Mirum Imaginaria
3 A criança que criou um mundo inteiro...
Horas seriam necessária para trazer novamente todas as lembranças de volta.... Na qual boa parte ela não acreditaria. Tempo perdido? Talvez. Mas Aurea pacientemente começou a falar desde o princípio. Desde o primeiro ser, até o momento atual. E assim, ele falou quase sem ser interrompido. Dea apenas ouviu calada enquanto Raiju dormia em seu umbigo, confortavelmente. E nesse momento poucas palavras foram trocadas, apenas uma ou duas perguntas.
“ Vamos começar com o vazio. Tudo começa com um grande e absoluto nada. Pense numa tela em branco, onde você pode desenhar livremente o que vier a sua cabeça. Mas tome cuidado.... Por que o que vier a sua cabeça será desenhado. E foi exatamente isso que aconteceu. Tudo que você pensou, tudo que imaginou, começou a surgir, como uma tela sendo pintada, você criou todo esse mundo. Desde o céu lilás, até o bosque. Mas nem tudo é um mar de rosas... Eu não fui o primeiro ser a ser criado em seu mundo.... Quando isso tudo começou, você começou pela parte mais obscura deste mundo. Toda luz precisa de trevas, e as trevas precisam de luz. De branco, tudo se tornou lilás, preto e sombrio. O primeiro ser fora um homem, um homem que você intitulou como Chizo. Não é tão velho.... Sua aparência é suave, sombria, pálida. Um sorriso doce sempre ficou destacado em seus lábios, sua voz suave e baixa. Seus olhos vermelhos, seus cabelos prateados, ondulados e penteados para trás. Ele sempre usa uma blusa de gola branca, uma calça preta e sapatos mocassim pretos tão brilhantes quanto seus dentes”.
“Para ele você criou uma casa. Uma casa feita de madeira negra, rígida e fria. Sua casa possui vários quartos, várias salas, um sótão e um porão. Você tinha medo dele, muito medo. E então criou uma floresta densa para poder se esconder dele. Uma floresta que possuía sua altura. O suficiente para que você pudesse correr e se esconder, e ao mesmo tempo conseguir ver pessoas mais altas caminhando com a cabeça para cima da copa das árvores. Criou diversas trilhas, que você apenas conhecia bem em qual andar, olhando o chão, as rachaduras na terra, feita pelas raízes das árvores. Ficou tudo calmo enquanto você conseguia fugir dele, que ficava o tempo todo em sua casa, admirando o mundo que você criava. Sentado na varanda escura, sempre com uma lanterna acesa, para que você soubesse onde ele estava. “
“ De fato era estranho, ele querer que você saiba onde ele está, já que parecia ter uma obsessão por você, queria estuda-la, analisa-la, cuidar de você. Talvez ele seja sua pior criação aqui. Já que ele começou a ter uma vida própria. Tudo que você criara, não tinha vida própria. Flores, árvores, céu, até o vento que tinha cheiro de alecrim, manjericão e uma pitada de canela, não passavam, se você não pensasse neles. Mas aquele homem, ele sim tinha vida própria. E isso te assustava, já que estava sempre sozinha”.
“Foi então que você teve a brilhante ideia de criar mais pessoas. Criou um vilarejo pequeno. Crianças, mulheres, homens, idosos. Até animais você criou. Você os visitava, e aos poucos ia vendo a vida nascer naquele mundo. Ousou até a criar espécies novas de flores, de animais, de tudo. Parecia que a vida deu alegria a Mirum. Isso te deixou satisfeita, feliz e menos assustada por não estar mais sozinha naquele mundo. Os humanos viviam pacificamente, cuidando de suas vidas, fazendo hortas, crianças corriam pelo bosque, colhiam frutas e traziam para te mostrar, afinal você também era uma criança, merecia brincar tanto quanto elas. Mas com o passar do tempo, as mulheres do vilarejo começaram a sumir. Sempre passeavam pelo bosque.... Uma não voltava”.
