. – responde Zé olhando para seu fiel amigo e pegando o telefone.
***
– Mas o que será que o Maurílio quer dessa vez com a gente? – pergunta Cristina assim que adentra a sala de reuniões da empresa e se depara com Maria Marta, Maria Clara e João Lucas. – Ele ainda não entendeu que não tem poder algum para marcar reuniões? – questionou a mesma.
– Ele tá achando que é o coroa. – bufa João Lucas.
– Mas ele não é o pai nem aqui e nem na China! – exclamou Maria Clara indignada.
– Parece que vamos ter de avisá-lo quanto a isso Maria Clara. – diz Maria Marta entediada, já fazia mais de vinte minutos que estava ali e ele ainda não havia chegado. – Por falar nisso onde está o José Pedro? – questiona ao se dar conta de que o filho estava muito atrasado para a reunião.
– Ele não vem, mãe. – respondeu Maria Clara.
– Mas como assim não vem? Ele faz parte da diretoria. Tem o direito e dever de comparecer as reuniões, mas o que é isso? Parece que depois que o pai de vocês morreu isso aqui virou uma bagunça. – falou Maria Marta em um tom mais elevado, ao mesmo tempo em que Cristina se remexia na cadeira desconfortável. – É qualquer um que marca reuniões e se dá ao luxo de chegar atrasado, é membro da diretoria que não aparece. Vocês acham que isso aqui é o quê? – continuou indignada.
– Relaxa, mãe. O Zé Pedro não vem porque tá trampando lá em casa. – disse João Lucas tentando acalmar a mãe. Maria Marta o olha confusa.
– O José Pedro está resolvendo alguns problemas da Império fora da empresa, por isso não o avisaram da reunião. – explicou Cristina.
– Mas que problema é esse? É alguma coisa grave? – perguntou Maria Marta.
– Não é não, mãe. Nossa situação continua a mesma, não se preocupa. – tranqüiliza Maria Clara.
– Ótimo, mas onde será que o Maurílio está que ainda não chegou? Eu tenho mais coisa que fazer do que ficar aqui esperando ele dar o ar da graça. – diz Maria Marta impaciente, no mesmo instante a porta da sala é aberta e Maurílio entra com alguns papéis em mãos.
– Peço desculpas pelo atraso, mas vamos começar logo essa reunião. – diz Maurílio fechando a porta atrás de si e se encaminhando para uma das cadeiras.
– Em primeiro lugar Maurílio, é bom você saber que não tem poder para marcar uma reunião com a diretoria da Império. – diz Cristina assim que Maurílio se senta.
– É, mas eu já marquei. Mas não se preocupa não Cristina, que o assunto é coisa rápida. – diz Maurílio.
– Sim, mas então esperamos todo esse tempo por tão pouca coisa? – fala Maria Marta.
– Quem disse que é pouca coisa? – pergunta Maurílio com um sorriso zombeteiro nos lábios. – Bom... Esse tempo todo eu andei investigando algumas pequenas irregularidades da empresa e acabei encontrando algumas coisas...
– Peraí, você marcou uma reunião para resolver pequenas irregularidades é isso? Faça-me o favor, né! – interrompe Maria Clara indignada com o motivo tão simplório da reunião.
– Eu ainda não terminei Maria Clara. – diz Maurílio a dando um olhar severo. – Como eu dizia, eu estava investigando algumas irregularidades e em meio á isso eu acabei achando algumas informações muito interessantes á respeito do dinheiro desaparecido da empresa. – continua ele mexendo nos papéis que havia trazido consigo.
– E que informações são essas? – pergunta Maria Marta.
– São informações de que você, Cristina. Andou fazendo algumas consultas á uma das contas da empresa e misteriosamente a conta em que você anda fazendo consultas é a do banco de Genéve, que por acaso é aonde havia mais dinheiro guardado. – responde Maurílio fazendo com que todos os presentes da sala ficassem em choque, já que antes Cristina havia dito que não tinha contato algum com qualquer conta da empresa. – Portanto, você mentiu para todos nós quando disse que nunca havia se quer sido notificada de qualquer coisa da parte financeira da empresa. E pelo que esses dados mostram, as suas consultas são bem freqüentes. – diz ele entregando os papéis que estavam consigo. Imediatamente Cristina os pega e analisa os documentos que havia. Ela sabia que não foi ela quem visitou essa conta, havia sido José Alfredo, no entanto ninguém jamais saberia disso.
