Miss Behaved
3 Platão
Querido diário,
Se alguém se servirá das minhas palavras, espero que sejam aqueles que se identificarem comigo, em especial as garotas. Garotas como eu, que sentem aquela aflição pungente comprimindo seu peito como se o quisesse reduzir a cinzas, seja por causa de um homem ou de uma crise de identidade – ou de ambos, como é o meu caso. Garotas que se arrastam ao longo dos seus dias, de corações conflitantes, cheias de anseios, todavia agindo bem do jeito que a sociedade conservadora espera que ajam. Garotas que assistem ao espetáculo do tempo passar com a melancolia de um navio que some no horizonte e leva todos os sonhos delas com ele, rumo a uma terra de aventuras, para serem realizados por quem teve a coragem de embarcar na tempestade dos sete mares.
Garotas que, em suma, desejam incessantemente que pudessem ser outras garotas. Aquelas destemidas, desapegadas, independentes. Aquelas que são felizes como Leminski é um escritor: e pronto, tem que ter por quê? Mas daí se você as conhece, essas garotas-alvo, percebe que não tem como, afinal, ser plenamente feliz, e que em função de uma felicidade há de se sacrificar outra, e pôr uma tristeza pungente no lugar, que sempre haverá de fazer todo o resto das coisas felizes parecerem menos completas.
xxxxxx
Eis o que se pode dizer sobre Liam Ross. Primeiramente, é preciso admitir sua popularidade beirando a folclórica, não fosse sua clara existência efetiva. Não há um só ser humano sociável nas redondezas que não o conheça. Isso porque Liam... Liam é peculiar, essa é a palavra. Qualquer um lhe daria 22 anos sem pensar, mas a verdade é que ele é pelo menos dez anos mais velho do que isso. O que ele leciona é uma porção de nuances em Antropologia, História e História da Arte, do paleolítico ao contemporâneo. Aparentemente, e a peculiaridade começa aqui, Liam Ross é um tipo estranho de "superdotado", ainda que essa teoria não seja inteiramente aceita por grande parte das pessoas a quem se solicita uma opinião sobre ele. Mas a meu ver, é a única explicação possível para alguém que conclui o ensino médio aos dezesseis anos e acumula mestrados e doutorados como quem coleciona tampinhas de garrafa (dois de cada, mas convenha-se, estamos falando de graduações).
Ainda assim, a razão pela qual nem todos conseguem admitir classificá-lo como superdotado é que a) ele é um gênio das Ciências Humanas – e honestamente, quantos superdotados você conhece que memorizam acontecimentos e filosofias ao invés de fórmulas e equações? b) Embora não seja um professor medíocre, ele se limitou a uma carreira medíocre de professor (o que fala por si só) e c) como já dito, ele é o homem mais descaradamente mulherengo, festeiro e galanteador do colégio. Definitivamente não faz o tipo "nerd clássico", mas isso não desqualifica a sua peculiaridade intelectual, ou desqualifica?
— É claro que desqualifica — diz Annie enquanto revira o meu guarda-roupa. Estou no quarto com ela e minha outra melhor amiga, Hayley, que vasculha sua bolsa atrás de um batom cor de vinho. — É, tipo, contra as leis da Física ser assim tão inteligente e ao mesmo tempo um festeiro assíduo. Quem tem tempo pra estudar enchendo a cara toda noite?
— Exatamente — digo. — Só é capaz disso quem não precisa de tempo pra estudar porque simplesmente nasceu sabendo, sei lá.
— Ninguém nasce sabendo, Missy.
— Você entendeu. Ele é superdotado porque aprende com rapidez o que as outras pessoas levariam séculos pra assimilar. Daí conseguir ser mestre e doutor várias vezes bem antes dos trinta. — defendo.
— Sabe o que eu realmente acho? — diz Hayley, finalmente tirando o batom da bolsa e se dirigindo até o espelho do meu boudoir cor de rosa. — Liam Ross não é superdotado, ele é superestimado. Não estou tirando o mérito de dois doutorados, é claro que não, mas de repente ele foi apenas muito esforçado no ensino médio e na faculdade. Como resultado da dedicação, alcançou o sucesso bem cedo e agora está aproveitando a diversão que nunca teve. É a explicação mais plausível.
