Miss Behaved
4 Gauguin
Mas eu sinto que ainda não falei o bastante sobre Gauguin. Minha professora de arte, Sra. Pratt, diz que minhas pinturas são uma tentativa de impressionismo que o fantasma de Gauguin virou do avesso. Eu não queria que fosse assim. Eu gosto do impressionismo – quero me considerar uma impressionista incorrigível. Minhas maiores inspirações são Renoir, Degas, Manet e seu quase-xará, é claro. Pra mim, há magia intrincada na luminosidade dos borrões meticulosos, algo que me alcança psicologicamente de maneira incontrolável. Se minha breve carreira como pintora nas horas vagas afundar, prefiro que me rotulem de amadora a que o façam pós-impressionista. Não é que eu não reconheça o talento de Gauguin, ou mesmo de Kandinsky apesar das minhas ofensas ignorantes. É que não enxergo a arte como uma válvula de escape para minhas problemáticas íntimas – pra isso eu tenho um diário. Quando me ponho diante da tela com uma paleta de cores e um avental, quero que a beleza a sair dos meus dedos seja serena, de cara inegável, não algo para se olhar atravessado e passar horas revirando pensamentos pesados no fundo da mente antes de admitir que é genioso. E no que diz respeito a isso, é o que sinto que expresso quando sou assombrada pelos sussurros de Gauguin.
Ao mesmo tempo, sinto que sei por que isso acontece. É que Gauguin e eu temos algo em comum: a dualidade da alma, e não estou falando platonicamente. Ele era dois homens num só: o corretor da bolsa de valores e o pintor, o artista profundo e o cavalheiro responsável. O índio e o sensível. E como ele mesmo escreveu para sua esposa certa vez, a respeito dessas duas naturezas: "A sensível desaparece de forma que a índia possa proceder com firmeza". Basta um olhar em seu Autorretrato com Auréola para perceber a identidade dividida entre o santo e o pecador, a auréola do anjo e a serpente do demônio. Porque esse homem brilhante e eu, uma adolescente que não passa de um boneco de palitinhos rabiscado no rodapé de uma folha amassada, temos tamanha conexão, às vezes isso se reflete nas minhas obras, contra a minha vontade, expondo o meu âmago de aspirante a Olímpia. A Sra. Pratt diz que eu acabo confundindo minhas pinceladas umas com as outras, no embate de técnicas, e o resultado é confuso. Liam diz que eu pareço pintar a esmo, sem saber bem o que estou fazendo ou o que desejo retratar, como se o óleo tivesse que me dizer pra onde ir ou que tipo de rumo eu devo tomar – mas ele não considera isso algo ruim, pois a beleza razoável final revela a minha habilidade de consertar os erros causados pela escassez de planejamento. E antes que alguém se pergunte, não, isso não foi um elogio.
Sei que não pinto bem – sei que há coisas que faço pior do que pintar, como cantar, por exemplo. Mas há algo especial sobre a tinta que me diz que a academia é a mais volúvel meretriz da arte. Talvez eu seja a precursora de um novo "ismo", o de simplesmente não saber e não procurar saber o que se está pretendendo. Talvez haja uma mensagem nesse impulso inconsciente. Por isso termino o meu quadro com a certeza de que meus avaliadores o julgarão impensado, para alguém que se supõe impressionista, mas pensando em nomeá-lo de modo que, assim como a Impressão: Nascer do Sol de Monet, eu possa dar aos meus críticos material para me consagrar por acidente.
— Indiferente — digo a mim mesma, tendo em mente como eu devo me sentir em relação às críticas que virão. — Indiferentismo. Não... O dar de ombros. Ombrismo. Dane-se. Danessismo.
— O que significa isso?
Eu levo um susto. Deixo cair a paleta. Ela cai com a parte da tinta virada pra baixo.
Liam Ross está parado na porta da sala. Ele carrega um pacote retangular comprido e fino, mais ou menos do tamanho de um espelho de banheiro, embrulhado em espessas camadas de papel marrom de padaria.
