Misfits troublemakers
7 Capítulo 7 — QUEM é a cor mais quente?
Tudo estava escuro, exceto por uma tocha iluminando o centro do que parecia um antigo templo asteca. Ela compreendeu que se tratava de um pelo formato quadrangular das paredes e o topo achatado, onde outrora se realizavam sacrifícios sangrentos em prol dos Deuses, por isso era possível ver pilhas de crânios e rastros de sangue até onde a vista alcançava. Chegava a ser macabro e Kyara sentia os arrepios.
— Tristan Auditore... — A voz grave e sóbria ecoou pelo local, fazendo-o estremecer. Parecia um homem rouco ampliado duzentas vezes em um autofalante chiado.— Reconhece esse nome...?
Sim, ela reconhecia. Tristan foi o primeiro asteca com qual teve contato, meses atrás, quando fugia de betas e esbarrou com o loiro adormecido entre as pedras do Grand Canyon. “Nós estávamos... O que? Eu dormi enquanto nós trans...?” Exclamou assustado, ela fez uma careta de nojo “ Não, eu não te conheço! Seu pervertido!”. Ele era alto, um porte físico invejável e íris arroxeadas, extremamente encantador. Tristan e ela mantiveram um incrível histórico de brigas, principalmente pelas implicâncias do mais velho sobre a origem de Kyara. “ Você é tão inútil quanto seu pai...” Ele dizia, ela retribuía o socando e provando através de sua liderança a que viera. Ambos cuidavam dos poucos astecas da época, Tristan era um sacerdote de uma antiga linhagem, extremamente poderoso e guardava a sete chaves um segredo sobre o futuro da menina líder, que apenas definia como grandioso. Eles eram bons amigos, apesar de viverem trocando farpas. Ao menos, era assim que Harbeck via até o dia em que Tristan avançou em sua relação, tentando beijá-la. Ela recuou, assustada. Ele se dizia apaixonado, assumiu que a esperaria, não importasse o tempo que fosse demorar.
E na semana seguinte, todos sumiram.
— Lea, Citalli, Lola, Esmeri, Dunkan... São familiares? — A voz tornou a soar, agonizante como um disco arranhado.
Aqueles eram os nomes dos astecas que estavam sob sua tutela antes de tudo acontecer. Citalli era o irmão mais novo de Tristan e o mais irritante, ambos tinham a mesma idade mas Kyara insistia em trata-lo como mais jovem e ele fazia esse papel muito bem, aprontava, roubava suas peças íntimas em nome do irmão “ Sim, ele pegou! Ele está perdidamente apaixonado por você, eu tentei impedir, juro! ” Berrava, deixando-a ruborizada e irritada. Eram quase melhores amigos, não se suportavam mas não suportariam viver longe um do outro. Ele saiu em missão, certo dia. Nunca mais voltou. Lea era uma garota avoada que vivia cantarolando e saltitando, lembrava Andy, exceto pelo fato de que era menos desastrada. “ Eu te admiro, lobinha... Não gosto do Tristan, ele se acha muito! ” Lea dizia, com um biquinho “ Eu gosto de você. Você é minha crush. Ele não vai chegar perto de você!” A garota dizia sem pudor, deixando Kyara sem reação. Lola era uma garota mais rebelde de cabelos azuis, pouco falava mas quando sorria, deixava claro que apoiava qualquer fora que a asteca mais nova desse em Tristan. Esmeri era a ruiva mais velha e mais responsável, lembrava Sofie apesar de não possuir sua doçura e paciência, era ela quem organizava as defesas rápidas quando sofriam algum ataque e Dunkan, bem, era o mais egocêntrico e narcisista, mas ainda assim, sentia falta de acordar todo dia de manhã apenas para roubar seu espelho e dizer o quanto o cabelo dele estava desalinhado.
Ela não fazia ideia de onde estavam cada um deles.
— Algo está acontecendo... Você já percebeu. Seu pai está morto, seus antigos amigos sumiram, seus novos amigos não possuem sintonia. Tristan não está aqui para te ajudar. O que fará a líder dos astecas? — E a risada fria ecoou, fazendo novamente o templo estremecer. — Sem família, sem amigos, sem um lar...
— O que você quer de mim? — Kyara rosnou, caindo de joelhos no chão.
— Eu? — Exclamou com escárnio. — Não quero nada, criança. Mas alguém quer... E vai te caçar até que dê o que ele precisa.
— Quem é ele? O que ele precisa? Eu não tenho nada. NADA!
— Você não tem nada pelo que lutar. — Corrigiu as sombras. — Eu esperava mais de você, Harbeck.
— Me diga o que está acontecendo... Para onde eu tenho que ir?
Antes que as respostas fossem respondidas, esqueletos usando máscaras emplumadas e empunhando lanças se aproximaram, marchando rumo à asteca, cercando-a como animais famintos. Eles sorriam, se é que era possível crânios sorrindo, mas era assustador. Ela se levantou, rosnando e grunhindo enquanto tentava usar as garras para afastá-los mas eram muitos, em pouco tempo haviam rendido a mais nova. Seguravam-lhe os braços e pernas enquanto Kyara se debatia, gritando a plenos pulmões, ordenando que fosse liberta. Clamou pelos Deuses, seu pai divino, seus amigos e até mesmo Tristan.
— Herdeira do legado asteca? PATÉTICO!
