Miss Behaved
2 Manet
— Srta. Dwight?
Eu me encolho instintivamente. Nem percebo que estou resmungando no meio do sono:
— Burgueses!... Burocrsss... Hmm-sembleia...
— Srta. Dwight.
Honestamente não sei com o que estou sonhando. Tudo está borrado, esfumaçado e tremeluzente. Há uma torre diante de mim, ou pelo menos tem o formato de uma. Sinto como se eu estivesse sendo arrastada até ela à força, como uma princesa prestes a ser encarcerada. Ai, meu Deus. Talvez seja uma guilhotina. Vasculho a minha mente atrás de resquícios do passado: em outra vida, eu posso ter sido uma princesa mesmo, e literalmente perdido a cabeça na Revolução Francesa. Talvez a princesa de Lamballe! Embora esta, se bem me lembro, tenha sido linchada. Mas sua cabeça foi posta na ponta de uma lança de qualquer maneira, o que eu considero ser uma morte tão terrível quanto...
— Srta. Dwight.
Pensando bem, acho que não é uma guilhotina. Eu imaginava que a janela da torre fosse a lâmina, mas aparentemente há alguém acenando lá de cima. Por outro lado, pode ser apenas o meu reflexo chegando cada vez mais perto da morte. Todo mundo sabe que as dimensões são distorcidas nos sonhos.
Há uma voz me chamando, eu me viro e o meu vestido volumoso é atingido pelo vento voraz, assim como os meus cabelos. Há ninguém atrás de mim, mas a voz persiste, e tem um timbre familiar, quase acolhedor. Apesar de grave, ao mesmo tempo é suave, aveludada, com toda sorte de sinestesia e eco. Eu tenho um príncipe, é isso? Decerto ele vem me resgatar da torre, combater o dragão ou algo assim. Se bem que eu não creio que minhas tranças sejam longas o bastante para... Espere um minuto. Eu não tenho tranças. E achei que estava a caminho da decapitação. Mas de repente percebo uma paisagem bucólica de montanhas e céus auriverdes que não tem cara de ser a Paris do século XVIII...
— Srta. Dwight!
— Ah! — deixo escapar quando minha cabeça levanta num impulso agressivo. — Salve a rainha!
Há uma onda de risadas que se propaga ao longo da sala. Deus, que vergonha.
A primeira imagem que meus olhos abertos encontram é a do príncipe em questão. Ele não é particularmente alto, mas tem um corpo bem definido, como um modelo da Calvin Klein... Só que mais magro. Menos beleza propriamente dita e mais charme sedutor. Seus cabelos são castanho escuros e cacheados, seus olhos são de um verde sujo duma maneira que tal palavra jamais será usada em tão bom sentido novamente. É como um pedaço de mármore esmeraldino derretendo sobre um rochedo a beira-mar... Sim, definitivamente isso – eu poderia escrever um poema. E ele se veste bem. Despojado e elegante ao mesmo tempo, como um presidente nórdico numa visita a um país tropical. Informalidade contida, jovialidade inerente.
Apesar disso, há uma má notícia. É bem uma surpresa, meio que Into the Woods no caminho do segundo ato: Liam Ross é um mulherengo cafajeste, pegador e sem vergonha. Um príncipe ao contrário, como Robin Hood foi um herói às avessas. Eu voltarei a falar sobre ele – há demais o que se dizer para não reservar um capítulo inteiro.
— Hum. — ele me encara com um olhar de reprovação divertida, como se quisesse rir, embora provavelmente ache que isso o faria perder a credibilidade docente ou algo assim, mas ao mesmo tempo não esteja dando a mínima. Porque ele é esse tipo de pessoa. — Não sabia que se interessava pela realeza britânica, Dwight.
Sinto minhas bochechas corarem. Ponho-me ereta no assento, procurando recuperar a compostura, mas uma gagueira repentina me denuncia.