— Eu... Eu... Eu só... — eu me abaixo para apanhar a paleta, xingando a mim mesma mentalmente. É a terceira vez que passo vergonha diante dele. Dormir na hora da aula, confere. Ofender uma colega de turma, confere. Falar sozinha sobre o nome do movimento que está iniciando como uma louca narcisista, confere. — Estava pintando... Desculpe.
— Eu posso ver o que você estava fazendo. Quero saber o que significa "ombrismo", "danessismo".
— Não é nada. Não é da sua conta. — eu franzo o rosto inteiro, como se sentisse dor. O que eu acabei de dizer? — Quer dizer, desculpe. Isso foi rude. É que nem eu sei. O processo, hm, criativo, hm, é uma coisa bem complexa e, hm, profunda. Eu gosto de falar coisas sem sentido enquanto pinto para ver se, sabe, hm, tenho alguma ideia.
— Hm. — ele repete, meio rindo.
— O que está fazendo aqui, Sr. Ross?
— Vim trazer esse quadro para exposição. É um Mila Moss original.
Eu assinto, tentando não parecer desdenhosa. Mila Moss é uma pintora retraída que têm feito um tremendo sucesso ultimamente, e Liam venera de joelhos os seus rabiscos. Eu digo "rabiscos" não porque não ache que ela tenha talento – pra dizer a verdade, não acho mesmo. Pra mim ela pinta tão bem quanto um peixe de aquário – mas porque é basicamente do que consistem as suas obras. Uns rabiscos coloridos que parecem ter sido cuspidos na tela por um bêbado que deu um gole num copo de tinta por engano. Ainda assim, todos ao meu redor são capazes de jurar que eles dizem alguma coisa muito abstrata e inteligente. Se Mila Moss decidisse escrever um livro, poderia bater a testa repetidamente no teclado do computador e venderia um best-seller simbolista. Uma analogia que serve bem para a forma como ela provavelmente pincela.
Sei que pareço invejosa e que não tenho autoridade para condenar uma artista consagrada, dado que sou apenas uma adolescente tentando imitar gente célebre dos séculos passados numa sala de artes de ensino médio. E sei que pode parecer que tenho um problema com a mulher unicamente porque meu professor preferido faz oferendas regulares ao pedestal dela. Pode até mesmo parecer que estou tentando diminuí-la porque não tenho nem metade do seu renome (recuso-me a dizer "talento"). Ou talvez que eu deteste a forma como o sobrenome dela pode render um movimento (já ouvi alguns idiotas falarem em mossianismo) enquanto o meu soa ridículo até mesmo como chamado solitário. Wrightismo? De jeito nenhum. Todavia, isso é apenas porque não sou capaz de domar as minhas críticas consumidas pela indignação. Se fosse, faria com que elas saíssem sóbrias e polidas o bastante para que fossem levadas a sério.
— Deve ter custado uma fortuna. — comento. — Você parece bem à vontade para quem está segurando um quadro de provavelmente milhares de dólares.
— Na verdade, foi um presente. Uma doação de Mila à escola. A maioria dos seus quadros não saem do estúdio, mas eu finalmente a convenci a expor pelo menos um deles, e ela quis que fosse um dos "menos valiosos". É claro, seus piores trabalhos ainda são obras de arte.
Ah, sim, tem isso. A fantástica, esplêndida e pelo visto invisível Mila Moss vive em São Francisco. Apesar de ser de conhecimento comum que ela é uma artista do tipo introvertido, encolhido na concha, quiçá esquizofrênico, depressivo ou bipolar e certamente antissocial, que vive trancado em casa com seus dilemas e sua arte, de alguma forma misteriosa – ou nem tanto – ela e Liam Ross são grandes amigos. E há essa história que ele conta a quem quiser e a quem não quiser ouvir que os melhores quadros de "Mils" na verdade são mantidos estocados no seu apartamento, porque ela é tímida demais para revelá-los. É ou não é de dar nos nervos?
— Se aparecessem com uma lista de supermercado de Renoir, seria vendida por milhões, mas isso não faria dela uma obra de arte. — digo, cautelosa.
