Mirum Imaginaria
1 Bem vindos à Mirum Imaginaria
Uma tarde de sol, pós uma breve chuva passageira do verão. O chão já estava quase seco, o ar quente e úmido fazia com que o rosto dela ficasse facilmente brilhante e molhado de suor. Seus olhos não eram da mesma cor... Um Azul, um verde... Heterocromia uns dizia. Mas não sua avó. Apesar de terem convivido pouco tempo antes de seu falecimento inesperado, havia uma frase que sempre guardou em sua memória... “Olhos de cores diferentes significa que você tem duas almas distintas capazes de entrar e sair de seu corpo...”. Ela nunca acreditou nisso, era apenas um defeito genético que chamava atenção.
“Sempre no mundo da lua”. “Menina você devia se concentrar mais!”. “Por que você está desenhando isso? Não tem proporção nenhuma, olha só o tamanho desse braço, com esse corpo!”. “É arte abstrata?”.
Eram tantas frases que ouvia, mas nunca respondia, era quieta, não gostava de explicar o porquê tudo que fazia era desse jeito, ou isso ou aquilo. Apenas seu professor de arte aceitava sua visão modificada do mundo. Sempre a incentivando. Ele era o único que aceitava suas estranhezas, por isso com ele era fácil conversar, mas não com palavras, sim com seus desenhos. As poucas palavras que dizia, eram os títulos de suas obras. Não se importava com o fato de seu professor ter pelo menos uns 40 anos a mais que si. Talvez uns 65, 60. Ou 50? Não sabia dizer, nunca fora boa com esse tipo de coisas, reparar detalhadamente em alguém, ou algo, e simplesmente saber dizer, como é, ou quantos anos tem. Tão pouco se importava.
— Hoje nossa aula será sobre arte livre. – Comentava uma voz rouca, porem alta e imponente. Era o professor.
— Dea vai se dar bem nessa aula... Ela é estranha e desproporcional mesmo. Não terá problemas com isso. – eram os cochichos que se espalhavam entre os alunos da aula de artes da faculdade de Artes de Rotterdam.
— Silêncio! – Indagava o professor. – Quero que todos criem uma série de desenhos livres, porém que contem uma história com eles. Não precisam ter formato preciso, contanto que sempre haja um personagem, ou uma imagem que seja encaixada em todos os desenhos. Terão um mês pra fazer isso. São 60 desenhos. Dois por dia. Essa historia deve ter começo, meio e fim. E quero um texto explicando a trajetória sobre cada desenho. Quero títulos, emoção, sentimento. Quando eu ler e analisar as obras, quero poder me envolver e viver os desenhos. E a obra final que será o desenho número 61, quero que seja numa tela de 2m x 1,5m. Os outros 60 desenhos quero em folhas grossas de 100cm x 80cm. Estes são livres para a escolha das cores, e material para fazer.
Dea estava tão absorta em seus pensamentos, que mal dera atenção ao que o professor havia pedido, enquanto todos os outros exclamavam, afinal era o maior trabalho que já haviam recebido para fazer. Todos se levantavam como de costume, e saiam da sala para buscar inspiração, com seus cavaletes embaixo do braço, e uma bolsa de couro marrom, com todo o material necessário para começarem o dever impossível. Mas Dea não, ela se mantinha ali sentada, olhando seu caderno em branco. Nenhuma linha desenhada, nem sequer a marca de um risco de folhas anteriores. Seus desenhos sempre eram tão suaves que não tinham força, nem capacidade de marcar as folhas de baixo. Suas mãos eram delicadas, de pele macia e fina, seus dedos longos, suas unhas sempre pintadas no tom de seu humor, que no momento era calmo e suave, num tom azulado brilhante.
— Dea? – chamava suavemente a voz rouca do professor.
Ela então ergueu seu olhar bicolor para fitar o senhor de cabelos levemente tão brancos quanto um dia de neve, os olhos num tom mel tão claros que chegavam até parecer amarelos dependendo do dia. Sempre trajando um terno velho e surrado num tom cinza, cheirando a tinta a óleo, com as mangas sujas de diversas cores de tinta. Ele tinha uma postura curvada devido a idade, as marcas em seu rosto, demonstravam que os anos não foram gentis com ele. Além de uma grande cicatriz em sua testa, que cruzava do lado direito de seu couro cabeludo até a sobrancelha esquerda, cortando no meio as rugas em sua testa. Havia sempre a barba rala por fazer, e alguns botões de sua camisa branca, já amarelada de tão velha, por baixo do casaco de seu terno. Suas mãos também tinham algumas cicatrizes, além de serem grossas e calejadas.