— Ahm... N-n-não, é que... É que... Não é essa rainha. Eu estava... — tomo fôlego, envergonhada — Estava falando de Maria Antonieta, eu acredito. Salvar no sentido de... realmente... salvar... a vida. É que... Eu estava... sonhando... com a guilhotina... Eu... Não sei por que disse isso. Deve ser o... — eu aponto estupidamente para o projetor multimídia que um grupo de alunos utilizava para apresentar um seminário antes de eu cair no sono. Mas a figura que provavelmente me causou o pesadelo não está mais na tela. Agora há uma mulher com os seios à mostra, erguendo uma bandeira azul, branco e vermelha sobre cadáveres empilhados. É o famoso quadro de Delacroix, "A Liberdade Guiando o Povo".
Droga de revolução errada. Mas, pensando bem, o quadro serve para ambos os momentos históricos, não? Quem poderá dizer que também não exprime o sentimento romântico e idealista do século XVIII? É absolutamente compatível, e também poderia ter me incitado o pesadelo, embora nada realmente justifique o fato de eu ter dormido durante a apresentação.
— Entendo. — ele diz, enquanto desce os dois pares de escada do elevado sobre o qual leciona até os alunos. Estou sentada na primeira fileira, de forma que não demora chegar até mim. — Aparentemente você caiu no sono cinco slides atrás, quando Robinson falava sobre as técnicas neoclassicistas da arte francesa no século XVIII. Robinson... — ele chama, e o estudante prontamente dá um passo à frente. — Fale novamente sobre as proporções corporais naquele folheto de um carrasco segurando a cabeça do cidadão guilhotinado. Bates, pode voltar ao slide 31, por favor?
— Não! — eu imploro, e imediatamente percebo que fui dramática demais. — Quero dizer... Não... Não é necessário, Sr. Ross. A apresentação pode prosseguir, eu... prometo que não vai mais acontecer. Eu sinto muito.
Além disso, não estou afim de ver aquilo de novo. Abrielle Grady está sentada logo atrás de mim e já posso ouvi-la cochichar debochadamente com as amigas sobre o que ela uma vez chamou de minha "pateticidade". Isso seria algo como a qualidade de ser patética, a qual, segundo Abrielle, eu domino. De repente desejo ser corajosa o bastante para encará-la cheia de autonomia e dizer: "Bem, e daí que eu caí no sono? Ao menos o meu nome não parece um erro de registro do que deveria ter sido Gabrielle, e ao menos eu não sou uma vaca".
(Sei que não foi um erro de registro. Os pais dela realmente a batizaram de Abrielle, como se fosse adorável desfalcar um nome comum para criar uma originalidade brega. Mas gosto de pensar nisso como uma desatenção do funcionário do cartório. Assim, além da crueldade cega, Abrielle Grady e Hitler ganham mais uma coisa em comum.)
— E, hum, Sr. Ross... — limpo a garganta timidamente. Preciso mudar de assunto, que todo mundo ainda está olhando pra mim. — É Wright o meu sobrenome, com W. Não Dwight, com D. Mas não se preocupe, todo mundo confunde.
Exceto que os meus professores, e não apenas Liam, parecem confundir o tempo todo. Já perdi a conta de quantas correções tive que fazer em sala de aula. Até nas minhas provas vem o nome impresso dessa maneira, tanto que tive que pedir à minha mãe para mandar uma carta de reclamação formal ao colégio. Até hoje não nos responderam, o que eu considero bastante rude da parte deles.
Quero dizer, caramba, qual é a dificuldade? "Wright" é um sobrenome tão comum! Dwight, por outro lado, mais parece um nome próprio. Quem se chamaria assim?
— É claro. Claro. — ele se recompõe depois de me encarar por uns cinco segundos com uma expressão de completo desentendimento. — Perdoe-me, Srta. Wright, eu vivo esquecendo. Sendo assim, sigamos em frente. — ele aponta para o projetor e Tom Robinson volta a discorrer sobre Marianne, a mulher no centro do quadro de Delacroix. Por um instante acompanho enquanto ele comenta os aspectos contextuais da obra, mas aos poucos começo a divagar pelo ambiente. Vejo Liam se isolar num canto da sala com o celular em mãos. Ele faz uma ligação com o semblante preocupado, e quase consigo captar trechos da conversa através de leitura labial, antes de ele se virar para a janela e eu não ser mais capaz de ver o seu rosto.