Liam encosta o pacote com cuidado num canto da sala. Ele diz, enquanto destranca um mostruário de vidro blindado, que é onde o Mila Moss jazerá para que a Sra. Pratt e seus alunos o estudem durante as aulas:
— Interessante opinião para quem estava agora há pouco inventando o "danessismo".
Eu ruborizo, envergonhada. Ele tem razão – minha própria corrente filosófica defende que, se eu quiser transformar uma lista de compras em uma obra de arte, dane-se. Percebo que não sou tão original quanto imaginei inicialmente. Afinal, coisas assim já foram feitas com mictórios. Talvez não abertamente em volta de uma indiferença, é claro, mas o método é semelhante.
— Tem razão, desculpe. — admito, com um suspiro — E por favor, sobre o "danessismo"... Foi estupidez. Quero dizer, eu queria pintar alguma coisa impressionista, mas não sou talentosa o bastante, então recorri ao modernismo para me confortar. O que pode ter sido uma ofensa ao modernismo também, eu creio.
— Missy, você tem dezessete anos. Nem Monet pintava bem aos dezessete anos. Por que não relaxa um pouco? Ainda há tempo para se tornar uma grande impressionista. Ou para inventar o próprio estilo, se preferir.
Eu aponto para o meu quadro recém terminado. Ou, como acabo de batizá-lo, Dane-se: o indiferente dar de ombros.
— O que você acha? — pergunto.
Liam sorri, compassivo, quase como se sentisse pena de mim. Pergunta, carinhoso:
— Quer mesmo saber?
Eu suspiro, olhando para a tela. Há tons de cor de rosa, amarelo e laranja entrelaçados no céu e um garotinho correndo num campo de trigo cujo dourado assume jeito de vermelho, dependendo da luz – eu havia começado tentando elevar a liberdade de uma corrida pela plantação, mas fizera parecer como se a paisagem inteira estivesse em chamas e a pobre criança tentasse em vão fugir do incêndio.
— Uma mentira de vez em quando seria confortável — comento, inconformada.
— Eu não faria isso com você.
Enquanto tiro a tela do cavalete e a encosto num canto qualquer da sala, sinto uma pontada de angústia e arrenpendimento. Minha voz treme quando reúno coragem para dizer:
— Sr. Ross... Sobre a aula de ontem... Eu sinto muito... Eu não sei o que me deu...
— Está tudo bem. Esqueça isso. Verei você hoje à noite?
Eu travo.
— O quê? — pergunto, completamente pega de surpresa.
— Hoje à noite. Bastille. Você e Hayley Parker vão, não é?
— Ah! Sim. Sim, isso, é... Vamos. Eu, Hayley e Annie Cooper. Estaremos lá. Você... Você vai?
— Com certeza. Temos dois ingressos sobrando para um camarote, então, se você quiser...
Eu hesito, por alguns segundos perdida no incrível charme dos seus ombros relaxados num casaco marrom estiloso demais para o próprio bem. Quando digo, digo tentando assumir essa mesma postura, para disfarçar a inquisição das palavras:
— Quem é "nós"?
— Eu, Keaton, Braxley, Spencer, Harris, Lee, Grady, Bates... Você sabe.
Com exceção de Humphrey Keaton, que é o professor de Ciência Política, todos alunos baladeiros e populares.
— Ah, claro. Quer dizer, não, obrigada. Minhas amigas e eu somos muito fãs da banda... Ficaremos na grade.
— Tudo bem. Caso mude de ideia, o número do camarote é 132.
— Certo. Obrigada. Sr. Ross, eu... queria perguntar uma coisa. Ontem, na aula, depois que eu disse aquelas coisas pra Abrielle... Eu senti como se tudo estivesse...
— Toc, toc! — surge uma voz pesada. Liam e eu viramos os olhares em direção à porta. — Estou interrompendo?
Nem posso acreditar. É Michael. Michael, meu irmão mais velho! Michael de Yale. O que ele está fazendo aqui?
— Mike! — eu sorrio, indo em direção a ele e o abraçando com força. — Você! Como... Quando você simplesmente pegou um avião e atravessou o país? Assim, sem aviso? E resolveu aparecer na minha escola! — disparo, mas estou sorrindo. É tão bom vê-lo novamente depois de tanto tempo.