Annie ergue uma sobrancelha, misteriosa. Enquanto analisa um vestidinho preto enrugado que encontrou no fundo de uma das minhas gavetas, diz:
— Ouvi dizer que na faculdade ele tinha, tipo, cinco namoradas. Três não sabiam da existência umas das outras e duas eram "mente aberta".
Hayley e eu caímos na risada. Ela comenta:
— Eu não me surpreenderia. As garotas são loucas pelos doutores.
— Mas ele é instigante, o Sr. Ross. Sabe aquela coisa de que há "inteligência", "boa aparência" e "sanidade mental", mas você só pode escolher duas? — eu digo, sentando-me na cama. — Parece que ele quebrou todas as regras e escolheu as três.
— Ou talvez ele seja louco. Você nunca sabe. — Annie dá de ombros. — Ei, Missy. Quando você vai usar essa belezinha aqui? — ela joga o vestidinho preto sobre a cama.
— Não é meu. — digo, trazendo o vestido para perto de mim e alisando a etiqueta de preço. — Por esse preço, não mesmo.
Hayley é quem indaga, cuidadosa:
— Então de quem é?
— Provavelmente da Mel — murmuro, um pouco ressentida.
Mel é a minha irmã gêmea. Pois é, eu tenho uma irmã gêmea. Somos idênticas e tudo. Mel é apelido para Melanie enquanto Missy é para Melissa. Além de nós duas, que somos adotadas, nossos pais têm apenas mais um filho, o biológico Michael – que, é claro, chamamos de Mike. Sabe aqueles comerciais de propaganda de margarina? Nossa família é assim. A mãe dona de casa, o pai funcionário de um banco, as gêmeas e o primogênito bonitão, reunidos em torno da mesa tomando seu café da manhã perfeito e cheio de amor e companheirismo. Eu gosto disso, de verdade, juro que não sou ingrata e que entendo o tamanho da minha sorte por ter uma família tão bem estruturada. Se pudesse escolher, jamais os trocaria por o que quer que minha mente confusa de adolescente entenda como aventura. A única desvantagem de ser parte dos Wright é que há essa pressão para ser exatamente o que se espera deles. É como se, uma vez tendo nascido um Wright – ou, no caso de Mel e eu, admitido por eles ainda na infância – o seu caminho esteja automaticamente traçado e você não possa escolher um futuro diferente. Está certo e definido que um membro dessa família será um cidadão responsável e sóbrio com boas notas no colégio e na faculdade e em seguida um bom emprego. Nada, porém, que seja transcendental ou memorável, que deixe grandes marcas seja na História do mundo ou na simples história da sua vida. Em suma, é uma existência chata e ordinária.
Às vezes eu acho que é por isso que Mel tem andado tão estranha. Até algumas semanas atrás, eu não tinha que me silenciar diante de Hayley e Annie no que diz respeito à minha irmã. Acontece que as coisas mudaram. Mel mudou – para os nossos pais, pode parecer que tenha sido uma mudança sutil e que não desperta grandes preocupações. Ela tem se tornado mais fria e distante, coisa que eles entendem como polidez e estabilidade, mas é apenas porque não podem ver o que eu vejo. O tempo que ela passa fora de casa e a maneira como eu só posso saber que ela ainda está aqui – que não fez as malas e fugiu de uma vez – porque começou a deixar suas coisas espalhadas por aí como uma desleixada. O superfaturado vestidinho preto amassado na minha gaveta é um exemplo. O fato de que é um vestido de festa curto demais para qualquer garota decente de dezessete anos é um agravante. Outro dia eu encontrei um maço de cigarros debaixo do sofá e joguei fora antes que mamãe ou papai o vissem (sei que não pertence a eles porque os dois desprezam fumos e fumantes e sei também que não pertence a Michael porque ele não mora mais com a gente desde que foi para Yale). Isso pra não falar da vez em que havia um pacote de preservativos coloridos debaixo da minha cama. Não quero que Melanie fique encrencada por seja lá o que estiver fazendo com a sua adolescência, o que realmente não é da minha conta. Tampouco eu a julgo por isso. Pelo contrário, volta e meia chego a desejar que fosse eu a dona dos cigarros e preservativos ao invés da graciosa virgem puritana que escolheu esperar.
