Querido diário,

Eu estou morrendo, morrendo, e às vezes é preciso sacrificar a si mesmo para salvar a própria vida. Há um instinto de sobrevivência dentro de mim que tem força demais para o meu próprio bem, e através dele eu percebo que se (e esse é um "se" beirando a "quando") eu deparar com a necessidade de uma difícil decisão – morrer dignamente ou viver perdidamente – eu escolherei preservar a vivacidade. Não a vida, a vivacidade. Meu caminho digno me levaria a uma identidade regrada, bem comportada, obediente, mas eu estaria morta por dentro, não sentiria mais como se estivesse sequer vivendo, mesmo que em termos biológicos ainda tivesse vida. É essa dicotomia da palavra "vida", as funções vitais e a vivacidade, que define o meu drama existencial.

Eu sempre terei as funções vitais, até encontrar o desvanecer ou uma fatalidade. Mas posso tê-las com ou sem a vivacidade. Sem é morrer dignamente, com é viver perdidamente. A vida literal está aqui e ali, mas será ela feliz ou infeliz, essa é a dúvida.

Sartre imaginava que para encontrar a autenticidade, era necessário que algo entrasse em colapso. Bem, eu estou entrando em colapso, mas isso não me conferiu qualquer caráter autêntico. Talvez você simplesmente nasça um Gauguin ou um Van Gogh, esteja destinado a se tornar um gênio conforme amadurece suas habilidades. Outras pessoas jamais conhecerão outro caminho que não o da mediocridade, do tédio lancinante e rotineiro. Ainda não tenho certeza se isso é melhor ou pior do que se quebrar todo, enlouquecer e colapsar e no final ser apenas mais um que decepcionou os entes queridos e não deixou grandes obras de arte para contrabalancear a desgraça.

Esse é o cenário do meu futuro, as possibilidades que compõem as minhas expectativas. Esse é o relato das minhas divagações, o registro dos meus dilemas. Não é que eu tenha aqui qualquer pretensão de me consagrar como romancista ou autobiógrafa – é apenas que, se no ponto final da minha história, no fim dos meus dias eu acabar morrendo perdidamente, quero ter algo para deixar que sirva de alguma coisa, entretenimento ou autoajuda, qualquer coisa. Não parece haver destino pior para mim do que ter existido em vão.