— Como vai, Michael? — cumprimenta o Sr. Ross educadamente.
— Oi, William. — diz meu irmão, o tom de voz seco. Toda vez que eu pergunto qual é o problema de Mike com Liam, ele diz que apenas detesta que professores sedutores fiquem rondando a sua irmãzinha – isso parece típico de sua superproteção, mas às vezes eu sinto como se houvesse alguma coisa maior por trás dessa animosidade passivo-agressiva. — Posso falar com a minha irmã a sós?
— É claro. Eu já estava de saída. Vejo você à noite, Missy. — meu nome é bem pronunciado, como se Liam estivesse tentando fazer parecer alguma coisa com isso. Michael parece desconcertado enquanto ele sai da sala.
— É tão bom ver você, Mike. Já faz tempo. — digo.
— É... Faz mesmo. Quanto tempo mesmo?
— Meses! Como é Yale? Me conta tudo!
— Teremos bastante tempo para conversar sobre a minha maravilhosa vida em Connecticut, mas ei, primeiro eu quero saber de você. Está tudo bem? Estão tratando você bem? Você tem sido feliz? Aquilo ali é um Mila Moss original?
Eu pisco, um pouco atordoada. Que tipo de pergunta é se "você tem sido feliz"? Por que eu não seria feliz? Quero dizer, em tese, a vida de um Wright é uma coisinha impecável, como um globo de neve. Ah, Deus, e se a minha crise existencial estiver vindo à tona mais do que me parece? Eu não sinto, é claro, como se meu emocional em frangalhos estivesse à flor da pele mais do que levo minha vidinha sem graça adiante escondendo as lamentações por trás de uns sorrisos educados. Ainda assim, o quanto eu sei sobre mim mesma? Michael sempre foi daqueles irmãos que são capazes de enxergar no fundo dos seus olhos a trinta metros de distância e perceber quando há algo errado. É claro que fazê-lo a trezentas milhas é um pouco exagerado até mesmo pra ele – pergunto-me se nossos pais comentaram alguma coisa sobre o meu comportamento nos últimos dias, a que pode ser atribuído no máximo melancolia.
Nada como as escapadas suspeitas de Mel, que, por sinal, voltou para casa ontem no meio da madrugada. Mamãe estava na cozinha tomando um copo d’água quando ela entrou com os saltos na mão e a maquiagem borrada. Porque eu tenho um sono leve e nossa casa é pequena, pude ouvi-las ter uma discussão cheia de calma. "Nessa família, não se passa a noite fora de casa sem aviso e, especialmente, sem motivo, Melanie. Você não gostaria que eu fizesse isso, e eu também não gosto que faça", disse mamãe. "Desculpe, alguém roubou a minha bolsa no clube e eu tive que voltar andando pra casa", respondeu Mel, parecendo sinceramente arrependida. Mamãe então deixou de lado a bronca para disparar um interrogatório de preocupação por sua filha ter perdido dinheiro e documentos e ter voltado sozinha por ruas escuras e perigosas.
— É, é um estúpido Mila Moss original — confirmo, dando uma olhadela de canto, desinteressada, à tela em exposição no mostruário de vidro, umas formas desleixadas de encontro umas com as outras como um novelo de lã mastigado. — O que você quis dizer com "você tem sido feliz"? Eu não pareço feliz?
— Não é isso. Você parece ótima como sempre, Missy Wright. Eu só estou preocupado com a Mel. Sei que ela tem causado alguns problemas nas últimas semanas. Você sabe alguma coisa sobre isso?