— Bem, não importa — diz Annie, colocando o vestido de volta na gaveta. — Missy, eu ouvi dizer que você deu uma surra e tanto naquela vaca da Abrielle Grady hoje na aula do Ross. Mandou bem!
— Ah, é mesmo — comenta Hayley, rindo. — Todo mundo está falando sobre isso. Parece que você a chamou de vagabunda promíscua, puxou o cabelo dela e a encheu de tapas!
Eu engasgo brevemente, os olhos arregalados.
— O quê? — brado, indignada. — Não! Eu não fiz nada disso! Eu... Abrielle estava difamando Manet com uns comentários sem fundamento. Mas eu não a chamei de vagabunda promíscua, nem a agredi, é claro que não. Meu Deus, meninas, vocês me conhecem, eu jamais faria isso. Estou me sentindo culpada até agora por tê-la chamado de amadora estúpida. Foi uma tremenda falta de educação.
— Ai, meu Deeeus, é tão adorável como você é bem comportada e, sabe, certinha. — diz Hayley, sorrindo — Nós meio que sentimos sua falta, Missy.
— Sentiram a minha falta? Mas eu estou com vocês o tempo todo.
— O que a Hayley quer dizer é que você se ocupa tanto com os seus deveres que acaba esquecendo de se divertir com as suas amigas. — diz rapidamente Annie, dando um empurrãozinho brincalhão em Hayley. — Você precisa tirar o nariz dos livros, sabe, aproveitar a sua adolescência.
— Olha só quem fala! — eu rio, brincalhona — Annie Cooper, a melhor aluna do colégio. Quem mesmo recebeu um prêmio pela melhor redação sobre Platão e a dualidade da alma? Quem?
— Tá bom, tá bom — diz ela, envergonhada. — Mas você também se ocupa demais tentando ser perfeita. Vamos sair amanhã à noite, o que acha?
Hayley se anima, dando pulinhos de entusiasmo e dizendo:
— Excelente ideia! Missy, adivinha só quem conseguiu ingressos para o show da Bastille, adivinha!
— Ai, meu Deus, Hayley, não! Não acredito! — eu me levanto, quase pulando também.
— Pode acreditar — ela sobe na cama e começa a cantar. — And the walls kept tumbling dooown in the city that we lo-o-o-ooove...
Annie e eu começamos a rir, mas não podemos resistir à vontade de cantar junto com ela, mesmo que nós três sejamos absurdamente desafinadas e não possamos entoar uma só nota sem espantar todos os pássaros da vizinhança.
É isso. Estamos oficialmente loucas. Mas nós podemos, certo? Temos dezessete anos e a melhor banda do mundo virá do outro lado do oceano, da distante e fabulosa Inglaterra, só para cantar ao vivo bem diante dos nossos olhos. Na verdade, é bastante provável que eles já estejam aqui em São Francisco, respirando o mesmo ar que nós. Sei que isso parece infantil, mas eu não realmente me importo. Annie, Hayley e eu somos fãs da Bastille desde que... Bem, na verdade eu não lembro. Pra mim parece desde sempre, o que é loucura já que eles não têm nem quatro anos de banda.
É estranho como eu não estava sabendo que haveria um show deles aqui na cidade. Começo a pensar que talvez Annie esteja certa e eu esteja mesmo me ocupando demais com a minha pequena e obsessiva perfeição de honrar as expectativas da família Wright.
Bem, quase perfeição. Claramente a minha conduta para com Abrielle sujou o meu bom nome. Veja as coisas absurdas que estão dizendo sobre mim agora. Logo eu, que sempre fui bacana com todo mundo – mesmo com metidas como a Grady – e jamais causei perturbações na vida de ninguém. Um passo fora da linha e todos me crucificam!