“Mas como elas não foram criadas com o sentimento de medo, elas não sabiam o que simplesmente desaparecer e não voltar mais. Os homens e crianças continuaram com suas vidas. Como se as mulheres do vilarejo nunca houvessem existido. Sempre que você voltava, alguém havia desaparecido. Então os homens começaram a sumir. E as crianças a ficarem sozinhas, mas elas também vivam como se não tivesse nada de errado. O porquê de isso acontecer? Não sei, mas nem você sabia. Não havia como você prever o que aconteceria. Aos poucos, as crianças, que não sabiam preparar comida, passaram a morrer de fome quando se perdiam nas trilhas do bosque, sem suas mães, ou seus pais para guia-las de volta. Uma a uma.... Você as encontrava sem vida pela floresta. Não teve coragem de voltar aos lugares onde elas estavam, e as deixou ali, a apodrecer. ”
“ Não tinha culpa, você era apenas uma criança, que criou um mundo inteiro. Simplesmente não pode controlar tudo como uma Deusa. Você não era e nunca foi onipotente onipresente, apenas criou um mundo que aos poucos fora tendo vida própria. Mas queria entender o que estava acontecendo. E para saber o que estava acontecendo, deveria ir falar com o único ser humano que estava sobrevivendo aos sumiços. Chizo”
“ Em passos tão lentos, você seguiu pelas trilhas, olhando apenas para o chão, reconhecendo cada rachadura como sendo única. Somente você sabia qual caminho tomar, graças as rachaduras, que para nenhum outro humano havia sentido. Até finalmente chegar a trilha que abria caminho para a casa escura. Seus passos foram ficando mais lentos, de acordo com que as batidas de seu coração foram acelerando. A respiração pesada, ia falhando, sua boca entreaberta, deixava o ar quente entrar em contato com o ar frio que aquela região possuía. O ar era tão frio, que ao entrar em contato com seu hálito se tornava vapor. Suas mãos tremiam, seus pés queriam dar meia volta e correr para o mais longe possível. Mas seus olhos e sua curiosidade encontravam aquela lanterna pendurada na beira da varanda. E passo a passo chegou aos pés da escada de madeira que levava até a varanda, e a porta principal da casa. Diferente de todo o resto da casa, a porta era branca. Você não se lembrava de ter pintado aquela porta de branco. Mas ela estava lá. Assustadoramente convidativa”
“ Sua mão foi tremula até a maçaneta de ferro, era tão gelada, que todos os pelos de seu corpo eriçaram. Sua saliva parecia tão espeça que não conseguia engolir. O suor frio que escorria pelo seu rosto, parecia ácido corroendo sua pele. Seu coração esmurrava com tamanha força seu peito por dentro, que podia jurar que era audível a qualquer um os sons das batidas. Tudo na casa rangia, mas ainda assim, parecia assombrosamente silenciosa. As janelas eram escuras, tudo por dentro era escuro. Não conseguia ver o que havia por dentro da casa através das janelas. A única luz que havia no lugar, era justamente a da lanterna. Era vermelha. Mas iluminava o suficiente”
“ Então você girou a maçaneta quando contou pela nona vez até “três”. E num rangido alto a porta se abriu. Um ar gélido com cheiro forte de cânfora impregnou suas narinas, e até fez-se arder os olhos, o que fez com que ela recuasse, e levasse ambas as mãos aos olhos, os esfregando com força. Quando finalmente voltou a enxergar bem, respirou fundo novamente, e abriu seus olhos, para conhecer o que havia dentro da casa que havia criado. Uma de suas primeiras artes”
“ O chão era de lajotas brancas, tão brancas quanto o brilho da lua cheia. O Cheiro de cânfora vinha de todos os lados, mas já não estava tão forte como quando havia aberto a porta. Tudo era silencioso, ao ponto de sua respiração parecer extremamente ruidosa. Podia jurar que estava ouvindo o sangue correr em suas veias, de tão silencioso que era aquele lugar sombrio. Poucas lanternas vermelhas iluminavam o lugar, estavam todas penduradas nas paredes, com distâncias semelhantes entre uma e outra. Mas a primeira coisa que percebeu, era que não havia uma sala, você se lembrava de ter criado uma sala. No lugar da sala, havia um corredor, um imenso corredor. E muitas portas. A última porta era ao lado de uma escada que dava ao andar superior, ou ao sótão, você já não tinha certeza, já que as coisas haviam mudado. E após mais uma sequência de contagem regressiva, deu seus primeiros passos para dentro daquela casa”
“ Curiosa, você seguiu pelo corredor, caminhando lentamente. Cada passo uma eternidade. Seus olhos arregalados, prontos para qualquer coisa que pudesse aparecer de surpresa. Seus punhos fechados. Finalmente conseguiu engolir uma grande quantidade de saliva que se acumulou na boca. Suas pernas tremiam tanto que quase perdia o equilíbrio uma vez ou outra, o que te assustava, afinal, qualquer sinal de fraqueza podia ser seu fim. Porquê? Você não sabia dizer. Mas algo naquele homem, lhe fazia ser sempre cautelosa e apreensiva. Algo dentro do seu íntimo dizia que ele era perigoso. E você sempre preferiu confiar nos seus instintos. Então confiou neles mais uma vez”