— Foi por isso que veio, então? Porque a Mel tem saído para se divertir como qualquer adolescente normal faria? — começo, não tendo a intenção de ganhar birra à medida que falo, mas sentindo crescer o desprezo pelo padrão desmedido de comportamento que nos foi imposto, ou melhor, enfiado goela abaixo com uma lavagem cerebral — Você não precisa se preocupar, Mike. Sim, ao menos uma das gêmeas Wright está aproveitando minimamente o seu último ano no colégio, e sim, que vergonha para essa família insípida, mas não se preocupe com a Mel porque eu estou aqui para contrabalancear qualquer passo fora da linha que ela der. Eu estou aqui para ser tão previsível, santinha, incansavelmente dedicada e sempre no meio do caminho entre a invisibilidade e o completo fracasso, que ninguém vai perceber se Mel abraçar um pouquinho da realidade. Porque eu estou aqui, a Srta. Porcelana, a Srta. Bom Comportamento, para fazer jus por nós duas a essa exigência.
— Missy... O que está acontecendo? — Michael olha pra mim com os olhos arregalados em espanto.
— É só... Eu fui criada para isso, Michael, para ser alguém que nunca é muito boa, nem muito ruim, e tudo bem, eu aceito o papel. Às vezes, eu só queria que alguma coisa diferente acontecesse. Inusitada, inédita e inesperada. E também... Acho que eu queria ser diferente, eu mesma. Talvez um pouco mais rebelde e menos responsável. Mas estremeço só de pensar em decepcionar as pessoas com uma rebeldia de capricho. Se não sou capaz disso, então ao menos deixe que eu supra a necessidade que você, papai e mamãe têm de uma adolescente-estátua. Que as cobranças caiam sobre mim. Deixe Melanie... Deixe Melanie sentir o gosto de uma pequena gota de liberdade.
Michael suspira, a preocupação intensa tomando conta da sua expressão. Ele olha ao redor. A sala de artes sempre está vazia nesse período – é quando eu venho até aqui para pintar, porque minha casa é limpa demais para abrir as portas a potes de tinta a óleo. Meu irmão puxa uma cadeira de trás de um cavalete e faz um sinal para que eu me sente. Obedeço enquanto ele faz o mesmo sobre um banquinho manchado.
— Missy, minha querida... Se eu perguntar uma coisa a você, promete a mim que responderá com sinceridade?
— Eu nunca mentiria pra você, Mike.
Ele assente.
— Diga-me... Liam Ross tem alguma coisa a ver com isso?
Minha boca não se abre, mas os olhos se arregalam completamente. Encaro Michael por alguns segundos antes de dizer:
— O quê? Como... Por que o Sr. Ross teria alguma coisa a ver com os nossos problemas de família?
— É complicado, mas... Missy, você lembra daquela noite no bar da Dra. Grimes, algum tempo atrás?
Puxo na memória. Isso nem havia passado pela minha cabeça, mas...
É o seguinte: há alguns meses, antes de Michael se mudar para a Costa Leste, trabalhávamos num bar perto de casa. Eram empregos temporários, cuja vaga mamãe arranjara pra nós porque o bar pertencia a uma amiga sua, Dra. Grimes, que era antropóloga e estava fazendo uma pesquisa social. A proposta era servir bebidas sem álcool passando-as por alcoólicas, e analisar o comportamento dos frequentadores diante disso. Quantos perceberiam, quantos ficariam bêbados sem realmente estarem bêbados, quantos nem notariam e quantos notariam, mas deixariam passar sem queixas. A pesquisa só duraria algumas semanas e eu fui designada como gerente. A minha função era registrar as reclamações de quem porventura descobrisse que estava comprando gato por lebre.
Uma noite, deparei com uma crise íntima que Michael acabou captando. Assim como Mel, ele trabalhava como garçom, então teve tempo de sobra para ficar de olho em nós duas, o que, eu creio, ajudou bastante.
Um grupo de jovens entrou no bar. Segundo ouvi dizer, já chegaram bêbados, expulsos de uma boate nas redondezas. Eram uns cinco garotos e três garotas. Duas delas provavelmente eram prostitutas e a outra era Jenny, a amiga de Abrielle. E um dos garotos não era um garoto, mas um homem. Não custei a reconhecer os olhos verdes e jaqueta de couro de Liam Ross, que ele nunca usa dentro de sala. Tampouco era qualquer surpresa encontrá-lo em meio aos alunos numa noite de sexta-feira, tão bêbado e chapado quanto eles. Creio já haver deixado claro que Liam tinha uma reputação de cafajeste partidor de corações e festeiro sem limites. E, bem, a reputação fazia jus à realidade.