Para muitos aquele professor era frio, cruel, que sempre atarefava muito seus alunos, e que era rabugento a maior parte do dia. Mas não para Dea, ele era seu companheiro fiel em suas obras. Sempre lhe contando historias, lhe ensinando técnicas novas, sempre ouvindo suas historias em forma de desenhos. Era definitivamente sua matéria favorita e seu professor favorito, além de considerá-lo seu melhor amigos. Por fim, e por primeira vez depois de meio dia de aula, ela finalmente abriu a boca para falar.
— Professor Albus... – Cumprimentou a jovem.
— Você sabe que pode me chamar de Hare, quando não houver nenhum aluno por perto.
Aos olhos de qualquer um que não conhecesse Dea, a veria apenas como uma doce jovem de pele clara, quase transparente por não tomar muito sol, seus cabelos louros e ondulados, seus olhos o direito verde e o esquerdo azul, de estatura mediana, nem gorda, nem magra. Tinha um corpo normal, nada muito chamativo, mas também não passava despercebida. Sempre com sua Blusa branca de botões e sua calça jeans azul clara rasgada nos joelhos, e seu tênis all star preto com seu nome escrito com cola colorida prata. Mal sabiam de como sua mente era uma confusão que mal ela conseguia entender, que pessoas não capacitadas se perderiam e nunca mais encontrariam a saída. E poucos teriam coragem de entrar em seu mundo. Mas Albus Hare tinha essa coragem.
— Me desculpe, não havia reparado que os outros já tinham saído. Sobre o que iremos desenhar hoje? – Perguntou ela tão distraída que provavelmente não ouviria novamente se não focasse seus olhos, nos do professor.
— 60 desenhos livres. Com texto explicando historia, papel de sempre, e o capitulo final em uma tela grande, aquela que te mostrei semana passada. Terá um mês pra fazer. – Dizia ele, enquanto caminhava lentamente até por fim chegar em sua própria mesa e se sentar confortavelmente em sua cadeira de madeira forrada de couro marrom. – Está pronta para me levar ao país das suas maravilhas?
— Vamos ver o que ele tem a dizer desta vez... Nunca sei o que pode acontecer... Sabe que tenho medo de voltar lá... Não é fácil controlar o que vou imaginar... Não posso errar. Tenho medo de fazer algo ruim de novo... – Ela apertava o lápis número 2 em sua mão, podendo sentir as fibras vibrarem, implorando para que ela não apertasse além de seu limite.
— As coisas nunca são como planejamos que sejam. É por isso que se chama vida. Se fosse controlável, seria chamado de história. Não tenha medo. Amanhã, quero que traga-me pelo menos um ou dois capítulos. Sabe que os seus eu não consigo esperar para ver.
— Mas...
— Nada de mais, aula terminou. Vá para casa, treine... E crie. – O tom imponente e autoritário havia voltado. E era sempre assim, quando ela começava a duvidar de suas capacidades.
— Até amanhã professor Albus. – Ela via então aquelas rugas cortadas ao meio ficarem mais salientes quando chamava o professor por seu sobrenome. O que a fazia sorrir tímida, porém divertidamente. – Hare. Até amanha.
Assim ela se levantou, juntou seu material, e colocou tudo em sua bolsa de couro marrom. Ela nunca levava cavalete, e nunca precisava de inspiração, tudo que precisava sempre esteve dentro de sua cabeça, e era o que ela mais temia. Seus passos sempre eram suaves, como se não precisasse tocar no chão para poder caminhar e se deslocar. Seus passos eram lentos como o tempo ao seu redor. Sempre dependia do seu humor para que o tempo começasse a ir numa velocidade determinada. Ela tentava não olhar para as coisas ao seu redor, sua cabeça sempre baixa, olhando o chão, a fizeram aprender o caminho de casa pelas rachaduras no asfalto.
Passo a passo, rachadura a rachadura, até chegar a entrada de casa, cheia de grama e pedras ovais que levavam até a porta de sua casa, onde finalmente levantava o olhar e via a porta de madeira escura, cheirando a verniz recém passado. O som do ranger da porta se abrindo, denunciava sua chegada. Sua mãe na cozinha então ia até a porta da mesma, deixando apenas parte de seu corpo para fora do ambiente para ver sua filha chegar. Seus olhos eram azuis quase cinza, de tão claros. Olheiras profundas sorriam no contorno abaixo de seus olhos. Seus cabelos negros e ondulados eram curtos e iam apenas até a altura de seus ombros, não passando deles. Seu sorriso era terno, mas em seu olhar havia preocupação como sempre.
— Chegou querida... Como foi a aula? – ela perguntava, no mesmo tom de preocupação que seus olhos tinham.
— Bem... Tenho dever a fazer... Estarei no meu quarto... – Ela não parava de caminhar em direção as escadas que levavam ao andar superior da casa, modesta de madeira.
— Querida... – O chamar de sua mãe a fazia parar no meio das escadas.
— Sim? – A convivência delas não era de toda ruim. Amava sua mãe, e sabia das preocupações dela consigo. Achava amável os atos protetores, mas se sentia mal por saber que aquilo a estava desgastando. Ela tinha apenas 45 anos, porem aparentava ter muito mais, alguns fios brancos denunciavam isso.