Penso brevemente nele. Estava dizendo alguma coisa como "achei que os remédios ajudariam". Fico envergonhada por encará-lo e desvio o olhar, mas ainda estou pensando nele. Sei de quem se trata a conversa, e é menos pelos dizeres decifrados do que pelo seu olhar destruído e cheio de ansiedade. Há algumas semanas, fui ao seu apartamento entregar um trabalho atrasado. Havia lápis de cera e folhas de papel rabiscadas com desenhos coloridos, infantis, espalhados por todo o chão da sala. Aos meus olhares interessados, Liam contou que pertenciam a uma sobrinha de cinco anos chamada Lisa, que havia acabado de visitá-lo. Quando perguntei se eu poderia conhecê-la um dia, seu rosto ficou lívido. Ele balbuciou que ela tinha uma doença rara da qual toda a família esperava que se curasse em breve – mas o tratamento era difícil e, até então, os remédios não estavam tendo resultado. Ele não queria que ela tivesse que ser internada novamente.
É estranho como as pessoas podem parecer bem. Liam Ross parece mais do que bem na maior parte do tempo, com seus sorrisos atraentes e cantadas sutis, todas as garotas que se acumulam ao seu redor como se ele fosse uma celebridade, sempre bem vestido e jogando conversa fora com os jogadores do time de futebol, a galerinha popular e festeira que parece acolhê-lo como se ele fosse um aluno, parte da turma. É estranho imaginar que, por dentro, talvez ele não esteja pensando nas animadoras de torcida que se amontoam sobre ele, atiradas, mas em Lisa, a sobrinha doente. Quase faz esvanecer parte da indignação que se tem em relação a um cafajeste festeiro e insensível partidor de corações.
Então passo a pensar em mim. Liam faz muito bem seu papel de pegador. Eu faço ainda melhor o meu de menina perfeita. Mas por dentro, não é o que eu quero ser. Não é como eu me sinto, ou como eu sinto que seria feliz. É apenas uma obrigação, um dever para com a sociedade, e em especial para com a minha família, que esbanja perfeição e que me criou para seguir o seu caminho íntegro e previsível. Tem sido assim desde sempre, a previsibilidade se tornando mais estável a cada dia que passa. De fato, quase posso dizer que a razão pela qual tanto anseio por uma mudança é que as coisas permanecem as mesmas desde... Bem, desde sempre. De fato, desde sempre. Há dezessete anos eu sou a mesma pessoa.
Eu nasci e cresci em São Francisco. Conheço essa cidade de ponta a cabeça. Aprendi espanhol por osmose, comecei a economizar para pagar um apartamento aos doze anos (o preço do aluguel em São Francisco é provavelmente uma das razões pelas quais temos tantos mendigos), já nem me incomodo em levantar os olhos do livro num terremoto abaixo de 6.0 e como a maioria de nós, nunca estive em Alcatraz, então não me pergunte.
Eu amo São Francisco. Quero dizer, é a minha casa. É claro que eu me sinto à vontade aqui, entre um inferno de verões quentes, piqueniques em Dolores Park e a belíssima Golden Gate ao amanhecer. Mas eu jamais conheci outro mundo que não esse. Afora algumas viagens de fim de semana à Disneylândia ou aquele feriado em Sacramento (eu sei, eu sei – por que diabos alguém passaria um feriado em Sacramento?), eu nunca realmente saí de São Francisco. Ai, meu Deus. Agora que pensei nisso... Eu nunca realmente saí da Califórnia!
Com isso são dezessete anos não apenas sendo a mesma pessoa, mas vivendo num mesmo lugar, e essa não é a pior parte. De muitas maneiras, a Califórnia é um paraíso de diversão e loucuras, e é de se imaginar que crescer na Califórnia significa crescer com histórias pra contar. Mas eu tenho nada. A minha família é puritana e conservadora, de maneira que meus irmãos e eu crescemos acolhidos por um rigor sensato. Desde pequena, fui a Srta. Bom Comportamento, que cumpre com todas as responsabilidades da maneira como lhe é regido. Tenho bons amigos, um bom namorado, sou uma boa aluna. Enquanto todo mundo ao meu redor enlouquece e se embriaga de liberdade californiana, eu sento e obedeço como um cachorrinho.