O grupo se sentou a uma mesa e Liam foi ao balcão pedir as bebidas. Eu pensei, puxa, por que não dizer um oi? Afinal, ele só age feito um completo canalha com a galerinha popular dele. Isso é garantido. Liam sabe dividir bem essas coisas, e não há uma única fofoca no colégio que o ponha numa situação de desrespeito com os estudantes sérios como eu. E, acredite, nesse colégio, se uma coisa não ganha fofoca, é porque não acontece. É claro, se uma coisa ganha fofoca, não quer dizer que aconteça também... Mas sempre há a possibilidade de o boato ter um fundo de verdade.
Além disso, pensei, Liam provavelmente está tão embriagado que amanhã nem vai lembrar de ter falado comigo.
"Boa noite, Sr. Ross", eu cumprimentei, educada, aproximando-me dele no balcão. Por um momento ele me olhou como se nunca tivesse me visto na vida, mas então deu um meio sorriso e disse:
"Olá... Missy, certo?"
Procurei não me magoar. Ele devia estar bêbado demais para lembrar o nome dos alunos.
"Isso. Eu sou sua aluna desde o primeiro ano. Nós somos amigos."
"Claro, claro que somos. Que surpresa encontrá-la num bar... Não é o tipo de lugar que eu achei que frequentasse."
"Eu estou trabalhando, na verdade. Sou a gerente."
"É mesmo? Achei que quisesse trabalhar no museu."
"Hum, é. Ainda não recebi uma resposta deles. Enquanto isso, estou aqui."
"Que bom. Assim o lugar adquire um toque de sanidade."
Fiquei me perguntando o que aquilo significava. Nesse intervalo, uma garçonete trouxe seis garrafas de cerveja e as entregou a Liam, que rapidamente pagou e puxou uma delas para abri-la.
"Seis garrafas, uau. É tudo só pra você?", brinquei, um pouco nervosa. Eu sabia que não era álcool de verdade, mas ainda assim... Seis garrafas.
"Eu e toda aquela mesa ali. Mas se estiver interessada... Fique à vontade", disse ele, e pôs um pouco de cerveja em dois copos, um dos quais deslizou no balcão até mim, bebendo o outro de uma vez só.
"Eu...", hesitei. Será que eu devia aceitar?, me perguntei. Afinal, ele havia preparado um copo só pra mim. Seria indelicadeza não aceitar, certo? E eu não corria o risco de ficar bêbada porque não havia realmente álcool naquele copo. Só algum composto que um amigo da Dra. Grimes havia desenvolvido para simular o sabor.
Antes que eu pudesse me decidir, ele disse:
"Desculpe, Missy, esqueci que você é menor de idade e ainda não pode beber. Hm, quantos anos você tem mesmo?"
Eu ergui a sobrancelha, desafiadora.
"Eu tenho dezessete, assim como metade dos seus amigos ali na mesa."
Ele olhou para a mesa e disse, as palavras meio arrastadas pela insobriedade:
"Ahm, não, aquele pessoal ali tem 21."
"Você está bêbado, Sr. Ross."
Ele sorriu, meio para mim e meio para o copo, dizendo:
"Missy, você literalmente não existe."
"Não tem como eu 'literalmente' não existir, porque eu estou aqui e todo mundo está me vendo e interagindo comigo. Mas entendi o que você quis dizer."
"Você precisa relaxar um pouco, meu amor."
Eu ruborizei. Minhas palavras haviam saído antes que eu pudesse pesá-las, e só naquele momento eu percebia como estava parecendo carrancuda e arrogante no meio de um bar cheio de pessoas felizes. Pensando nisso agora, perco a conta de quantas vezes Liam já me disse para relaxar.
Num impulso suave, lentamente levei o copo à boca e beberiquei a cerveja. Nunca havia bebido antes. Tinha um gosto... Bem, terrível pra dizer a verdade. Se a cerveja genuína era alguma coisa como aquilo, agradeci mentalmente a meus pais por me proibirem de beber. Mesmo assim, continuei. Era uma primeira experiência interessante, e se eu deixasse transparecer que havia odiado, com certeza ia parecer uma criancinha. Com algum esforço, consegui beber o copo inteiro num tempo aceitável, e fiquei orgulhosa de mim mesma por me fazer parecer mais madura e sofisticada.
