Mirum Imaginaria

2 O caminho para a Toca


— Eu conheço você? Como sabe me nome?

Ela demorou alguns instantes para finalmente falar algo, após analisar tanto aquele alguém. Era tão estranhamente familiar. Parecia um hibrido de coelho com homem. Seu rosto era meio humano, mas haviam bigodes, orelhas, mas não qualquer tipo de orelha, eram orelhas de coelho, no topo de sua cabeça, e não haviam orelhas humanas na lateral da cabeça. Seus olhos eram dourados feito ouro.

Seus braços eram humanos, porem peludos, numa pelugem branca feito a neve. Usava uma camisa de botões cinza de mangas curtas, que com por causa de seus pelos brancos, faziam o cinza quase parecer preto de tão clara que era sua pelugem. Essa camisa sóbria todo seu tronco e um pouco abaixo da cintura. Descendo mais o olhar por seu corpo, eram pernas de coelho, mas como se ele estivesse em pé, e não como em quatro patas. Seu peito subia e descia rápido, assim como suas narinas se abriam e se fechavam na mesma velocidade, como se estivesse ofegante, mas aparentemente ao seu ver, ele parecia estar confortável.

— Sempre a mesma coisa... – resmungou ele. – Aurea... Lembra? Aurea... faz tempo que você sumiu... Mirum nunca é a mesma coisa sem você. Somos amigos.

— Aurea...? – Ela então emudeceu, não se lembrava. E o mais engraçado de tudo, é que não achava estranho a criatura falar, nem ser um hibrido de animal com gente.

— Vamos? – Ele estendeu sua mão, que era uma das poucas partes de seu corpo que não possuía pelos, em direção a ela.

Por um bom tempo ela permaneceu calada. Por um tempo passou a vagar em seus pensamentos, tentando se lembrar de onde possivelmente o conhecia. Até que um estalo venho em sua mente. Era um desenho na parede de seu quarto. Ficou surpresa e seus olhos demonstravam isso com clareza.

— Onde vamos? – Perguntou curiosa.

— Sempre curiosa, Alice. – Citou Aurea.

— não sou Alice. – Resmungou a jovem.

— Eu sei que não. Apenas... esquece. Vamos logo. O tempo urge e não é tempo para picuinhas. Mirum precisa de você.

— O que quer dizer com isso? – Ela sempre o questionava, afinal cada fala dele, uma dúvida nova surgia.

— Te explicarei no caminho, será que pode vir logo? — Respondeu completamente impaciente.

Então Dea se calou, ergueu seu corpo, pegou sua bolsa, seu caderno, e então se levantou. Espera... Não é mais seu quarto. Não é mais algo normal. Onde estava? Algo não estava certo... Ah sim. Mirum... E mais uma vez, sua mente funcionou ao ponto de criar um mundo dentro de seus desenhos. Mas como entender aquilo, ela não sabia dizer. Passo a passo, como se flutuasse no gramado verde claro daquela campina. Tudo tão bonito ao seu redor. Árvores ao fundo, um céu lilás. Lilás? Por que lilás? Ela adora lilás, por isso lilás. Por que não um céu lilás? A grama não tinha cheio de grama, tinha cheiro de alecrim, manjericão e uma pitada de canela. Chegava a sentir fome com essa confusão de cheiros gostosos.

Entre as árvores que pouco a pouco iam se aproximando, podia ver um caminho, uma trilha aberta para sua passagem. Seus olhos foram acompanhando tudo que tinha ao seu redor, até finalmente chegar as costas vestidas da criatura a sua frente. Seus olhos foram desde sua nuca, com cabelo branco, sim cabelo, e não pelos como no resto de seu corpo, até suas costas cobertas pela camisa cinza, e seu olhar curioso foi descendo até ver que no fim da blusa, que cobria onde começavam suas pernas de coelho alongadas, mas conseguia ver um pequeno e arredondado volume. Será? Não poderia ser. Seria aquilo o rabo “pompom” do coelho? Ela estava tão tentada a puxar a blusa para cima para ver, que um riso sem querer escapava por seus lábios somente por pensar nisso.

— O que houve? – Perguntou Aurea, que caminhava de maneira saltada, desproporcional ao caminhar humano.