Além do mais, essa manhã foi um borrão abstrato, uma alucinação confusa e incompreensível. Num minuto eu estava na sala de aula, disparando ofensas contra uma inocente, mas nada ingênua Abrielle Grady. E então, do nada, eu estava em casa, no meu quarto, sem saber muito bem como eu havia ido parar ali. Decidi acreditar que fora tudo um pesadelo, um sonho aterrorizante, embora estranhamente real. Fiz bom uso da tática oficial da família Wright: mentir para si mesmo e se convencer de que o mundo é tão perfeito quanto o nosso pequeno universo suburbano. Disse-me várias vezes: foi um pesadelo, apenas um pesadelo, nada mais que um pesadelo, nada aconteceu. Quando Annie e Hayley chegaram e começamos a discutir frivolidades, eu já estava me sentindo melhor – até que Annie confirmou as minhas suspeitas. Não fora um pesadelo, afinal. O que então, aconteceu comigo? Como eu cheguei em casa?
Começo a puxar na memória. A última coisa de que me lembro é do pânico, de Liam, Abrielle, Jenny, Tom e todo mundo na sala me encarar como se eu fosse ora uma surpresa, ora uma piada. E então, nada. Nada depois disso, exceto... um desvanecer vagaroso, dormente. Como se eu estivesse desmaiando.
— Hum, Annie... — digo, tentando agir naturalmente. — Você não saberia me dizer exatamente se eu não... por acaso... desmaiei durante a aula do Sr. Ross esta manhã ou algo assim... saberia?
Annie dá de ombros. — Não tenho certeza. As pessoas fazem todo tipo de fofoca. Talvez você devesse perguntar a alguém que estava lá.
— Qual o problema, Missy? Você lembra de ter desmaiado? — pergunta Hayley, interessada.
— Eu não lembro, esse é o problema. Só sei que de uma hora para a outra eu estava aqui... E já estava escurecendo, então eu devo ter perdido o resto das minhas aulas se desmaiei.
— Pergunte à sua mãe, ela deve saber como você chegou aqui, certo? — sugere Annie.
— Talvez sim, talvez não. Às vezes ela não está em casa quando eu chego. Mas você tem razão, eu vou perguntar a ela.
— Isso me lembra uma coisa. — diz Hayley, sorrindo. — Eu soube da sua briguinha com a Abrielle pelo Patrick Bates... Ele estava lá e disse que achou fantástico o que você fez, Missy. Na verdade, ele usou essas palavras: "ela é fantástica em geral".
— Ai, meu Deus, Patrick está afim de você! — comemora Annie, animada.
— Não sei, não. — digo, duvidosa. — "Fantástica" não é um elogio muito confiável. Parece apenas outra maneira de dizer "esquisita".
— Nem vem! Ele está afim de você há um bom tempo, todo mundo já percebeu. — ri Annie.
— E essa não é a melhor parte. Ele disse que também vai ao show da Bastille amanhã! É ou não é o destino unindo vocês dois?
— Às vezes eu não sei qual é o seu problema, Hayley. Você sabe que Finn e eu estamos namorando.
Finn Boyd é o meu namorado há oficialmente um ano. Nós nos conhecemos numa reunião de apoio a jovens que decidiram fazer sexo apenas depois do casamento, o que foi uma bênção nos primeiros meses, porque nos unia por essa opinião e pelo empenho que tínhamos em defender um ao outro das tentações mundanas. Tecnicamente, minha família não é religiosa da maneira apaixonada e compromissada – mais uma vez, somos o equilíbrio entre o fanatismo e o desprendimento. Aquela gente sensata que frequenta a igreja nos domingos, mas não menciona religião pelo resto da semana, embora demonstre sua espiritualidade através das atitudes em conformidade com os ensinamentos cristãos. Finn, por outro lado, costumava ser daqueles cuja fé não conhecia barreiras e agia com uma força quase agressiva diante de suas crenças. Até que de uma hora para a outra e por um motivo que eu nunca fui capaz de descobrir, ele parou de frequentar o grupo de apoio, assim como a igreja, e me pediu, educada e amorosamente, para levar em consideração a possibilidade de termos uma relação sexual antes do casamento "qualquer dia desses". A resposta foi um educado e amoroso não. O que ele compreendeu melhor do que eu esperava, de forma que costumo dizer a Hayley e Annie que nem sempre tenho certeza se realmente conheço Finn tão bem quanto penso.
— Ah, é... — diz Hayley, com um olhar confuso como se não conseguisse se lembrar desse mínimo detalhe — Mas, hum, não custa nada dar uma chance ao Patrick. Apenas como amigos. Ninguém pode te impedir de fazer novos amigos.