– Eu sou a presidente dessa empresa e em tempos como esse de crise é natural que eu deva saber como anda a situação financeira da Império. – responde ela achando uma desculpa rapidamente e tentando disfarçar o seu nervosismo.
– É, mas acontece que duas dessas visitas foram feitas no dia em que o pai de vocês morreu. – nesse momento todos os olhares da sala se direcionaram para Cristina, que já não sabia o que fazer. – Então Cristina, porque uma pessoa iria querer fazer consultas á uma conta da empresa poucas horas depois do pai ter falecido? – questiona Maurílio de forma irônica e com um sorriso vitorioso nos lábios.
– Onde você conseguiu esses papéis? Aliás com que direito você iniciou investigações sobre irregularidades dessa empresa? – pergunta Cristina tentando dar um jeito de sair da saia justa em que estava.
– Isso não vem ao caso agora não é mesmo Cristina? – questiona Maria Marta. – Não mude de assunto que isso se chama manobra diversionista. – afirma a Imperatriz.
– O quê?! – exclama Cristina.
– É uma distração deliberada usada por políticos para abafarem os assuntos que realmente interessam. – explica Maria Clara se sentindo usada, na verdade todos ali do recinto estavam se sentindo assim naquele momento, e certamente com Maurílio levantando suspeitos apenas deixava a situação ainda mais tensa.
– Eu sei, mas esse cara não tinha o direito de iniciar qualquer tipo de investigações nas contas da empresa. – diz a ex-camelô.
– Esse cara não! Dobre a língua para falar a meu respeito. – retruca Maurílio ofendido. Naquele momento todos começam a falar juntas formando uma verdadeira confusão.
– Já chega! – exclama Maria Marta fazendo com que todos se calem. – Cristina, o que você tem a nos dizer sobre isso?
– Eu... Eu realmente visitei sim as contas na empresa no dia que o nosso pai morreu, não posso negar. – fala Cristina ao ver que não havia outra saída afinal ela não poderia afirmar: “Ei, não fui eu que mexi nas contas da empresa. Foi o nosso querido pai que forjou a própria morte e teve que usar meu nome porque os mortos não checam seu saldo no banco”, rapidamente ela tentou arrumar uma outra desculpa pois devia uma resposta á todo mundo – Mas foi para pagar as despesas do velório do nosso pai, e eu fiz isso porque todos vocês estavam abalados demais para lidar com isso. Inclusive foi o Josué quem me ajudou com tudo. – responde Cristina rapidamente dando a melhor desculpa que podia, e não estava mentindo, ao menos não completamente já que havia sido mesmo ela quem cuidou do velório de José Alfredo.
– E você quer realmente que a gente acredite nisso? – questiona Maurílio de forma sarcástica.
– Peraí, vocês estão me acusando? É isso? – pergunta Cristina ofendida.
– Não, nós estamos tentando entender o porquê de quando perguntamos para você sobre o assunto você mentiu para nós, mas que é muito suspeito você fazer uma consulta na conta da empresa momentos antes de descobrirmos que o dinheiro sumiu, é. – afirma Maria Marta.
– Isso é um absurdo! Eu jamais mexeria nesse dinheiro, nesses oito meses que eu fiquei á frente da Império vocês viram o quanto eu lutei para tirar essa empresa do buraco. – defende-se Cristina.
– É gente, seria no mínimo bizarro ela tentar salvar a empresa de tudo quanto é jeito sendo que seria ela quem pegou nossa grana. – pronuncia-se João Lucas que até agora havia ficado em silêncio no meio de toda a confusão.
– Isso não muda em nada as coisas, João Lucas. Ela pode muito bem estar tentando manter as aparências e tentar fugir da prisão. – aponta o filho de Sebastião Ferreira.