Quando terminei, Liam baixou seu copo e começou a rir. Olhava para o balcão e cambaleava um pouco, mas estava claro que ria de mim. Eu o encarei, um pouco assustada, pensando que talvez eu devesse acompanhá-lo, embora não entendesse qual era a graça.
"A Dra. Grimes é amiga da sua mãe. Não é?", ele disse, finalmente.
Eu pisquei, levemente atordoada.
"P... P-perdão?"
"Dra. Grimes, excelente antropóloga, somos amigos também", disse ele. "Eu sabia da pesquisa dela, mas acho que estou mesmo bêbado, porque sequer percebi em que bar eu entrei."
"Ah", sorri, finalmente compreendendo. "Então você notou. Que pena. Acho que estávamos esperando uma espécie de efeito placebo..."
Liam sorriu, divertido.
"Teria funcionado. O gosto é quase idêntico. Eu provavelmente não teria notado se não fosse por você."
"Eu? Mas eu não disse uma palavra."
"Não precisou. Você bebeu."
Eu fiquei em silêncio. Liam pegou as garrafas um pouco desajeitadamente e disse alguma coisa como "Foi bom vê-la", para em seguida retornar à mesa dos amigos/alunos. E eu continuei parada diante do balcão, processando o que ele havia dito. Teria sido um elogio? Seria bom? Aquilo queria dizer que eu era uma garota sensata, com a cabeça no lugar, que não se deixa dominar por pressão de grupo. Eu bebera porque sabia que não havia álcool na bebida. Certo? Por outro lado, poderia ter sido um deboche. Ha, ha, Missy Wright, a santinha, a certinha, a cafona tolinha que não sabe se divertir. Se admitíssemos que, para gente como Liam Ross, álcool é sinônimo de diversão... Talvez ele me achasse patética por tentar parecer descolada sem realmente me arriscar.
Até depois de sair do transe, eu continuei observando Liam e o grupinho de jogadores de futebol e líderes de torcida a noite inteira. Eles não realmente perceberam que as bebidas não tinham álcool, talvez porque já estivessem bêbados antes de entrarem no bar. Liam também não contou a eles, por alguma razão. Mas isso não fez muita diferença. Pela primeira vez eu observei a verdadeira diversão bem de perto.
Liam e os amigos riam. Gargalhavam, a bem da verdade. Contavam piadas, anedotas, faziam sátiras, brincadeiras e loucuras. Eles eram a todo instante politicamente incorretos. Faziam alusões preconceituosas, absurdamente obscenas e contavam histórias eróticas beirando a pornográficas. Debochavam uns dos outros e dos alunos menos populares. Cantavam músicas de sucesso, imensamente desafinados, infinitamente felizes. Planejavam um racha para o dia seguinte, contavam vantagem sobre os seus carros esportivos. Diziam coisas sem sentido, talvez piadas internas. Inventavam cantadas esdrúxulas para pegar as garotas do bar. Não se importavam em admitir que planejavam largá-las antes da manhã seguinte.
Também fizeram coisas normais como jogar dardos e dançar – especialmente as meninas – ao som da música eletrônica. Mas ninguém poderia negar que eram o estereótipo perfeito dos adolescentes cheios de prepotência que aceitam qualquer desafio, se embebedam até o amanhecer, entram e saem de orgias como quem troca de roupa e vivem na adrenalina mais pura, correndo riscos o tempo todo, de todos os tipos. Quem poderia dizer tudo o que já haviam vivido?
"Qual o problema, Missy?", Michael interrompeu meus pensamentos, fazendo-me voltar a mim.
"Como assim?", perguntei.
"Você não tirou os olhos daqueles caras a noite inteira", disse ele, num tom de voz preocupado. "O que Liam Ross queria com você?"
"Dá um tempo, Mike", eu disse, um pouco ríspida demais. "Só estou vendo-os se divertirem."