— É claro que não, mas...
Hayley interrompe, parecendo bastante ferina.
— Mas você ainda está apaixonada por Liam Ross?
Eu abro a boca, indignada, e rapidamente atiro um travesseiro em sua direção. Ela o apanha antes que ele possa atingi-la e começa a rir.
— Pára com isso! Ficou louca? — digo, começando a ruborizar. — Isso é totalmente errado, imoral, ilegal e impensável... Ele é meu professor! E tem o dobro da minha idade, ou algo assim.
Hayley e Annie caem na risada juntas, como se cada palavra minha fosse um prato cheio de conteúdo humorístico.
— Então tá, Srta. Bom Comportamento. Vamos deixar Liam Ross e Patrick Bates e Finn Boyd pra lá e pensar em Dan Smith, o que acha? — sugere Annie.
— Muito melhor, obrigada!
Estou quase surpresa que não tenhamos levado isso adiante. Antigamente era só o que Hayley fazia: provocações e insinuações a respeito da minha suposta paixão pelo Sr. Ross. Também me surpreende que Annie esteja encarando isso numa boa. Quando Hayley fazia suas brincadeiras, ela costumava cruzar os braços, emburrada, e agir como uma metida, quase como se estivesse com ciúmes. Não entendo o que houve com as minhas amigas para que tenham mudado dessa maneira... O que pode ter acontecido em tão pouco tempo para que de repente Hayley passe a me juntar com Patrick Bates e Annie não se importe em falar sobre Liam Ross com tamanha tranquilidade?
Por sinal, eu não estou apaixonada por ele. Pelo menos, eu acho que não. Creio que se trate menos de uma paixão do que uma obsessão inocente, uma constante necessidade de desvendá-lo, compreendê-lo. Mas daí, que garota na escola não sente isso? Como eu já disse, Liam Ross é naturalmente instigante.
Algumas semanas atrás minhas amigas e eu ficamos até tarde na biblioteca estudando para uma prova. Annie e Hayley, havendo percebido a maneira como o Sr. Ross e eu havíamos nos dado inteiramente bem, e como eu me tornara gradativamente uma de suas alunas preferidas, passaram a insistir que eu estava realmente apaixonada. Annie zombou depressa, mas não levou adiante. Hayley, leve e desinibida como de costume, fazia de todas as minhas palavras motivo para puxar Liam Ross à conversa.
"Você tomou notas hoje, Hayley? Posso usá-las?", perguntei.
"Eu não, achei que você tomaria. Teremos que usar as de Annie."
"Está bem", disse Annie, "mas da próxima vez façam suas próprias anotações. Detesto quando reclamam da minha letra."
"Dê-me aqui, vou passar a limpo e Hayley poderá entender a minha letra."
"Por que você não anotou hoje, Missy? Sempre faz resumos coloridinhos e organizados. Terá sido a ausência do Ross que a deixou desanimada?", disse Hayley, numa risadinha travessa, referindo-se ao fato de que, por alguma razão, o Sr. Ross havia faltado naquele dia e fora substituído pelo Sr. Allen.
Eu corei, envergonhada. A verdade era que eu estava pensando demais em Liam, e se começássemos a falar sobre ele também, então adeus maratona de estudos. Eu podia estar meio deslumbrada, mas ainda sabia minhas responsabilidades como boa aluna.
"Não seja boba, Hayley", eu disse, encabulada, rapidamente pegando o caderno de Annie e mudando o rumo da conversa enquanto lia as anotações dela. "A única ausência que me preocupa agora é a do discurso de Hermócrates em sequência ao de Timeu e Crítias."
"Nem vem, Missy", rebateu Hayley, empertigando-se. "Não podemos perguntar a Platão por que não compôs o discurso de Hermócrates. Mas podemos perguntar a você por que não deixa de ser tão cabeça-dura. Sabe que está apaixonada pelo Liam, ande, admita de uma vez."
"Não é 'Liam', é Sr. Ross, e eu já estou de saco cheio desse assunto", eu disse, irritada.
"Deixe-a em paz, Hayley. Apaixonada ou não, temos uma prova amanhã. Com o Kaufman, Missy não tem a vantagem de ser a alunazinha preferida que Ross a concede. Ou estudamos ou levamos bomba, não vai adiantar discutir a paixonite proibida agora."