– Isso é ridículo! Vocês realmente acham que eu me aproveitaria de um momento de dor para roubar a empresa? Sendo que eu também estava sofrendo naquele momento? Ele também era o meu pai! – grita Cristina, a mesma já não fazia idéia de como reverter à situação e provar sua inocência. E com Maurílio ali a acusando e causando discórdia apenas tornava tudo mais difícil. – Eu realmente apenas mexi na conta para acertar o velório, sendo auxiliada pelo Josué e pelo Merival. Se vocês quiserem podem confirmar tudo com eles. E eu acho um absurdo vocês acreditarem nas acusações de alguém que sempre teve tentando tirar a empresa das nossas mãos, chantageando a gente e ainda era o maior inimigo do nosso pai e por em prova a minha honestidade. – expôs Cristina tentando se defender das acusações e naquele momento já estava ficando sem argumentos.
– Agora você está tentando virar o jogo, é isso? Mas que fique bem claro que eu nunca escondi a minha posição sobre o pai de vocês. Ao contrário dessa bastarda que mentiu e ainda omitiu as coisas de nós. E acho de bom tom que você peça demissão já que claramente não se pode mais confiar em você. – rebate Maurílio já perdendo a paciência.
– Já chega Maurílio! Você não é ninguém pra julgar a Cristina. – exclama Maria Clara surpreendendo todos e até a si mesma, é verdade que elas estavam até se dando bem nesses últimos tempos e tinham dado uma trégua nas picuinhas em nome da Império, mas nunca se trataram como amigas ou irmãs. Era tudo apenas uma questão de respeito mútuo, defender Cristina dessa maneira foi um choque.
– Estamos todos exaltados, eu acho melhor acalmar os ânimos. – diz Maria Marta, neste momento o telefone de Cristina toca e ao ver quem estava ligando ela pede licença e sai. Maria Marta a olhou desconfiada, tinha alguma coisa errada e disso ela sabia. Cristina havia ficado um pouco nervosa ao ver de quem era a ligação e tratou de esconder rápido o telefone e sair dali o mais rápido possível, em um impulso ela pediu saiu da sala e foi atrás de Cristina.
***
(Dê o play)
There was a time
I used to look into my father's eyes
In a happy home
I was a king, I had a gold throne
Those days are gone
Now the memories are on the wall
I hear the songs
From the places where I was born
(Havia um tempo em que
Eu costumava olhar nos olhos do meu pai
Em um lar feliz
Eu era um rei, eu tinha um trono dourado
Aqueles dias se foram
Agora as memórias estão na parede
Eu ouço os sons
Dos lugares onde eu nasci)
Já fazia mais de 36 horas que José Pedro se encontrava na mesma situação, trancado no escritório de sua casa. Ele mal comia e dormia, dificilmente saia de dentro do local, estava decidido a encontrar alguma pista para salvar a empresa. Já tinha errado muito na vida, era verdade. Vivia implicando com os irmãos e os acusando de sua própria ruína, acusava também seu pai por não lhe dar atenção e até mesmo de não gostar dele.
Up on the hill, across the blue lake
That’s where I had my first heart break
I still remember how it all changed
My father said
(Lá na colina, do outro lado do lago azul
Foi lá que meu coração se partiu pela primeira vez
Eu ainda me lembro como tudo mudou
Meu pai disse)
Tinha sido machucado pela pessoa que jamais pensou que um dia pudesse fazer isso, sua esposa ou ex-esposa Danielle. Ela que havia lhe dado mais do que ele julgou merecer, lhe dou amor e carinho, companheirismo e uma filha linda, que na verdade não era sua mas que amava como se fosse e então no fim, ela lhe traiu. E tão duro fora o golpe, pensou que jamais poderia se recuperar e então logo perdeu seu pai em sequência.
Don't you worry, don't you worry, child
See, heaven's got a plan for you
Don't you worry, don't you worry now
Yeah
(Não se preocupe, não se preocupe, criança
Veja, o céu tem um plano pra você
Não se preocupe, não se preocupe agora
Sim)
E todo o ressentimento que ele poderia ter se desfez como num passe de mágica. A verdade é que ele amava seu pai, e então tudo clareou em sua mente quando o viu ali no chão do quarto de sua mãe lutando por ar. Todas as vezes que seu pai havia lhe repreendido que ele julgou ser demonstrações de seu desamor, percebeu por fim que eram na verdade sinais de preocupação e de afeto. E então lhe bateu o arrependimento.