Foi a última coisa que a voz rugiu, fazendo o templo todo estremecer uma última vez. O teto ameaçou ceder e enfim o fez, as pedras começaram a despencar, os esqueletos a largaram e começaram a fugir, enlouquecidos. Uma parte colossal de uma estátua se soltou, atingindo Kyara com força em um baque.
[...]
Acordou sobressaltada, pulando da cama. O peito subia e descia com a respiração ofegante, ela tinha os olhos arregalados e lágrimas manchavam as bochechas. Não era o primeiro pesadelo desde que os semideuses começaram a aparecer, porém era o mais claro. O cenário? Sempre o mesmo templo. Não sabia o que aquilo significava, se é que realmente significava algo mas precisava descobrir em breve ou talvez realmente estivessem correndo algum risco de vida. Joshua já havia saído e deixou um bilhete colado na caixinha de suco “Tenha um bom dia, vejo vocês mais tarde!”. Enjoada demais, se obrigou a levantar e correr para o banheiro, estava atrasada.
Na escola, Andy foi a primeira a recebe-la, o sorriso animado se dissipou quando viu o estado da menina. Havia se vestido de qualquer modo, parecia um zumbi escorando pelas paredes da Trinity para se manter de pé e acordada.
— O que aconteceu com você...? — Galilahi tomou seu rosto com as mãos, fazendo-a fitar seus olhos. Tinha uma expressão preocupada. — Não me diga que andou se metendo com..
— Não! — Exclamou Kyara. Negou com a cabeça, desviando o olhar.— Pelos Deuses. Eu só... Tive uma noite difícil.
— Mais uma?
— É, mais uma...
— Tem certeza? — Insistiu, buscando seus olhos.
— Sim. — Harbeck ergueu o olhar, encarando as íris cinzentas com firmeza. — Eu tenho absoluta certeza.
— Tudo bem, se você tá dizendo, vou acreditar. Mas olha, se precisar de mim...
— Eu sei. Pode deixar, não tem nada acontecendo. Nada.
O sinal soou e foi um alívio para a morena. Era fácil se manter firme diante os amigos, a maioria nunca perceberia quando houvesse algo realmente errado, Kyara era excelente em esconder seus sentimentos e ainda, as situações que a incomodavam. Só era perceptível quando se tratava do físico e geralmente, um cansaço ou sobrecarga. Deu de ombros, abraçando de lado a cintura da loirinha e a arrastou para a sala, ouvindo Andy reclamar cheia de manha sobre o quanto a próxima aula seria entediante. Era biologia e apesar do professor ser super gente boa, não havia ser humano que fizesse com que Galilahi gostasse da matéria, ao contrário de Harbeck. No entanto, daquela vez estava errada. Segundos antes de adentrarem, avistaram-na do outro lado do corredor: Era Emilly Jaspers. Ela sorriu, um sorriso estranho que durou meio segundo e logo se fechou, entrando na classe do terceiro ano. Andy e Kyara se entreolharam com gigantescas interrogações no meio de suas testas.
— Só eu achei isso meio macabro? — A loirinha sorriu, deixando sua mochila em uma das cadeiras mais ao fundo.
— Vamos pensar positivo! — Kyara ironizou brincalhona, sentando ao lado dela. — Talvez ela assassine alguém antes do último horário, assim vamos ser dispensados!
Teriam dito mais entre as risadas, porém o professor já havia entrado em sala. Bateu duas palmas para chamar atenção, pigarreando:
— MUITO BEM! Sentem-se, sentem-se... A aula já vai começar. — Uma Kyara risonha cutucou Andy, que revirou os olhos naquele instante. — Mas antes, temos um novo aluno. Gaspar? — Chamou. Um menino ruivo entrou a contragosto, acenando uma única vez antes de abaixar o rosto e escolher um lugar onde se sentar. — Gaspar Ulliel veio transferido do Canadá, por favor, sejam gentis com o rapaz. Onde eu estava mesmo? Uh, sim, abram seus cadernos na página...
Kyara parou de ouvir, Andy nem havia começado. A loirinha rabiscava o caderno e a morena manteve os olhos fixos no ruivo novato. Seus cabelos avermelhados tinham tons de sangue e se projetavam para cima, os olhos verde-acastanhados estavam fixos em uma moeda de prata que girava sobre a mesa. Em um rompante, ele se virou para trás, estava uma cadeira à frente na fileira ao lado. Murmurou algo baixo e quase inaudível, Kyara apenas o encarou, sem entender. Após segundos sem resposta, ergueu as sobrancelhas de forma expressiva.
— Preciso de uma caneta... — Repetiu mais alto. — Você pode me emprestar...?
— Uh, claro! Desculpe... — Ela enfiou a mão na pochete, tirando uma caneta com a tampa mordida e estendeu a ele, sem graça. — ... Aqui... — Sussurrou.
Gaspar sorriu, agradecendo.
— Já devolvo. Aliás... Belos olhos.
E virou para frente novamente, o que foi uma sorte pois a menina ruborizou com o elogio do desconhecido. Andy percebeu e sorriu ligeiramente maliciosa, se inclinando para o lado especialmente no intuito de cutucar Kyara.
— Hey, Ky... Qual é a cor mais quente? — Ergueu ambas as sobrancelhas duas vezes, indicando com o queixo o novato. — Aposto que não é azul...
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