Eu fiz cara feia. Alunazinha preferida? Como se as minhas notas fossem consequência de Liam e eu sermos bons amigos? O que exatamente Annie estava sugerindo?
"Se você está tentando me defender, saiba que está tendo o efeito contrário."
"Direcione a sua raiva a Platão", Annie ergueu o livro diante dos nossos olhos. "Foi ele quem estabeleceu o Intelecto como princípio de racionalidade. Sejamos racionais aqui, sim? Prova é importante, paixonite não é."
"Mas não tem paixonite nenhuma!"
"Ah, tem sim!", Hayley provocou.
"Não interessa, meninas! Viemos estudar e é isso o que vamos fazer. Se não são disciplinadas o suficiente para tal, a biblioteca não é onde deveriam estar. Alguma objeção?"
Hayley e eu ficamos em silêncio. Annie era uma grande amiga, mas sabia ser muito autoritária quando queria, em especial se suas médias impecáveis estivessem em jogo. Eu não gostava de admitir aquilo, nem mesmo para a minha própria sombra, mas sabia que Annie tinha um pouco de inveja de mim no que dizia respeito ao favoritismo do Sr. Ross. Ainda que fosse de longe aluna de melhores resultados do que os meus, ela sempre parecia passar despercebida por ele, enquanto que eu era "endeusada e venerada", como descrevera a própria Annie certa vez, hiperbolicamente.
É assim como em qualquer outro aspecto da minha vida: Hayley é a emoção, Annie é a razão, e eu sou o meio-termo. Mas no dia seguinte, durante a prova, eu ainda não conseguia parar de pensar em Liam Ross. Foi a minha primeira nota baixa, primeira recaída, augúrio de ruína. Eu tentava me manter sã enquanto lia o enunciado devagar, mas as letras dançavam na minha frente e se reorganizavam para soletrar o nome dele.
"Estabeleça a principal diferença entre as concepções acerca da constituição primeira do mundo segundo Empédocles e Platão."
Eu estava alucinando, mas sabia que sabia a resposta. Estava ali, em alguma penumbra longínqua e brincalhona da minha mente, empoeirada talvez, mas estava ali. Lembrei-me do conselho de Liam, parafraseando Da Vinci: a simplicidade é o último grau de sofisticação, certo? Procure manter a sua resposta a mais enxuta possível, sem enrolação, como se explicasse a uma criança.
"Empédocles, como Platão, defendia que o mundo fora constituído de quatro elementos: água, terra, fogo e ar, harmonizados pelo que o primeiro chamava Amor e o segundo chamava Amizade", comecei. Eu discorria sobre Filosofia, mas pensava em Liam. Por que eu não conseguia me obrigar a parar de pensar nele? Aquela prova nem era sobre Antropologia ou História. Ainda assim, Liam ia e vinha na minha mente, distribuindo sorrisos a esmo entre as decotadas líderes de torcida, trocando cumprimentos e acenos com os machões do time de futebol, soltando comentários picantes sobre com quem transou ou deixou de transar nessa ou naquela festa, como um típico garoto popular de ensino médio.
Se não fosse pelo meu costume beirando a genético de dizer a mim mesma que não existe problema algum, eu ficaria preocupada. Do nada eu estou desmaiando subitamente, destratando colegas de classe sem motivo, questionando minha prória conduta, minhas melhores amigas estão agindo de um jeito estranho e minha irmã gêmea não põe mais os pés em casa. A verdade é que eu sinto como se alguma coisa estivesse acontecendo e todas essas coisinhas diferentes estivessem interligadas na coisa maior. No fundo, algo me diz para agir como se nada disso importasse, ouvir as palavras que minha mãe sempre diz diante de um problema e acreditar que está mesmo tudo bem.
Só que mais no fundo ainda, outro algo me diz que nada está realmente bem. Pelo contrário, que está indo de mal a pior. Se eu apenas soubesse o que é... Talvez eu pudesse fazer algo a respeito. Espero que sejam apenas as dúvidas da adolescência. Dizem que os hormônios nos deixam paranoicos.
Fale com o autor