There was a time
I met a girl of a different kind
We ruled the world
I thought I'll never lose her out of sight
We were so young
I think of her now and then
Still hear the song
Reminding me of a friend
(Um dia
Eu conheci uma garota diferente
Governávamos o mundo
Pensei que nunca a perderia de vista
Nós éramos tão jovens
Eu penso nela de vez em quando
Ainda ouço a canção
Me lembrando de uma amiga)
Ver seu pai morrer foi a pior visão que poderia ter tido, e o pior não foi a perda em si. Foi o fato de que ele nunca poderia dizer o quanto o admirava, o quanto o amava e o quando sentia orgulho de ser seu filho. Doía pensar na possibilidade de acordar de manhã e não ver seu pai na cozinha preparando o café com suas próprias mãos e ao seu gosto. Pensar que no fim do expediente não encontraria seu pai virado de costas olhando para o monte e reclamando sobre algo, enquanto ele lhe entregava os últimos balanços que havia feito. Machucava pensar até mesmo que não poderia argumentar com ele, ou brigar com ele ou ganhar um de seus famosos sermões. Seu pai era seu herói e ele nunca havia se quer dito isso a ele, e talvez isso fosse o que mais doesse de tudo.
Up on the hill, across the blue lake
That’s where I had my first heart break
I still remember how it all changed
My father said
(Lá na colina, do outro lado do lago azul
Foi lá que meu coração se partiu pela primeira vez
Eu ainda me lembro como tudo mudou
Meu pai disse)
Sentia que era o seu dever descobriu quem havia roubado a empresa, e não iria descançar até descobrir o culpado. Já era uma questão de honra pra ele, não iria deixar o esforço e trabalho de uma vida toda de seu pai ir pelo ralo daquela maneira, ele iria solucionar aquilo nem que fosse a última coisa que fizesse na vida.
Don't you worry, don't you worry, child
See heaven's got a plan for you
Don't you worry, don't you worry now
Yeah
(Não se preocupe, não se preocupe, criança
Veja, o céu tem um plano pra você
Não se preocupe, não se preocupe agora
Sim)
E naquele momento suas “estripulias” na faculdade viriam á calhar, ele e seus colegas costumavam invadir sistemas e hackeá-los por diversão, quem diria que logo agora suas ‘habilidades’ seriam necessárias para salvar a empresa? Ele já havia perdido a conta de quantas tentativas havia feito, toda hora que estava próximo de chegar á um nome, ou algum lugar, uma pista ele dava de cara com um caminho sem saída. E dessa vez não seria diferente ao que parecia, no entando se tinha uma coisa que seu pai o havia ensinado era que desistir era para os fracos, e os Medeiros não eram fracos. E então surpreendeu-se com a mensagem na tela, eram vários códigos que formavam um endereço.
See, heaven's got a plan for you
See, heaven's got a plan for you
See, heaven's got a plan for you
(Veja, o céu tem um plano pra você
Veja, o céu tem um plano pra você
Veja, o céu tem um plano pra você)
Ele então logo tratou de criptografá-los para então poder desvendar o mistério, depois de mais alguns minutos pode ver aparecer o lugar e a hora em que o dinheiro foi transferido.
“Geneva, Switzerland. 23:54”
Don't you worry, don't you worry, child
See, heaven's got a plan for you
Don't you worry, don't you worry now
Yeah
(Não se preocupe, não se preocupe, criança
Veja, o céu tem um plano pra você
Não se preocupe, não se preocupe agora
Sim)
– Espera um pouco, isso aqui é Genebra na Suíça. Mas é claro, uma quantia como essa tem que ser transferida pessoalmente. Quem roubou a empresa teve que ir até o banco e lá certamente devem ter câmeras e com isso em mãos o banco não vai nos negar. – disse ele sorrindo, finalmente depois de tanto tempo uma esperança havia nascido. Ele e os irmãos finalmente iriam conseguir salvar a empresa da ruína, e sua mãe das garras do crápula do Maurílio.
