Miss You Love
1 Chapter 1: Memories
Notas iniciais
Já se passava das dez horas da noite, a lua cheia brilhante iluminava todo o céu e a escuridão do quarto. Essa era uma das raras noites em que as estrelas ficavam escondidas na imensidão azul escuro do céu. Essa era uma das noites em que ele mais gostava, ele, José Alfredo, seu amor. Seu único amor. Era praticamente impossível acreditar que ele havia morrido, justo ele que se julgava imortal. E a dor da perda e da culpa eram consumidoras. Era quase insuportável. E parecia que a cada dia piorava.
Sentia que aos poucos perdia o juízo, pois chegava a imaginá-lo ali, naquele quarto olhando pela janela como ela fazia agora. Ela havia se mudado para o quarto dele, tinha certa necessidade de sentir a presença dele, e era terrível ficar em seu quarto, no quarto que ele havia morrido. As lembranças de sua morte eram dolorosas demais, e volta e meia ficavam repetindo-se em sua mente, como um filme. Ela desejava que tudo fosse um filme ruim, mas não era, não desta vez.
Ali naquele quarto tudo tinha a presença dele, e também diversas memórias. Mas neste caso eram boas lembranças, de quando ele estava vivo e mandão como sempre. Se permitiu perder nas memórias que haviam dele:
(Dê o play na música)
You're losing your memory now..
Call all your friends
And tell them you're never coming back.
'Cause this is the end,
Pretend that you want it
Don't react
(Você está perdendo sua memória agora...
Chame todos seus amigos
E diga a eles que você nunca mais vai voltar
Porque esse é o fim
Finja que você quer
E não reaja.)
" — SHIT, MARTA. O QUE VOCÊ FOI FAZER NO MEU QUARTO? EU VOU TE MANDAR DE VOLTA PRA PETRÓPOLIS. — disse Zé Alfredo aos berros, saindo da porta de seu quarto e logo dando de cara com Maria Marta no corredor.
– Do que você tá falando, Zé? Ficou gagá de vez, foi? — perguntou Maria Marta fazendo-se de desentendida e rindo por dentro, na realidade ela sabia exatamente do que ele estava falando.
– Foi você... Fez isso de propósito, pra me azucrinar, porque sabe que eu odeio cama desarrumada. — respondeu José Alfredo gesticulando com a mão e apontando para ela acusadoramente. E logo então o interrompendo e o provocando.
– Fui eu sim, fiz pra sentir teu cheiro. Eu me deitei lá e me enrolei naqueles lençóis igual uma gata no cio. Porque apesar de todo o dinheiro que conseguiu ainda continua com o mesmo cheiro de pobre..."
The damage is done
The police are coming
Too slow now.
And I would have died,
I would have loved you all my life.
You're losing your memory now.
(O dano está feito
A polícia está vindo
Muito devagar.
E eu teria morrido
Eu teria amado você toda a minha vida
Você está perdendo sua memória agora.)
"- Pronto, cama arrumada. Mais alguma coisa, Comendador? — disse Maria Marta terminando de esticar o lençól pela última vez.
– Nunca mais entre aqui, me ouviu bem? — disse ele a olhando severamente.
– Alto e claro. — respondeu ela em tom de deboche. Depois de um longo silêncio Zé resolveu se pronunciar:
– Vem aqui Marta... Aquilo que você disse era verdade? — perguntou ele um pouco sem graça. Na verdade ele não queria perguntar, não queria dar esse gostinho para Maria Marta, mas a sua curiosidade falou mais alto e quando se deu conta as palavras já haviam saído.
– E o que foi que eu disse? — disse Marta realmente sem entender o que ele queria dizer.
– Sobre o meu cheiro... — começou ele tentando achar as palavras. –... que eu tenho cheiro de pobre. — terminou ele pegando o travesseiro e cheirando o mesmo.
– Não, eu falei aquilo para te ofender. Sabe Zé, quando uma pessoa fica rica. Mais rica, rica, rica. Tudo nela se modifica, inclusive o cheiro. — disse ela gesticulando com as mãos, e então olhando em seus olhos completou: — E o seu cheiro é de um homem muito poderoso, e esse quarto tá impregnado dele, e eu particularmente gosto.
– Então eu não tenho defeito, sou um homem perfeito. — retrucou Zé deixando um sorriso escapar pelos lábios. O sorriso de Marta na mesma hora murchou e não demorou a retrucar.
– E besta, e neurótico, e chato, e turrão, e injusto, e ignorante, e cabotino. — enquanto Maria Marta enumerava as 'qualidades do marido', Zé mantinha um sorriso nos lábios e ao perceber que a lista era grande resolveu interrompê-la.
– Oh, oh. Pare, se não eu vou começar a pensar que você está se apaixonando de novo por mim. — disse ele em tom de deboche tentando provocá-la. A Imperatriz não perdeu tempo em ofendê-lo uma última vez e sair do quarto.
– E velho, e babão e gagá..."
Where have you gone,
The beach is so cold in winter here.
And where have I gone,
I wake in Montauk with you near.
Remember the day,
'Cause this is what dreams should always be.
I just want to stay,
I just want to keep this dream in me.
(Por onde você esteve?
A praia é tão fria no inverno, aqui.
E onde eu estive?
Eu acordei em Montauk com você ao meu lado.
Lembre-se do dia,
Porque isso é o que os sonhos deveriam sempre ser.
Eu só queria ficar,
Eu só queria manter esse sonho em mim.)
"Cê tá chorando? — questiona ele ao olhar nos olhos azuis de Marta.
– Eu tô, Zé. Mais eu tô chorando é de felicidade — responde ela.
– Eu te amo. — declara ele. E ela não pensa duas vezes antes de lhe responder de volta.
– Eu também te amo, Zé"
Wake up, it's time, little girl.
Wake up.
All the best of what we've done is yet to come.
Wake up, it's time, little girl.
Wake up.
Just remember who I am in the morning.
You're losing your memory now...
(Acorde, é a hora, menina.
Acorde.
Tudo de bom que já fizemos já está chegando.
Acorde, é a hora, menina.
Acorde.
Só se lembre quem eu sou pela manhã.
Você está perdendo sua memória agora ...)
Lágrimas já caiam dos olhos da aristocrata, as lembranças mesmo que distante pareciam tão vivas na sua memória. Ela sabia que uma vez ela já havia a amado. Tinha absoluta certeza disso. Se arrependia profundamente de ter tentado dar um golpe para conseguir o comando da Império das Jóias, se ela não tivesse se deixado guiar pela ambição e pelo medo talvez eles ainda estivessem juntos, e para que não dizer, felizes. Sendo amantes, amigos, aliados, cúmplices, casados. Como sempre fora desde o início de tudo.
Deixou seus pensamentos ao notar que havia recebido uma mensagem em seu celular. Em passos largos caminhou até ele, logo lendo a mensagem que havia chegado.
"Nos vemos amanhã na Império meu amor, Maurílio."
***
No outro canto da cidade, naquele mesmo momento havia um homem olhando para o céu, mais precisamente para lua. Arquitetando um plano para aniquilar com todos aqueles que estavam querendo o destruir, e quem sabe então voltar para seus filhos, seus netos e sua família. Voltar para sua vida que foi arrancada de suas mãos, o obrigando a viver escondido, o obrigando a morrer. Ou forjar sua morte como ele fizera.
A verdade é que em um jogo de poder ou você mata, ou é morto. E definitivamente José Alfredo de Medeiros não iria morrer, nunca.
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