— Nada, só fiquei imaginando umas coisas, que me fizeram rir. Vai me dizer onde vamos?

— Onde paramos, oras. – Disse ele simplista.

— E isso seria...?

— No final de Mirum...

— O que seria o final de Mirum?

— Onde você parou de criá-la. Deve continuar de onde parou. Ou desapareceremos todos, incluindo você.

— O que isso quer dizer? – Perguntou assustada, travando os pés no chão para que não andassem mais.

Naquela altura do caminho, estavam à frente da trilha no meio da floresta. Por um instante ela passou a pensar e pensar, mas ela nunca gravava as coisas em sua mente, apenas em seus desenhos. Sempre distraída... Nunca focava em alguma coisa, por isso não se lembrava. Ela queria muito, desejava e almejava ter sido mais atenciosa ao seu redor, assim talvez se lembraria de todas as coisas pela qual ela mesma passava. Era como se sua vida, se renovasse todos os dias e começasse do zero, toda vez que ela perdia o foco.

— Está bem... Vamos até o final, juro que lá eu irei explicar tudo pra você... – Ele fazia uma pausa para suspirar pesadamente, como se estivesse cansado. E por fim completava a frase. – De novo... Por favor. Vamos. Eu não quero que ‘ele’ nos encontre.

— Ele quem?

— Por Deus Dea, vamos por favor! – Resmungou impaciente.

Assim Aurea pegou a mão de Dea e a puxou para voltarem a caminhar. Resmungou tantas coisas incompreensíveis, que chegava a parecer um velho rabugento, apesar de seu rosto aparentar ter apenas uns 20 e poucos anos de idade. Dae não podia negar que ouvi-lo resmungar, a fazia ficar mais calma, apesar do breve comentário levemente assustador sobre o desaparecimento de tudo, incluindo ela. A caminhada fora silenciosa, por vezes o silêncio era interrompido por um resmungar da criatura. Mas nada que atrapalhasse o silêncio do lugar. As árvores eram incrivelmente menores do que quando estavam sendo vista de longe. Pareciam enormes e imponentes, mas quando passavam por elas, mal chegavam a cobrir suas cabeças. As orelhas felpudas e pontiagudas de Aurea ficavam para cima das copas das árvores em algumas partes do caminho. O que mais uma vez fazia Dea imaginar, como seria engraçado brincar de esconde- esconde na floresta com um coelho, cujas orelhas ficavam a vista de todos por cima das copas.

Após uns vinte minutos de silêncio e caminhadas, as árvores mudavam, simplesmente de uma para outra, se tornaram gigantescas, com formatos grotescos, absurdamente grandes, destorcidas, e a maioria dos galhos tinham formato de mão, ou se enrolavam formando uma espiral. Seus troncos pareciam ter olhos, boca, nariz, e por um instante, Dea jurou ter ouvido uma delas espirrar. Mas não teve tempo para protestar ou até mesmo comentar sobre o ocorrido, Aurea parecia com pressa de passar por aquela região, principalmente quando as arvores passavam de marrom, para um tom cinza quase preto, um tom de grafite sujo. O ar era mais gelado naquela região, mais úmido. Flores penduradas nos galhos, como se fossem um salgueiro, mas definitivamente salgueiros não eram de tom lilás, e aquelas flores penduradas eram.

— São G...

— Glicínias... – Aurea quase sussurrou aquilo como se fora algo proibido de se dizer.

Ali então ele apertava o passo, o mais rápido que podia com suas pernas curvadas e desengonçadas para andar como uma criatura bípede. Essas glicínias não estavam ali por estar, pareciam ter um propósito, formavam um caminho, que dava para a parte mais escura da floresta. No fundo podia ser visto uma casa, escura, feita da madeira daqueles salgueiros de glicínias. Ela não sabia dizer o porquê, mas causava-lhe arrepios, muito mais do que os olhos do doutor Wysteria. Seu coração acelerou, juntamente com seus passos. Silenciosamente ambos passaram por ali e finalmente chegaram a outro ambiente, muito mais agradável do que aquela parte da floresta.