***
– Pai, o que houve? Aconteceu alguma coisa? – perguntou Cristina assim que encostou a porta e atendeu a ligação.
– Não se preocupe, não aconteceu nada. Eu só liguei para avisar que eu vou sair da cidade por algum tempo, encontrei algumas informações interessantes sobre o Maurílio e irei checá-las. – respondeu o Comendador pelo telefone, e logo ele conseguiu notar o nervosismo da filha. – Aconteceu alguma coisa aí? – questionou ele preocupado, evitava perguntar sobre a família pois o fazia se sentir culpado e pensar em atitudes impulsivas que ele não poderia se permitir pensar.
– Na verdade aconteceu um fato muito grave, eu estou prestes á ser demitida da presidência da empresa. É uma desgraça, eu não sei o que fazer. – responde ela desesperada, andando de um lado para o outro na sala.
– Opa, opa, opa. Demitir você? Quem é que tá fazendo isso? – pergunta Zé Alfredo do outro lado da linha preocupado.
– O Maurílio. – responde com ódio ao falar o nome dele.
– Mas o Maurílio não tem poder na Império.
– Mas ele conseguiu convencer todo mundo e deixar todos eles desconfiados de mim. – responde Cristina com um suspiro.
– Como é que ele conseguiu isso? Me conte tudo. – pede o homem de preto.
– Ele conseguiu alguns relatórios que relatam que eu, ou melhor o senhor fez consultas na conta da empresa no dia da sua morte. Ele botou todo mundo contra mim e agora eu sou a principal suspeita de ter dado o golpe na Império e ter retirado todo o dinheiro. – diz ela desesperada mas logo surpreendida ao ver Maria Marta ali na sua frente, essa não perde tempo e logo tenta arrancar o telefone de suas mãos.
– Deixa eu falar com ele e não se atreva a me impedir. Não se atreva! – diz a Imperatriz arrancando o telefone de suas mãos ao mesmo tempo em que Cristina pede para ela devolver o aparelho, inutilmente.
(Dê o play na música)
Were you really surprised when she left all your memories behind?
She never said she was hurting but what girl means it when they say they’re fine?
(Você estava realmente surpreso quando ela deixou todas as suas memórias para trás?
Ela nunca disse que estava doendo, mas que garota quer dizer que esta bem quando diz isso?)
– Mas... – Cristina tenta pegar o celular das mãos de Maria Marta, mas não consegue e logo percebe que seria inútil tentar arrancar de volta e passa a torcer para que o pai tivesse desligado o telefone, ou não dissesse nada. Na verdade ela nunca entendeu o porque do pai não ter contado nada á família, mas respeitou sua decisão.
And she’s crying and she’s dying for you to take her home
And she doesn’t want space, she just wants to be chased
And for you to show her she’s not alone
(E ela está chorando e ela está morrendo para que você possa levá-la para casa
E ela não quer um espaço, ela só quer ser procurada
E que você mostre que ela não está sozinha)
– Zé, Zé! Zé Alfredo, fala comigo. Fala comigo Zé, responde. – diz Maria Marta ao telefone. José Alfredo que estava ao outro lado da linha se surpreende ao ouvir a voz da esposa na linha. Já fazia tanto tempo que não escutava sua voz, e só agora pode perceber o quanto sentia falta de ouví-la. Seja para um insulto, uma discussão ou briga. Teve que segurar o impulso de respondê-la e perguntar o que ela queria, como era de costume quando se falavam pelo telefone.
So don’t wait and let her go cause I don’t want to be the one
Who has to say: "i told you so"
I told you so
(Então, não espere e deixe-a ir, porque eu não quero ser a única
Que tem de dizer: "eu bem que te avisei"
Eu bem que te avisei)
– Não adianta, não adianta você ficar se fingindo de morto. Pelo menos para mim não adianta, porque há muito tempo eu tô sabendo que você tá vivo. Então para com essa farsa e volta logo. Assume o comando da Império, ou então me diz o que eu tenho que fazer para que ela não afunde! – exclama Marta em um tom agitado, se ela soubesse que voltar era tudo o que José Alfredo mais queria... Porém, ele não podia ou todo o sacríficio destes meses todos seria em vão, ele ainda não havia descoberto uma maneira de acabar com o Maurílio, nem de salvar a empresa, novamente ele se vê impedido de responder pela razão.