Se eu fosse um segmento de reta, seria uma mediatriz – você sabe, aquele segmento que atravessa uma reta exatamente no ponto médio, necessariamente formando um ângulo de noventa graus. Diferente da mediana, a mediatriz não pode formar qualquer outro ângulo que não seja este, o reto. A característica mais óbvia da mediatriz é a sua visível precisão. Exatamente no meio, exatamente perpendicular à reta que atravessa, exatamente colocada em uma posição que representa equilíbrio.
E tudo em relação a mim é irritante e insuportavelmente equilibrado: minha aparência, minha personalidade, minha família, meus amigos, minha vida escolar, minha vida amorosa, e, bem, minha vida. E isso... Isso está errado, não está? De um jeito. Quero dizer, não é pra ser equilibrado. Eu sou uma adolescente, pelo amor de Deus, era pra tudo estar uma bagunça! Não essa... organização obsessivo-compulsiva tão bem arranjada, tão harmônica.
Dói pensar que talvez a única bagunça por aqui esteja na minha mente.
— Sabe, o que eu mais gosto sobre as fotografias de Nadar... — ouço alguém sussurrar ao meu lado e percebo que está se dirigindo a mim. É Liam, tendo já finalizado a ligação toda murmúrios que fizera durante a exposição dos alunos. Acabo de me dar conta de que estive devaneando de verdade, e a equipe do seminário já disserta sobre outra imagem. Liam certamente percebeu minha desatenção, de outro modo não teria se sentado perto de mim. — é o caráter reflexivo que ele exprime através do plano de fundo neutro e da expressão de quem ele fotografa. Veja o semblante de Sarah Bernhardt... Tente acompanhar a direção de seus olhos. Ela não está olhando realmente para a câmera. É uma pose natural, pensativa, quase como se ela olhasse para dentro de si mesma... Não acha?
Rapidamente procuro alguma coisa inteligente para responder, mas... Bem, droga, eu não estudei as fotografias de Nadar.
— Ahm... É... Eu... Sim, claro. Nota-se bem o... contraste entre a luz contida na... Hum... estética minimalista...
— Missy.
— Sim?
Liam me dirige uma expressão quase repreensiva.
— Não estou pedindo que descreva as técnicas artísticas de Nadar. Apenas que perceba a fotografia e me diga o que vê no olhar da atriz.
Eu assinto, obediente, e fito a imagem no telão. Sarah Bernhardt acolhe a si mesma num tipo de manto espesso que segura contra o corpo. Ela olha para o nada, com as mãos delicadamente sobre um móvel cilíndrico. Como se algo atrás da câmera prendesse sua atenção. Decerto enquanto posava para Nadar, teve que focalizar alguma coisa. Um papel de parede, uma peça de mobília... Isso lhe conferiu uma aparência imaculada, pura. Quando Sarah encontra o nada que existe na frivolidade, e sua mente se liberta de quaisquer pensamentos exaustivos, eu creio, só o que resta é a sua essência. E há um pouco de abatimento nela.
— Honestamente, Sr. Ross... Eu não sei. Talvez ela estivesse pensando "será que eu deixei a torneira da pia aberta?" ou... Talvez estivesse, naquele breve momento em que seria imortalizada, pensando em quem de fato era aquela pessoa que ficaria para sempre gravada em fotografia. Talvez perguntasse a si mesma se todos os que veriam a imagem seriam capazes de ver a sua alma como ela via, ou se apenas admirariam sua beleza e lembrariam dela como a atriz talentosa de tamanho sucesso. — eu respiro fundo.
Liam sorri, compreensivo.
— E como acha que Sarah via a si mesma?