“ Uma porta rangeu atrás de si, o que quase a fez gritar, mas ambas as mãos foram a boca com tanta violência que chegou a sentir dor e ardência por ter sido mais um tapa, do que um abafar. Seu corpo inteiro gelou, ao ponto de ficar quase na mesma temperatura que o ambiente. Seu corpo que já era pálido, ficou ainda mais sem cor. Então correu para a porta mais próxima, a abriu, entrou e fechou atrás de si. Você virou em direção a porta e tremeu como se tivesse uma convulsão. Suas mãos seguravam a porta com firmeza. Como se em qualquer segundo ela pudesse ser aberta, e seu esconderijo fosse descoberto. Então tomou coragem para olhar pela fechadura, afinal, onde estava, era completamente escuro. E por sorte, a lanterna no corredor estava em frente a aquela porta, o que dava uma pequena iluminação e uma boa visão para você do corredor. Seu olho verde então fitou pela fechadura, era pouco o que conseguia enxergar. Mas o suficiente para saber se fora ou não descoberta. Não havia nada até onde conseguia enxergar. Então suspirou aliviada, deixando o hálito tocar suavemente a porta. Mas fora só o tempo do ar quente de sua boca tocar a madeira, para ela prender a respiração novamente, um vulto na porta, apareceu. Chizo”
“ Com medo, você se virou, com os olhos arregalados. Entrou em desespero, achando que poderia ser descoberta. Havia invadido a casa do ser que tinha mais medo no mundo. Seu primeiro instinto fora correr. Mas já no primeiro passo, quase caiu, não havia um chão liso de lajotas. Era uma escada. Aquela porta que entrara, era a porta que dava ao sótão. Naquele instante, todo seu medo de Chizo passou. Você ficou curiosa mais uma vez. E em passos lentos, tateando as paredes, você foi descendo os degraus. Um a um. Era incrivelmente fundo. Tão pouco se lembrava de ter feito um porão tão fundo assim. Quando chegou no último degrau. Sua mão encostou em um interruptor. O que era engraçado, já que quando criou a casa, você não havia pensado em eletricidade. Mas lá estava um interruptor”
“ Você ousou apertá-lo. Queria ver o que a escuridão lhe impedia. Sua curiosidade sempre aumentava quando havia uma coisa nova para ver, e você sabia o quanto isso era perigoso, porém tentador”
Click...
“ Aos poucos uma luz branca no teto foi acendendo aos poucos, piscou várias vezes antes de finalmente se estabilizar acesa. As escadas continuavam na escuridão. Nem todo o sótão estava iluminado. Exceto por uma determinada região. Uma escrivaninha, com uma lousa branca, e um mural com diversas anotações pregadas com pinos. Aos poucos, seus passos foram ficando mais corajosos, e te levaram até a luz. Ali, você leu algumas anotações. “
“ Sexo feminino. 34 anos. Dois braços. Duas pernas. Algo dentro da barriga. Criatura de 23cm. Morto”
“O que aquilo significava? Você ainda não sabia. Mas aos poucos as coisas foram ficando mais claras. A cada anotação, mais detalhes. A cada detalhe, procedimentos. A cada procedimento, um desenho. Desenho? Sim desenho. Era uma mulher do vilarejo. Uma que estava grávida. Você criou várias delas, para que pudesse fazer o vilarejo crescer e ser cada vez mais independente. Seu coração voltou a disparar. Seus olhos não podiam acreditar no que liam. Os desaparecimentos eram causados por ele. Ele começou com as mulheres. Por fascínio e curiosidade. Ele queria estuda-las. Mas aparentemente não era um estudo convencional. Era algo mais cruel. Haviam procedimentos com serrotes. Com bisturis, agulhas. Água fria... Água quente. Eletricidade. Ele procurava algo. Mas o que? Isso você não descobriu. Pelo menos não naquele instante”
“ Você deu passos para trás, até esbarrar em algo. Algo grande, frio, e então luzes vermelhas se acenderam atrás de você. O que a assustou, e te fez virar rapidamente para ver o que havia acionado. Era um tanque gigante de água. Nele, vários pedaços de corpos flutuavam. Alguns com cabeça. Haviam braços sozinhos. Pernas. Olhos. Mãos. Um tronco com braços, mas sem pernas e sem cabeça. Haviam algumas cabeças de homens e de várias mulheres. Até fetos estavam boiando naquela agua suja, que agora tinha o tom vermelho da luz que vinha de dentro do tanque”
“Um grito subiu pela sua garganta, mas logo você o engoliu, por que sabia qual seria seu destino se gritasse. Logo estaria dentro daquele tanque. Suas mãos foram a sua cabeça, se abaixou, e então segurou os cabelos. Gemeu, baixo, mas gemeu, enquanto tentava controlar seu ser. Até que uma mão te tocou. Nesse momento seu coração parou. Seus olhos se arregalaram. Foi descoberta. Era seu fim. Sua cabeça te dizia isso, sua alma, tudo em você dizia isso. E você então começou a chorar, implorando por sua vida. E então se virou para encarar seu fim. “