Of course she wants attention cause you never mention
How much she means to you
It shouldn’t be news that she wants to be important to you
So don’t play the fool
(É claro que ela quer atenção porque você nunca diz
O quanto ela significa para você
Não deveria ser novidade que ela quer ser importante para você
Então não banque o idiota)
– Nós não temos mais tempo, Zé. Entende de uma vez, nós estamos á beira do abismo. Nós precisamos de você, nós precisamos de... Eu preciso de você. – continua a Imperatriz, desta vez com uma voz falha ao final. Cristina que estava ao lado da madame se sensibiliza ao ver a grande e poderosa Maria Marta Medeiros de Mendonça e Albuquerque se desmontando em sua frente, largando aquela máscara fria que ela usava diariamente e deixando ela ver claramente a dor em seus olhos, assim como a saudade. E foi naquele momento que ela percebeu que ela ainda o amava, Maria Marta ainda amava o Comendador. Naquele momento ela sentiu remorso por não poder dizer nada, afinal não era um segredo seu para contar.
She’s crying and she’s dying for you to take her home
And she doesn’t want space, she just wants to be chased
And for you to show her she’s not alone
But you already know that so why are you sitting back and waiting for her to change her mind
And telling yourself it’ll be just fine, when you know I’m right
(Ela está chorando e ela está morrendo para que você possa levá-la para casa
E ela não quer um espaço, ela só quer ser procurada
E que você mostre que ela não esta sozinha
Mas você já sabe disso, então por que você senta e espera para que ela mude de ideia?
E fica dizendo a si mesmo que vai ficar bem, quando você sabe que estou certo)
– Tá ouvindo, Zé? Eu preciso de você, mais do que ninguém. Eu penso em você todos os dias, todas as horas e todo os instante. Você tá ouvindo, Zé? Eu sinto muita saudade de você, fala comigo. Fala, Zé. Me responde, por favor. – Naquele momento e diante daquelas palavras, José Alfredo não consegue mais ficar calado e antes que haja por impulso ele trata de encerrar a ligação. Se havia uma coisa que ele não sabia lidar era com uma Maria Marta desarmada, todos esses anos ela sempre foi a mais forte e a mais fria dos dois. Ela nunca falava de sentimentos e nunca perdia a pose de quatrocentona paulista, e sempre foram raras as vezes em que ela demonstrava sentir algo. E mesmo não vendo ela, apenas a ouvindo ele podia sentir que ela havia se desarmado completamente, e ele não conseguia lidar com isso. Sempre que isso acontecia ele se sentia impotente, vulnerável e perdido pois sempre que ele tinha dúvidas e se sentia fraco era a ela quem ele recorria, era nela que ele segurava. E nesse momento ele se perguntava, em quem ela seguraria?
She’s crying and she’s dying for you to take her home
And she doesn’t want space, she just wants to be chased
And for you to show her she’s not alone
So don’t wait and let her go cause I don’t want to be the one
Who has to say "I told you so"
I told you so
Were you really surprised
I told you so
(Ela está chorando e ela está morrendo para que você possa levá-la para casa
E ela não quer um espaço, ela só quer ser procurada
E que você mostre que ela não está sozinha
Então, não espere e deixe-a ir porque eu não quero ser a única
Que tem de dizer "eu bem que te avisei"
Eu bem que te avisei
Você estava realmente surpreso
Eu bem que te avisei)
Depois que José Alfredo desligou o telefone, Maria Marta pediu para que Cristina ligasse para o pai novamente, mas Cristina disse que não estava falando com o pai e sim com seu irmão, Elivaldo.