— Acho que como alguém que já passou por muita coisa. Demais para se traduzir num olhar... Daí a sua leveza quase apática, mas não realmente indiferente. Apenas... Eu não sei. Como se estivesse descansada, quisesse se entregar ao simples e natural. Ela parece tão impecável, como numa pintura. — de repente me lembro. É claro. Esse é aquele fotógrafo francês do século XIX que emprestou o estúdio aos meus impressionistas preferidos para que expusessem suas obras. Assim eles puderam se tornar célebres. Digo, pois de súbito me veio à cabeça: — A fotografia como uma forma de arte tão digna quanto a pintura.
Liam sorri novamente. Parece que eu não me saí tão mal, considerando meu desconhecimento a respeito de Nadar.
— Um viés pictorialista, sim. Gostei de ver, Srta. Wright. Mas você também disse que Sarah Bernhardt parece alguém que já passou por muita coisa. Tem razão. Ela teve uma história de vida bastante conturbada.
— Eu sabia.
— Por outro lado, o olhar pensativo dela foi o que me chamou atenção até você. Porque você tinha o mesmo olhar há poucos minutos, de uma intensidade misteriosa. Eu me pergunto, baseando-me no que você disse sobre o olhar da atriz, se os seus pensamentos estavam na contraposição entre o que você é e o que as pessoas pensam que é... Ou se deixou a torneira da pia aberta.
Ele está certo, penso enquanto abafo um riso suave e um pouco constrangido. Não sobre a torneira, é claro. Mas o que eu disse sobre Sarah Bernhardt é exatamente o que eu estava pensando sobre mim mesma agora há pouco. Sobre como eu desejo tão profundamente ser mais do que apenas a Srta. Bom Comportamento que tenho sido desde o início. Aposto que ninguém imagina que isso passe pela minha cabeça, mas passa. Também poucos seriam capazes de cogitar que insobriedades tão lastimosas pudessem consumir um rosto tão bonito como o de Bernhardt. Nós duas parecemos muito melhor do que provavelmente estamos ou estivemos.
Já é tempo de admitir de uma vez que eu não quero ser uma mediatriz para sempre. Eu quero ter alguma individualidade. Alguma coisa que me identifique na multidão, e que não seja o maldito equilíbrio. Não serei a garota que é nem isso, nem aquilo. Nem Rainha da Beleza, nem aberração da natureza, apenas bonitinha. Frágil e dúbia como um filhote de dálmata. Nem gênio da ciência, nem burra feito uma porta, apenas relativamente instruída. Nem rebelde, nem tímida demais, apenas encaixada. Nem popular, nem antissocial, apenas amigável.
Todas as pessoas ao meu redor têm uma característica marcante, seja ela boa ou ruim. Mas eu? Sinto como se um estagiário no Departamento de Criação do Céu tivesse confundido os botões do computador divino e acabado por me programar no corpo e personalidade padrões... Quero dizer, sem me configurar com algo que me torne realmente eu mesma. Sou um manequim de loja que ganhou um sopro de vida e vive para seguir as médias da população. É quase patético, como diria Abrielle.
— Eu só estava pensando... — suspiro — que talvez eu seja exatamente quem as pessoas pensam que eu sou... E que esse é o problema.
Liam olha para mim com um pouco de surpresa, mas não tem tempo de responder. O grupo terminou a apresentação em slides e a sala está em silêncio. Ele se levanta.
— Muito bem. Como puderam ver, fizemos uma viagem desde a Mulher de Willendorf até as "Três Bandeiras" de Jasper Johns. Eu gostaria de retomar, particularmente, a excelente análise do Sr. Robinson sobre a obra impressionista de Manet...
Um Bar no Folies-Bergère ressurge no telão, enquanto Liam comenta seus aspectos técnicos. Eu mordo o lábio, hesitante. Fico me perguntando por que ele gostaria de retomar "particularmente" essa obra. Eu estava prestando um pouquinho de atenção quando Tom Robinson fez sua análise, antes de eu dormir, e não achei que foi assim tão excelente. É claro que eu posso ter tropeçado no raciocínio, mas em geral Tom não é o melhor aluno tampouco.
