Misfits troublemakers

8 Capítulo 8 — O Grande Ah-Puch


A aula não podia estar sendo mais insuportável... Na visão de Andy. Ela definitivamente odiava biologia, havia deitado a cabeça sobre a mochila para cochilar umas cinco vezes mas infelizmente toda vez que pegava no sono, Kyara a cutucava nas costelas e chiava “Isso é interessante!”, embora o documentário não passasse de duas longas horas sobre o reino fungi. “ Não é não! Isso é uma droga... Ky, são só cogumelos sem graça!” Retrucava a loirinha, deixando a asteca com uma expressão indignada.

— Olha ali, seu amigo concorda comigo. — Andy indicou com a cabeça o ruivo de momentos antes, sorrindo travessa. Ao invés de resolver os exercícios propostos durante o vídeo, Gaspar lutava para permanecer acordado.

— Ele não é meu amigo. — Kyara revirou os olhos.

— Ah não? Então... — A loirinha fez-se desentendida, enrolando uma mecha de cabelo no indicador. Fingiu uma expressão pensativa. —... Vai me dizer que aquela caneta foi SÓ uma caneta?

— O... O quê? — Soltou uma risada incrédula, em partes constrangida. — Meus Deuses, Andy! Sim, SÓ uma caneta.

— Hmm... Sei. — Ela semicerrou os olhos, cutucando a asteca, que se contorceu brevemente.

Ambas foram interrompidas somente quando o professor Augustus se levantou da cadeira, cruzando os braços. Apesar das duas garotas estarem conversando, ele focava apenas em Andy como se já esperasse esse comportamento dela. Aparentemente ele não era um grande fã da semideusa.

— Desculpem, senhoritas, mas minha aula está atrapalhando o papo de vocês?

— Nós não...

— É, não foi culpa dela, senh.. — Kyara tentou, mas foi cortada pelo professor.

— Como se você estivesse muito bem na minha matéria pra ficar de conversinha ao invés de prestar atenção, não é Andy?!

A garota ruborizou de raiva, cruzando os braços e afundando na cadeira. Seus lábios se projetavam em um biquinho fofo e manhoso. A sala toda de repente se virou para encarar as garotas, Kyara sorria sem graça com a maior cara de paisagem e logo foi afundando na cadeira também, tímida. Tudo indicava que não passaria de um professor tentando constranger duas alunas com problemas comportamentais, certo? Errado.

De repente, a sala ficou em um silêncio descomunal, as luzes trepidaram até apagarem por completo e apesar do horário, o ambiente todo foi encoberto por trevas. Andy buscou pela mão de Kyara e entrelaçou os dedos aos da asteca quando a luz acendeu, mas não era uma iluminação comum, parecia vir luminárias pequenas em cada extremo da sala, em tons de vermelho sangue que se espalhavam como uma névoa espessa. Os alunos que os encaravam não possuíam mais um semblante, não passavam de corpos vazios e orbes negras sem olhos ocupando seus espaços, todos pareciam congelados em seus lugares, estáticos exceto por Andy, Kyara, o professor e Gaspar. O ruivo olhava ao redor, os olhos semicerrados buscavam por um sinal do que estava acontecendo enquanto as garotas se encolhiam, a loira escondeu o rosto do ombro da semideusa.

— Ora, ora! — A voz do professor agora soava esganiçada como a de um vilão esfomeado e desnutrido de desenho animado. Os olhos esbugalhados e a postura curvada já não pertenciam mais ao homem que conheciam, o modo como se movia era grotesco. — Se não estão reunidos meus queridinhos!

— Quem é você? — Kyara esbravejou, acariciando a mão da loirinha.

— Eu? Quem sou eu? — O homem se aproximou, saltando por sobre uma das mesas como um macaco, apoiando os nós dos dedos na superfície. Sibilava, os olhos ainda mais arregalados, injetados de adrenalina. — Criança tola! Quem é você? Você é alguém?

O homem tinha parte da coluna vertebral exposta, era como um cadáver em decomposição. Andy espiou por cima do ombro, assustada. Ele estava olhado diretamente para ela agora, bufava, o peito subia e descia descompassado.

— Kyara Harbeck. — Corajosamente levantou, colocando-se de forma que o impedisse de olhar para Galilahi, a protegendo. — Filha de um Deus criacional. A Herdeira do legado asteca. — Era um blefe, afinal, ela não fazia ideia do que aquilo significava e o pior, se realmente era algo positivo. Mas ao menos, o tom de voz era confiante.

A confiança esvaiu quando ele gargalhou, pulando de cadeira em cadeira até estar à mesa do professor. Estava tendo um ataque histérico de risos.

— Grande coisa se você não faz ideia do que é isso... Tola! Tola, tola! É uma criança assustada. Se não, a mais assustada dentre todos. E ainda se diz proteger... — O professor negou com a cabeça. — ... Patético.

— AH QUAL É! Agora todo mundo deu pra usar essa palavra!? — Kyara exclamou, infantilmente indignada. Foi sua vez de se jogar na cadeira, de braços cruzados e projetando um biquinho manhoso com os lábios. — Isso sim é patético. — Revirou os olhos.

— Patético é estarem diante um Deus e não se curvarem! — De repente ele ergueu os braços, moldando a névoa ao seu redor, fazendo-a rodopiar em seus tons de sangue. — Sou o grande Ah-Puch. Rei e Senhor de Xibalbá. Sou o Deus Maia da morte, ceifeiro dos mortais!