“ Não era Chizo. Definitivamente não era Chizo. Era uma criatura vermelha. Parecia humano, mas definitivamente não era humano. Seus pés eram virados para trás. E seu rosto também. A verdade é que não era exatamente um rosto. Era uma máscara feita de papelão. Sua pele era como couro, e possuía a cor vermelha. Não possuía pelos, ou unhas. Era magro, e para poder olhá-la, ele tinha que se inclinar para frente, e tombar sua cabeça para baixo em sua direção. O que o tornava extremamente assustador, como se estivesse se contorcendo, como se tivessem quebrado seu pescoço e virado sua cabeça para olhar o teto. Seus olhos eram escuros, que nem sequer pupilas ela podia enxergar. Mas aquilo não assustou mais você. Pelo contrário, te deixou mais calma. A mão quente dele estava em seu ombro ainda. Então, ele negou com a cabeça. E a puxou para ficar em pé. De maneira tão forte e bruta, que hematomas se formaram quase instantaneamente em seu braço, com a marca de seus dedos”
“ Curiosa você perguntou-lhe o nome. E num gemido quase doloroso ele sussurrou... Abarimon. E você decidiu apelidado de Abari. Era mais fácil de pronunciar. Seu instinto lhe dizia que ele não era perigoso. E não sabia o porquê, mas ele lhe acalmava. Mas aquele momento em silêncio entre os dois fora interrompido, pelo som da maçaneta da porta lá em cima começar a girar. Você novamente ficou em pânico, começou a tremer, e queria fugir. Mas Abari, tampou sua boca, com a mesma força que havia tampado a primeira vez que quis gritar sozinha, o que doeu bastante, tanto quanto o tapa que deu em você mesma. E novamente ele negou com a cabeça. A puxou com tanta força que você quase caiu no chão, mas parecia que essa era a intenção dele, te derrubar. Seu instinto havia falhado? Ele não era uma boa criatura? Então novamente você começou a pensar no seu fim”
“ Mas então ele começou a rastejar no chão, e você fez o mesmo que ele, por livre e espontânea pressão, já que ele a puxava. A cena dele se rastejando, lhe lembrava um filme de terror, mas nada mais aterrorizante do que saber que poderia morrer sendo um experimento daquela pessoa insana que você havia criado. Quando deu por si, pode sentir cheiro de alecrim, manjericão e uma pitada de canela. Sim, uma saída. Uma saída, uma chance a mais de liberdade. Era um buraco no chão, que dava para uma caverna. Mas você também não se lembrava de ter criado aquela caverna. Mas o que importava isso, se era sua chance de ver a luz do dia mais uma vez? Ele então a empurrou para o buraco. E gemeu em frente sempre. A voz dele era áspera, dolorosa, como se sofresse para gemer aquelas palavras, como se fizesse força para conseguir falar”
“ Você então rastejou, para dentro do buraco, e então sussurrou um obrigada Abari, nunca me esquecerei do que fez por mim hoje. O que de fato não é verdade, por que toda vez que você volta eu preciso lhe contar toda essa história. “
— E o que aconteceu depois? – Dea perguntou curiosa. Estava chocada, ansiosa, nervosa. Todos os sentimentos mais intensos que poderia ter, se acumulando dentro de si mesma.
— Você saiu em uma parte da floresta que criou. E nesse momento, você teve dois estalos de ideias. Primeiro, criou uma floresta de glicínias. Desde onde você saiu, até a porta da casa de Chizo. Para que você, e qualquer ser vivo que você criasse a partir daquele momento soubessem por onde não poderiam andar.
— Mas por que eu criei glicínias?
— Um outro nome para glicínias é Wysteria... Um trocadilho... Se você pronunciar Wysteria rápido... – começou Aurea a falar quando foi interrompido por Dae.
— Histeria... – Ela se arrepiou a lembrar que fora essa a sensação que teve em diversos momentos dentro daquela casa. – Mas e quanto a você? Quanto aos outros? Por que eu criei vocês?
— Você ainda sonha que esse mundo seja livre... Não gostaria de poder viver aqui...?
— Sim... É um lugar maravilhoso... Mas me diga... Qual foi meu segundo estalo de ideias?
— Você percebeu que Abari não era humano e estava vivo. Chizo, Dr. Chizo, como você o chama atualmente, não se interessa por criaturas que não são humanas. Por isso você nos criou híbridos de algum animal, ou de alguma coisa. Todos somos híbridos por que você quis nos proteger...Dr. Chizo... Foi sua pior criação... Você o criou com base nos seus maiores medos, por que queria enfrenta-los... Ele tem fascino pelos humanos... Ele os seduz e os leva a sua casa, agora no meios das glicínias... E de lá... Eles nunca mais saem... Por isso você nos fez híbridos... Para nos proteger de Chizo e suas experiências...
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