Claro que Maria Marta não acreditou, mas viu que insistir não adiantaria. Cristina era muito parecida com José Alfredo e a teimosia de ambos eram iguais, ela nunca iria revelar que ele estava vivo apesar dela sentir em seu coração que ele estava sim vivo. Então ela resolveu deixar uma mensagem para ele:
– Não se preocupe que eu não vou insistir mais nessa história – diz a Imperatriz após alguns segundos em silêncio. – Mas eu preciso te pedir uma coisa, antes que seja tarde demais. Então eu estou te pedindo para que você me escute, por favor. – completa ela, Cristina ainda relutante senta-se na cadeira de presidente e prepara-se para ouvir o que Maria Marta tinha a dizer, afinal ela não era mulher de pedir por favor. – Fala com o seu pai, diz que já passou da hora dele voltar e reassumir o comando de tudo. Não precisa me falar e nem responder nada, só escute. – diz a aristocrata ao ver que Cristina já estava preparando-se para negar ou revidar dizendo que o pai estava morto. – Ele não tem mais escolha, fala pra ele voltar. Porque se não nós vamos entregar tudo de mão beijada para o Maurílio. E tudo, absolutamente tudo que ele construiu durante todos esses anos vai escorrer pelo ralo. Vai acabar!
E então Maria Marta sai da sala após se recompor deixando Cristina ali sozinha, pensando em tudo o que ela havia dito. De certa forma ela concordava, já havia passado da hora do seu pai voltar ou ao menos se revelar para a família. Mas também entendia que ele precisava encontrar uma maneira de parar o Maurílio e certamente não iria poder fazer isso da cadeia que é para onde ele vai caso retorne, e agora não só pelo possível contrabando de pedras preciosas e lavagem de dinheiro como também por forjar a própria morte. Sua atenção foi tomada ao ouvir o som de seu celular:
"Estou indo viajar com Josué, depois conversamos."
Mas uma coisa ela sabia, jamais poderia negar um pedido desses. Assim que seu pai retornasse de viagem ela iria até ele falar sobre Maria Marta.
***
A viagem até São João Del Rey foi longa, Zé Alfredo e Josué saíram do Rio no início da madrugada e só chegaram de manhã do sítio que pertencia a dona Jesuína Ferreira. Josué foi o trajeto todo dirigindo o carro enquanto José Alfredo tentava inutilmente dormir. A verdade é que a "conversa" que teve mais cedo com Maria Marta o deixou desnorteado e pensativo. E cada vez que fechava os olhos era como se ouvisse novamente tudo o que ela havia lhe dito.
Assim que estacionaram o carro ele pode vislumbrar melhor o local, o lugar era simples porém tinha um tamanho considerável e um clima agradável. Certamente Zé poderia viver ali tranquilamente. Adentrando a propriedade ele conseguiu ver uma senhora, de certo modo com uma idade avançada, tratando das galinhas que ali haviam.
– Ô de casa! – exclamou José Alfredo acenando com a mão e se aproximando da senhora que estava ali, chamando a atenção dela e fazendo com que ela se virasse. – Eu estou procurando dona Jesuína Ferreira. – continuou.
– É o quê? – perguntou a senhora sem entender o que o homem de preto havia falado devido a certa distância que ainda existia entre os dois que diminuía conforme José Alfredo andava.
– Jesuína Ferreira – repetiu – Por um acaso é a senhora? - perguntou assim que ficou frente a frente com a mulher.
– Sou eu – respondeu a senhora. – Quem é que quer falar comigo?
– E-Eu... Meu nome não importa. Também não é com a senhora que eu quero falar é com o seu filho, Maurílio. – diz José Alfredo um pouco confuso no começo, não podia falar seu nome. Afinal, ele estava morto e não tinha certeza se poderia confiar na senhora.
– O senhor disse... Maurílio? – pergunta a senhora um pouco agitada.
– A senhora se acalme porque não é nada de ruim, não. Ninguém vai fazer mal para o seu filho. — responde ao notar a mudança no semblante da senhora com seu sotaque nordestino característico.
– E nem podem, moço. Também não pode falar com ele — diz a mulher.
– E eu posso saber porque não?– pergunta Josué, que estava logo atrás de José Alfredo.
– Maurílio, Maurílio tá morto! - diz ela, deixando José Alfredo confuso e surpreso com a resposta. Definitivamente, ele não estava esperando por aquilo.
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