— Xibabaca? — A asteca grunhiu entre os dentes.

Os olhos do Deus inflamaram, injetados de sangue e saltados das orbes.

— XIBALBÁ! Ou como vocês mortais conhecem... O inferno.

— Acho que ele venceu nos títulos... — Andy sussurrou para Kyara, que deu-lhe um tapa na coxa. — AI! O quê?!

— Ora, ela sabe falar... — O Deus apontou a loirinha, com um sorriso de escárnio no rosto ossudo. Tombou a cabeça de lado, com um misto de curiosidade e fascínio. — Você sabia que eu viria...

— E-Eu... Na verdade, eu n-não...

— Há dias vem sonhando comigo. Há dias esperava por este momento e acredite, eu também! Você, ou melhor, vocês são preciosos, valem muito para os Deuses. Ou pensam que não estão sendo observados? Pensam que não sabem quem são, sua descendência ou o motivo a qual estão destinados? Eles precisam de vocês, mas eu não. Eu os quero em meu reino. QUERO PARA MIM! — O chão estremeceu e uma pequena rachadura se abriu, parecia bifurcar em diversas direções lentamente. — Aceitem seu novo destino, crianças, em breve seus amigos se juntarão a vocês...

O Deus gargalhou, deixado o ambiente ainda mais macabro pelo silêncio que pairava além disso. Gaspar se levantou, pela primeira vez entrando em evidência. Não era possível saber o que ele queria fazer, mas chamara a atenção de Ah-Puch, que se voltou para o rapaz como se só então tivesse notado aquela presença. Pelo vão da porta, era possível notar uma mamba negra se esgueirando perigosamente. Ambas as garotas arregalaram os olhos para a cobra, que seguia pela névoa sem ser vista.

— Você... Quem é você? Por que não está sob meu controle como os outros? — Brandiu o Maia, descendo da mesa para o chão, ainda curvado e apoiado sobre os nós dos dedos.

— Eu não sou um simples mortal. — Comentou o ruivo com certa naturalidade, cruzando os braços em frente ao peito e deu de ombros.

Kyara também estava de pé, assim como Andy. Ambas as garotas estavam assustadas mas mantinham uma pose confiante, evitavam encarar a cobra que se aproximava cada vez mais do Deus. A asteca deu um passo à frente, fazendo o chão ameaçar ceder. O Deus se voltou para ela no mesmo instante, sibilando.

— Eu quero fazer um acordo. — Harbeck lançou um último olhar aos outros dois de pé na sala, ciente de que o ruivo agora era um semideus e poderia ser útil.

— Não se faz um acordo com a morte.

— Você quer a todos, certo? Mas... Não sabe onde os outros estão. — Insistiu, ganhando tempo. — Se nos matar agora, eles vão saber e vão fugir. Vai levar anos para acha-los, alguém pode achar antes de você. Não pensou nessa possibilidade?

— Eu... Hã, pensei. Claro que pensei! Mas... Hm...

— Aposto que não tinha pensado nisso. — Andy complementou, exibindo um sorriso travesso.

— Não seja idiota! Eu sou um DEUS. Eu pensei nisso antes que vocês tivessem pensado em pensar!

— Mas se pensou nisso antes, por que não simplesmente disse? — Gaspar ergueu as sobrancelhas.

— Porque... Porque se eu dissesse, vocês saberiam do meu plano!

— Ou porque ele não pensou nisso. — Kyara murmurou, dando de ombros.

— Acho que ele não tem nem mesmo um plano... — Andy tombou a cabeça de lado, parecia ponderar sobre o assunto.

— Se tivesse, não estaria tão inseguro, com certeza. — Gaspar afirmou, assentindo para si mesmo.

— PAREM COM ISSO!

Ah-Puch bateu o punho cerrado no chão, fazendo as rachaduras cessarem enquanto seu peito subia e descia, bufando de ódio. Os semideuses resistiram ao impulso de rir daquilo, o grande Deus da Morte sendo tapeado por três adolescentes irritantes. A vontade, no entanto, foi extinguida no instante em que a mamba se elevou, permanecendo estática sobre a mesa, prestes a dar o bote.

— EU SOU O GRANDE AH-PUCH! REI E SENHOR DE XIBALBÁ. SOU O DEUS MAIA DA MORTE, CEIFEIRO DOS...

Quando estava prestes a completar a frase, a cobra negra saltou sobre seu pescoço e se enrolou ali com força. Entre grunhidos sufocados, o Deus tentava afrouxar o aperto firme que estrangulava a forma mortal na qual se hospedara, caindo de joelhos sobre o chão, contorcendo-se e estrebuchando. Permaneceu mais alguns segundos agonizando até que foi forçado a abandonar o corpo, a transição foi suficiente apenas para que a consciência do professor voltasse e no lugar do Deus, a cobra havia o matado. Kyara, Andy e Gaspar se aproximaram desesperados, na esperança de que ainda não fosse tarde demais, mas era. Não existia vida.

Já a cobra, enquanto afrouxava o aperto transmutava sua forma para não mais o réptil esguio, aos poucos, o corpo que segurava o cadáver em mãos pertencia à Emilly Jaspers. Exausta pela luta de momentos anteriores e da própria energia gasta durante a transformação, arfou, pesarosa.

— Foi preciso. — Disse-lhes sombriamente, deslizando o indicador e o anelar pelas pálpebras de Augustus, fechando-as.