A questão é que esse quadro tem tudo a ver comigo. Da cabeça aos pés é uma representação da minha vida que eu nem sei por onde começar. Ele retrata uma espécie de garçonete do século XIX, com um semblante que as pessoas costumam chamar de "resignado", mas que francamente, se você olhar bem de perto, vai perceber que é triste. Não é de aceitação, é de pura devastação, como se ela estivesse simplesmente exaurida, cansada de servir àquelas pessoas todos os dias. Quando eu me ponho bem perto da garota, quase sinto como se ela estivesse com vontade de chorar.
Eu me pergunto por que e percebo: ela está trabalhando. Todos no bar estão se divertindo, mas ela não pode se divertir porque tem que garantir que eles se divirtam. Quando Liam diz que a garota chega ao ponto de se confundir com os objetos do balcão, dado o seu desânimo eminente, involuntariamente balanço a cabeça, pois concordo e também me identifico. Às vezes penso que, como um camaleão, vou desaparecer na paisagem e ninguém vai perceber. Porque eu sou uma mediatriz, e como eu há outras milhares. Eu não sou única, sou substituível.
— A garçonete era uma prostituta, sabia? — ouço Abrielle Grady sussurrar para a amiga Jenny. — Não me surpreende que Manet tenha morrido de sífilis. Ouvi dizer que a perna dele gangrenou e teve que ser amputada. Nojento.
Eu reviro os olhos, prometendo a mim mesma que vou tomar coragem para mudar de assento da próxima vez que Abrielle se sentar perto de mim. Não dou a mínima se vai parecer rude. Quero dizer, ela está falando de sífilis e gangrena quando Liam fala de... de...
Do que ele está falando mesmo?
— Está claro que as pinceladas em massas de tinta conferem um efeito enevoado que exerce sobre a perspectiva espacial uma influência marcante...
Ah, sim, de perspectiva espacial. Viu só?
Mas de volta à garçonete de Manet, ela se chamava Suzon. O interessante é que, de muitas maneiras, esse quadro é cheio de mistérios, contradições, paradoxos, impossibilidades, dúvidas... e de um brilho fascinante. Mas nada me interessa além da garota. Nem o espelho, nem o trapezista, nem o cliente, nem as tangerinas e tampouco os aclamados burgueses sob o lustre no teto se não estiverem relacionados a Suzon. Porque, eu acredito, há uma razão pela qual Manet escolheu permitir que ela protagonizasse sua tela.
A expressão de Suzon carrega, a meu ver, mais significado que o sorriso de Mona Lisa. Também devia ser mundialmente famosa a sua face. Ela tem um tom avermelhado, como um rubor sobre a pele alva e macia de um bebê, que é uma impressão que as cores de Manet nos passam em toda a sua grandeza. Ela transmite inocência e ao mesmo tempo suspeita. Era ela uma prostituta? É inegável que havia uma atmosfera de barganha sexual pairando sobre o Folies-Bergère. Seria Suzon tão inocente quanto o seu olhar perdido e melancólico?
Alguma conjetura por aí sugeria que o espelho e sua configuração matematicamente incorreta podiam ser de algum modo uma resposta a essa pergunta. Suzon poderia ser duas: a inocente e cândida garçonete no centro da tela e ao mesmo tempo a mulher refletida no espelho, inclinada perante um cliente, e quem sabe suas intenções! Algo como Sr. Hyde e Dr. Jekyll, mas pra quê atribuir patologias tão cedo? Será que não há simplesmente duas garotas dentro de cada uma de nós?
Eu me sinto assim. Como se houvessem duas de mim: a garota que eu sou e a garota que eu quero ser. E eu não posso ser as duas, tenho que escolher uma e guardar a outra no bolso, encolhida e esquecida. Só poderei percebê-la entediada num reflexo do espelho, esperando para ser libertada.
— Como bem apontado pelo Sr. Robinson, a dúvida também é deixada por Manet no que diz respeito ao cliente refletido no espelho, o elegante burguês de chapéu e bigode. — diz Liam. Bates, que controla as imagens, amplia a tela de modo a focar no personagem citado. — Está tão próximo de Suzon que, num cenário realista, estaria bloqueando a visão do espectador em relação ao quadro, mas por alguma razão não o vemos efetivamente, vemos apenas seu reflexo. Há quem suponha que o próprio espectador, ou seja, nós que observamos a obra, esteja representando o papel do burguês. Embora, se fosse o caso, haveríamos de enxergar a face de Suzon muito mais de perto.