Estavam num jardim de flores, mas não eram qualquer tipo de flores, eram com certeza flores que nunca havia visto em sua vida. Algumas carnívoras, que devoravam pássaros que ousavam pousar perto de si. Podia até ouvir o som delas degustando sua refeição. Podia jurar que mais uma vez havia visto algo diferente, como uma língua lambendo os supostos “lábios” da planta. Teve que chacoalhar a cabeça algumas vezes e esfregar seus olhos para constatar que aquilo havia mesmo acontecido. Mas quando sua visão focou novamente, era apenas uma planta carnívora, balançando suave com o vento suave. Haviam flores bonitas também, uma que suas pétalas pareciam várias borboletas pousadas ao lado uma da outra. O cheiro era de jasmim com lavanda. Doce, suave e muito gostoso em sua opinião.

Mais adiante, havia uma casa, parecia uma toca feita de madeira, e o teto possua um carpete de grama, deixando a casa com um ar de simplicidade do campo. Na lateral da casa, uma horta de cenouras, então que teve sua brilhante visão de que obviamente aquela era a casa de Aurea, o coelho. Caminharam até a porta, onde o coelho bateu sua mão humana contra ela, criando uma melodia peculiar com seis batidas, logo em seguida podia se ouvir o clique da porta destrancar, e então uma nova figura surgia aos poucos até a porta ser aberta. Era bem diferente de Aurea, o hibrido de coelho com homem, Era uma criatura extremamente diferente, e por um instante parecia ser bem mais inofensivo que qualquer coisa naquele lugar chamado Mirum. Era um simples hibrido de macaco com gato. Possuía uma feição misturada entre macaco e gato, possuía um tamanho médio, como de um gato gordo, uma calda felpuda, orelhas felinas, mas o corpo e rosto de macaco. Exceto por seus olhos felinos num tom cinza, como névoa.

— Todos aqui são híbridos de alguma coisa? – Perguntou ela ao reparar na pequena criatura que havia aberto a porta.

— Não temos culpa, você nos criou assim. – Aurea comentava dando de ombros, enquanto adentrava na toca, dando passagem em seguida para que Dea passasse pela porta.

— Eu? Eu criei vocês? – Dizia surpresa.

Ao entrar, e a porta atrás de si se fechar e trancar sozinha, ela pode ver como a toca era bem arrumada, parecia uma casa comum do campo, porem com muito mais espaço do que aparentava ter. Tudo feito em madeira e palha, e tinha um leve ar familiar, que ela não conseguia dizer de onde conhecia. O cheiro de alecrim, e canela exalavam suavemente, o que a fez inalar calma e profundamente, dando um breve sorriso. Por um segundo ela havia se esquecido que estava surpresa com as informações. Estavam num tipo de sala de estar, havia uma lareira, um sofá para três pessoas, duas poltronas individuais e um tapete no meio da sala. As paredes eram madeira com barro, mas não tinham cheiro disso. O ambiente iluminado por velas e lanternas. E a luz que entrava pela janela, dava um ar aconchegante de fim de tarde.

— Sente-se. Temos muito o que conversar. Aproposito... Este é Raiju.... Sua mascote. – Aurea se referia ao hibrido de macaco com gato, enquanto ia a uma das poltronas individuais e se sentava confortavelmente.

— Mascote?

Mal teve tempo de perguntar, Dea já podia sentir a criatura pequena pular em seu colo assim que se sentara, se acomodando ali, como se fosse um felino, apesar do corpo de primata. Ela então receosa, pousou a mão sobre o dorso da criatura e instantaneamente sentiu um choque, aqueles que se sente quando está acumulado de energia estática, a fazendo dar um pulo do sofá, e o animal resmungar se ajeitando novamente.

— Ah, esqueci de avisar, não toque nas costas dele, dá choque. – Disse Aurea tão simplista, e ao mesmo tempo com um ar de sarro.

— Obrigada por me avisar, realmente obrigada. – Resmungava Dea. – Agora poderia me contar sobre o que está acontecendo?

— Mas é claro Dea.... Você criou tudo isso aqui.... Você criou Mirum Imaginaria. Você me criou, criou Raiju... E tudo que você viu lá fora, desde o céu, até as plantas.... É melhor fazermos um chá.... Creio que essa será uma longa história. Contarei as partes boas...

— E as ruins? – Perguntou ainda mais curiosa.

— É melhor você não saber...