Então, veja, eu não fui grosseira. Não o ofendi nem nada, certo? Fui apenas firme nas minhas palavras. Quero dizer, puxa, eu não podia mais observar os meus colegas de classe? Ou conversar com um professor?
Olhando para o meu irmão mais velho diante de mim agora, eu percebo que talvez aquela minha resposta mais ou menos malcriada tenha contribuído para que ele associasse desde então as minhas pontadas de rebeldia a Liam Ross.
— Lembro — digo finalmente. — Eu estava encantada com a forma como as pessoas podiam ser intensamente felizes sem culpa, ainda que a meu ver devessem tê-la. Como se caísse sobre mim o fardo de pensar duas vezes. Ou mais.
— Pois é. Eu vi naquele momento que nem tudo eram flores dentro da sua cabeça. Parecia que você estava segurando uma granada e mantendo a calma porque não tinha outra opção se não quisesse explodir com ela. Mas não somos de ferro. Eu sabia que você tinha vontade de largá-la apenas para se livrar da pressão.
— Não gosto dessa metáfora... Vamos usar um barril de pólvora. É o que dizem sobre a 1ª Guerra Mundial. Um barril de pólvora esperando por uma fagulha para causar um estrondo e o caos.
— Esse é o meu medo, Missy. De que Liam Ross seja o seu Francisco Ferdinando.
— Assassinado?
— Que tal uma metáfora menos complicada? Escuta, Missy... Yale foi uma experiência completamente nova pra mim. Quando eu pus os pés naquela universidade pela primeira vez, eu soube que teria que enfrentar o mundo sem perder a cabeça. Soube que seria como atravessar um roseiral. Belo, mas cheio de espinhos. Não vale a pena dar às costas às rosas, porque a maciez das pétalas e o encanto das cores e aromas é o que dá sentido à vida. Mas também não se pode fazer essa travessia desprotegido, porque os espinhos vão fazer você sangrar até a morte. Entende? Você tem que usar um escudo. Uma armadura. E isso é a sua integridade.
— Você tem mesmo uma veia poética, Mike. — digo, sorrindo. — Mas o que o Sr. Ross tem a ver com eu usar ou não uma armadura?
— Porque ele é o tipo de gente que sente prazer em ser perfurado pelos espinhos. Os espinhos são venenosos, e é um veneno doce, vagoroso, entorpecente e letal. Se você deixar, Liam vai convencê-la a deixar o escudo de lado, e eu não quero vê-la envenenada, minha irmã. — ele ergue o dedo mindinho, como fazemos quando propomos uma promessa. — Você vai usar a armadura?
— Afinal, é um escudo ou uma armadura, Mike? — digo, brincalhona, tentando fugir do juramento.
Michael ri, mas continua com o dedo levantado.
— Gosto mais de armaduras. Vai usá-la ou não?
Tenho vontade de dizer a ele que já a estou usando. Eu uso a mesma armadura desde que nasci, foi imposta a mim antes que eu pudesse perceber. Mas agora... Está apertada, abafada, desconfortável, e eu estou louca para tirá-la e sentir o vento forte do jardim bater contra o meu colo descoberto. Mas, é claro, tenho medo dos espinhos. Por outro lado, eu posso morrer das duas maneiras, não posso? Posso morrer envenenada ou sufocada. E se o veneno é doce, deve ao menos ser uma morte prazerosa.
Eu balanço a cabeça, expulsando esses pensamentos nocivos de dentro de mim, como se eles fossem pó e pudessem sair chacoalhados. Ergo o dedo mindinho para o do meu irmão mais velho e nós os entrelaçamos, selando o nosso pacto.
Em seguida, ele me abraça. Com o queixo sobre o seu ombro, eu olho para o meu quadro, o Dane-se: o indiferente dar de ombros. No canto onde eu o deixei, a luz do sol vinda da janela o atinge com mais força do que qualquer outra pintura. Mais do que nunca, o garotinho da imagem, que eu queria mostrar correndo com os braços abertos em uma plantação rasa, parece estar pegando fogo.
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