— Isso é tão entediante. — cochicha Abrielle Grady novamente. — Quero dizer, parece teoria de conspiração, todas essas sugestões sem concretude. E se Manet tentou reproduzir um reflexo de espelho, mas acabou perdendo a proporção enquanto pincelava? E agora ficamos todos fascinados, tipo, nossa, foi de propósito, o que ele quis dizer com isso?
Jenny deixa escapar um filete de riso estridente, mas não prolongado o bastante para interromper a aula. Os cochichos continuam.
— Quanta filosofia desnecessária, quando ele provavelmente só fez o quadro porque queria pegar a prostituta... Ah, quer dizer, a garçonete. — a amiga responde. As duas caem numa risada silenciosa.
Abrielle comenta:
— Por que não? Manet era homem, caramba. Será que é tão difícil para o nosso ego artístico admitir de uma vez que ele cometeu um erro e seguir em frente?
— Será que é tão difícil calar a porra da boca? Manet não era um amador igual a você, sua estúpida!
De repente fico surpresa e admirada que alguém tenha lhe dado uma resposta à altura.
Até que percebo... Meu Deus. Fui eu que disse isso.
E eu disse alto demais. Liam interrompeu a aula. Todo mundo está olhando para mim. De novo. Agora eu sou a garota duplamente mal educada. Como se dormir no meio da apresentação não bastasse, eu também maltratei uma colega de classe absolutamente sem motivo. Abrielle pode ser uma vaca, mas estava fazendo nada de errado. Quero dizer, quantas vezes eu mesma não debochei de grandes obras de arte com as minhas amigas, só de brincadeira? Certa vez Annie (uma das minhas melhores amigas) e eu passamos horas rindo de como as cores e as formas de Kandinsky eram "tão esquisitas e feias". E outra vez ficamos conjeturando sobre o que se passava na cabeça de Bernini enquanto esculpia O Êxtase de Santa Teresa, porque achávamos que os escritos dela mais pareciam "fanfics do Céu". Depois a gente se arrependeu, é claro, mas foi divertido naquele instante. Todo mundo faz isso de vez em quando, não faz?
Isso é tão típico de mim. Eu sempre estou à procura de uma justificativa para os erros que as outras pessoas cometem – e eu sempre encontro – mas jamais me permito considerar sequer motivos para os meus próprios erros. Não creio que eu seria capaz de fazer diferente. Foi para isso que eu fui criada: para conciliar, mediar e equilibrar o mundo ao meu redor, mesmo que isso me destrua devagar, que consuma as minhas forças feito soprar dente-de-leão em câmera lenta. É uma bela imagem, mas o que acontece depois? Morre uma flor.
Abrielle Grady não tem culpa do que disse. Está na linha tênue entre a ignorância e a estupidez, na interseção com a zombaria inocente. Missy Wright é inteiramente responsável por sua resposta. Ela tem consciência do seu dever, diferente da colega de classe, e se tem, a culpa é maior quando não o cumpre. Ela deveria ter ficado calada. Se tivesse que se manifestar, ela diria educadamente: "Na verdade, Abrielle, a tecnologia atual já é capaz de comprovar através de raio-x que inicialmente Manet havia pintado as proporções corretas e depois, de propósito, modificou o quadro. Além disso, qualquer um que entenda um pouquinho de técnica artística sabe que ele não poderia simplesmente ter 'perdido' a..."
De repente, o meu devaneio é interrompido por uma força que vem de dentro. Tudo começa a desvanecer. Estou entrando em pânico e o meu sistema de defesa encontrou uma forma de bloquear a minha dor. Agora não sou mais Sarah Bernhardt, Suzon ou a princesa de Lamballe... De fato, quão ridícula a tentativa de me equiparar a elas, eu percebo. As cores de Manet, Nadar e Delacroix se desfazem lentamente, dando lugar a uma fria e profunda escuridão.
Fale com o autor