— Não pode... Deixar essas tarefas... A última vez...
— Eu sei mãe... Mas desta vez tomarei cuidado... Não se preocupe... Eu prometo... Se der errado... E eu... – ela não conseguia dizer. Então respirava fundo. – Você pode chamar o doutor Wysteria... E nunca mais irei pintar novamente... Essa é minha última chance... Eu prometo.
— Está bem... Prometa que irá tentar... Eu não quero perder você... Como perdi seu pai... Você sabe que é meu único e mais precioso bem nesse mundo. – Sua mãe então caminhou até os pés da escada e parou ali para fitá-la apreensiva.
Por um bom tempo, Dea parou, ficou pensativa, relembrando como fora horrível ver seu pai sendo levado, amarrado, a força, pelos enfermeiros do doutor Wysteria. Nunca mais seu pai foi o mesmo, até o dia em que aquilo teve um fim. Um fim que nenhuma das duas gostava de lembrar. Ir com o doutor Wysteria, era o mesmo que nunca mais voltar. O que quer que o pai dela tinha, ela tinha também. E doutor Wysteria era fascinado por esse caso... Ela então se arrepiou só por se lembrar do Doutor. Ele era albino, tinha olhos vermelhos, o cabelo totalmente louro platinado, até os cílios. Possuía um ar sombrio, apesar de aparecer sempre sorrindo, cortês, de fala mansa e gentil. Era o que mais lhe causava calafrios.
— Não vai me perder mãe, eu sempre darei um jeito de achar o caminho de volta aos seus braços. – Quando disse aquela frase, pode sentir um gosto amargo na boca. Já havia dito aquela frase antes? Já havia feito essa promessa antes? Não conseguirá cumprir? Por que aquele gosto tão amargo. Por fim sua cabeça doía, e a fazia fechar os olhos com força por um segundo. Mas logo respirava fundo e abria os olhos, fitando sua mãe preocupada nos pés da escada. – É minha última chance, eu prometo que não farei mais, se não souber me controlar.
Assim ela subiu os degraus que lhe faltavam. Assim a primeira porta do corredor era o quarto de sua mãe. O segundo era o de sua avó, que agora usava como galeria de seus quadros. E o último quarto do corredor, era o seu. Era claro, iluminado e bonito. As paredes que eram brancas, agora repletas de desenhos por toda parte. Um coelho enorme que ficava em duas patas e tinha seus braços como se fosse humano. Um homem de cabelos prateados com uma cartola que cobria seu rosto, e usava um terno preto com gravata vermelho sangue. Borboletas por toda parte, flores desproporcionais, alguns desenhos tinham um X pintado em vermelho por cima, quase tornando impossível decifrar o que havia ali antes de serem rabiscados. No chão, seus lápis de cor aquarelados, copos com água colorida de tanto passar o pincel por eles.
Sua cama de madeira bem arrumada com apenas um lençol e travesseiro. Um armário da mesma madeira que sua cama. E o que mais amava em seu quarto, uma janela de teto, que ficava bem por cima de sua cama, permitindo que ela pudesse ver a chuva cair, ou o sol nascer, até mesmo as nuvens passeando pelo céu, enquanto estava deitada em sua cama. Seu pai que havia feito aquela janela de teto para ela, “para que ela pudesse sair e entrar quando bem quisesse”. Era isso que ele dizia, apesar de não fazer muito sentido. Porém muitas vezes seu pai dizia coisas sem sentido, mas nunca se incomodara com isso.
Então na escrivaninha em frente a segunda janela de seu quarto, ela pegou seu caderno grande, o que era especialmente para as aulas do professor Albus, e se deitou no chão de bruços. Jogou a bolsa marrom no chão a sua frente, apenas para poder pegar seu lápis número 2. Sobre o que desenharia? Ela nem sequer precisava pensar. Bastava encostar o lápis sobre o papel, que o desenho sairia facilmente.
Lentamente um risco suave de gravite cortava o papel branco no meio, e assim, uma silhueta ia se formando, um corpo deitado de bruços no chão... Cabelos longos e ondulados, um vestido branco em cima, azul embaixo, seus pés descalços, sujos de terra tom de grafite inicialmente. Estava desenhando num papel, o mesmo desenho que ela estava desenhando. Mas ela não estava no quarto. Podia sentir o cheiro da grama macia embaixo de seu corpo, o sol não era tão forte e o clima tão pouco era quente e úmido, era agradável e suave. Então se aproximava em passos lentos, alguém. Quem? Tinha um cheiro peculiar. Seu rosto se ergueu, e então pode sorrir ao ver quem se aproximava. E então o alguém lhe respondia.
— Bem vinda de volta a Mirum Imaginaria... Dae.
Fale com o autor